Olifaque, de João Magueijo - o emigrês ao vivo e em vernáculo

 

 

A diáspora é tema de pouco interesse para os leitores do Rectângulo, por mais universalistas que se afirmem os portugueses. A saudosa Olga Gonçalves, com o seu Este Verão o Emigrante Là-Bas ainda conseguiu atrair relativa atenção de um sector do público, mas foi quase uma excepção. Portugal canta-se universal mas, no que respeita aos seus, é em regra umbilical. Custa-lhe enxergar para fora do centro, e esse… é Lisboa. Não que faltem escritos surgidos nos meios emigrantes, mas dificilmente penetram no mercado livreiro lusitano. Uma grande razão, portanto, para louvar a coragem do Clube do Autor por ter ousado publicar este livro que não só é um livro sobre a diáspora como está escrito em émigrés, na variante de uma muito específica comunidade de Portugal-fora-de-muros. (emigrês é termo de Eduardo Mayone Dias, a quem o João Magueijo reconhece a importância de um seu livro sobre o tema, pois foi-lhe útil).

O livro é uma novidade inesperada. Quem iria alguma vez imaginar que o físico teórico, autor de Mais Rápido Que a Luz, viria a publicar o atrevido retrato dos ingleses que é Bifes Mal Passados? E quem, imaginando o autor a saltar profissionalmente entre Londres e Roma, haveria de prever o aparecimento deste livro sobre a comunidade portuguesa de Toronto? Como teria João Magueijo ido parar a Toronto e desaguar nos bares dos clubes portugueses?

Na leitura fui percebendo e o resto foi sendo composto com dados posteriores vindos daqui e dali: levou-o ao Canadá uma aventura de um grupo de investigadores em física teórica patrocinado por um mecenas milionário. Durante os primeiros quatro dias da semana estava no Perimeter Institute, em Waterloo, mas à 6ª feira trabalhava Universidade de Toronto. A grande cidade atraiu-o e era lá que passava o fim-de-semana. Cedo, porém, sentiu que precisava de encher o vazio nos tempos fora do gabinete e dos debates com os colegas de trabalho, e foi encalhar num local de ajuntamento de patriotas. Aventureiro como é, em breve se sentia em casa e os patrícios locais o sentiam como seu. Durante dois anos conviveu com imigrantes, sobre copos e comezainas ouviu estórias, dramas de faca e alguidar, tragédias, muita conversa de macho português que aproveita a ausência das mulheres para gabarolices por vezes imaginárias, de machão para impressionar os comparsas. E foi-lhe ficando no ouvido uma música de fundo, uma linha melódica que se desprendia da cacofonia babilónica das falas portugas oriundas de todos os pontos do Rectângulo, mas sobretudo do Norte, bem como de quase todas as ilhas dos Açores e mesmo de todos os quadrantes do antigo império hoje denominado lusofonia.

Ainda há dias ouvi a comunicação académica de uma estudiosa dedicada à aural literature. Pensava eu que o termo se escrevia como em português – oral –  literatura oral - mas não senhor. Era aural, de ouvido. É a escrita influenciada pelo ouvido do escritor. A estudiosa mostrava como os três grandes nomes do cânone brasileiro, Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa – este ainda muito mais obviamente – escreviam influenciados pelas linguagens que ouviam. Pensei de imediato no manuscrito enviado pelo João Magueijo, em que o autor agarrou uma barulhenta multiplicidade de sons a que encostou um empático ouvido, e acabou criando dentro do seu mágico computador um exímio narrador que habilmente conseguiu sintetizar as vozes daquela camaradagem do bar.

Assim nasceu o narrador deste livro, omnisciente a valer - pois sabe tudo sobre as festanças e a vida dos amigos, que mantém uma forte relação de amizade com o doutor, a personagem em que o autor se disfarça quase até ao final do livro, onde surge a confessar-se. (Por sinal num capítulo que é um verdadeiro mini-tratado sobre o desdém nacional em relação aos emigrantes, e à diáspora apenas lembrada no 10 de Junho). Em cena entra ainda a Cangrua, a parceira do doutor que, por ser australiana, foi assim baptizada pelos portugas tendo a alcunha colado bem à própria bonitona, falante de um português carregado de sotaque.

São coloridíssimas as personagens e estórias que entram num encadeado de narrativas onde predomina a marca da oralidade nortenha, solta e desinibida, escatológica e cheia de pilhéria, a matéria prima que Camilo tinha à mão de semear. Ou melhor, de colher.

Falei em “encadeado de narrativas” porque este não é propriamente um livro de contos independentes, mas algo a ser inserido na tradição inaugurada por Sherwood Anderson com o seu Winesburg, Ohio, em que cada narrativa acrescenta às anteriores mais um ângulo, ora do cenário social, ora de uma personagem, contribuindo assim para avolumar a densidade do conjunto e aprofundar o retrato dos figurantes principais e do seu complexo universo. A linguagem do narrador acaba entrando no ouvido do leitor e estou convencido de que, excepto nos vestíbulos auriculares mais puritanos, acabará por tocar aqueles leitores de nervo mais sensível à sua linha melódica. O autor soube instruir o seu narrador acerca dos segredos do controlo da linguagem formal, mesmo a mais escatológica, mas soube também – e isso cativou-me de modo particular – moldá-lo com o tal carácter empático atrás referido. O leitor acaba envolvendo-se também, sentindo-se apanhado por esta dupla autor-narrador, um par de improváveis amigalhaços que o acaso um dia inverosimilmente juntou e que, sem a menor preocupação com juízos morais sobre cada uma das estórias contadas, mantém uma atitude ética de total tolerância e compreensão, como se convencida de que tout comprendre, c’est tout pardonner. Ao fim e ao cabo, lá bem no fundo, as personagens das estórias aqui narradas são seres humanos que se viram na triste necessidade de largar a pátria, e carregando com ela às costas transformada em saudade, foram refazer a vida no longe, passando as passas do Algarve para se adaptarem, sobreviverem e darem aos filhos aquilo que eles próprios não tiveram, mesmo que isso signifique dar-lhes uma outra pátria, onde as saudades não habitam.  Essa empatia nada tem de paternalista e cativa o leitor precisamente por isso.

Despudorado inclusivé na sintaxe, o arrojo do autor decidiu ignorar a gramática dos livros e captar a gramática viva, autêntica que se solta da boca da gente que, na luta pela vida na estranja, tem de adaptar, recriar e inventar uma língua de sobrevivência. Para ajuda do leitor, o final do livro traz um glossário, mas limitado ao léxico. Quanto à sintaxe, a única solução é o leitor mergulhar nas águas profundas deste livro e respirar a gramática que página a página se vai conjugando lógica e coerentemente. Sempre que o leitor tropeçar em palavras desconhecidas, sugiro que avance, pois aos poucos a letra acabará por apanhar a música.