Quatro lusodescendentes candidatos ao Congresso

 

 

 

Há um total de 535 membros do Congresso dos Estados Unidos criado na convenção constitucional de 1787 que passaria a ser designada Connecticut Compromise pelo facto de ter aprovado a proposta dos delegados de Connecticut (Roger Sherman e Roger Ellsworth), criando um regime em que o poder legislativo federal fosse constituído pela Câmara dos Representantes, onde o número de lugares de cada estado seria proporcional à população (e é atualmente de 435 lugares) e pelo Senado, onde todos os estados têm o mesmo número de dois lugares (e havendo hoje 50 estados, os senadores são 100).
Membros da Câmara dos Representantes possuem mandato de dois anos representando distritos congressionais e os senadores têm mandatos de seis anos, intercalados de modo que a cada dois anos aproximadamente um terço do Senado é renovado em eleições.
A 3 de novembro de 2020 têm eleições 35 senadores e todos os 435 congressistas.
Nas eleições de 2018, os republicanos conquistaram dois lugares no Senado, elevando a sua maioria para 53 lugares, e os democratas reconquistaram a maioria na Câmara (que tinham perdido em 2012) totalizando 235 cadeiras.
Entretanto, recuemos a 16 de dezembro de 1773, quando Paul Revere, Samuel Adams e outros colonos ingleses de Boston se disfarçaram de índios, subiram em três navios da Companhia das Índias Orientais atracados no porto e lançaram ao mar a carga de 342 caixas de chá. Este episódio, conhecido como Tea Party, deu início à luta pela independência dos Estados Unidos, mas naquela altura tanto Revere como Adams estavam longe de imaginar que tanta gente imigrasse para o seu novo país e na sua maioria europeus. 
Os Estados Unidos têm presentemente 334.816.701 habitantes e 90% tem ancestralidade europeia: alemães (14,7%), irlandeses (10,6%), ingleses (7,8%), italianos (5,5%), polacos (3,5%) e franceses (2,6%).
Mas as sucessivas vagas de imigração tornaram a população extremamente variada: há os latinos (11,3% da população), os afro-americanos (12,3%), os chineses (1,2%), os caribenhos (0,9%) e índios nativo americanos (1,6%).
É estimado que a população de origem europeia fique abaixo dos 50% por volta do ano 2045 e que, em 2060, os hispânicos sejam o maior grupo étnico do país, o que não deixará de ter piada se lebrarmos que a história da América do Norte começou por ser espanhola.
Os espanhóis chegaram à Flórida em 1513 e à Califórnia em 1542, enquanto os britânicos só chegariam em 1585, fundando uma colónia na ilha de Roanorke, Carolina do Norte, que desapareceria misteriosamente. A segunda colónia foi Jamestown, fundada em 1607 e a terceira foi Plymouth, fundada em 1620 e que se tornaria o berço da nação.
As previsíveis mudanças são muitas e nomeadamente religiosas: em 2040, o islamismo será a segunda maior religião nos Estados Unidos depois do protestantismo.
Estas e outras previsões são motivo de preocupação para alguns grupos conservadores e conduzem geralmente a discussões sobre o poder político de cada grupo étnico.
Presentemente, um em cada cinco membros da Câmara dos Representantes e do Senado é de minorias raciais ou étnicas, tornando o 116º Congresso o mais racial e etnicamente mais diverso da história – 116 legisladores são negros, hispânicos, asiáticos, ilhéus do Pacífico e nativos americanos. A esmagadora maioria dos membros não brancos do Congresso são 90% democratas e 10% são republicanos.
No Senado, há dez membros de minorias, quatro hispânicos, três asiáticos e três negros.
Os lusodescendentes, que não são considerados minoria e representam apenas 0,24% da população dos Estados Unidos, também têm representação no Congresso, um senador e três congressistas.
O senador é o republicano Patrick Joseph Toomey Jr. nascido em 1961, em Providence, RI, o terceiro dos seis filhos de Mary Ann Toomey (nascida Andrade) e de Patrick Joseph Toomey. Os bisavós maternos de Patrick, cujo nome familiar é Kris, eram açorianos.
Formado por Harvard em 1984, Patrick começou a trabalhar em investimentos no Chemical Bank, passando depois para a Morgan, Grenfell & Co. Em 1999, foi eleito para a Câmara dos Representantes pelo 15º Distrito Congressional da Pennsylvania, mas não concorreu à reeleição em 2004 porque uma das suas promessas de campanha era servir apenas três mandatos na Câmara. Optou por se candidatar ao Senado em 2009 e foi eleito. 
As relações de Toomey com Donald Trump não são as melhores. Nas primárias republicanas de 2016, Toomey apoiou Ted Cruz e, em 2018, divulgou uma declaração afirmando que a “cegueira” do presidente Trump em relação ao presidente russo Vladimir Putin era “muito preocupante”.
Nas eleições de 3 de novembro estão em jogo 35 dos 100 lugares do Senado, mas Toomey só terá eleições em 2022 e já fez saber que poderá recandidatar-se ao Senado ou concorrer a governador da Pennsylvania, mas só tomará uma decisão após a eleição presidencial deste ano. 
Na Câmara dos Representantes temos quatro candidatos lusodescendentes e três deles são congressistas. Todos nasceram nos Estados Unidos, mas mantêm a ligação às origens.
O congressista democrata James Costa ou Jim Costa, 66 anos, é neto de açorianos que imigraram para a Califórnia no início do século XX. Nasceu em 1952, na cidade de Fresno e foi criado numa fazenda de gado leiteiro em Kearney Park. Está na política desde 1978, foi senador estadual e é congressista desde 2004. Primeiro representou o 20º Distrito Congressional da Califórnia e desde 2012 representa o 16º Distrito, que cobre partes dos condados de Merced, Madera e Fresno.
Nas primárias democráticas, Costa levou a melhor com mais de 10% dos votos sobre Esmeralda Soria, conselheira municipal de Fresno, e em novembro terá como oponente Kevin Cookingham, um obscuro e subfinanciado republicano. 
Costa é um dos democratas mais conservadores da Câmara, tem-se juntado aos republicanos na votação de várias medidas e, além disso, foi um dos seis democratas que compareceram à festa de Natal de Trump na Casa Branca.
O congressista Devin Nunes é republicano e representa desde 2002 o 22º Distrito Congressional da Califórnia, que abrange os condados de Fresno e Tulare e, nas eleições de novembro, enfrentará o democrata Phil Arballo, proprietário de uma empresa de serviços financeiros de Fresno.
Nunes foi eleito para a Câmara dos Representantes pela primeira vez em 2002, pelo 21º Distrito da Califórnia. Em 2010, com o recenseamento e a mudança de distritos eleitorais, passou a concorrer no 22º Distrito.
Apoiante de Donald Trump, Nunes foi membro da equipa de transição do governo e ajudou o presidente eleito a escolher os membros da nova administração. Presidiu à Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, refutando as suspeitas de que a ajuda russa ditou a vitória republicana em 2016. 
O New York Times descreve Nunes como um “amigo próximo” de Donald Trump, relação que poderá explicar a sua queda de votos a nível local (nas intercalares de 2016 foi eleito com 68% dos votos, mas em 2018 ganhou apenas com 55,8%).
Lori Loureiro Trahan, 46 anos, é a primeira mulher luso-descendente eleita para o Congresso, onde integra o Comité de Educação e Trabalho e o Comité dos Serviços Armados da Câmara dos Representantes. 
Neta de um imigrante português e de uma imigrante brasileira, nasceu em Lowell, Massachusetts, e foi criada numa família da classe trabalhadora. Seu pai era serralheiro e sindicalista, e a mãe fazia malabarismos com vários empregos part-time enquanto criava quatro meninas. 
Ganhou uma bolsa de estudos para jogar voleibol na Universidade de Georgetown e foi a primeira da sua família a formar-se. Entre 1995 e 2005, trabalhou em Washington, chefiando o gabinete do ex-congressista Marty Meehan, uma boa experiência de serviço público. Começou depois a trabalhar no setor privado como executiva de uma empresa de tecnologia, antes de fundar o Concire Leadership Institute, empresa de consultoria.
Nas eleições intercalares de 2018, Lori derrotou outros nove candidatos nas eleições primárias democratas para suceder à congressista Niki Tsongas no 3º Distrito Congressional de Massachusetts, que inclui as cidades de Lowell, Lawrence, Haverhill e Westford, onde Lori reside com o marido, duas filhas e três enteados.
Nas eleições de 2020, Lori não precisou preocupar-se, venceu as primárias democratas e não tem oponente republicano nas eleições gerais de novembro. Os problemas de Trahan virão em 2022, quando os nove distritos eleitorais de Massachusetts serão redesenhados após o censo de 2020.
Normalmente, isso não deveria representar problema, uma vez que Lori é democrata e a Legislatura estadual é democrata, assim como todos os nove membros da delegação congressional de Massachusetts. Mas Lori foi o único congressista de Massachusetts que apoiou a senadora estadual Diana DiZoglio, de Methuen, quando esta acusou o presidente democrata da Câmara, Robert DeLeo, de assédio sexual e as suas relações com ele não serão as melhores. 
Filho de pais açorianos, David Valadão, de Hanford, é agricultor, militante do Partido Republicano e, em 2013, foi eleito para a Câmara dos Representantes pelo 21º Distrito Congressional da Califórnia, que cobre todo o condado de Kings e partes dos condados de Fresno, Tulare e Kern.
Foi dos primeiros republicanos a apoiar publicamente a candidatura de Trump à Casa Branca, tendo votado favoravelmente ao presidente na Câmara dos Representantes em 98,9% das vezes, segundo a plataforma FiveThirtyEight, que faz análises estatísticas da tendência de voto de cada congressista. 
A dedicação a Trump não lhe valeu de muito. Nas eleições de 2018, Valadão foi derrotado por menos de 1.000 votos pelo democrata TJ Fox, de Fresno. Como tal, Valadão decidiu candidatar-se este ano contra Fox e espera ter o apoio dos eleitores novamente em novembro.