O Escritor SAINT- EXUPÉRY o “ZÉ PERRY” do Campeche

 

Uma faixa de planícies, restingas, dunas, lagoas e praias que se estende por 3.800 metros, ocupando uma área de 1,21 km2 “entre-mares”, a sudeste da Ilha, compreende a localidade de Campeche, que poten­cialmente desfruta de uma das mais belas paisagens naturais da Ilha de Santa Catarina. O distrito Campeche (Morro das Pedras, Praia do Campeche, Rio Tavares, Fazenda do Rio Tavares), abrange uma área total de 35,32 km2 e apresenta o maior número de novos habitantes no Sul da Ilha, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Censo de 2000, a população era de 18.570 habitantes. Dez anos depois, aumentou para 30.000.

No aspecto histórico-cultural, Campeche sobressai por seu interessante patrimônio arquitetônico, pro­te­gido por Lei Municipal: o conjunto formado pela igre­jinha de São Sebastião do Mato de Dentro, o Império do Divino Espírito Santo e a Santa Cruz, que não obstante ter  traçado singelo, ganha relevância por ser  marco significativo da fundação do povoado. Segundo os registros da tradição oral, a Igreja de São Sebastião foi construída por uma abastada família da região, muito provavelmente a de Miguel Tavares, revelando a origem luso-açoriana do arraial de lavradores e pesca­dores que aí floresceu.

O distrito de Campeche passou por um processo de reorganização espacial e social decorrente da grande explosão imobiliária, a partir dos anos  80 do século passado, recebendo novos moradores, migrantes nacio­nais e platinos, trazendo alterações nas formas tradi­cionais de viver da comunidade que, por muitas gerações, viveu unicamente da cultura de subsistência do café, do amendoim, do feijão, da mandioca e da pesca. Tais alterações não apagaram valores culturais sobreviventes de uma cultura de raiz açoriana. Valores que estão bem vivos como o artesanato da renda de bilro, o manejo da terra, a lida na pesca, a linguagem, as cantorias, as crenças, os hábitos do cotidiano, as festas populares, a religiosidade e a Festa do Divino Espírito Santo, sua tradição mais vívida.

A comunidade de Campeche guarda na memória a história do aeródromo construído pela Compagnie Générale Aéropostale e utilizado como escala técnica obrigatória na rota Buenos Aires – Rio de Janeiro –Toulouse, do som barulhento dos aviões da Latécoére, em vôos noturnos, aterrizando com a ajuda providencial de lampiões acesos no morro Caboclo, hoje do Lampião e, sobretudo, da passagem do jovem piloto e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) autor de “Correio do Sul”, “Vôo Noturno”, “Terra dos Homens”,”Piloto de Guerra” e do carismático “O Pequeno Príncipe” que o imortalizou.

De 1929 a 1931, o “Zé Perri,” como era conhecido pelos pescadores locais, em suas inúmeras escaladas no Campeche conviveu com o universo do pescador ilhéu partilhando seus hábitos, a pesca e suas cantorias. Uma lembrança perpetuada na memória histórica e cultural do Campeche, na denominação da Avenida principal do Distrito que leva o nome da obra mais conhecida de Saint-Exupéry “O Pequeno Príncipe”. Uma lembrança partilhada e documentada pelo escritor e seus compa­nheiros da Aéropostale como na passagem citada por Saint- Exupéry no livro “Vôo Noturno”(1931) ou na carta escrita por seu amigo Léon-Paul Fargue, em que revela: “Quantas noites eu passei a esperá-lo, nervoso e tenso, não que ele sempre estivesse atrasado, mas porque eu sabia que estava em Florianópolis ou em Ciranaica, e o rádio nada nos dizia sobre o regime de seu motor” (Souvenirs de Saint-Exupéry, 1945).

No ano de 2000, no dia 29 de junho, data come­morativa do centenário de nascimento do piloto-escritor, o suboficial da aeronáutica, músico, maestro da Banda Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão da Ilha e pescador, Getúlio Manoel Inácio, apresentou o livro Deca e Zé Perri, onde narra a amizade entre seu pai, o pescador Rafael Manoel Inácio- “seu Deca”, e Antoine de Saint-Exupéry – o Zé Perri. Um minucioso registro de estórias e depoimentos publicados numa singela edição bilíngüe (português-francês) que resgata e restabelece fatos guardados na memória coletiva da comunidade sobre a passagem pela Ilha de Santa Catarina do escritor e aviador francês bem como a sua amizade com o humilde pescador do Campeche.

Naquela época, os aviões tinham pouca autonomia de vôo e as dunas gramadas do Campeche eram pouso obrigatório das linhas que transportavam correio aéreo na rota Paris-Dacar-Rio de Janeiro - Buenos Aires-Toulouse. As paradas serviam para revisar e reabastecer as aeronaves e para que os pilotos descansassem. Assim nasceu a amizade entre o pescador Rafael Manoel Inácio, o Deca, e o aviador Saint-Exupéry, chamado de “Zé Perri” por ele e os outros moradores do Campeche, que não conseguiam pronunciar o nome francês. Eram jovens. Deca tinha uns 20 anos e Exupéry 27.  O ilhéu ensinou o piloto-escritor a capturar e a preparar peixes que eles faziam ensopados e comiam com o pirão d’ água (preparado à base de caldo de peixe e farinha de mandioca), a conviver com os costumes praieiros da­quela gente simples e hospitaleira.

Há setenta e três anos, no dia 31 de julho de 1944, o piloto Antoine de Saint-Exupéry levantou vôo de Bastia-Borgo, na rota Córsega para Grenoble,para um voo de reconhecimento, a sua última missão, durante a II Guerra Mundial. Jamais voltou. Seu avião, um Lockheed Lightning P-38  desapareceu sobre o Mediterrâneo, perto da ilha de Riou, ao largo da costa de Marselha. No ano de 2003, três anos após as comemorações do centenário de nascimento de Saint-Exupéry, o arqueólogo marinho Luc Vanrell achou os destroços do seu avião. A pista para sua localização foi uma pulseira, com a inscrição “Antoine de Saint-Exupéry”,  encontrada presa na rede do pescador Jean-Claude Bianco, em 1998.

A vida do escritor Saint Exupéry terminou naquele voo de 1944. Ficou o mistério tal qual o desapare­cimento do “Pequeno Príncipe”,o querido personagem de seu famoso livro publicado em 1943 – “Vai aparecer que estou morto,mas isso não é verdade [... ]“Eu sei bem que ele retornou ao seu planeta, pois, ao nascer do dia, não encontrei seu corpo. Não era um corpo tão pesado...”

Com certeza, neste 31 de julho que passou, a memória do escritor francês foi lembrada por leitores, aficionados e estudiosos da obra de Saint-Exupéry, em especial “O Pequeno Príncipe”,ícone da cultura pop mundial. Traduzido para 280 idiomas, teve mais de 150 milhões de cópias vendidas, tem sido tema de inspiração de inúmeras peças de teatro, canções, adaptações para o cinema e televisão, documentários e exposições. Na Ilha de Santa Catarina, numa comunidade de pescadores, em tempo de Festa do Divino Espírito Santo, o aniver­sário de morte de Saint-Exupéry será reverenciado na saudade do amigo que um dia aqui passou e partiu levando um pouco do ser ilhéu e deixando muito de si entre as dunas e o mar verde do Campeche.

Quem sabe não estará a sorrir numa estrela no céu da Ilha?