Mentir está na moda

 

 

A mentira na política tem barbas.

Segundo os historiadores, já Platão comparava a mentira na política ao uso que o médico faz da sonegação da verdade com finalidade curativa. Chamava-se a mentira útil.

Mas desde que Maquiavel escreveu “O Príncipe”, tudo se permitiu.

Ao longo dos anos a mentira política foi-se refi­nando e hoje ela já assume conceitos delirantes na esfera comunicacional, como os famosos “factos alter­nativos” ou a moderna “pós-verdade”.

Entre nós, ela praticamente se vulgarizou no espaço político, com exemplos clamorosos no parlamento nacional, nas comissões de inquérito, em documentos assinados, em SMS ou nos discursos inflamados da nossa inefável classe política.

O que temos assistido nos últimos tempos não é nada saudável para os partidos e para os políticos, habi­tuados a vulgarizar a mentira, sem receio, desca­rado, de virmos todos a perceber que ela tem perna curta.

Mesmo nos Açores, uma região pequena, porque todos se conhecem e onde se acaba por saber tudo, não é fácil apanhar um mentiroso.

Isto porque, em política, a mentira assume, por vezes, foros de trabalhado requinte, não se chegando a mentir por completo, disfarçando-a com uma meia verdade ou escondendo a parte menos benéfica e relevando apenas a parte mais positiva.

Este comportamento, às vezes obsessivo, revela uma patologia de desonestidade, já estudada por inves­tigadores.

O jornal Público publicava há poucos meses um estudo da University College de Londres, sobre estes aspectos comportamentais, onde se diz, basicamente, que “quando não houve benefício próprio com a men­tira, as pessoas podem ter sido desonestas, mas a desonestidade não aumenta. Assim, não basta mentir muitas vezes para mentir cada vez mais. Para que este efeito se concretize, é preciso também que se ganhe alguma coisa com isso”.

A este propósito António Bagão Félix lembrou o velho aforismo popular, “atrás da mentira, mentira vem...”, acrescentando assertivo: “Hoje convive-se com o aldrabão e o vigarista encartados – tantas vezes alcando­rados a tratamento VIP em certos media – com a normalidade de uma opacidade ética traduzida na ignóbil frase de que são todos iguais. Esta frase, repetida urbi et orbi, estimula a infracção e violenta a virtude. É o preço da indiferença e do relativismo éticos. É na indiferença que se alimentam os “girinos” estagiários antes de evoluírem para impostores encartados”.

É neste padrão que temos vindo a assistir a cenas pouco edificantes na política partidária.

Já aqui escrevi sobre a descredibilização da política e dos partidos quando se atiram, sem rede, para a frente, contrariando o humilde reconhecimento de que se enganaram ou fizeram algo que não deviam ter feito.

É incrível o poder desta vulgarização, confirmando a célebre declaração de Hitler, segundo a qual “as massas acreditam muito mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena”.

Esta cultura da mentira, depois ampliada nos media ou nas redes sociais (onde o campo é fértil), é que tornou a nossa política mais desprezível e que já quase ninguém leva a sério.

É assim que nascem os populismos.

A política honesta, a política da reflexão e do debate, a política da aceitação de outras ideias, a política da humildade, a política da independência de se pensar por si próprio, a política da verdade – toda essa política esfumou-se nestes últimos anos, dando lugar a outras idolatrias, como a cultura da dependência, da incom­petência, da mentira e da negligência.

Outro hábito, muito frequente, é quando os parti­dos se apoderam das grandes decisões que envolvem os cidadãos, sem os consultar, sem os chamar ao debate e ignorando o contributo de novas ideias.

Este afastamento da sociedade só descredibiliza a política e a governação.

São sinais pouco dignificantes para a política e para os políticos.

Como é que os cidadãos vão saber, doravante, que os políticos estão a dizer a verdade?

Bem disse Alexander Pope, adaptado ao nosso tempo político: “Aquele que diz uma mentira não calcula a pesada carga que põe em cima de si, pois tem de inventar infinidade delas para sustentar a primeira”...