Aiii! Meu Senhor Santo Cristo! Nada na vida é por acaso...

 

Passados quase trinta anos de ir e vir aos Açores (a completar em 2018) estudando a cultura açoriana, a produção literária e artística, o exuberante patrimônio imaterial representado, sobretudo pelo Culto em Louvor ao Espírito Santo, numa constante inter­venção sempre a ligar os dois lados do Atlântico, maravilho-me diante dos testemunhos da imperecível fé dos açorianos ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Expressos pelos moradores da Ilha de São Miguel, das outras ilhas açorianas ou chegados das ilhas da diáspora, inclusive do Brasil. Surpreende-me os milhares de peregrinos que se deslocam para Ponta Delgada para render graças ao Senhor da esperança infinita, de se perderem naquele olhar de compla­cência, de misericórdia, de humanidade. Recordo as sábias palavras do saudoso escritor da Maia, Daniel de Sá, em Senhor Santo Cristo – o olhar humano de Deus (DVD, 2007): “Felizes aqueles que acreditam sem ver. Mas os nossos olhos precisam de imagens como esta que nos lembrem alguém que tanto nos amou. E de multidões cujo exemplo de fé nos leve a confiar também. A dor acompanhada é menos triste, o amor partilhado é mais forte”.

Sob o tema “Fazei tudo o que Ele vos disser”, as Festas de 2017 vêm, mais uma vez, corroborar a mística da entrega total à fé na certeza de que, ao fazer o que Ele quer, teremos um mundo melhor, com mais amor, compreensão e tolerância às dife­renças. A multidão que acorre ao Santuário manifesta devoção e afeto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres – e nesta dimensão da fé – depositam todas as aflições, os anseios, as perdas queridas, os desencontros e, também, as alegrias, as vitórias, os sonhos. “É uma fé que não se esgota no respeito pela imagem. Que nem sequer se esgota em si mesma, porque é feita sobretudo tendo a esperança como pilar,” Uma vez mais volto ao pensamento de Daniel de Sá, pinçado do Peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres (2009), ao narrar a origem remota do culto, a sua expansão e popu­laridade, bem como a data da primeira Procissão em 11 de Abril de 1698, há 319 anos. Sua escrita espi­ritualizada deixa assomar a força da fé na sua essência. A propósito, o escritor Emanuel Jorge Botelho em “Crônicas” (2008) puxa da memória da infância e juventude lembrando a porta central da igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres, coberta de bilhe­tinhos e preces escritas em época da festa, numa bela imagem da fé popular “[...] A lápis ou estereográfica, a fé, uma fé de mãos e de silêncio, fazia com que tudo se rogasse ao Senhor Santo Cristo; a cura de um filho, a proteção para um marido ausente, uma boa  nota no exame que se aproximava. Às vezes a fé é assim. Às vezes até tem caligrafia.”

Ponta Delgada vive dias de festa. Um clima de grande comoção foi abraçando a cidade no desenrolar da intensa programação coroada por momentos de fervor e respeito à centenária tradição. Rituais simbó­licos ansiosamente aguardados, como a mudança da imagem desde a saída do Convento da Esperança, quando as irmãs da Congregação de Maria Imaculada entregam a “Vara” ao Provedor da Irmandade confian­do-lhe a rica Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

A Procissão do Senhor Santo Cristo faz parte da His­tória dos Açores, guardada na memória coletiva dos antepassados, transmitidas aos seus descendentes e contadas às novas gerações. É patrimônio cultural das Ilhas, componente da identidade açoriana. A magnífica Imagem coroada de espinhos, olhar triste a transbordar amor e bondade, ganha as ruas de Ponta Delgada, no domingo à tarde, em grandiosa Procissão que, passo a passo, percorre as artérias da cidade baixa. É arrebatador! Seu olhar pungente revela o sofrimento resignado, mas também redenção, salvação, alento. Guardo na memória a imagem daquele povo alimen­tado pela força da fé, junto ao campo de São Fran­cisco, e a emoção sentida no meu caminhar na Procissão de 2005 e 2008. Fecho os olhos, revivo.

Enquanto escrevo nesta tarde chuvosa e friorenta de domingo, dia 21 de Maio, tudo isso está aconte­cendo na outra margem atlântica, de forma deslum­brante, num turbilhão de festas, bandeiras, mastros, fogos de artifício, promesseiros e promessas, círios enormes, filarmônicas, uma profusão de flores a se perder num mar de fiéis agradecendo os milagres recebidos, dando voltas no campo de São Francisco lindamente iluminado por 150 mil lâmpadas distri­buídas com arte pelas mãos dedicadas do senhor Humberto Moniz. Fico a imaginar Ponta Delgada impregnada pelo clima de comovida religiosidade, vestida da “festa” que envolve a cidade, seu povo, a Ilha, o arquipélago e ganha o mundo por caminhos da emigração “por mundo repartidos”, como bem retrata o emblemático quadro “Os Emigrantes” de Domingos Rebelo, indelével símbolo identitário.

Na Festa deste ano, duas presenças ilustres chamam a minha especial atenção por sua reverência aos valo­res culturais entrelaçados e vivenciados na celebração do Senhor Santo Cristo dos Milagres. A participação do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, integrando a solene Procissão por 5 horas até o seu final ao pé do Santuário da Espe­rança, num sinal inequívoco de respeito às tradições do povo açoriano e a do Bispo de Fall River, Dom Edgar Cunha, presidindo, pela primeira vez, às Festas do Senhor Santo Cristo. Gostei muitíssimo de saber que o senhor Bispo é brasileiro e baiano. Da Bahia, onde o Brasil começou. Terra do ritmo gostoso do axé, da arte e de escritores que dão cor e sabor a nossa literatura. Terra impregnada de religiosidade e fé abençoada pelo Senhor do Bonfim.

Aiii! Meu Senhor Santo Cristo! Nada na vida é por acaso... No momento em que o querido Brasil e os milhões de brasileiros, moídos na sua dignidade, precisam tanto da Tua misericórdia vejo, na palavra pastoral do brasileiro Dom Edgar, um sinal do Senhor da Esperança. Sua mensagem pacificadora exorta a importância da vivência da fé a ser alimentada e levada à frente como uma bandeira, no abrir o coração e no inquestionável reconhecimento da presença de Deus no entrelaçar de todas as culturas. 

Não pode reinar a desesperança para nossa gente que tão somente clama por justiça e pelo direito de viver a felicidade do hoje e sem medo do amanhã. Há de ter uma bendita saída! Porque bem no fundo do túnel brilha a luz – esperança de vida – para onde todos se movem pela força da fé.