Passou o orçamento e a democracia

 

O debate do orçamento preencheu-me a maior parte da passada quarta-feira, sendo a preocupante situação económica do país no terceiro trimestre deste ano, através de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, a temática que mais me chamou a atenção, sobretudo perante um cenário de rejeição ao novo programa do governo de Portugal por parte das bancadas do PSD e do CDS-PP.

O facto da economia do país ter estagnado no terceiro trimestre de 2014, com um crescimento de zero por cento, mantendo o PIB inalterado, é explicado pelo INE com o facto de ter sido registada uma diminuição do “contributo positivo da procura interna”, “refletindo a desaceleração do investimento e, em menor grau, do consumo privado.”

Ao nível do investimento, é um dado adquirido que o país recuou trinta anos, e que em quatro anos o emprego recuou vinte, e que os níveis de pobreza recuaram dez anos. E perante tais resultados e da dúvida que subsistia sobre a saída, ou não, até final do corrente ano do deficit excessivo, questiona-se com que moral se apresentam ao hemiciclo dois partidos que estiveram coligados em maioria na anterior legislatura, mas agora em minoria, a apresentar  uma moção de rejeição ao programa deste novo governo, com apoio maioritário, sem sequer se dignarem objetar com um programa alternativo. E, sem pretensões mesquinhas, e muito menos partidarites, perturba a postura teimosa destes oposicionistas.

Eram perfeitamente dispensáveis os rostos atingidos de Passos,  zangado e seco como um cepo, e de Portas a rir e a gesticular, patético, com os sequazes derrotados de um lado e do outro, à frente e atrás, a estrebucharem de ódio e a gritarem como miúdos no recreio, interrompendo a toda a hora as intervenções dos governantes e deputados afetos ao governo, porque lhes tiraram o poder, quais meninos birrentos a quem tiram um balão. Absolutamente ridícula esta ingenuidade quase infantil, esta falta de espírito democrático, este só saber lidar com vitórias e não com derrotas, esta postura inadmissível, imprópria de quem representa os superiores interesses do povo e não os egoísticos interesses partidários.

Era suposto e aconteceu. Passou o programa do governo, o sim à renovação e à alternância. Há que saber relativizar o exercício do poder, saber dar lugar a outros, atribuir o benefício da dúvida a outros governantes, não estar agarrado à governação como lapa à rocha.