Histórias da minha antiga vila de Água de Pau - I - Na antiga rua da Boa Vista onde a porca furou

 

Naquele tempo, havia alguns casebres feitos de pedra, cobertos de colmo na rua da “Boa Vista”, na encosta do monte onde a porca furou o pico, na antiga Vila de Água de Pau do primeiro quartel do século passado.
Habitavam ali poucas famílias, mas numerosas, pois “casa sem gente não aquece nem arrefece”, como se dizia nalgum tempo. E, naquele também em que as raparigas de cada casa tinham de vir cá-baixo à fonte da Praça buscar água à Fonte para encher o talhão de barro que jazia num dos cantos da cozinha. 
Já os rapazes tinham de alugar os braços todos os dias da semana se à segunda-feira da manhã arranjassem patrão para trabalhar nas terras de pão e de bom cultivo que a vila d’Agua de Pau tem. 
Começavam a trabalhar e acabavam sempre ao sinal do sino da igreja quando tocava as Trindades. Aos sábados traziam sempre algum dinheirinho que ajudava os pais no sustento da família. Eram duros estes tempos, lembrou-se Virgínio das Folhas do que lhe contara o seu avô, pois sua família vivera num daqueles deploráveis casebres antigos.
O melhor que aquela ruela em volta do monte tinha era a vista para a vila, que ao tempo ultrapassava as cinco mil almas. O Mané «soleta», o Virgínio «arrepiado», o António «bogango», os pais do Sousa Palhito e a Virgínia «baineta» cuja casa era um pouco maior acolhia também a família do João «chamasso» e era esta gente que por ali vivia no fim do século XIX e início do seguinte.  
Um ou outro tinha o seu tosco curralinho com o seu porquinho, conhecido pelo mealheiro da família, quando no início do inverno tinha a sua matança que assegurava o sustento da família por uma temporada. 
Mas, os anos foram passando e a antiga rua da Boa Vista com poucas casinhas, foi se enchendo de mais casinhas e estas foram substituindo as suas coberturas de palha por armação de madeira de giesta ou acácia e cobertura de telha de barro. 
A meio do século XX, antes da forte emigração para a América, estava a rua composta de completo casario e, gente da minha geração, nascida na década de 1950, recorda-se dos nomes de algumas famílias que ali viveram, como a senhora Maria Carreira  «arrenca-tocas», o Zé «bela-areia», a Ti Amélia «rondoa», a Ti Virgínia «marrenega», o Serafim Madeira, a Ti Alice «chiquita», a mãe do Mané-saneta, a senhora Rosa «caga-pregos» e o Sousa «palhito», a Ti Regina Olga Pereira, mãe do cabo-do-mar, que quando dava um espirro lá em cima, fazia eco na Praça Nova, a Ti Sofia «secalhita», o Virgínio das Folhas, e outras tantas famílias que por cá foram ficando quando muitas outras foram procurar sua ventura, em terras da América e Canadá.
A Maria Augusta do Rochão recorda-se de quando se mudou para a rua do Pico de Baixo, pois já ninguém se lembrava mais do seu antigo nome de rua da Boa Vista, que ficou no esquecimento. 
Depois da casinha caiada por fora e por dentro pelo caiador Ti Alvarins «toca-no-bombo», nome que ganhara quando tocara aquele instrumento na Banda Fraternidade Rural, preparou a sua trouxa e os seus tarecos para se mudar de casa. Era uma mulher trabalhadeira casada com o lavrador Manuel Pedro, do Rochão. Já se passaram muitos anos desde então.
Estava contente, porque o afilhado Manuel José João Pedro   tinha chegado de barco à doca no dia anterior, vindo de Lisboa. 
Bembom que te posso ver agora mais de perto quirido Manuel. Ontem não tive ocasião de te mirar bem. Desembarcaste na doca já tarde da noite. Muito me contas então que fizeste boa viagem e tiveste boas médias na faculdade. Deus Nosso Senhor permitirá que nada corra mal. Acho-te um todo nada mais magrinho. Não eras assim em pequenino. Sempre foste mais ensopado. Sei que és um ardido. Os tempos vão passando e mudando. Sais a tua mãe, logo se vê que não degeneraste. Com ela andei ao colo para tua avó poder acudir à lida da casa. Sempre fui muito amiga de tua mãe. 
Quando tu nasceste, fiquei muito contente, como se fosses meu filho. Estava casada há coisa de 10 anos e desenganada a respeito de ter filhos. Tua mãe sempre foi para mim mais que uma irmã. Ajudei a criar-te. Por aqui podes fazer uma pequena ideia da alegria que senti quando a Ti Luísa do José das couves veio anunciar que tinhas nascido. Perfeito como não havia outro, e ainda és. Andei contigo ao colo. Muitas suelas de lã te fiz eu. Nesse tempo ajeitava-me. 
O João Geraldo tirou-te um retrato no meio de teu pai e de tua mãe em cima da banqueta com a vista da nossa vila por trás. Ficou tão bonito. O meu Manuel sempre engraçou contigo desde pequenino. E tu com ele. Já crescidinho ele levava-te pela mão até à Praça para te mostrar ao seu amigo António «limbique», nome pelo que era conhecido por trabalhar no alambique da Praça. 
Estás agora um homem feito. Tenho sentido a tua ausência. Foi esta a primeira vez que de ao pé da gente saíste. Aparecias a bem dizer todas as tardes, depois de chegares na camioneta da Varela, da cidade. Vinhas aqui ter comigo à cozinha. Dizias que gostavas de te sentar no balcão, apreciando a vista que se desfruta com as casas e as ruas da nossa vila, depois de teres tomado uma tijela de chá com uma fatia de bolo-de-pão.
Ainda gostas da nossa casinha? Pode esta casa ser pobrinha, mas dinheirinho não tem faltado Graças a Deus e ao suor do meu Manuel. Nunca estarraçamos dinheiro em toliçadas. Quando ela for tua, dela farás o que muito bem entenderes. O meu Manuel tem empenho que ela seja para ti. E eu não digo que não. Muito antes pelo contrário, já se sabe e bem entendido.
Vou fazer uma pinguinha de chá. Deves de estar desconsolado. É só por a chaleira ao lume. Já está aceso desde manhãzinha. O meu Manuel saiu de casa por essas quatro horas. Foi tirar o leite às vacas. E tive de lhe aquecer as sopas do primeiro almoço. São as sopinhas de leite com pão de milho migado. Entretanto, ele já voltou com o leite e saiu de novo. Foi para as Pedras Brancas. Tem lá um homem a roçar silvas. Só volta para o fim do dia. Traz no regresso o leite da tarde. É uma trabalheira e uma consumição.
E já se passou quase um ano. Embarcaste no fim de agosto, logo a seguir às festas da Quirida Nossa Senhora dos Anjos. Vieste despedir-te. Não me esqueço.
Já foste à igreja? Com certeza que o padre gostou de te ver. Rico pregador. Foi ele que me batizou. 
Vai aproveitando enquanto o tempo dura. As férias e a mocidade passam muito depressa. Sei que andas atrás da Encarnação, a filha da Dos-Anjos Caetano. Não fiques melindrado. Não te quero ofender. Não julgues que não sei. Adivinho o que estás pensando. Sei muito bem que ela é boa rapariga. E de boas famílias. Principalmente da banda da mãe. Da outra, vou ali e já venho. O pai não largo o vício da cachaça e aguardente da terra. O grande mal dele é pensar que ainda tem poderes para dizer a última palavra sobre quem há-de vir a casar com a filha. Foi chão que deu uvas.  E cada vez menos vai dando. Vierim-me-dizer que ele queria para genro um primo desviado da Lagoa. Um dos filhos do regedor advogado Carlos Rabelo «má-fundo» que tinha umas quintas nas Socas ao Livramento. Descaidíssimo de bens anda ele! Toma juízo meu rico afilhado, não tenhas receio. E depois isto de fidalguia sem maquia é gaita que não assobia. Mulheres é o que não falta neste mundo meu rico afilhado. 
Credo, que ainda tenho a chaleira ao lume! Queria-te fazer uma gotinha de chá preto. Ou queres de maria-luísa? 

 

• Roberto Medeiros - S. Miguel, Açores