conversas dispersas pelos (b)ecos da memória

 

           
Sim, vim aqui para comparar pensamentos, e não para exibir certezas. Não é novidade lembrar que vivemos à mercê das assopradelas (ou das trumpadelas?) da ventania global que nos traz notícias refrescadas da bestialidade humana. Perante a ambiência belicosa do quotidiano global, muito gostaria de não falhar ao mandamento que recomenda o seguinte: “nunca aceitar o risco de praticar o mal, mesmo na eventualidade de praticar o bem”. 
Temos a consciência de que a rotina dos noticiários apresenta-se quase sempre ‘prenhe’ de gulodice sensacional, para colorir o espesso nevoeiro da realidade. Ora, sem querer repetir homilias amarelecidas pelo tempo, diria apenas que cada dia que passa é uma oportunidade para aperfeiçoar a tarefa de oleiro solidário com a fragilidade do barro humano.  
Atrevo-me a sugerir a hipótese de que a ignorância humana é como um véu opaco que nos separa do Infinito. Jamais esquecerei a lucidez ética dos dizeres do brasileiro Paulo Freire: “… os oprimidos não podem conquistar plenamente a própria libertação, descuidando a libertação do opressor. A luta em prol da auto-liber­tação dos oprimidos deve também servir de alavanca para libertar o opressor da sua ignobilidade”.  
Ora, a crise por que passamos não merece ser apelidada de episódio original. Aliás, não precisamos de resvalar na trivialidade de declarar o óbvio: o futuro precisa de nós; entrámos velozmente no século XXI, mimados com o sucesso do pronto-a-gozar, com boas estradas, mas sem travões… Agora, o futuro pode ser comparado ao alvo em busca do tiro, pelo que não merece o cognome de ‘praga’ ou ‘castigo bíblico’…   
Ó céus!  Sinto-me liquescer por dentro quando reparo que o nosso ‘25 de Abril’ não resistiu à revolução! Será que a boa-malta já esqueceu a chegada daquela noiva virginal (abrilista) com o seu enxoval ainda cheirando ‘a guardado’, devido à demorada espera nupcial-democrática?
Na ridente cartilha do anedotário popular, está escrito que o eleitorado cansado exige mentiras novas: diz-se que o macaco mastigador de sal fica mais talentoso na pesquisa de água fresca. Desconfio que as ilusões são usadas pela realidade, como disfarce defensivo-temporário, como quem diz: os cavalos morrem mas o ‘galope’ fica na memória… 
Será que haverá momentos em que nos sentimos prisioneiros do passado do futuro? Ora, para não reacender velhas e novas quezílias no seio da  ‘procissão dos passos’ da actualidade açor-lusitana, gostaria de apostar na amistosa ‘olhada’ do eventual leitor, face à transcrição ipsis verbis de breves excertos do ‘memorandum’ publicado na imprensa da diáspora lusófona (1984). Vejamos: “… estamos, pois, vivendo um bom momento para que sejam feitas algumas reflexões colectivas, com o discernimento e a vontade de aprender. A  comunicação regional açoriana continua no seu ritual de aprendiz do sucesso: ser praticante da autenticidade informativa é acto de heroísmo repetido. Nos Açores, há um reduzido número de heróis e uma multidão de amoladores de espada! Pressentimos (daqui, à distância) o grau de engenharia necessário para apurar eventuais culpabilidades dos governos da República e, assim, justificar os “meigos” lapsos cometidos pelas instituições regionais. Com raras e merecidas excepções, as eleições açorianas mais parecem expressões de arrufos cíclicos entre candidatos ao mesmo emprego! 
Afinal, o perigo está no centralismo. Depois da autonomia regional, é preciso enrijecer a autonomia insular. A tradição ensina que a centralização radica na clássica noção da ‘ordem vertical’; por outro lado, a des­centralização vai (quase sempre) beber a água-benta ao oceano democrático da liberdade… 
Enfim, passada que foi a época das conversas dispersas àcerca do espalhafatoso FLAmejar dos milhafres, dos hinos, da xenelasia ideológica – agora, está na hora de afinar a militância na açorianidade”...

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Rancho Mirage, California - EUA
 ( texto escrito de harrmonia com a antiga grafia)