O Brasil de milhões de brasileiros

 

Da última vez que estive nos Açores, os primeiros Ranchos de Romeiros já começavam a circular pela ilha de São Miguel. No domingo, dia 5, retornava do almoço com os amigos Urbano e São Bettencourt, quando surge um grupo de Romeiros, a passos rápidos, indo em direção do Campo de São Francisco. Nem parei pra pensar e saí a correr em disparada pela Rua Marquês da Praia e Monforte até chegar ao jardim do Convento de Nossa Senhora da Esperança, onde em 1861 o poeta Antero de Quental pôs fim a sua vida. De longe, fiquei observando-os, ajoelhados junto às grades da igreja de São José, sem se darem conta da chuva fria e miúda que caía devagar como uma benção. Homens, velhos e jovens, unidos numa caminhada de meditação e penitência.

Fotografei-os naquele cenário pensando em escrever sobre as Romarias Quaresmais, nos mais de 50 Ranchos que nessa época do ano percorrem a Ilha de São Miguel, numa comovente tradição de fé que remonta ao século XVI.

O fato da tradição dos Romeiros de São Miguel não ocorrer no litoral catarinense comprova a crença de que poucos micaelenses participaram da grande epopeia do Século XVIII. Com certeza, um bom “gancho” para escrever uma crônica retratando a singularidade dos Romeiros e as nossas tradições da Semana Santa, quando a Ilha de Santa Catarina se veste de roxo e o Senhor Jesus dos Passos sai em procissão pelas ruas de Florianópolis. Uma caminhada de 251 anos, uma multidão de fiéis, sob o manto da fé, em oração e promessas. A Procissão do Senhor Passos, Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina e do município de Florianópolis, é mantida pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, fundada em 1765, pelo madeirense Padre Marcelino de Sousa e Abreu e os açorianos Tomás Francisco da Costa, Manuel de Sousa da Silva, Manuel de Medeiros e Sousa, Manuel Vieira Maciel e André Vieira da Rosa.

Não há como não reconhecer o maior significado das duas manifestações, o valor religioso e cultural para a população das ilhas – São Miguel e Santa Catarina.

Pretendia encerrar a tal crônica falando na celebração Pascal, detendo-me na representação simbólica de fénix a renascer da morte para a ressureição da vida e nas tradições populares do “coelhinho e seus ovos de chocolate”, fazendo um passeio afetivo pela memória da infância a recordar o encantamento dos domingos de Páscoa. 

Contudo, nada escrevi... Deixei passar todos os bons e doces motivos que a época litúrgica e a cultura ensejavam como, por exemplo, a montagem da maior árvore de Páscoa do mundo, segundo o Guinness Book, em Pomerode, no Vale do Itajaí, – a Osterfest, com 82.404 cascas de ovos de galinha pintadas e penduradas nos seus galhos, uma tradição dos imigrantes germânicos. Ou, ainda, a deliciosa profusão de chocolates, de todos os tipos e sabores, espalhados pelo comércio, numa verdadeira tentação em dose múltipla.

O fato é que não consegui esquecer a notícia divulgada, dias antes da chegada do coelhinho, de que a palavra “chocolate”, despida de toda gostosura, fora usada como senha, passwords para o dinheiro da corrupção: “Vim pegar meu chocolate”. “Trouxe o chocolate?” “Vai um chocolate, aí?”. O Brasil saqueado e distribuído como um insuspeito “chocolate” – o alimento dos deuses. Que ironia!! Infelizmente, a nossa faceirice capitulou diante da pátria mãe cansada de tanta corrupção, aviltada por inimaginável cleptocracia, subtraída em tenebrosas transações, parafraseando versos do antológico Vai Passar de Chico Buarque. Um rolo compressor decorrente das delações dos executivos das empreiteiras Odebrecht e OAS na semana que antecedeu a Páscoa, na maior delação da história do Brasil, cuja dimensão ainda não se pode mensurar. No entanto, espelha o imenso lamaçal que atola o País e não é de hoje.

A operação Lava-Jato revelou o quanto tudo era corrompido na vida pública nacional e de forma tão generalizada que resultou na abertura de inquéritos contra 108 políticos de diferentes partidos e ideologias. “A Lava-Jato nos mostrou que todas as tendências partidárias e correntes ideológicas estão unidas no crime,” afirmou a Veja, em recente entrevista, a atriz Fernanda Montenegro, a dama do teatro o brasileiro. Certíssima! Surpreende-nos a profundidade da sangria da corrupção no Brasil. Bilhões de reais remunerando “o poder” em todas as esferas: de quem sonhava tê-lo, de quem usufruía as benesses do passado e de quem exercia o poder por delegação democrática do voto. A divulgação da espantosa lista do Ministro Luiz Edson Fachin provocou o desmantelamento de toda essa enorme operação criminosa, escancarando a promíscua relação do “toma lá dá cá”, a cooptação financeira de parlamentares e gestores públicos. No rasto da devastação moral e ética, um cenário de terra arrasada e uma população atônita que tão somente clama por políticas públicas que melhorem o seu viver.

Espanto. Raiva. Decepção. Tristeza. Vergonha. É impossível não sentir. São sentimentos que machucam o coração do brasileiro, mas não podem minar a sua esperança. É preciso acreditar que toda essa descoberta avassaladora permitirá avançar na escrita da nossa história, derrotando com­portamentos cristalizados, rompendo paradigmas da impunidade, corrigindo percursos e finalidades e promovendo uma mudança estrutural e cultural do processo político, sob a rigorosa aplicação da lei – afinal, o brocardo latino Dura Lex, sed Lex no seu significado irrestrito e amplo é o que se quer e se deseja para o futuro do País.

O arremate final desta crônica fica mesmo por conta de uma questão levantada no Facebook por José Ávila, açoriano da Ilha Terceira e editor do Tribuna Portuguesa (Modesto,Ca): “Será mesmo que o Brasil do samba é todo uma pantomina de corrupção?”

– Não, é não, senhor José...

O Brasil do samba enterra a tristeza para viver a magia do Carnaval. Por uma semana deixa tudo para trás, das crises do cotidiano aos escândalos políticos, agora desvirginados pela Lava-Jato. Até a nossa fé desfila na avenida como fez a Unidos de Vila Maria, em São Paulo, no enredo à Nossa Senhora Aparecida –a rainha do Brasil e a Estação Primeira da Mangueira que lá, no Rio de Janeiro, fez ferver a Sapucaí sambando “Só com a ajuda dos Santos”. Este Brasil vive intensamente todos os instantes como o puxador de um samba enredo – sem deixar o samba cair.

O Brasil do samba é aquele que povoa os sonhos de milhões de brasileiros que trabalham o ano inteiro na construção da nação. É o Brasil arquipélago, centenas de ilhas espalhadas pelo vasto território, 208 milhões de caras, gente que a vida ensinou a olhar o verde nacional como um mar de esperança infinita. Um povo que tem o direito de viver com dignidade e de ser feliz no seu País.

 

Lélia Pereira Nunes

Da Academia Catarinense de Letras