A Literatura dos Açores

 

 

“Este dilema ganha especial acuidade no

 âmbito da criatividade açoriana, uma  vez que,

sendo  geograficamente as nove ilhas que somos,

somos quem somos também enquanto herdeiros

duma tradição. Não podemos renegar essa tradição

sem nos negarmos a nós mesmos.”

 

José Martins Garcia

In: Para uma Literatura Açoriana, 1987

 

 

Existe uma literatura açoriana? Existe. Uma literatura produzida nas nove ilhas e para além do espaço insular. Por territórios dispersos pelo mundo, nas comunidades da diáspora açoriana. Uma literatura alimentada pelo espaço arquipelágico e pela alma açoriana – o animus – que a identifica.  

Contudo.... Ainda há controvérsias. São vozes, em geral, estranhas no ninho, empenhadas no policiamento da atividade literária, na emissão de opiniões críticas acerca de uma literatura assentada na história cultural de um povo, na geografia, na arte, no registro de sua memória coletiva, no imaginário, nas vivências do homem no seu meio. Propagam a inexistência dessa literatura, negando a sua personalidade identitária. Uma literatura que traz tatuada o seu caráter inigualável, as diferenças culturais e as suas especificidades de mundividências, além das que gravitam a literatura nacional.

Para alguns, estará perto da blasfêmia aquele que argumentar a favor da vertente regionalista cåomo tema literário em direção ao universalismo. Enquanto Miguel Torga, em certeiro aforismo, afirma que o universal é o local sem paredes. O que me faz lembrar o admirável escritor Guimarães Rosa que, num estilo todo seu, reinventou o nosso vernáculo criando palavras novas ou fazendo emergir outras em desuso. Sua linguagem não se subordinou aos cânones da escrita em vigor. Culto, elegante, esteta, ético e regionalista. A crítica mordaz e sempre “de plantão” condenou veemente o seu regionalismo excessivo. O mundo leitor aplaudiu a sua prosa genial, encantado com a exuberância de Sagarana, com a rapsódia poética dos contos Com o vaqueiro Mariano, as estórias sertanejas de Manuelzão e Miguilim e o romance passional de Riobaldo e Diadorim no monumental Grande Sertão: Veredas. Sua obra extraordinária causou verdadeira revolução na literatura brasileira. A douta crítica foi desengolindo a sua desinformação, enquanto Guimarães Rosa com sua obra literária magnífica, incomparável e universal permanece ad immortalitatem.

Vale contar o triste exemplo de Santa Catarina, onde a intolerância de alguns doutores forâneos chegou ao ponto de banir a disciplina de Literatura Catarinense da grade curricular do curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC. A justificativa é que não haveria uma literatura com características tão próprias e distintivas. Sendo parte da literatura brasileira não fazia sentido diferenciá-la do todo nacional. Como não?

A Literatura dos Açores ou a dos Açorianos é um fascinante conflito entre o desejo de fuga e o de ficar e dar a conhecer a sua identidade.  Uma literatura que retrata a visão histórica e a cultura da sua gente, que desenha  geografias reais ou imaginárias, traçando rotas de distanciamento ou de aproximação do mundo insular. No palco armado, entre o drama e a comédia, personagens transitam livremente por arquiteturas da memória ou por labirintos da arte da palavra de cada autor, seja na ficção, na poesia ou mesmo no ensaio, sempre em intimidade com a condição de ser ilhéu e de viver o forte sentimento de pertencimento – “nossas ilhas”.

Nos últimos 30 anos  tenho seguido, mais ou menos de perto, a vida cultural açoriana e mergulhado na leitura de autores que são cânones da literatura açoriana, dignos de um prêmio Nobel de Literatura e de vozes jovens e criativas, uma nova geração de escritores e poetas que fazem a diferença com sua obra marcada pela açorianidade e pelo poder da palavra escrita, inquieta, aberta para as mudanças sociais deste século que os viu emergir tal como estrelas no céu insular, assegurando a tradição literária secular que vem desde Gaspar Frutuoso com o monumental Saudades da Terra, Antero  Quental e a incomparável obra poética Os Sonetos Completos ou desde Vitorino Nemésio com o romance Mau Tempo no Canal e a carismática e intensa Natália Correia e a dimensão mágica de sua obra poética.

As minhas maiores influências e referências intelectuais açorianas vêm dos escritores Onésimo Teotónio Almeida, Urbano Bettencourt e Vamberto Freitas. Sou leitora assídua de tudo que escrevem e aluna dedicada. É a eles que sempre recorro para sanar as minhas dúvidas e incertezas. É neles que (re)encontro  mundividências e procuro perceber o estado de ser e estar dos ilhéus. Este imenso corpo de Ilhas. 

Mais do que tudo, devo aos três escritores contribuições valiosas para o entendimento do processo literário açoriano nos aspectos de natureza histórica e na compreensão de uma “estética da territorialidade”, conforme Vamberto Freitas em A Ilha em frente (1999).

Recebi o novo livro de ensaios do Onésimo Teotónio Almeida: A Obsessão da Portugalidade – Identidade, Língua, Saudade & Valores. Já escrevi sobre sua espantosa e diversificada obra, um todo indissociável e visível sob diferentes gêneros e matizes. Em A Obsessão da Portugaldade o pensador Onésimo leva-nos a refletir sobre a identidade nacional e a cultura portuguesa, a língua e mundividência, saudade, valores e mudanças culturais. Defende que Portugal sofre de excessiva identidade e a alimenta-a com sentimentalismo e saudosismos. Muitos são os autores que se dedicam ao estudo da identidade ou à sua invenção (alguns à reinvenção).

Onésimo vai fundo e desvenda os emaranhados da debatida “questão da identidade” com conhecimento de causa, o sentido de humor que lhe é peculiar, a clareza de ideias, a escrita limpa e envolvente, saborosa mesmo, mantendo o leitor  vivamente interessado na sua leitura.  Mas, não se trata de “ensaios em mangas de camisa”, numa roupagem leve e pícara.  O conjunto de ensaios é um verdadeiro curso sobre Identidade com rigor conceitual necessário para o entendimento do termo e tudo que incorpora. Ao remate, como Onésimo bem demonstra, o termo hoje incorpora um complexo de realidades em simultâneo. Todavia, ainda que mudasse de nome, não deixaria de existir.

Urbano Bettencourt escreve muito e bem, em todos os gêneros, poesia, ficção, ensaios, numa escrita irretocável e num estilo ímpar a interligar autores e épocas em ensaios de profundo conhecimento teórico e prático. Ao longo dos anos, Urbano apresentou-me nomes ícones da literatura açoriana, vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações, na expressão poética e ficcional da realidade ilhoa, levando-me a uma “viagem para dentro”, por geografias culturais e a um espaço historial comum.             O seu novo livro O Amanhã Não Existe é constituído essencialmente por sua tese de doutorado, defendida na Universidade dos Açores. Uma preciosa e bem documentada análise da inquietação insular e sátira presentes na narrativa de José Martins Garcia. Traços relevantes na obra ficcional do seu conterrâneo da Ilha do Pico e também presentes fortemente na obra de Urbano como a questão da existência ou não da Literatura Açoriana, tema do primeiro capítulo do livro, sob o título Literatura Açoriana: Um sintagma, um conceito. Os outros capítulos enfocam a “permanência e errância” e “os modos de sátira”. Urbano traça uma extensa análise da obra de Martins Garcia e do que se tem escrito sobre o tema em diferentes momentos e contextos.

O próprio Urbano, como ensaísta e crítico literário,  debruçou-se com um rigor meticuloso de estudioso (e fervor) sobre a Literatura Açoriana, a palavra escrita por insulares. Na revista Grotta, n°2, dirigida por Nuno Costa Santos, edição de dezembro/17, Urbano contribui com um ensaio que é uma deriva por textos e autores insulares sobre a relação entre o homem, o espaço, a história e a cultura: “Insulares - fragmentos e derivas”.

O Amanhã Não Existe, na sua linguagem clara, na prosa instigante, no senso de humor aguçado, adentra o leitor na literatura de um povo e na sua visão do mundo além da fronteira do mar que o abraça, por terras da emigração. A qualidade na escrita ensaística faz de sua leitura um prazer. Uma produção literária que a partir de um punhado de ilhas no meio do Atlântico também se torna universal, basta “cantá-las”. Na prosa poética, “Ser ilhéu – e salvar-se pelos livros” (publicada na antologia A Condição de Ilhéu ), Urbano Bettencourt entende o ilhéu como: um homem sobre  um rochedo, rodeado de mundos, imaginados, concretos, por todos os lados. E sem sentir que deva pedir desculpa por isso, seja a quem for.

Vamberto Freitas é um dos mais respeitados críticos literários da literatura açoriana de Portugal e das comunidades da diáspora nos Estados Unidos, Canadá e na margem de cá, no Brasil. É um pensador da cultura, seja como crítico literário, seja como escritor de ensaios alentados, a descrever tintim por tintim os processos históricos, a falar de mudanças culturais e sociais que emergem por todas as latitudes com uso corajoso da palavra frontal, sem amarras, comprometida apenas com a condição humana.  Ensaios que evidenciam os aspectos estéticos e éticos da produção literária.  Textos de grandes questionamentos, inquietações sísmicas em diferentes gradações no tempo e no espaço. O fato é que mexem com o nosso jeito de pensar, confronta-nos, desafia-nos e nos faz refletir a partir de cada texto, sob o seu olhar atento ao que se produz no universo insular, no alargamento do território cultural açoriano e na amplitude das margens atlânticas de norte ao sul. Intelectual brilhante faz da sua pena uma ferramenta de fomento e difusão das literaturas dos Açores e a Luso-americana, sem qualquer fronteira a limitar ou diminuir literaturas, ambas vindas ou intimamente associadas as duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, esclarece Vamberto. 

À sua mais de uma dúzia de livros publicados soma-se a coletânea  borderCrossings : leituras transatlânticas 1, 2 e 3, constituída de artigos publicados na coluna homônima do Açoriano Oriental. Acaba de sair o número 4 em continuidade a este relevante projeto crítico e ensaísta.  Todos, como de resto de sua obra, seguem as mesmas linhas temáticas – literatura e sociedade, ou como a arte reflete o nosso cotidiano e como os escritores se posicionam ante as mudanças inexoráveis do nosso tempo que atingem os indivíduos e a própria comunidade. Conhecido pela severidade e disciplina no seu métier, não consegue conter o seu entusiasmo diante de um ótimo livro. Apaixona-se e contagia-nos. Leva-nos de roldão à sua leitura. Emociona-nos como no sentido “Memória em silêncio” com a presença indelével de Adelaide, no BorderCrossings 3, ”(p.89-92).

Por tudo que se lê nas suas incontáveis Leituras Transatlânticas, comprovam-se a complexidade das interações com que se escreve e a importância da memória individual na construção da memória coletiva. Toda a literatura é memória e a crítica é também a memória de quem a escreve, afiança Vamberto Freitas, que em Fronteiras Íntimas, prefácio de borderCrossings, leituras transatlânticas 3, ensina-nos: a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos.