De estórias e memórias faialenses

 

 

Graças à intervenção do meu amigo José Duarte Silveira, um faialense há décadas no Porto Rico, onde ainda hoje, após a aposentação, continua residindo, agora como Cônsul Honorário de Portugal, recebi a amável oferta de Crónicas e Outras Estórias, de Mário Frayão.

Gosto deveras de estórias e admito um fraquinho especial pelas açorianas. Conhecia umas quantas do livro em causa, porque as ouvira da boca desse exímio contador que é o próprio José Duarte Silveira. Uma delas, particularmente saborosa, doutro faialense, o clássico Florêncio Terra, tinha eu já incluído no meu reportório - atribuindo-a ,  claro,  ao seu dono, como sempre gosto de fazer.

O livrinho lê-se com muito gosto. Em conversa de Verão com José Duarte, dissera-lhe que faziam falta estórias do Faial pois, na minha colecção açoriana, é a ilha que, em proporção, as tem menos. Até parecia que os faialenses não se divertiam e só eram conhecidos por se comportarem habitualmente de modo muito urbano. Graças, porém, às que, depois desse meu comentário, José Duarte me tem contado em sucessivos encontros nossos na Horta, apercebi-me de que estava equivocado e, por isso mesmo, o tenho incentivado a escrever quantas conhece. Acresce agora este livro de Mário Frayão com as suas narrativas airosas, sucintas, incisivas e eivadas de frescura. Sabe contar. Mesmo quando não se trata propriamente de estórias, essas características emergem igualmente nas suas crónicas.

 

 

 

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Ajudando a mudar a minha prévia impressão de ausência de típicas estórias oriundas do Faial, surge agora mais um livro doutro filho dessa ilha, desta feita alguém há muito emigrado nos EUA, onde fez carreira na área da Educação, graças ao seu treino universitário em Psicologia e Saúde Mental. Com o título Boias da Memória, Manuel Leal, bem conhecido dos leitores do Portuguese Times, onde tem colaborado desde os anos 70, oferece-nos prosa fluente e escorreita em 300 páginas de contos faialenses. Quase todos se situam na Horta, o que nem por isso os torna verdadeiramente urbanos visto as suas personagens serem sobretudo da população ligada ao mar ou, uma boa percentagem pelo menos, ser gente das Angústias, alheia aos pergaminhos da elite local. O livro, contudo, está longe de se cingir a um espaço e tempo únicos. As narrativas abrem frequentemente quer ao passado quer ao resto dos Açores e várias delas chegam à América do Norte, acompanhando o trajecto das personagens sobre quem o autor se debruça.  Digamos que se trata de um livro de estórias entremeadas de história. Por vezes, a propósito de um barco ou de um nome, este autor divaga pelo passado do Faial, do Pico, das restantes ilhas açorianas e também do continente, servindo-se sempre da memória (que nunca é de fiar em absoluto). Não se trata de uma escrita académica e, por isso, permite-se-lhe uma leveza e liberdade que a aproxima mais do estilo ficcional do que da história.  Aliás, essa parece ser intenção clara do autor, que abriu a torneira da memória e deixou soltar, livre e quase ininterruptamente, a corrente da consciência. As interrupções acontecem só quando decide mudar de capítulo.

Manuel Leal fala de figuras castiças suas contemporâneas nas décadas de 50 e 60, e está no seu melhor quando se assume, tacitamente ou não, como testemunha. O Medeirinhos, por exemplo, só poderia ser assim descrito por alguém que o conheceu ao vivo. A tia Maria Gata, o António Carcereiro, o Viriato da Boina, o Barata, o Picadilho dos sapatos, ou o “malcriado” — por quem o leitor acaba sentindo pena, porque a crueldade no tratamento das pessoas também existia — são todos claramente fruto de conhecimento directo por parte do narrador. Manuel Leal estava igualmente familiarizado com as elites da urbe, a quem dedica uma crónica, contudo preferiu olhar mais de perto para o outro lado da população (lembre-se, a propósito, o comovente comentário duma garota ao ver manteiga em casa de uma amiga: Vocês são ricos. A gente é pobre. Minha mãe não pode comprar manteiga).

Há estórias de barcos e de tempestades onde até entra o Mestre Simão, que agora é nome do ferry há semanas encalhado na Madalena. Isto e muito mais sobre uma cidadezinha que “depois da Segunda Grande Guerra passou à situação de burgo pacato”.

Para completar a trilogia, só falta agora que o José Silveira Duarte que, segundo consta, está a escrever as suas estórias faialenses ad usum privatum dos netos, termine a tarefa e decida juntar-se a estes seus dois patrícios, o Mário Frayão e o Manuel Leal, contribuindo para mostrar como a Horta não é afinal tão pacata como urbanamente aparenta.