O monstro está gordo

 

 

As previsões económicas do Inverno, divulgadas esta semana pela Comissão Europeia, são animadoras para os próximos tempos, com as economias de todos os estados-membros a crescer, embora tenuemente, mas a dar sinais de que a recuperação económica da Europa vai prosseguindo lentamente, apesar das grandes incertezas que também se avizinham.

O mesmo cenário pode ser lido para Portugal, com o desemprego a diminuir, um crescimento muito à custa do turismo e um défice controlado, graças às re­ceitas extraordinárias e à forte queda do investi­mento público.

Os Açores só têm a beneficiar com estes sinais positivos e devemos aproveitar os exemplos de fora para estimularmos a economia cá dentro.

O turismo deu um grande impulso à economia açoriana nestes últimos dois anos, mas há sectores essenciais da nossa economia que não podem ser descurados, sob pena de agravarmos aquilo que já começa a ser um exagero na nossa Região: a pesada máquina da administração pública.

Se olharmos atentamente para o desempenho da actividade económica regional, é possível concluir que ela está demasiado dependente do poder público e muito fraca nas actividades transaccionáveis.

Os números do emprego são um exemplo claro, não totalmente explicados pelos serviços regionais, porque gostam de relevar apenas a parte que lhes interessam.

Se esmiuçarmos os quadros do Instituto do Emprego, facilmente se chega à conclusão que, no desemprego, estamos muito longe da trajectória de descida da média nacional, como também se depreende rapidamente que 2016 foi mais um bom ano para a engorda da admi­nistração pública regional.

Vamos aos números: em 2015 o número de benefi­ciários com prestações de desemprego, a nível nacional, era de 259.340, diminuindo em 2016 para 224.496 (menos 34.844), o que resulta numa queda de 13%.

A mesma trajectória não se verifica nos Açores, que de 2015 (7.064 beneficiários) para 2016 (6.978 beneficiários) diminuiu apenas 86 beneficiários com prestação de desemprego, o que dá uma descida de apenas 1%.

O desemprego está a descer nos Açores, e isto é uma boa notícia, mas há sinais escondidos entre as estatística do desemprego que são reveladores de muitas fragi­lidades (a começar pelo número d e desempregados nos programas ocupacionais, que já vai em 7.105).

Por exemplo, continuamos a perder população activa (menos 843 no ano passado), a população desem­pregada desceu 2.782 e a população empregada subiu 1.939.

Conclusão: há gente a sair do mercado de trabalho em valor inferior à queda do desemprego.

Se analisarmos por actividades, constatamos que na agricultura e pescas perdemos no ano passado 906 empregos (em 2015 tinham sido 2.209), enquanto que nos restantes sectores assistimos a uma recuperação muito interessante: no comércio, turismo e transportes ganhamos 1.622 empregos (tinham sido 915 em 2015), na construção civil aumentamos 942 empregos (678 em 2015) e – aqui sim, anote-se a evolução – aumen­tamos 4.131 empregos na administração pública e imobiliária (2.225 em 2015).

Ora, como se constata, o emprego continua muito concentrado em actividades não transaccionáveis e isto contribui para que a nossa economia avance muito lentamente.

Pior: a concentração de empregos na administração pública é um problema gravíssimo que vamos pagar caro mais tarde – se é que a nova geração já não está a pagar -, tornando-se esta Região numa gigantesca máquina de funcionários públicos, que passou dos 34.863 funcionários em 2015 para 38.135 em 2016.

Ou seja, mais de um quarto da população activa dos Açores pertence à administração pública regional.

Se juntarmos às despesa de pessoal, os mais de 200 imóveis da administração regional e as mais de 1.300 viaturas oficiais, é só imaginar o que o “monstro” anda a comer do orçamento da Região.

Isto para não falarmos nas tão badaladas empresas públicas regionais, que também “rapam” do orça­mento público uma quantidade apreciável de verbas.

Ainda agora tivemos acesso aos dados de Dezembro de 2016 sobre a execução orçamental do governo regional, e lá está estampado, com toda a clareza, que só os SFA (Serviços e Fundos Autónomos) e as EPR (Empresas Públicas Reclassificadas, integradas e equiparadas a SFA para efeitos de controlo orça­mental), registaram uma receita de 550 milhões!

 Só que - eis o pormenor - as transferências atingem quase 500 milhões de euros, o equivalente a 91% de todo o agregado.

Trocado por miúdos: tudo a sobreviver à custa das transferências do orçamento.

Que é como quem diz, à custa do contribuinte.

E depois vêm falar em lucros!...

Onde é que isto vai parar?