O PÃO-NOSSO DO SABER

 

(Parabéns ao doutor Jaime Gama)

 

Estou serenamente convencido de que o estimado conterrâneo, doutor Jaime Gama, não ficará surpre­endido com a genuina alegria exposta neste des­pretensioso bilhete emocional. Apesar das cinco mil milhas que nos separam, atrevo-me a juntar o entu­siasmo da minha alegria pessoal à celebração da mere­cida distinção académica conferida pela Universidade dos Açores a um dos valentes pioneiros da moderna República Portuguesa.

Embora continue firme na modesta autonomia do meu estatuto cívico-político, creio não ser deselegante resvalar na tentação de acentuar alguns aspectos (meramente circunstânciais) da proximidade político-ideológica com o prestimoso patrício, doutor Jaime Gama. Claro que não vamos cometer o lapso de pen­sar que o prestígio cívico-académico do cidadão Jaime Gama iniciou o seu azulejar sob a alvorada do 25 de Abril... 

De resto, não vamos agora apresentar a lista exaus­tiva das tarefas superiores que lhe foram confiadas, democraticamente, pela soberania da III República portuguesa. Vamos apenas recordar (tendo em atenção o limite do espaço gráfico oferecido pela imprensa comunitária) o extraordinário calibre estudantil do antigo aluno liceal, Jaime Gama, bem como a sua imparável valentia militante em prol da democracia – cujo apreciado temperamento cívico foi depressa ‘castigado’ pela maligna fiscalidade fascista da época...

Nem sempre é tarde para recordar o famoso credo pedagógico do saudoso prof. José Enes: “... mais saber para melhor viver”. Na nossa (discutível) opinião, os cida­dãos insulares que apostam no humanismo demo­crático (e amam a terra açoreana, mesmo sem ver a própria sombra reflectida no chão dos antepassados) devem contribuir para desfanatizar a pardidarite aguda que pulula no arquipélago, a fim de que o progresso regio­nal não seja rotulado como mera utopia da corruptibilidade...

Sem pretensão de redescobrir a vontade de urinar, seria desejável investir na Educação comunitária, em vez de borrifar fundos públicos no treino manipulador do vedetismo oficioso. Quando observamos o espesso egocentrismo académico de alguns membros das elites universitárias (de cá e de além-mar) não é difícil vislum­brar a doutorice dos que não foram treinados para resis­tir à tentação de se apresentarem como “fiéis-de-arma­zém” das arrecadações livrescas... e que existem quase sempre distraídos da magia da “sabedoria”, que tanta falta faz à competência institucionalizada...

 

.../...

 

Bem-aventuradas sejam as honradas excepções da cultura portuguesa, nomeadamente, o apreciado doutor Jaime Gama.

Afortunadamente, há ainda catedráticos que não são assalariados da tarefa de auto-esculpir o seu pedestal académico; nem permanecem indiferentes à barbárie ignorante que vive do outro lado do mundo, onde ainda “há fome e ranger de dentes”. Está convencionada a defesa monárquica da ancestralidade institucional das univer­sidades: algumas tornaram-se famosas, mercê da res­pectiva antiguidade multi-centenária...

Segundo consta, a Universidade dos Açores é uma instituição jovem que já descobriu a vigiada fronteira entre “competência” e “sabedoria”. Todavia, permanece no ar a legítima suspeita de que algumas universidades funcionam como micro-universos que gravitam órbitas estranhas à distribuição democrática do saber.

Ora, sem escorregar nos estafados rompantes van­guardistas, diria que as instituições universitárias não deveriam incorrer no perigo de ficarem reduzidas ao papel de simples “oficina” académica, para garantia da perpetuação do “status quo” sócio-politico-cultural. Sinto-me bem acompanhado quando sugiro que uma universidade deveria funcionar como “alternador” entu­siasta da corrente cultural da comunidade onde está inserida.

Para não demorar o merecido aplauso em relação à majestosa decisão da Universidade dos Açores, seja-me permitido felicitar os admiradores do conhecido curriculum político-académico do prestimoso doutor Jaime Gama, democrata socialista “activo sem ser sectá­rio, determinado sem ser ortodoxo”. E, já agora, gostaria de sugerir a organização de um forum “Ideias ao Desafio” integrado por cidadãos seleccionados segundo a qualidade confirmada no respectivo desem­penho das missões institucionais que lhes foram incumbidas...

Resumindo: seria ideal evitar que uma universidade seja talhada como conventículo “silenciador” dos sau­dáveis conflitos culturais, em vez de assumir-se como “espevitador” ao serviço do atrevimento saudável da inteligência libertada... Aliás, não constitui novidade relembrar que as universidades sustentadas pelo erário público cultivam prioridades e objectivos político-académicos diferentes daqueles que são geralmente sugeridos às universidades privadas. Estas últimas sabem que a inteligência idealista nem sempre passa no exame do pragmatismo financeiro, defendido  pelos obreiros do mandarinismo da moda...

Vamos gozar a merecida Alegria conquistada pelos fiéis crentes na responsabilidade cívica. Parabéns, ao apreciado conterrâneo (amigo) doutor Jaime Gama – diligente distribuidor democrático do pão-nosso do saber

 

Rancho Mirage, California

(*) texto escrito de harmonia com a antiga grafia.