Ao Brasil de todos nós: Três vezes salve a esperança!

 

Gostaria de começar expressando a minha alegria por ter mergulhado, ainda que em águas rasas, na rica cultura popular de Fortaleza, durante a realização do VIII Seminário Nacional de Folclore nos dias 24, 25 e 26 de agosto último. Evento promovido pela Comissão Cearense de Folclore com o apoio da Comissão Na­cional de Folclore reuniu pesquisadores, estudiosos e folcloristas de todo o Brasil em torno do tema “Folclore: Dinâmica e Transformações na Contemporaneidade”, num diálogo, aberto e plural, considerando as singulari­dades regionais, a dinamicidade da mudança cultural, a salvaguarda dos saberes e fazeres e as características interdisciplinares dos trabalhos realizados no campo do folclore e da cultura popular em suas diferentes manifes­tações e feitios. Sem dúvida, um leque de temas de abran­gência nacional e de relevância para compre­ensão dos novos paradigmas no estudo das culturas populares tradicionais, lídimo patrimônio espiritual do povo brasileiro.

Ao mesmo tempo, queria sublinhar a simpatia contagiante dos cearenses e a beleza de Fortaleza nascida, no século XVII, no monte Marajaitiba, às margens do riacho Pajéu, a partir do Forte Schoonenborch, cons­truído durante o domínio holandês, considerado o marco inicial do desenvolvimento de Fortaleza e da sua história. Rebatizada de Forte de Nossa Senhora da Assunção, em 1654, com a expulsão dos holandeses pelos portugueses. Hoje, com cerca de dois milhões e quinhentos mil habitantes é a quinta maior cidade do Brasil.

Fortaleza se esparrama pela orla. É mulher rendeira, brejeira, deitada na rede a namorar os verdes mares enquanto o sol vai se escondendo lânguido sob a linha da maré, lá na praia de Iracema, iluminando tudo. Não é sem razão que a “Terra da Luz” foi batizada de “Loira desposada do Sol”, nos versos do poeta cearense Fran­cisco Paula Ney (1858-1897): “Ao longe, em brancas praias embalada/pelas ondas azuis dos verdes mares,/A Fortaleza, a loura desposada /Do sol, dormita à sombra dos palmares.[...]”. Também é conhecida como a “Ca­pital Alencarina” por ser terra natal do romancista José de Alencar.

Ainda no aeroporto o largo sorriso de boas vindas de Eracyldo Pessoa emendando um “Vamos maracatucá?” aguçou a minha curiosidade para expressão que des­conhecia e para o grande teatro popular do Maracatu. O folguedo cultural de forte influência africana com personagens cativantes como “a Dama do paço e a boneca Calunga, o Balaieiro, os vassalos, as baianas, o escravo do pálio real, Rei e Rainha”,  tem sua origem nas coroações dos Reis do Congo, daí a formação de uma verdadeira corte real. “É negro na origem, no louvor a Nossa Senhora do Rosário e no uso dos instrumentos como o tambor, ganzá, afoxé, caixa, gongué”, ensina-me lá de Sergipe a mestre, Aglaé D’Avila Fontes, expoente da cultura popular nordestina.

Sabia que, de acordo com a tradição do Maracatu cea­rense, os brincantes trazem a cara pintada com tinta preta brilhante - “falso negrume” e que são homens em trajes femininos, inclusive a rainha. Entretanto, desconhecia o seu ritual, repleto de simbologias, marcado pela riqueza estética, o gingado cadenciado, majestoso e solene e um sincretismo religioso envolvente, na associação entre as divindades africanas e católicas. 

A caminho do hotel Eracyldo – que no Maracatu é o “Balaieiro”, negro de venda com seu tabuleiro de frutas, verduras e ervas – foi satisfazendo minha curiosidade e preparando-me para compreender a mítica do Maracatu da Nação Pici que faria sua apresentação no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, numa mostra da rica diversidade do folclore cearense incluindo o Boi Juventude e Afoxé Oxum Odolá.

No dia seguinte, no anfiteatro do Dragão do Mar, ao final da minha intervenção sobre o “Espírito Santo Mi­grante: dos Açores, da Diáspora e de cá”, na Mesa sobre As Festas Tradicionais do Divino no Brasil, chamou a nossa atenção a surpresa do público e desejo de mais querer saber sobre a festividade, os rituais de celebração desde a saída da bandeira do Divino, as novenas, os mordomos, os foliões, as cantorias, as promessas, as massas sovadas, as procissões até a solene missa da coroação, revelando práticas coletivas de conteúdo simbólico e subjetivo entre os signos do sagrado e do profano. Afinal, cheios de animação, decidiram que para o ano Fortaleza vai ter a sua primeira Festa do Divino.

Sorrio deliciada e não posso deixar de pensar que no dia anterior aplaudíamos e acompanhamos os movi­mentos do Maracatu da Nação Pici, saudamos Afoxé Oxum Odolá e agora louvamos ao Divino Espírito Santo. Esta aproximação sincrética não me surpreende nem aos maranhenses que estavam em Fortaleza e que têm um Divino afro-brasileiro com sotaque açoriano e com o toque do tambor das caixeiras do Divino das Casas de Minas. Muito menos espantaria os fluminenses de Bom Jesus de Itabapoana, onde o hino da “Alva Pomba” (O hino do Espírito Santo dos Açores ) é executado e cantado na “Festa da Coroa” desde 1899, levado pelo Padre António Francisco de Mello, micaelense, natural da Achada, no Concelho do Nordeste, revela o pesquisador Antônio Soares Borges que ali vive (mas, esta é uma outra história e tema para futura crônica).

Aí está a nossa brasilidade, a Identidade cultural nacio­nal. Uma nação multicultural que faz da diversidade a sua marca. Do Monte Caburaí (Roraima) ao  Arroio Chuí (Rio Grande do Sul), seus pontos extremos norte-sul, na sua gigantesca territorialidade, o Brasil abraça em seu seio gentil o sentimento uno de brasilidade que o identifica. Uma língua expressa na sonoridade colorida dos inúmeros sotaques regionais – a língua portuguesa que floresceu e enriquece-nos, que é patrimônio  cultural nacional, que responde pela unidade do Brasil. A nação brasileira tão diferente, tão cheia de contrastes na cor, no falar, no cantar e no festejar a vida e a terra onde tan­tos povos – livres ou escravos – transportaram por baixo da pele ou no coração as suas crenças, usos e costu­mes e aqui gestaram a Pátria e os sonhos de liberdade.

Olho para trás e lá se foram 195 anos de distancia­mento do tempo, quando a Princesa Leopoldina assinou o decreto que aprovava a separação definitiva e absoluta do Brasil de Portugal a 2 de setembro de 1822 e cinco dias depois, em ensolarada tarde de 7 de setembro, quando o Príncipe Dom Pedro proclama o Brasil livre com o célebre grito : – Independência ou Morte. Sem dúvida, um ideário imagístico e belo como a cena criada na grandiosa tela “Independência ou Morte” ( 415cm x 760cm) do artista Pedro Américo.

 Parece impossível que o sonho de liberdade vingou e o espírito de luta nunca esmoreceu, graças à capacidade da nossa gente de vencer obstáculos, sambar a adver­sidade, se levantar e seguir em frente. Aliás, “Todo brasileiro vivo é uma espécie de milagre”, já dizia, na sua peculiar mordacidade, o jornalista Ivan Lessa, um dos fundadores do jornal “O Pasquim”.

Um olhar alongado para este passado do nascimento do Brasil como nação independente e um olhar aturdido para este Brasil do presente, em que atravessamos as crises, os desgovernos e sobrevivemos, sabe Deus como... só me resta finalizar louvando o povo brasileiro e a nossa rica cultura popular citando uma estrofe da canção Louvação de Gilberto Gil e Torquato Neto:

 

 

E louvo, pra começar

Da vida o que é bem maior

Louvo a esperança da gente

Na vida, pra ser melhor

Quem espera sempre alcança

Três vezes salve a esperança!