Retrospetivas da vida de um ex-militar combatente e mais um 25 de Abrilr

 

Camaradas,
Mais de quarenta primaveras se passaram após aquela famigerada manhã de 25 de Abril de 74. São mais de quatro dezenas de anos a juntar as nossas vidas de antigos combatentes.
Quantas lembranças daquela época não afluem às nossas memórias no quotidiano das nossas vidas?
-Que me conste, as guerras raramente trazem algo de benéfico para a Humanidade. Tu e eu, que fomos protagonistas daqueles conflitos do antigo Ultramar Português, que culminou com a queda do governo do professor Marcelo Caetano, temos a convicção e a liberdade de poder falar assim, sem receios de sermos atropelados ou banidos dos nossos direitos cívicos. A Pátria revelou-nos uma experiência própria a envolver-nos numa odisseia de particular vulnerabilidade dessa fase importante da história das nossas vidas jovens.
Deixou-nos convictos de que realmente o que se estava passando fazia parte do nosso fadário de Homem Lusitano e que o Ultramar estava à nossa espera. Esse corpo tórrido e descomunal, impregnado de malária, fevre amarela, e outras patologias, enfim, perigos de toda a espécie, e que nos tinhamos que ir defender e proteger bens e povos que nada de comum tinham conosco, salvo a língua.
Foi realmente assim, que durante cerca de três anos as nossas vidas jovens estiveram expostas a um labirinto inconcluso de peripécias e malefícios que nos poderia ter custado a própria vida! 
De facto, as benéfes que de lá trouxemos, “além de uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”…- resta-nos hoje o conforto das amizades e camaradagens que se ganharam então e que no presente memorizamos, com carinho e respeito, porque na verdade durante todo aquele tempo, esses bons camaradas foram, de facto, a nossa família mais próxima.
Com eles partilhavamos as alegrias,decepções e tristezas do dia-a-dia, além das notícias que o correio nos trazia lá da terra e dos familiares que deixáramos para trás.
Seria o nosso pai ou a nossa mãe que por motivo de deficiencia cardíaca ou respiratória dera baixa ao hospital; seria a nossa conversada que já vai nos três meses que não nos escrevia…. -tera arranjado outro? E claro, depois de todo este tempo longe dela...
O que é que nos espera!... A nossa irmã mais velha casou, e nós assim tão longe nem sequer fomos à boda... A irmã mais nova, que acabara o Liceu, também já tem namorado. A Fernanda, que é filha do padeiro lá da aldeia, e por quem os garotos da vizinhança andavam de beicinho, e que também divide com o pai as tarefas da padaria, teve um bébé e o namorado que está na tropa, foi integrado num contingente militar que brevemente seguirá para Angola. A mãe do ‘111’ abandonou o pai dele e arranjou-lhe um padrasto.._ O pobre do João esta desfeito. Já não pensa em voltar para a terra, finda a sua Comissão de Serviço. Quer ficar em Africa, porque não concebe a ideia de ir viver com a mãe e um padrasto! 
Ontem morreu o “Mouraria”, aquele moço que veio adido para a companhia por ter sido punido com direito a transferência, e que há oito dias casara por procuraçao com a moça lá da terra. Pobre rapaz... Ainda nem sequer tinha chegado a dormir com a noiva/esposa que agora fica viúva. Morreu ele e mais cinco camaradas no rebentamento de uma mina debaixo do gipão em que seguiam a picada da Quibala. A viatura ficou reduzida a cinzas, e os corpos calcinados dos infelizes rapazes foram sepultados num cemitério rural sertanejo do Toto. Regressavam daquela Vila com um carregamento de mantimentos para a companhia. 
Eram assim, comentarios desta natureza os que mais vulgarmente se espalhavam pelo acampamento, e serviam de tema principal nas conversas diarias entre a soldadesca. Todos tinham suas peripécias quotidianas, que sem acanhamento, dividiam fraternalmente com os camaradas das suas intimidades. E hoje, passados todos esses anos e a pesar de toda esta distância, encontraram-se velhos amigos; Fizeram-se novas amizades e juntos novamente, sociabilizam.- Contam suas proezas de campanha; -Falam das zonas onde combateram; Dos perigos e privações que passaram; do material belico que dispunham, como era usado e dos sucessos alcançados; das emboscadas sofridas, dos camaradas que tombaram as balas inimigas ou despedaçados por minas...
-Falam também das namoradas que por lá deixaram; e como as conquistaram por aquelas sanzalas, tabancas e povoados, e da paixão que elas lhes dedicavam... a ponto de se derreterem em choro, lágrimas e lamentações, quando delas se despediram ao regressarem à Mãe-Pátria... 
Era óbvio que elas sabiam que nunca mais os voltariam a ver!...
Regressados à Metrópole, fez-se o 25 de Abril. Era imperioso e urgente por-se termo à destruição maciça e sistemática da juventude de Portugal. E então, dos campos de Santarém, sob as ordens desse destemido jovem Capitão, Fernando Salgueiro Maia, um punhado de corajosos soldados, marcharam sobre Lisboa naquela madrugada de Abril, e sem darem um tiro, porque nos canos das espingardas flutuavam os cravos vermelhos em vez de balas, e deitaram por terra um governo de meio século!
Bravos Soldados de Portugal!.. Vós continueis a ser filhos dignos desse valente D. Afonso Henriques, Pai fundador da nossa Lusitana-Patria; desse Heroi-Santo D. Nuno Álvares Pereira; de Viriato, esse destemido pastor, chefe dos Lusitanos; dessa Padeira de Aljubarrota, e daquela Maria da Fonte, bem como de tantos outros Heróis! E por isso, como os homens partem e as pátrias ficam.
Sabeis que não somos nós os cidadãos que devem temer os governantes mas sim os governantes que devem temer os cidadãos.
Saudações a todos os camaradas ex-combatentes pela passagem de mais um 25 de Abril!

 

- Eduino de Faria (Taunton, MA)