Morreu Ronald A. Pina, promotor do caso Big Dan

 

 

O ex-promotor de justiça Ronald A. Pina, 75 anos, que processou alguns dos casos de maior destaque na história do condado de Bristol, morreu dia 2 de abril por volta das 18h30 no Hospital St. Luke, em New Bedford, após prolongada doença. “Perdemos o tipo de político que costumávamos ter, demonstrou honestidade e integridade mesmo à luz da oposição. Se acreditava em alguma coisa, lutava por isso”, disse a filha, Kari Pina Barcellos, de Fairhaven.
Pina deixa a filha Kari e o neto Brayden, em Fairhaven; a acompanhante e cuidadora Michelle D. Almeida, de South Dartmouth e vários primos e primas.
Deixa ainda a ex-esposa Mabel Bendiksen, de quem se separou para casar com a apresentadora de televisão Sheila Martines Pina. Mabel foi Miss New Bedford e Miss Massachusetts 1965 e candidata a Miss USA, mas a dada altura Pina apaixonou-se por Sheila Martines, mulher bonita e talentosa cuja carreira e vida pessoal foi prejudicada pelo álcool e marcou também Pina, embora os problemas de álcool dele não fossem tão proplemáticos como os da mulher.
Sheila, que começou na rádio WSAR, de New Bedford, tornou-se conhecida em 1979, quando começou a partilhar a apresentação do programa diário “PM Magazine” na WJAR-TV  (Canal 10), de Providence, com Matt Lauer, que mais tarde se mudou para o “Today Show” da NBC.
Sheila também deixou o “PM Magazine” em 1988, mas por razões diferentes. Foi encontrada dentro do porta-bagagens do seu Mercedes numa estrada secundária de Dighton. Disse que tinha sido sequestrada ao parar numa zona de descanso da autoestrada 195, mas não foram feitas prisões e não foram  divulgados pormenores embora a vítima fosse das relações do promotor de justiça.
Já casada com Pina, Sheila tornou-se diretora do Departamento de Convenções e Visitantes do Condado de Bristol e travou por anos uma batalha pública contra o alcoolismo. Foi condenada várias vezes por conduzir embriagada e, em 2006, acabou por cumprir seis meses de uma sentença de dois anos e meio de prisão, tendo sido nessa altura removida do cargo que exercia. Em 5 de fevereiro de 2014, Sheila Martines Pina, 58 anos, foi encontrada morta na sua casa em 720 Elm Street, Dartmouth. O médico legista atribuiu a morte “a abuso crónico de álcool”.
Nessa altura, já Pina estava reformado. Em 2010, tinha sido acometido de uma trombose que o deixara fortemente debilitado. Segundo uma amiga, nem sequer soubera que lhe tinha nascido um neto naquela altura. Os tempos de justiceiro tinham passado à história, mas era lembrado, sobretudo por colegas.
O mayor de New Bedford, Jon Mitchell, que também é advogado e já exerceu funções de promotor, divulgou um comunicado considerando que “como procurador do distrito, o escritório de Ron era conhecido pela sua advocacia de primeira classe e a sua incansável busca de justiça para os moradores do condado de Bristol”. Mitchell prossegue afirmando que “a eficácia de Ron foi parcialmente a sua capacidade de atrair advogados talentosos e de alta mentalidade para servir com ele, muitos dos quais passaram a distintas carreiras jurídicas e de serviço público.”
Nascido em New Bedford, Ronald Pina era filho de António e Celeste Pina, ambos já falecidos. António tinha uma pequena oficina de carros no sul de New Bedford. Celeste era natural de Gouveia, imigrou adolescente para New Bedford, onde trabalhou em fábricas têxteis, e morreu em 2010, em Fairhaven, com 97 anos.
Ron começou a sua educação na Taylor Elementary School sem falar inglês, pois o português era o idioma principal em casa. Concluiu a New Bedford High School em 1962, completou os estudos secundários com um bacharelato em Artes pelo Providence College em 1966 e a licenciatura em Direito no Boston College Law School em 1969.
Foi membro do departamento de assistência jurídica do Boston College e da Harvard University. Recebeu uma bolsa da Fundação Ford e uma proposta para trabalhar para o presidente do Senado de Massachusetts, e foi nessa altura que decidiu  enveredar pela política. 
Foi eleito para a Câmara dos Representantes de Massachusetts representando New Bedford e serviu de 1970 a 1978, tendo co-patrocinado, entre outras, a lei que levou a servir o pequeno almoço aos alunos nas escolas.
Na Legislatura, conheceu Carlton M. Viveiros, de Fall River, outro deputado estadual calouro que mais tarde se tornou mayor da sua cidade natal. Pina e Viveiros tornaram-se grandes amigos e aliados políticos ao longo da vida. Durante vários anos, Pina trabalhou como advogado especializado em crimes, divórcios e lesões corporais e fez parte dos escritórios de advocacia de Margaret Xifaras, falecida o ano passado, F. Lantz e Raymond Veary, atualmente juiz do Tribunal Superior de Fall River. Em 1978, deixou a legislatura estadual e candidatou-se a promotor do condado de Bristol, sucedendo a John A. Tierney, advogado de New Bedford. Quem nunca lhe perdoou foi o advogado Edmund Dinis, que tinha sido promotor em 1973-1975 e pretendia concorrer contra Tierney, que tinha corrido com ele. 
O próprio Dinis me contou um dia que informara Pina de que pensava candidatar-se em 1978 e que Pina lhe dera a palavra de que não concorreria, mas afinal concorreu e derrotou quatro oponentes nas primárias democratas, incluindo Dinis. 
De qualquer modo, naquela altura a carreira política de Dinis já tinha os dias contados por se ter atrevido a desafiar a poderosa máquina dos Kennedy ao processar Ted Kennedy por causa do acidente de Chappaquiddick em 1969, quando o senador deixou cair ao mar o carro que conduzia e nadou para terra sem tentar salvar a mulher que o acompanhava, Mary Joe Kopechene. Depois de Chappaquiddick, Dinis concorreu ao Congresso em 1976, a promotor em 1978 e 1982, e a xerife em 1984. E nunca foi eleito.
Naquele tempo, o promotor do condado de Bristol ganhava $65.500 por ano, o orçamento do gabinete eram 2,1 milhões de dólares e tinha um contingente de 32 advogados. Pina não podia queixar-se da vida. Era jovem, bem parecido e os jornais de Boston referiam-se a ele como possível candidato democrata a vice-governador. Casara com Mabel Bendiksen, Miss Massachusetts 1965 e tinham uma filha. No inverno, esquiava em Vermont e no verão passava férias em Nantucket, velejando com os amigos no seu barco Cyrano.
Como promotor, Pina processou dois casos que o celebrizaram, o caso Big Dan, a violação de uma mulher na mesa de bilhar de um bar de New Bedford, e o caso dos Highway Killings, o assassinato de nove prostitutas cujos corpos foram abandonados em estradas da área de New Bedford.
Naquela época eu era repórter do Portuguese Channel, a estação de televisão portuguesa de New Bedford, e acompanhei os dois casos, tendo entrevistado Pina várias vezes.
O caso Big Dan ocorreu a 6 de março de 1983, no bar Big Dan e rapidamente se tornou notícia nacional. Os primeiros relatos eram de uma mãe de 21 anos, Cheryl Araujo, tinha sido violada ao longo de duas horas por meia dúzia de indivíduos enquanto outros 15 clientes do bar aplaudiram. Investigações posteriores reduziram a assistência, mas confirmaram os outros detalhes do crime. Segundo uma testemunha ocular, dois homens tentaram forçar a mulher a fazer sexo oral e outros dois lançaram-na na mesa de bilhar e violaram-na.
O caso tornou-se de imediato uma referência para a comunidade feminista, mas uma boa parte da comunidade portuguesa viu o caso como um exemplo de sentimento anti-português, porque os réus eram portugueses (a vítima também descendia de portugueses) e alguns líderes lusos mobilizaram a comunidade portuguesa, que se uniu atrás dos acusados alegando que a acusação fazia parte de uma campanha anti-portuguesa. Para muitos lusodescendentes do Sudeste de Massachusetts a vítima também tinha culpas, por ter provocado o incidente ao entrar no bar e ter bebido com os homens. Acreditavam que o comportamento dela desculpava os violadores, mas não é bem assim. Conversei com Pina a respeito disso e, orgulhoso da sua herança portuguesa, negou que a origem étnica tivesse a ver com a acusação. Os seis acusados não foram julgados por serem portugueses, mas por serem violadores. Contudo, reconheceu que, por causa do caso, havia sentimentos anti-portugueses em New Bedford e Fall River.  
O caso Big Dan, cujo julgamento teve direito a transmissão em direto na CNN, deu origem à Lei do Escudo de Estupro, que protege a identidade das vítimas de crimes de violação e inspirou um filme “The Accused” (1988), que valeu a Jodie Foster o Oscar e o Globo de Ouro de melhor actriz pelo papel de Sara Tobias, nome dado a Cheryl Araujo no filme.
Um amigo próximo de Pina, o juiz Raymond Veary, era então promotor assistente e processou um dos dois julgamentos do caso Big Dan, lembrou que Pina tinha atualizado o sistema de justiça criminal do condado de Bristol e orientou os processos. Foi também Pina quem lidou com a imprensa, o que levou os críticos a dizer que ele estava com fome de publicidade por causa da carreira política.
Gostasse ou não da exposição que o caso lhe dava, foi com um suspiro de alívio que Ronald Pina viu o caso chegar ao fim. Quatro réus foram condenados e dois foram absolvidos. A vítima, Cheryl Araujo, mudou-se para Miami com as duas filhas e o pai das crianças. Tentou começar uma nova vida, mas morreu no dia 14 de dezembro de 1986 num acidente de viação, quando levava as filhas para um show de Natal. Cerca de três anos depois da sua morte, a 30 de outubro de 1989, o último dos seus alegados violadores saiu da prisão.
O último grande caso que Ronald Pina investigou foram os crimes das autoestradas, os corpos de nove mulheres que foram encontrados ao longo de rodovias na área de New Bedford desde a primavera de 1988 até ao outono de 1989. O caso continua por esclarecer. 
Em maio de 1989, Anthony DeGrazia foi detido por ter agredido uma prostituta de New Bedford e acabou sendo investigado como suspeito dos nove assassinatos, mas  nunca foi acusado. Após 15 meses de prisão, DeGrazia foi libertado sob fiança em janeiro de 1990. Foi preso novamente por ter supostamente proferido ameaças contra o promotor Ronald Pina, mas saiu sob fiança e foi encontrado morto na casa da sua namorada, debaixo de uma mesa de piquenique. A morte foi considerada suicídio por overdose.
Em agosto de 1990, um grande júri indiciou Kenneth Ponte, um advogado viciado em heroína e relacionado com prostitutas de New Bedford, mais por causa das drogas do que pelo sexo. Ponte foi acusado da morte de Rochelle Clifford Dopierala, 27 anos, uma das vítimas das autoestradas. 
Ponte acusou Pina de usar o caso para impulsionar a sua campanha de reeleição, mas de nada lhe valeu. Um mês depois de Ponte ser indiciado, Pina foi derrotado nas primárias democratas por Paul Walsh Jr., que também considerou a acusação de Ponte uma acrobacia política. 
Walsh não teve oposição nas eleições gerais e tornou-se promotor do condado de Bristol durante 16 anos, mas nada acrescentou à investigação dos crimes das autoestradas.
Walsh também se comprometeu publicamente a resolver o caso e, em 7 de março de 1991, nomeou Paul Buckley como promotor especial. Em 29 de julho de 1991, a acusação de assassinato do promotor especial contra Ponte foi retirada devido à falta de provas e o caso arrefeceu. Walsh e dois dos investigadores originais acreditavam que DeGrazia era o assassino e ter-se suicidado seria uma admissão de culpa. 
Em 2006, Samuel Sutter foi eleito promotor do condado de Bristol e também se comprometeu a esclarecer casos não resolvidos. Vários casos foram resolvidos, mas não os assassinatos das autoestradas. Sutter não estava convencido de que DeGrazia fosse o assassino e sentiu que as evidências não apontavam para ele. Mas em 2014, Sutter renunciou para se tornar mayor de Fall River. Thomas Quinn foi nomeado promotor do condado de Bristol e permanece no cargo, mas não se tem ocupado dos crimes das autoestradas.
Ponte voltaria a ser notícia várias vezes. Foi preso pelo menos duas vezes por posse de droga. Em 2004, foi acusado de crueldade animal por negligenciar o seu gato. Três anos depois, foi acusado de furtar quatro latas de sardinha e uma barra de queijo na loja Price Rite na Hathaway Road. Em maio de 2009 a polícia escavou o drive way e o pátio da antiga casa de Ponte em New Bedford, mas nada encontrou. Finalmente, em janeiro de 2010, Kenneth Ponte foi encontrado morto por overdose sobre dois colchões empilhados no seu fétido apartamento em New Bedford. Tinha 60 anos. Ronald Pina, protagonista destes mediáticos casos, desapareceu agora e foi pena não ter escrito as suas memórias quando ainda o podia ter feito. E o Big Dan?, perguntará o leitor. O bar da Belleville Avenue voltou a ser notícia. Esteve quase 40 anos encerrado e reabriu recentemente. Não como bar, mas como igreja evangélica hispânica, a Iglesia de Jesus Cristo, com cerca de 50 seguidores. Mas o agora templo foi fechado por nova acusação de violação. Sinal dos tempos, desta vez o suspeito é o pastor da congregação, Elmer Perez, 44 anos, que foi preso.

 

O coronavírus e as vigarices

Os vigaristas nunca desperdiçam possibilidades. Isso acontece sempre que há uma crise ou catástrofe na saúde pública e as pessoas ficam desesperadas por mais informações. 

O coronavírus é a oportunidade perfeita. Tem sido largamente anunciado que ainda não há medicamentos para tratamento do vírus, mas os hackers e cibercriminosos  foram rápidos em tirar proveito do surto de coronavírus e já atrairam a atenção do Serviço Secreto, que alertou os americanos para o perigo do “phishing”, um golpe amplamente usado nestas circunstâncias.

A vítima recebe um e-mail que parece ser de uma empresa respeitável, como um grande banco ou empresa de tecnologia, e tenta fazer com que as vítimas entreguem informações pessoais sensíveis, como nomes de usuário, senhas e informações de cartão de crédito.

Os cibercriminosos já estão a explorar a crise enviando e-mails que parecem ser de organizações médicas ou de saúde legítimas. Muitas pessoas têm recebido e-mails fraudulentos de uma organização médica falsa que pretende ter informações importantes sobre o Covid-19 e exige que a vítima insira suas credenciais de login por email.

Outro esquema usa a mídia social para enganar as vítimas e levá-las a enviar donativos para causas de caridade falsas. 

A Federal Trade Commission e a Food and Drug Administration também alertaram sobre empresas por venderem produtos que supostamente curariam ou impediriam o coronavírus, mas esses medicamentos não são aprovados e apresentam riscos significativos para a saúde dos pacientes, disseram as duas agências em comunicado.

A FTC e a FDA emitiram cartas de advertência a sete empresas: Vital Silver, Quinessence Aromatherapy, N-ergetics, GuruNanda,  Vivify Holistic Clinic, Herbal Amy e The Jim Bakker Show.

Os produtos citados nessas cartas de advertência incluem chás, óleos, tinturas e prata coloidal, mas atualmente não existem vacinas, pílulas, poções, loções, pastilhas ou outros produtos sujeitos a receita ou sem receita médica disponíveis para tratar ou curar a doença de Coronavírus online ou nas lojas.

Um outro tipo de fraude é o “golpe de não entrega”. Aqui, maus atores anunciam empresas que vendem suprimentos médicos usados ​​para prevenir ou proteger contra o coronavírus exigindo pagamento ou depósitos antecipadamente, mas nunca entregarão os produtos. 

Um dos casos sob investigação é o de uma vítima que pagou $19.700 por máscaras que nunca chegaram.