Aprender com todos – pensar sozinho

 

 

Espero não desapontar a cordialidade dos eventuais leitores com esta declaração individual distanciada do corporativismno académico d’aquém ou d’além mar. Todavia, não tenciono disfarçar a (minha) alegria de operário da Cultura – servente das Letras & Artes – na ânsia de aprender com todos, e pensar sozinho… Não vale a pena confundir o egotismo monopolista de uns poucos com o individualismo benigno do artista-genial. Aprecio a ideia de que a criação artística é tarefa individual, cujo destino é o de ilustrar o património colectivo da humanidade. Exemplos: “Sermão da Montanha”; IV Andamento da Nona Sinfonia (Beethoven); e ainda “Guarnica” (Pablo Picasso). Todavia, estamos habituados a observar que o génio criador não se reduz à pequenez da posse exclusiva da respectiva Obra. Aliás, nas circunstâncias em que o talento artístico é usado como mero adorno narcísico, não há fundamento moral ab initio para minimizar a obra criada. Todavia, ficamos porventura entristecidos, embora confiantes na antiga (mas remoçada) crença de que uma bem-educada mentalidade apresenta sempre mais perguntas do que respostas… 

Vamos então fortalecer a fé na esperança de que o “operário da Escrita” apresenta-se, publicamente, para colocar o respectivo talento ao serviço das ideias, sem resvalar na fragilidade de apostar na lotaria do consumismo mercantil. Em nome pessoal, espero continuar gestor sensato da modéstia do próprio “tamanho”, como vigilante autónomo da fronteira da originalidade artística. Como sói dizer-se, a escrita é o cavalo, o talento é o galope!

Sendo assim, vamos aceitar a credível hipótese de que nada de novo existe debaixo do Sol. Vamos inovar: não somos servos do passado nem desejamos ser porteiros do presente. A propósito, não incomoda andar atento (e solidário) ao manquejar político da marcha açórica rumo ao ideal autónomo, sonhado desde 1976.  

Esta improvisada conversa vem acicatar a recordação do comentário oferecida pelo signatário, face à pergunta formulada pela jornalista, Sandra Pacheco Tejo, do magazine “Terra Nostra” (Outubro 29, 2010): 

TN – O que significa a expressão do subtítulo do seu livro – “rosto enrugado da Espera?

JLM – Atrevo-me a dizer a geração a que pertenço (nascida na década de 1940), não se envergonha das (suas) rugas da Espera – as quais são consideradas medalhas conferidas aos persistentes “namorados” do sarabandear do Tempo.  Aliás, considero-me herdeiro da I República, vítima da II República, e agora enfermo da III República”.

Seria ridículo esquecer ou disfarçar que, há mais de quatro décadas, aderi à ideia de que a democracia não é instrumento inventado para servir de “cadeira-de-rodas” aos frequentadores do santuário da mediocridade simpática. Todavia, falta ainda lembrar que a democracia açor-lusitana, apesar de fustigada pelas suas fragilidades inatas, continua a singrar na plenitude da sua trepidante adolescência cívica… Veremos.

Espero merecer a generosa cooperação do eventual leitor para refrescar a memória do episódio acontecido, na Assembleia da República, em 1976: refiro-me o dia em que o (meu poético) socialismo foi meigamente mandado “arquivar na gaveta eleitoral”, de acordo com o sábio pragmatismo soarista (vide a curiosa intervenção do então primeiro-ministro, dr. Mário Soares, proferida em plena sessão parlamentar alusiva à estreia do seu mandado).

Acabámos há pouco de escutar o “apito inicial” do aliciante “desafio-2018”.  Ora, sem a pretensão de adoidar o jornalismo comunitário com molduras científicas, não custa acreditar que é através da comunicação social que podemos conferir o quotidiano cívico-político da diaspora açoreana. Desde 1976, o “memorandum” procura manter a “Voz da Fraternidade” no convívio das “Ideias ao Desafio”.

         

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P.S. –  Prezados leitores – Já penetrámos o “golden-gate-2018”.  Estamos todos a respirar na superficie da “terceira Ilha” do sistema solar. Na (minha) serena circunstância de ilhéu ausente (mas sempre perto do querido penedo oceânico), considero o dever de cooperar numa tarefa incompleta: descobrir novos atalhos na auto-estrada cívico-política da Açorianidade. Vivemos numa era sem destinos certos à mão do leme… Haja Vida!         

(*) o autor escreve de harmoia com a antiga grafia.