Mensagem quaresmal de D. Edgar Moreira da Cunha, Bispo da Diocese de Fall River

 

Caros amigos,

As cinzas que recebemos na passada quarta-feira (18 de fevereiro) lembram-nos da jornada de 40 dias que nos leva até ao Mistério Pascal. Todos os outros símbolos rituais que recebemos tornam-se invisíveis. Ao sairmos da igreja ninguém sabe que fomos marcados com o símbolo. Na Quarta-Feira de Cinzas, mantemos durante horas a marca visível nas nossas testas. Todos sabem onde estivemos, o que fizemos e o que somos. Só a Quarta-Feira de Cinzas nos demonstra isso. Contudo, após algumas horas, as cinzas esvanecem-se. O que permanece não é a marca externa das cinzas nas nossas testas, mas a marca do nosso compromisso gravada nas nossas mentes e corações, para viver o espírito da Quaresma, o espírito da penitência, oração, caridade e conversão. Não precisamos do sinal nas nossas testas durante este tempo quaresmal porque nós próprios personificamos o sinal.

As cinzas não nos foram concedidas como uma fórmula mágica para proteger-nos ou para forçar-nos a fazer qualquer coisa, nem tão pouco elas são recebidas só pelo facto de ser um hábito na Quarta-Feira de Cinzas. Isto seria um grande prejuízo para algo que nos é querido e tão importante para a nossa fé e para os nossos valores. Contudo, não podemos viver na Igreja sem as cinzas da transformação. As cinzas são para aquelas pessoas que têm vontade de abraçar profundamente a tal chamada para a conversão e apostolado.

Durante a Quaresma somos inclinados a dar ênfase à renúncia de coisas que gostamos — comida, doçaria, bebidas, etc., mas essa é a parte fácil de fazer penitência. Talvez uma maneira mais desafiadora e frutífera de fazer penitência durante a Quaresma seria renunciarmos a coisas que verdadeiramente nos transformarão e que beneficiarão a nossa vida espiritual e as vidas daqueles em nosso redor. Podemos fazer desta Quaresma um tempo de renúncia a coisas, tais como criticar o próximo, egoísmo, ociosidade, indiferença, muito tempo dispendido a ver televisão e dedicar mais tempo com a família.

Como disse o Papa Francisco na sua mensagem quaresmal: “Como uma forma de superar a indiferença e a nossa pretensão de autosuficiência, convido todos a viverem nesta Quaresma como uma oportunidade para seguirmos o que Benedict XVI chamou de uma formação do coração (cf. Deus Caritas Est, 31). Um coração bondoso não significa um coração fraco. Alguém que deseja ser benigno deve ter um coração forte e firme e aberto a Deus. Um coração que deixa ser gravado pelo Espírito para levar amor nesta caminhada ao encontro dos nossos irmãos e irmãs”.

O Papa Francisco afirma ainda: “Hoje, esta atitude egoísta de indiferença ganhou proporções globais, de tal forma que podemos falar de uma globalização de indiferença. É na realidade um problema que nós, como Cristãos, devemos confrontar”.

Em termos práticos, os Católicos frequentemente escolhem renunciar à sua comida favorita ou atividade durante este período de 40 dias. Contudo, durante esta época quaresmal, desafio-vos a enveredar por caminhos não apenas para fazer um sacrifício ou “renunciar a qualquer coisa”, mas também encontrar algo extra para fazer. Como indivíduos ou famílias, devemos compro­meter-nos a assumir algo em que podemos ajudar o próximo. Desta forma, não nos motivaremos apenas por uma devoção interior, mas a nossa caridade será direcionada para benefício do próximo.

Neste tempo santo da Quaresma voltamo-nos para Deus e prestamos mais intensamente atenção para a presença de Cristo nas nossas vidas. Durante este tempo, a Igreja convida-nos a examinar as nossas ações, as nossas atitudes e a qualidade da nossa fé. Através dos nossos atos de generosidade, sacrifício, serviço e caridade, redescobriremos o verdadeiro significado deste tempo de penitência. Preparamo-nos a participar plenamente na esperança gloriosa da Ressurreição. Que a nossa jornada através da Quaresma nos prepare para a maior festa anual da Igreja — a Páscoa — para assim recebermos as bênçãos da nova vida prometida.

 

Sinceramente vosso em Cristo,

Reverendíssimo Edgar M. da Cunha, S.D.V., D.D.

Bispo de Fall River