"Salazar em New Bedford"

 

Há dias o nosso bom amigo Pedro Bicudo informou-nos sobre o lançamento de um livro de autoria de Rui Correia - escritor e professor de História natural de Viseu e a residir nas Caldas da Rainha - intitulado "Salazar em New Bedford". Conta a história do Diário de Notícias, diário de língua portuguesa que se publicou aqui na cidade baleeira entre 1919 e 1973, numa altura em que a corrente imigratória de Portugal para os EUA era consideravelmente intensa e ativa e a comunidade dispunha de poucos meios para saber o que se passava na terra de origem.
Este novo livro do vencedor da edição de 2019 do Global Teacher Prize é uma investigação daquele professor sobre o Diário de Notícias, de New Bedford, "o único jornal português que, durante o Estado Novo, gozava de liberdade de imprensa. "Salazar em New Bedford" é de facto um documento histórico importante para compreender uma era complexa e a forma como os imigrantes portugueses aqui na Nova Inglaterra viviam e analisavam o regime de Salazar, para além da importância acrescida que um órgão de comunicação social representa na preservação e no reforço da memória coletiva de uma comunidade, dos seus hábitos, costumes e tradições e a forma como cultivavam tudo isto.
O DN, onde o nosso colaborador Manuel Calado deu os seus primeiros passos para o jornalismo, acolhia nas suas páginas diversos pontos de vista de colaboradores de diferentes áreas políticas: monárquicos, republicanos, socialistas, liberais e até mesmo... fascistas, constituindo um rico repositório radiográfico do movimento social das nossas comunidades por estas paragens.
Acrescente-se que não é efetivamente a primeira vez que é abordado o assunto sobre a imprensa portuguesa nos EUA.
Em Novembo de 2013, o professor Alberto Pena- Rodriguez, da Universidade de Vigo, em Espanha, proferiu uma palestra na UMass Dartmouth denominada "Notícias sobre o Sonho Americano: Uma História da Imprensa Étnica Portuguesa nos Estados Unidos", constituindo um excelente trabalho de pesquisa sobre a origem e a importância da imprensa criada por imigrantes ou lusodescendentes nos EUA, desde o século XIX até aos nossos dias.
Recordo que na altura falou-se de uma certa imprensa que contestava o Estado Novo salazarista e o Diário de Notícias foi um deles, como agora veio reforçar o estudo efetuado por Rui Correia.
O jornal foi considerado o maior símbolo da liberdade de expressão a partir de New Bedford e que levou até um ministro de Salazar, António Ferro, a querer percebê-lo melhor e a escrever, também, para o jornal. O DN, fundado por Guilherme Machado Luiz, açoriano da ilha Terceira, deixou de publicar-se um ano antes da Revolução do 25 de Abril de 1974, tendo durado 54 anos.
Já agora, a título de curiosidade, refira-se que em determinada altura, em New Bedford, chegou a publicar-se mais de 10 jornais, alguns de duração efémera. Um destes jornais, foi o Alvorada, semanário fundado em 1900.
Durante muitos anos o Diário de Notícias foi o único jornal diário em língua portuguesa publicado fora de Portugal e do Brasil.
Seabra Veiga, um médico de Connecticut e cônsul honorário de Portugal naquele estado, tinha planos de fazer "ressuscitar" o Diário de Notícias, contudo desmoronaram-se com a revolução do 25 de Abril de 1974.
Quanto ao livro de Rui Correia, esperemos que "Salazar em New Bedford" chegue mesmo aqui à cidade baleeira.