Homenagem a Manuel Luciano da Silva

A imortalização de um grande homem

Manuel Luciano da Silva

o médico, o historiador

o autor, o humanitário

 

Luciano da Silva foi imortalizado. Um busto foi erguido em sua honra. A vila de Bristol que sempre o amou, e que ele sempre soube corresponder, preservar e projetar, passou a sua obra à posteridade. Muitos são chamados. Mas poucos os escolhidos. Luciano da Silva, foi um desses poucos. 

Médico, historiador, humanitário, são as três facetas que o vão manter eternamente vivo entre a comunidade.

Presentes entre cerca de uma centena de pessoas, figuras luso-americanas que dignificam aquela pitoresca e hospitaleira, vila de Rhode Island: Anthony Teixeira, administrador (mayor) da vila; Josué Canário, chefe do Departamento da Polícia. Entre conselheiros municipais, contava-se a presidente Mary Parella, que se juntou ao ato e teve palavras de elogio ao homenageado.

Ainda entre os presentes Rogério Medina, antigo vice-cônsul de Portugal em Providence, amigo pessoal do homeageado. Amigo que interrompeu as férias para estar presente na homenagem. Regressando no mesmo dia deixou a sua presença imortalizada nesta reportagem.

“Foi um homem, extraordionário. Um médico, um português, um humanitário. Seguiu aquilo em que acreditou e viu o seu trabalho projetado na sétima arte. Portugal e os portugueses têm para com ele uma dádiva eterna de gratidão, que agora ficou imortalizada num busto em sua homenagem.

Para quê mais palavras? Como Luciano da Silva, só Luciano da Silva”, foram as palavras de Rogério Medina, antigo vice-cônsul de Portugal em Providence.

Leonel Teixeira, antigo chanceler e também, vice-cônsul de Portugal em Providence, afirmou: “Quando cheguei aos EUA, já lá vão 34 anos, e na minha presença por estas paragens, tive oportunidade de ouvir que Luciano da Silva era o mais destacado e valoroso português pelos EUA. Controversa ou não, esta afirmação era dirigida a um português que tive honras de conhecer pessoalmente. E quer se queira admitir ou não era sem dúvida uma pessoa altamente informada, instruída e profundamente conhecedora da cultura e descobrimentos. Tudo o que fez foi para colocar o nome de Portugal no lugar a que achava ter direito. A obra que deixou foi impressionante e que culmina, com uma e muito bem merecida estátua que foi descerrada em Bristol a vila que ele amava e que o recordará eternamente”, disse Leonel Teixeira, vice-cônsul de Portugal em Providence, recentemente passado à situação de reforma.

 E mais recentemente Márcia Sousa, vice-cônsul daquela representação do governo português na capital de Rhode Island, também afirmou:

“Sim, porque afinal Luciano da Silva, também passou pela presença consular nos EUA, mais propriamente como amanuense no Consulado em New York. 

“Para além da sua atividade médica, que exerceu de uma forma extraordinária, durante mais de 50 anos, o dr. Manuel da Silva deixou uma vasta e importante obra, a par de uma vida inteira dedicada à comunidade, à medicina e à história, e sobretudo à divulgação da importância dos portugueses na história da humanidade”.

E Marcia Sousa acrescentou: “De certeza de que cada um de nós tem algo a recordar do dr. Luciano da Silva, uma palavra amiga, um conselho médico, um gesto carinhoso, algo que nos fará sempre recordar. E até mesmo aqueles que já não tiveram oportunidade de o conhecer pessoalmente, irão sempre ouvir falar nele e conhecê-lo através da vasta obra que nos deixa”, sublinhou Marcia Sousa, vice-cônsul de Portugal em Providence.

O busto foi colocado no Parque Mosaico, uma iniciativa de Roberto Medeiros, então fazendo parte do elenco diretivo da câmara da Lagoa. Aquele município mandou um calceteiro propositadamente a Bristol, cujo trabalho se retrata na caravela surgida a branco na calceta preta.

Foi este cenário que recebeu o busto de Manuel Luciano da Silva, que lá no assento eterno onde subiu, se memórias desta vida se consentem, deve estar orgulhoso, pela homenagem.

Como eles nos dizia muita vez. “Não preciso nada deles. Falam, falam, mas pouco adiantam. Nunca vou deixar de defender os meus pontos de vista. Sei que incomodo muita gente. Mas vou continuar”, disse-nos Luciano da Silva, mais do que uma vez. Sim porque, como já andamos há uns anitos por aqui, ouvimos diretamente, neste caso específico do homenageado. E é disso que damos conta.

“O patrício (como eles nos chamava, dado sermos de regiões muito próximas), não sei como consegue desenvolver o trabalho que faz. Mas, continue. Se deixa de fazer reportagem, a comunidade fica sem voz”.

E esta voz com que tenho o prazer de imortalizar a obra, os feitos, as distinções daquela ilustre figura que será eternamente reconhecido pela comunidade.

Não foi por acaso que a presença do governo português ali esteve. Foi sim pelo reconhecimento a um grande homem e à obra que legou à posteoridade, como uma das mais relevantes figuras que se pautou pela defesa da presença lusa por estas paragens. Possivelmente será dos portugueses que recebeu mais distinções e condecorações, enaltecendo o seu notável trabalho. Recebeu tudo o que havia para receber. E tal como acima se refere, muitos gostariam de ter um currículo desta envergadura, mas só nunca o conseguiram, porque no meio de tudo isto existia o homem, o humanitário, o pai de família. O homem que deixava a sua obra falar por si. O homem que se dirigia ao colega de medicina como ao mais simples dos mortais, com a mesma amabilidade. A estes últimos, que reconhecia a falta de instrução, fazia-o com a linguagem que eles percebiam.

Se Luciano da Silva recebeu esta homenagem a título póstumo, no ano de 1995 foi galardoado e reconhecido, quando no apogeu da sua carreira médica, de historiador e de humanitário, com o Peter Francisco Award, instituído pela União Portuguesa Continental, hoje divisão da Luso American Life Insurance, que lhe foi entregue durante uma gala no Viking Hotel, em Newport, RI.

Realçando o valor da condecoração, podemos acrescentar que a primeira individualidade a receber tal distinção foi senador John F. Kennedy no ano de 1959, e que mais tarde viria a ser presidente dos EUA, contando-se ainda o cardeal Humberto Sousa Medeiros, arcebispo de Boston e que foi distinguido em 1975. No ano de 1980 o galardão seria atribuído a Claiborne Pell, senador federal de Rhode Island e que mantinha relações muito próximas com a comunidade portuguesa. Seu pai foi embaixador dos EUA em Portugal.

No ano de 2005 a distinção recaiu no saudoso José Figueiredo, distinto professor universitário e mais uma das relevantes figuras lusas que tivemos entre nós, onde foi presidente da União Portuguesa Continental e no vice-presidente emeritus Francisco Mendonça.

Como se vê, a União Portuguesa Continental reconheceu o grande homem e médico que foi daquela prestigiosa organização, quando este era notícia pelos seus trabalhos de investigação e principalmente de grande humanitário.

No ano de 2013 a Luso American Life Insurance, divisão da União Portuguesa Continental, prestou mais uma homenagem a Luciano da Silva, através de um carro alegórico na famosa parada do 4 de julho, que foi classificado “o melhor em parada”. A homenagem foi presenciada por milhares de pessoas. 

Frederico Pacheco foi o impulsionador desta homenagem a título póstumo, concluída na passada sexta-feira, com o descerramento do busto daquela prestigiante figura da comunidade. 

Traçou o perfil do médico, historiador, autor e humanitário. Todos os oradores teceram os mais vivos elogios ao homenageado.

“Para além da sua atividade profissional, deixou-nos uma grande e importante obra. Por este motivo, foi alvo de inúmeras e valiosas distinções”, disse Márcia Sousa, vice-cônsul de Portugal em Providence.

A concluir a cerimónia, que teve obviamente a presença da viúva, filhos e netos, usaria da palavra, Frederico Pacheco, que enalteceu os valores que tornaram Luciano da Silva, um caso, direi único, em termos de comunidade. “Era um homem incrível. Um médico com um sentimento incomparável. Podemos resumir a sua obra nas quatro palavras que estão gravadas no pedestal em que assenta o seu busto.

Médico, historiador, autor, humanitário. Cada uma destas palavras tem um significado profundo e elucidativo na vida de Luciano da Silva, cuja memória perdurará para sempre, no seio da comunidade”, disse Frederico Pacheco.

“Cynthia Whallen Nelson foi escultora do busto e a pedra onde assentou é da Riverside Stone, de Jack Afonso. Uma pedra especial que poderá enfrentar sem entrar em decomposição, as diferenças climatéricas desta região”, acrescentou Frederico Pacheco.

Tudo isto se pode traduzir parafraseando “Os Lusiadas”: “E aqueles que por obras valorosas, se vão da lei da morte libertando”.

Assim o cantou Camões e que nós oportunamente fomos buscar, dado ser a melhor forma de ilustrar a homenagem ao saudoso Luciano da Silva.

O busto erguido em sua memória imortaliza a obra de uma das figuras mais proeminentes que a comunidade conheceu nos últimos tempos.

O legado que nos deixou fala da forma como viu, sentiu e viveu a sua comunidade.

E foi por este motivo que aquele homem do povo, vindo do povo, que nunca abandonou, não obstante a posição de relevo alcançado lá do assento eterno onde subiu, viu o seu povo reunido em tarde quente e húmida, para lhe prestar mais uma homenagem póstuma e esta para imortalizar a sua figura num busto.

Na posição e obrigação que temos de preservar e projetar acontecimentos deste calibre, que enaltecem, dignificam, qualificam e imortalizam homens que congregam em si as qualidade que devem reger o ser humano, passamos à posterioridade este acontecimento.

 

 

 

Quem era Manuel Luciano da Silva

Manuel Luciano da Silva, médico

Data de nascimento : 5 de Setembro de 1926

Local de nascimento: Cavião, Vila de Cambra

Radicado nos EUA : desde 1946

Educação Académica:

- Completou o liceu no Colégio de Oliveira de Azeméis.

- Em 1952 obteve o bacharelato em Ciências Biológicas na Universidade de New York.

- Regressa a Portugal em 1957 termina o curso médico na Universidade de Coimbra

- Em 1858 regressa aos EUA e faz o internato no Saint Luke’s Hospital em New Bedford.

- Em 1960 concluiu a especialização em medicina interna na Lahey Clinic de Boston

- Em 1963 foi membro sócio do Centro Médico do condado de Bristol,RI

- Fez parte do corpo clínico do Roger Williams Medical Center

- Foi director médico (21 anos) do Rhode Island Veteran’s Home em Bristol,RI

- Médico chefe da União Portuguesa Continental

Investigação

Aliado à prática da medicina com os mais elevados elogios e aceitação o dr. Luciano da Silva dedicou parte do seu tempo livre à investigação histórica das inscrições da Pedra de Dighton, gravadas por Miguel Corte Real em 1511. Demons­trou, com pesquisas originais, que a primeira colónia europeia na Nova Inglaterra era portuguesa. Tem escrito muitos artigos em portu­guês e inglês sobre o assunto e publicados na América, Brasil e Portugal. Realizou mais de 330 conferências sobre o assunto.

- Publicou o livro “Portuguese Pilgrims and Dighton Rock esgotado desde 1976.

Comunicação Social

- Em 1970 iniciou o programa televisivo “Portuguese Around Us”, transmitido durante 25 anos pelo Canal 6 de New Bedford. Presentemente é produzido pela Canal 52 de Bristol.

- Fez vários programas médicos de rádio e televisão.

Publicações

- Em 1971 publicou o livro “Portuguese Pilgrims and Dighton Rock”.

- Em 1973 publicou o livro “Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton”

- Em 1987 publicou o livro “As verdadeiras Antilhas e Nova Escócia”

- Em 1989 publicou o livro “Colombo 100% Português”.

- Em 1991 publicou o livro “ Os poderes religiosos e mitológicos contido no nome de Cristóvão Cólon”.

- Em 1992 publicou “O Para Alexandre VI e Cristóvão Cólon”

- Em 1993 descobriu que a primeira raínha de Bristol era 100% portuguesa

- Em 1984 publicou o livro “ A Electricidade do Amor”

Distinções

- Em 1967 foi homenageado “Homem do Ano” pelo Clube dos Sete Castelos

- Em 1985 foi homenageado “A Família do Ano” da União Portuguesa Continental

- Em 1971 foi homenageado “Homem do Ano” pelo Instituto Internacional de RI

- Em 1983 foi homenageado “ A Familia do Ano” da UPC (sucursal n.º 54 Teófilo Braga).

- Em 1993 recebe o “XII Prémio Peter Francisco” da União Poruguesa Continental

- Em 1998 recebe a distinção “Honoris Causa” da centenária organização D. Luis Filipe

Passagem à reforma

- A 12 de Outubro de 1998 reformou-se da prática clinica que exerceu durante mais de 35 anos no Centro Médico de Bristol mantendo no entanto a sua meritória actividade comunitária em prol dos costumes, tradicões e língua portuguesa, sem esquecer o valor histórica que tem dado a presença portuguesa nos EUA.

De uma amabilidade extrema, trata as coisas pelo seu próprio nome sendo sempre bem aceite e respeitado na comunidade.