A SATA poderá fechar?

 

Claro que é especulativo traçar um cenário que resulte na falência e fecho do Grupo SATA, mas se os seus trabalhadores ou representações sindicais desen­cadearem uma fase de acções reivindicativas, como aconteceu num passado recente, é de repensar se não será mais fácil encerrar a empresa, reestruturá-la e reabrir com outra designação, à semelhança de outras companhias aéreas que passaram pelo mesmo pro­blema.

Seria, muito provavelmente, um drama para muitos  dos seus 1.300 trabalhadores e centenas de famílias, a que certamente o Governo Regional, único acionista, se recusará a assumir. É exactamente por saberem que a tutela jamais recorreria a uma solução como esta, por razões polí­ticas, que as estruturas sindi­cais se permitem esticar a corda com a administração da empresa.

Ao longo dos anos criou-se uma cultura de desleixo e impunidade na gestão da SATA - incluindo a sua gestão política -, ao ponto de todos perceberem que o acionista cede sempre e há-de encontrar maneira de lá injectar mais financiamento.

Esta percepção está a matar a SATA, como aconte­ceu agora com a greve dos tripulantes de cabine, porque essa relação degrada a própria empresa junto dos seus principais financiadores, que é a banca.

Quanto mais agitado e degradado for o ambiente laboral, mais os bancos desconfiam de uma falência à vista e dificultam o crédito ou a renegociação das dívidas.

Numa empresa privada com semelhante cenário, já estaria a decorrer uma profunda reestruturação e era impensável ceder a reivindicações que agravassem a estrutura de custos.

Os sindicatos até podem ter razão nalgumas injus­tiças, mas agravar os custos da empresa (e reivindicar alojamentos no centro de Toronto representa um sério agravamento, de quase meio milhão por ano) numa altura destas, é um tremendo erro.

É verdade que a esmagadora maioria dos trabalha­dores não tem culpa das péssimas gestões da empresa nos últimos anos, mas agora que há uma nova admi­nistração apostada em dar novo rumo à companhia, não faz sentido agitar o ambiente interno e degradar a imagem do Grupo no exterior. Muito provavel­mente o ano de 2016 vai fechar com menos prejuízos do que nos anos anteriores, sendo possível que a Air Açores registe algum lucro, embora menos do que anteriormente devido aos encaminha­mentos, e a Azores Airlines apresente menos prejuízos, o que poderá dar boas indicações de um ‘break even’ lá para 2018. Mas isto não é razão para voltar a aumentar custos, quando o que ainda se deve pedir é mais algum tempo de contenção.

É que o problema da SATA não se resolve no ano em que obtiver resultados a zero. A deterioração do seu desempenho económico, sobretudo a partir de 2011, deixou marcas profundas e a sua insustenta­bilidade financeira ainda é preocupante.

Entre 2009 e 2013, a dívida financeira consolidada aumentou 114 milhões de euros, fixando-se, neste último ano, em 142,5 milhões de euros, de acordo com a auditoria do Tribunal de Contas, que concluiu ainda que a significativa expansão da dívida financeira, num contexto de degradação das condições de finan­ciamento, determinou o agravamento dos resultados financeiros, que passaram de -367,4 mil euros, em 2009, para -7,9 milhões de euros, em 2013, aumen­tando a pressão financeira sobre o grupo.

Em vez de accionar os ‘flaps’, os administradores de então, pressionados pela tutela, no período em apre­­ço, decidiram esta coisa magnífica que foi aumentar em mais 54 o quadro de trabalhadores!

Tudo isso, aliado à falta de pagamento atempado das indemnizações compensatórias, por parte do Go­verno Regional, contribuiu, ainda mais, para o estado de falência técnica da SATA. É neste cenário que ainda vive a gestão actual, ten­tando resolver os buracos das gestões anteriores, reestruturando dívidas, negociando com fornecedores e corrigindo a rota do desastre anterior. Reivindicar benefícios que agravam a estrutura de custos, é pôr tudo isto em causa.

Esta administração deve continuar o seu foco nas cor­recções que se impõem e nunca ceder a reivindi­cações de alguns que coloquem em causa a sobre­vivência de todos. A não ser que alguém esteja inte­ressado em fechar mesmo a empresa...