… a morte não sabe sepultar a Vida

 

 

Estimado (inesquecível) Francisco Macedo(*): – mercê da modernidade electrónica, acabei há pouco de receber a triste notícia da tua ‘emigração’ rumo à eternidade! Curio­samente, encontrava-me no aeroporto de Dallas (Texas), num dos intervalos técnicos do percurso aéreo Lisboa-Boston-Palm Springs (tal como acontecera, em Maio de 2013, aquando do inesperado falecimento do saudoso camarada-escritor, Daniel de Sá ).

Continuo a aceitar a hipótese de que a morte não sabe sepultar a Vida – ou seja, apesar do ser humano nascer e morrer sem conhecer a Perfeição, ambos pertencemos ao conhecido grupo humano dos ‘santos-pecadores’, os tais que (sobretudo durante o “PREC” lusitano) eram amiúde confrontados por gente ‘perfeita’, sobretudo no exercício da maldade! 

Pois é… saudoso camarada, Chico Macedo: não dese­jo disfarçar a tua qualidade (modesta mas autêntica) de membro do desporto-rei da equipa da União Micaelense –  sem olvidar o comprovado facto da tua fidelidade cristã, aliada ao entusiasmo abrilista que interrompeu o longo período do chamado estado-novista (1926-74).

Sinto-me deveras enlutado pela tua partida, acontecida em Setembro, época calendarista que nos relembra a dra­mática “partida” de Antero de Quental – figura singular do ideal socialista, que actuou sem receio da frá­gil demora monárquica, em finais do século XIX…

Felizmente, somos diferentes uns dos outros – circuns­tância que nos confere a responsabilidade de compreen­der a parte sã dos desaguisados da vida colectiva. Obvia­mente, é (quase) sempre agradável receber elogios! Mas… é aconselhável evitar que esses elogios cheguem ao destino, prematuramente…

Prestimoso camarada, Chico Macedo: sem resvalar na compreensível tentação de acentuar alguns dos inesquecí­veis episódios o nosso convívio cívico-político (1974-1980), gostaria de confirmar que a nossa Amizade jamais foi interrompida pela invasão habitual dos micróbios da desconfiança.  Exemplo: sempre respeitaste, com genuina lealdade, as intensas prioridades da minha vida privada… sobretudo, após ter completado o meu mandado como membro da I Legislatura Regional (1976-1980).

Seja-me permitido recordar o episódio (Outubro, 1980) em que afirmei, poeticamente, o seguinte: “… emigrar não é trair nem vergar – é partir para um novo-estar”…  Aliás, prestimoso Chico Macedo, sempre apreciei a tua valentia militante, designadamente, durante o Primeiro Congresso do PS (pós 25 de Abril, em Lisboa  – Dezem­bro, 1974); curiosamente, fomos surpreendidos por al­guns (poucos) camaradas do então novel “PS/micaelense”,  na ingénua tarefa de apoiar a liderança partidária do inex­periente (todavia, corajoso) camarada, Manuel Serra… Na época, embarcámos na auspiciosa caravela soarista…

Como há pouco desabafei, seria porventura aliciante vir aqui recordar alguns episódios alusivos à tenacidade cívica, desportiva, ideológica do valoroso camarada-cris­tão, Francisco Amâncio de Oliveira Macedo, sobretudo durante o período em começámos a sentir a “revolução agre­dida”. Quando o “abrilismo lusitano” estava ainda na sua fase “lua-de-mel”, não aceitámos militar contra a imparável descolonização; todavia, actuámos contra a pre­ci­pitação dos fervorosos romeiros esquerdistas afectos ao “entreguismo”…

Adiante. Gostaria de aproximar a minha voz ao coro dos que celebram o consistente exemplo cívico-profissio­nal do valoroso humanista há dias falecido. Sempre a respeitar o luto familiar, creio ser apropriado revelar o seguinte episódio acontecido há 43 anos: após o final da ‘nossa’ reunião para consolidar o “transplante” institu­cional do socialismo democrático em terras micaelenses (finais de Maio, 1974), a tarefa de descobrir e contratar o local citadino para albergar o entusiasmo inicial da militância socialista ficou a cargo dos valorosos camara­das Angelino Páscoa & Chico Macedo – dois profissio­nais dotados com posições sólidas no sector empresarial micaelense. Naquela época ainda tentei participar (em­bora modestamente) na liquidação da factura dos en­cargos iniciais; confirmo que tal intenção foi mais tar­de agradecida, mas dispensada, logo que foi conhe­cido o que acontecera ao meu modesto ordenado men­sal, o qual fora simplesmente “congelado” pelos gestores patro­nais da empresa onde trabalhava, desde Agosto de 1966… O Chico Macedo e eu não tiveram grande difi­culdade em perceber que o dinheiro não se come… e os futuros das comunidades conservadoras estão sempre em fase de repoiso.

Nada de queixumes! Naquele tempo (antes de conhe­cer Francisco Macedo) já tinha a “mania” de lembrar o seguinte: o planeta terra tem sido o lar para alguns “con­vidados” questionáveis ao longo dos milénios, mas ne­nhum foi mais deplorável do que os seres humanos! Estou a referir os indivíduos que se consolam no gozo de impecillhar (ou odiar) a alegria humana. Falo com experiência própria: os falsos amigos simpatizam com os nossos defeitos, mas odeiam (às escondidas) as even­tuais qualidades que porventura conseguimos auferir (ou conquistar)  ao longo da nossa existência à superfície do planeta...

Adeus, apreciado Amigo, Chico Macedo(*)! Até ao nosso próximo encontro. Haja Coragem!

P.S. – Envio sentidas condolências à família Macedo, pela perda recente do pai (dirigente financeiro) e do filho (jovem médico).

(*)Francisco Amâncio de Oliveira Macedo, ex-presi­dente do Conselho de Administração da Caixa de Cré­dito Agrícola dos Açores; co-fundador & dirigente do PS/A; deputado regional da I Legislatura.

 

(*) texto redigido de harmonia com a antiga grafia