Domingo à Tarde

 

Nem sempre a inspiração está de jeito. Esquiva, má de génio, bate o pé e amua.
Mas, nesta tarde de primavera, com um ventinho bom soprando de feição, senti que ela me queria dizer qualquer coisa. Dois rapazes, um com um papagaio tipo pára-quedas, e outro com um helicóptero-miniatura, procuravam viver o sonho de voar…
Quem há que não tenha tido um sonho de voar?
De pairar, como  gaivota, olhando a terra e o mar, partidas as amarras  da gravidade, sentir-se como  Deus, dono e senhor do mundo!!
E de repente me sentei ao volante do helicópterozinho, rente à copa  de folhas tenras da Primavera, com pássaros buscando namoradas, e esquilos brincando e trepando nas árvores.
E enquanto o papagaio,estava preso por  um fio obedecendo ás ordens do seu dono, eu  voava, democráticamente livre, no meu helicopterozinho, entre o o Céu e a Terra, sem peias nem censura…
Na volta para casa, na rádio da NPR, num programa de música gregoriana e poesia, ouvi uma oração angustiosa, dirigida a Deus implorando misericórdia e compaixão.
Era um choro humano, do fundo do coração, que a música tornava solene e sobrenatural.
E aí, o meu diabinho particular, que estava em silêncio, perguntou-me se Deus, o Senhor das galáxias, ouvia e atendia mesmo as orações humanas,
Com ou sem música, molhadas de lágrimas, de alguém que lhe suplicava, em dor e desespero? 
Deus comover-se-ia com a dor de um ser humano que neste grão de areia terrestre, lhe suplicava, caído a seus pés,
Rogando-lhe piedade e compaixão?
Esquecidos o helicóptero e o papagio dos meninos, perguntei por minha vez: será possível conciliar na mesma tarde, o sonho, a poesia, a primavera, e a dor, o martírio e o desespero com que o Criador temperou a vivência humana à superficie deste “Vale de Lágrimas”?