A Itália foi o país vencedor do 65º Festival da Canção da Eurovisão que terminou dia 22 de maio na Holanda. Depois de ter sido cancelado pela primeira vez no ano passado devido à situação sanitária, o festival voltou em força. Vozes de 26 países ecoaram na arena de Roterdão, o grupo de rock italiano Maneskin venceu o concurso graças ao voto do público e o país vai organizar o festival no próximo ano, o que não é tão barato como se pensa e custa pelo menos 30 milhões de euros.
A cantora francesa Barbara Pravi, na qual os franceses vêem uma nova Piaff, ficou em segundo lugar com uma canção de sua autoria (“Voilà”) e merecia talvez ganhar. A Suíça terminou em terceiro e Portugal, representado pela banda The Black Mamba, que concorreu com uma canção totalmente cantada em inglês (“Love Is On My Side”), conseguiu ficar na 12ª posição.
O facto da RTP, televisão pública portuguesa se ter feito representar por uma canção cantada em inglês gerou comentários (portugueses) de indignação. No entanto, no regulamento da RTP não existe qualquer impedimento a que sejam apresentadas composições em qualquer outro idioma que não o português, e já em 2003, 2005 e 2006 Portugal concorreu com canções cujo refrão estava na língua de Shakespeare, mas nem por isso foram sucesso ou os respetivos intérpretes fizeram carreira internacional.
Em 65 anos de Festival da Eurovisão já foram interpretadas músicas (ou partes de músicas) em 58 idiomas e o inglês é o idioma com maior número de vitórias (33), seguido do francês (14), neerlandês e hebreu (3) e português uma vez, a vitória de Salvador Sobral em 2017, mas nem por isso os jovens compositores portugueses passaram a defender mais a sua língua nativa.
Mas a representatividade de Portugal no Festival da Canção da Eurovisão pouco interessa internacionalmente e nesta altura a notícia é que no próximo ano iremos ter um festival tipo Eurovisão nos Estados Unidos, apelidado de American Song Contest e que acontecerá pela primeira vez em 2022.
A organização promotora do festival, European Broadcasting Union, uma aliança de televisões que tem hoje 74 membros em 54 países da Europa, África do Norte e Médio Oriente, a maioria deles serviços públicos de rádio e televisão (e entre os quais a portuguesa RTP), anunciou dia 14 de maio ter chegado a acordo com a empresa americana National Broadcasting Corporation (NBC) para a realização de uma versão americana do Eurovision Song Contest.
A NBCUniversal já tinha adquirido os direitos de transmissão do Eurovisão em 2021 e 2022 via Peacock, a plataforma de streaming on-demand da empresa e também transmitirá a edição inaugural do American Song Contest.
Quatro suecos com experiência em mais de 20 festivais Eurovisão – Christer Björkman, Anders Lenhoff, Ola Melzig e Peter Settman – serão os produtores, associados ao americano Ben Silverman como produtor executivo através da Propagate Content e Universal Television Alternative Studio.
“Há mais de 20 anos que tento trazer o Eurovision Song Contest para os Estados Unidos porque é o maior e mais bem-sucedido formato a ser adaptado. Simplificando, não há nada parecido na televisão americana. O espetáculo é incrível. É uma pura celebração do melhor da música e do melhor que a música pode ser. O Eurovision Song Contest mostrou que pode unir diferentes países e artistas por algumas noites uma vez no ano e mostrarem o seu amor mútuo e respeito pela música. Trazer o American Song Contest e a marca Eurovision para os Estados Unidos é um projeto incrivelmente ambicioso, mas vale a pena ser feito, pois pensamos que esses valores são intrínsecos à união de uma América fracionada por meio da sua maior exportação e impacto global, que é a cultura”, disse Ben Silverman, vencedor do Emmy e do Globo de Ouro com programas como The Office, Jane The Virgin, Ugly Betty e The Tudors.
Segundo a NBC, o American Song Contest procura a melhor música original e o processo de inscrição já está em andamento e acolhe todas as variedades de música, incluindo country, eletrónica, pop, rap, R&B, rock e muito mais.
Irão a concurso músicas originais representando os 50 estados dos Estados Unidos, cinco territórios (Samoa Americana, Guam, Ilhas Marianas do Norte, Porto Rico e as Ilhas Virgens) e Washington, DC, capital nacional e distrito federal.
O concurso acontecerá em três etapas: as eliminatórias regionais, as semifinais e a grande final. O vencedor será determinado por “votos do público” e também por “um júri de profissionais da indústria musical”.
Um dos grandes prémios para o vencedor do American Song Contest poderá ser a apresentação no Festival Eurovisão do ano seguinte, enquanto o vencedor do Eurovisão virá ao concurso irmão nos Estados Unidos.
Mas a verdade é que, no papel, o American Song Contest soa notavelmente semelhante a outros programas de concursos de talentos como American Idol, The Voice e Songland, e surgiu já uma dúvida: como se poderá diferenciar do pacote de concursos de talentos americanos e alcançar o domínio nacional?
O que torna o Festival Eurovisão espetacular é o seu conflito cultural inerente: sobem ao palco, com o público votando nas suas canções preferidas, culturas tão díspares quanto Reino Unido, Rússia, Portugal, França, Egito, Moldávia, Suécia, Roménia e Israel, cada uma com as suas diferentes sensibilidades, e talentos como os vencedores Abba (1974) e Celine Dion (1988), ou mesmo os não vencedores Olivia Newton-John, Julio Iglesias ou Domenico Modugno, que não ganhou em 1958 com o super sucesso “Volare”, mas que vendeu 22 milhões de discos.
O maior obstáculo do The American Song Contest para alcançar a glória do Festival Eurovisão é a relativa homogeneidade do cenário musical americano.
Para se igualar ao seu famoso homólogo europeu, o concurso americano vai ter que ser um America’s Got Talent no seu melhor.
- Eurico Mendes



