Carta para Daniel de Sá

 

 

Caríssimo amigo Daniel,

Estou a caminho da Ilha do Arcanjo, como gostavas de dizer, para celebrar o teu aniversário num grande encontro em torno de ti e dos Açores que tanto amas. Claro, que o nome “Encontros de Daniel de Sá” é em tua homenagem. Há três anos e nove meses, numa ma­nhã de maio, lamentávamos a tua partida demasiado cedo. Inventaste de “fazer uma longa sesta”, escrevia a toda gente um pesaroso Onésimo, o “nosso” amigo do Pico da Pedra, e hoje, cidadão do mundo. Ficamos órfãos do teu saber, da palavra sempre pronta, da ternura de atitudes, da tua amizade. O cirandar imparável do tempo não apaga os registros inolvidáveis da tua lembrança e, muito menos, não mata a saudade da tua presença.

Ah! Que bom seria se pudesse te enviar um whatsApp!  Esta conversa “da hora” de contínuo vai-e-vem não teria fim. Com certeza, a esta hora, já saberias que hoje, dia do teu aniversário de 73° anos, vou ao teu encontro. Vou estar ao lado escritor Eduíno de Jesus – o senhor dos “Silos do Silêncio”, mui amado amigo e mestre numa mesa sobre a tua criação literária e não só, durante o “Encontros Daniel de Sá” que decorre na Ribeira Grande.

Daniel vou mergulhar no oceano de teu saber que se derrama pelo mundo cultural desde a Maia, reverenciar a tua escrita de respeito à condição humana e de amor à terra, desvendando-lhes a alma, gravando verdades ou, simplesmente, contando histórias - retratos da vida real - harmonizando-as com o tempo que passa, com a inesgotável memória, teu universo ficcional.

Não vou deixar escapar nada... Lembrarei o nosso encontro na Maia, testemunhado pelo Urbano Betten­court, em junho de 2004. Eu tagarelava e perguntava sem parar e tu respondias paciente, secundado pelo Urba­no que, para meu espanto, não economizava as palavras, espirituoso e perspicaz dando sabor ao gostoso “cavaquear”. O encontro na Maia selaria uma amizade que durou até a tua partida. Uma amizade que abriu horizontes inimagináveis, que trouxe novos amigos – quase uma irmandade (para não usar o termo da moda – “rede social”).

Ah! Daniel de Sá fizeste dos Açores e da Maia, em particular, o espaço de revelação da memória na tua escrita, onde o mundo real e o universo ficcional se en­con­tram. Está tudo ali: as lavas vulcânicas, novelões de hortênsias, elegantes criptomérias, o doce néctar das conteiras, o verde garrafa do campo lavrado, as pastagens povoadas de vaquinhas “felizes” em preto e branco, o imenso mar circundante, paisagens maravilhosas e úni­cas como o Miradouro da Iria – espaços de eleição de tua criação. Homem, eis a tua marca identitária incon­teste!

Tu que dizias que eu era boa no “despiste”, vou já dar um ponto final nesta carta, que já vai comprida... como a esperança de brasileiro. Achas um tempinho aí para leres? Se bem que tempo de sobra ou de falta dele nunca foram desculpas para ti. Estavas sempre pronto para ouvir, ler, opinar. Foste pródigo no estímulo à escrita iniciante, ao reconhecimento do valor da produção literária do outro.

Todavia, encerro com um despiste imenso, do tama­nho do Brasil que tanto amavas, enviando estes dois belos textos da tua lavra criativa que merecem o amanhã e o louvor de todos nós.

Referencio o teu amor pelo Brasil, sobretudo, pela aço­ria­na  Santa Catarina, no Sul do Brasil. Poucos tributaram um amor tão grande por nossa terra Catarina e a Ilha de Santa Catarina - que tu teimavas em dizer que não era Ilha de verdade – ter o continente à distância de uma ponte não é viver numa ilha a sério:

                                                                        

O meu Brasil português

(1° de Maio de 2008)

O Brasil da minha infância era: “Amazonas, Manaus; Pará, Belém; Maranhão, São Luís; Piauí, Teresina; Ceará, Fortaleza...” A voz de minha mãe recitando como um poema. Ensinara-lhe a escola, mais de um século depois do “Fico”. Remorsos do colonialismo ou saudades do Império?

O Brasil da minha infância tinha Oscar Niemeyer plan­tando uma cidade no mato. Millôr Fernandes e o Amigo da Onça. Rachel de Queiroz na última página. Vasco da Gama campeão. Fla-Flu, e Palmeiras, 1 – Corinthians, 1. Seu Mané Garrincha que ainda era do Botafogo antes que o Botafogo fosse de Garrincha. O Brasil da minha infância não era dos coronéis. Depois foi e ficou mais triste. E “O Cruzeiro” também. Só o Zé Carioca conti­nuou feliz e fazendo felicidade. E eu sempre escrevi o ditado escapando ao castigo da D. Úrsula. Porque não me esquecia do “c” dos “factos”. Hoje é que os doutores pensam que a gente é burra e querem mudar as “ortoleis” da “heterografia”, para não errar. Se a D. Úrsula fosse viva, iria ao ministério e corria todos à reguada. Cinco vezes por cada palavra trocada, duas por cada acento em falta.

O Brasil da minha infância cresceu comigo. Continuou a ter o povo dos cafezais de Portinari, mas também o povo de Zumblick porta-bandeira do Divino. Porque foi ficando cada vez mais a sul. Até ao pampa que a gente por cá diz “as pampas”. Com castelos do Assis Brasil e rios que têm as margens imóveis. Com o vento da Lélia Nunes. Aquele vento Sul que fazia travessuras nas saias das meninas. E os rapazes à espreita, à espera de revelações.

O Sul onde há saudades da ilha. Da ilha dos Açores, que são nove. E Santa Catarina imagina-se também ilha, só para ser mais parecida à Terceira ou a São Jorge.

Ficaram por aqueles fundos do Brasil o Espírito Santo e falas da ilha que são nove. Um Divino com sotaque tro­pical e vozes com requebros de tons rubros. E a gente pasma: como Deus é grande! Bem disse Eça de Queirós que o “Brasil brasileiro” tinha tudo de bom e tudo de menos bom que os nossos avós levaram consigo. Só não sabia que Deus é brasileiro também. Mas Eça não podia saber tudo.

Ficou-nos esta sina de permanecermos unidos. De ter­mos a mesma lágrima quando o escrete perde ou quando o Brasil ganha. Porque somos irmãos. Até pusemos no dicionário palavras antes só ouvidas nos matagais guaranis ou nos sertões tupis.

Continuamos por cá. Entre mar e céu, entre marés e montanhas. Divinos, quase. As coisas ou nós? Tudo. Uma espécie de panteísmo pressentido. Desde o “cagarro” de Santa Maria ao “manezinho” da Ilha. Até à ilha outra, e até quase ao sul de todo o Sul, em Porto Alegre, cidade do Rio Grande.

Vocês continuam por cá. E nós estamos aí. Daniel de Sá.

 

E este DECRETO, deliciosamente único e apaixo­nado, de 6 de Abril de 2007, exarado há dez anos e valendo para todo sempre...

Determino que, em nome do El Rei Carlos Manuel Martins do Vale Cesar, o cidadão e homem de muitas letras, sábio, mestre, amigo de fé e leal súdito  Daniel de Sá seja levado a ferro para a Ilha de Santa Catarina, sem qualquer bem de si a não ser o único de valor eterno: sua Calie. Por lá fique  a dar gloria ao senhor El Rei Dom João V (?) por ter despachado em boa hora 6000 ilhéus açoriana que resultou em gente tão bonita, habitante da dita Ilha que leva o nome da sábia santa de Alexandria.

Só poderá retornar a República da Maia, Ilha de São Miguel, Açores, depois de:

 Tomar caipirinha e comer peixinho frito (papa terra), sábado pela manhã, no bar do Alvim, no Mercado Público e participar da roda de samba com a nêga Tide e o Nenê Maravilha;

 Dar três voltas na figueira da Praça XV de Novembro, para assegurar o amor de Calie;

Carregar o andor do Senhor dos Passos,

Passar a Ponte Hercílio Luz a pé;

 Levar o “Curió” (na gaiola claro) p’ra passear e tomar “sóli”;

Escolher se vai ser um sofredor torcedor do Figuerense ou um feliz azul e branco “rachado” pelo Avaí;

Sair no bloco de sujo “Berbigão do Boca” no Carnaval vestido de “muié”;

Desfilar na Passarela “Nêgo Quirido” ou pela Pça. XV na E. Samba Protegido da Princesa;

Tocar na Filarmônica Desterrense ou na Zé Pereira do Ribeirão;

Aprender a escalar uma tainha ou comer lá no Aran­tinho a tal tainha com pirão d’água em fio de “nailon” cum cachacinha da Coxxta de Dentro, num tem? (não esquecer de “chupar” laranja depois da peixada).

Participar na Quaresma da Farra do Boi na Praia do Santinho sem agredir o animal;

Aprender olhar o céu, o mar e a lua e saber se vai cho­ver, se o mar tá bom p’ra peixe, se vai cair Vento Sul;

Não esquecer de ir a 3 de maio a Festa da Santa Cruz na Praia do Saquinho, na Ponta dos Naufragados, e rezar a ladainha em “latinorium”; (lá servem cozido e de sobremesa o tal arroz-doce!!!)

O Danielzinho, êsse minininho corisco terá que apren­der a falar cantado, rapidinho, chiando, engolindo a sílabas e de preferência no diminutivo, viu neguinho?

Jogar conversa fora, contando causos seus e dos “zou­tros” filosofando... lá no Senadinho, no calçadão da “Filipi Schimiti”. Discutir política, problemas da Ilha, da Estado e do Brasil, os mandos e dismandos, saber um pouco de tudo e de tudo um pouco, mas sem se aprofundar muito, né? Sabis cumu é?

Jogar dominó na Praça enquanto espera a fornada de pãozinho d‘água da Padaria do Polli;

Fazer tapete com serragem tingida, pó-de-café, tampi­nha de garrafa coberta com papel prateado e flor de arueira na procissão de Corpus Christi;

Comer com fé o “pãozinho” do, da Festa do E.Sto., alí na Praça dos Bombeiros;

Fazer a “lavação” do carro depois de ir a farinhada no engenho dos Andrade, comer “cuscuz” acompanhado de “concertada”, lá no Caminho dos Açores, em Santo Antônio de Lisboa;

Saber chegar na Praia do Matadeiro, na Armação, seguindo a orientação: “dobra às ixquerda na servidão, cambra pra às direitaxx e vaiii toda vidaaaaa.... por essa luz que me alumeia, é logo aliiii;

Acreditar em bruxa e ir na costa da Lagoa de baleeira se benzer com a “ti Malvina”

Apreciar a Lua Cheia bem abraçadinho da Callie lá no Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição escutando  o Jorge Coelho cantar “Paixão Açoriana”;

Tomar açorda em noites frias, ouvindo o chiado do vento Sul enquanto lê Poemas Completos de Cruz e Sousa; 

Deverá se  instalar  numa cadeira de praia, abrigado do sol (na moleira)  de preferência na Praia Brava ou Mole admirar a “açorianidade brejeira e brasileira” das filhas de Eva e dar Graças ao Senhor pela beleza da paisagem; 

Só então poderá retonar às margens de lá... levando no coração a saudade e a certeza de que conheceu uma gente feliz com o lugar onde nasceu e com o sangue que carrega nas veias mesmo passados 260 anos.

Cumpra-se, pois...

Querido Daniel, lá na Ribeira Grande, à convite da Associação Daniel de Sá, vou botar a minha palavra sobre a tua arte literária. É a minha singela  homenagem por todas as palavras ditas e por todas as palavras que escritas e que ficam como farol do saber  a iluminar  a nossa lavoura futura no mar.

Um grande e saudoso abraço. Até um dia...

Lélia