Doença hemorroidária

 

 

Com muito interesse recomendei para publicação no Portuguese Times este artigo do meu sobrinho Dr. Miguel Jorge Silva, natural de Ponta Delgada e presentemente Cirurgiao Geral no Funchal, Madeira.

 

A doença hemorroidária é uma doença muito frequente, dizendo-se que afetará metade das pessoas nalguma fase da vida. É ligeiramente mais frequente no sexo feminino.

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, as hemorroidas fazem parte da normal anatomia do canal anal e desempenham um papel na continência para gases e fezes. No entanto a sua localização incorreta no canal anal traduz-se em doença, que denominamos doença hemorroidária.

As hemorroidas existem em todas as pessoas e estão agrupadas em três plexos na parte alta do canal anal. São constituídas por uma artéria e várias veias.

A obstipação crónica, o esforço defecatório excessivo e algumas condições com aumento da pressão abdominal aumentam o risco para o aparecimento da doença. Algu­mas dessas condições são temporárias como a gravidez, mas outras são permanentes como a doença pulmonar obstrutiva crónica ou ascite. O aumento da pressão no abdómen leva a um aumento da pressão nas veias que constituem as hemorroidas, fazendo com que aumentem de tamanho. Ao aumentarem de tamanho ficam mais sensíveis a sangrar aquando da defecação e podendo prolapsar (vir para o exterior do ânus).

A hemorragia pelo ânus e o prolapso são os sintomas mais frequentes dessa doença. Tipicamente a hemorragia é abundante, ocorre durante a defecação, é de sangue “vivo” e “pinga na sanita”. Raramente esta doença é causa de anemia, devendo-se excluir outras causas no seu estudo.

A classificação da doença hemorroidária é baseada na existência ou não de prolapso e que manobras são ne­cessárias para a sua redução. A importância da classi­ficação é que é ela que nos dá orientação em termos dos tratamentos necessários para cada caso.

Outra complicação possível é a trombose. Essa com­plicação é rara, mas quando presente é muito dolorosa e pode evoluir para infecção, algumas vezes muito graves. Ocorrem em doentes com prolapso de um ou mais plexos que permanecem exteriorizados algum tempo, ficando duros e muito dolorosos. Pode ser uma indicação para cirurgia de urgência, apesar de normalmente ser auto­limitada. Um erro diagnóstico frequente é considerar a trombose hemorroidária externa como relacionada com doença hemorroidária. A trombose hemorroidária externa é basicamente uma hematoma da margem do ânus por rotura de uma veia ou variz superficial. Normalmente ocorre após uma defecação com bastante esforço de um bolo fecal maior ou após uma diarreia. O tratamento é sintomático e deverá evoluir sem complicações. Raramente poderá ser necessário drenar esse hematoma.

O diagnóstico da doença hemorroidária passa por uma história clínica com particular importância os hábitos intestinais, por um exame físico e por vezes outros exa­mes complementares de diagnóstico como proctos­copia ou até colonoscopia.

O exame físico implica inspeção anal e toque rectal. Podemos encontrar vários sinais diretos e indiretos sugestivos da doença e devemos conjuga-los com os dados obtidos na história clínica. Também avaliamos a função dos esfíncteres anais, músculos essenciais na continência para as fezes.

O exame complementar mais importante é a proctos­copia, que consiste na observação do canal anal e recto por um tubo com luz. Tem particular interesse nos casos em que há hemorragia sem prolapso. É um exame muito simples, que não causa dor e é feito mesmo no consultório médico. O tratamento da doença hemorroidária é muito variado e deve ser ponderado qual a melhor alternativa para cada doente.

Um dos pontos necessários para o tratamento é a correção de hábitos intestinais, evitando a obstipação e esforço defecatório excessivo. Poderá implicar mudanças na alimentação, uso incorreto da sanita e eventualmente medicação como laxantes.

Depois existem tratamentos considerados de “Consul­tório” e para as formas mais graves ou resistentes aos outros tratamentos a cirurgia.

No “Consultório” as duas técnicas são a esclerose e a aplicação de elásticos. Quando realizadas por alguém com experiência são indolores, rápidas e não necessitam nenhuma preparação ou cuidados posteriores. Têm por objectivo a fixação dos plexos hemorroidários na parte alta do canal anal, impedindo que possam descer e prolapsar. Não são uma garantia de cura, mas aliviam a sintomatologia numa boa parte dos doentes.

A cirurgia, como já foi dito anteriormente, deverá ser opção nas formas mais graves ou em que os outros tratamentos não foram eficazes. Existem duas técnicas principais, uma que se chama hemorroidectomia e outra que tem o nome do cirurgião que a descreveu, Longo. Na primeira as hemorroidas são retiradas, diminuindo a possibilidade de voltar a ter sintomas, e na segunda as hemorroidas ficam no canal anal, mas numa posição mais alta. Um cirurgião deverá decidir com o doente qual a melhor técnica, dependendo da sintomatologia e da vontade do doente.

Trata-se portanto de uma doença frequente, que muitas vezes não é diagnosticada porque as pessoas têm vergonha de se queixar. É uma doença que tem tratamento, a maioria dos quais simples, indolores e baratos. A cirurgia está reservada para casos mais complicados, mas com grande melhoria da qualidade de vida dos doentes.

 

Haja Saúde!