O tal canal

 

Desde há muitas legislaturas que os deputados regio­nais discutem a criação de um “canal parlamento”.

Começou por ser uma “janela” na programação da RTP-Açores, depois passou à possibilidade de um canal próprio, e agora ressurge novamente como “janela” do canal regional, por proposta do CDS-PP e do PPM.

Há mais de uma década, a proposta da “janela” fazia algum sentido (eu próprio apresentei-a), agora não faz sentido nenhum.

Houve uma altura em que não era fácil criar um canal, porque os recursos técnicos e humanos eram caros, a RTP-Açores passava por uma forte crise de financia­mento e necessitava de conteúdos regionais.

Com a inclusão dos trabalhos parlamentares na pro­gra­mação da RTP-Açores, esta financiava-se e resolvia, em parte, os problemas da sua programação regional.

Hoje, isto não faz sentido.

As tecnologias de comunicação desenvolveram-se de tal modo, que qualquer instituição consegue criar um canal televisivo - online ou com suporte nas operadoras de cabo - sem grandes investimentos.

É por aí que o parlamento deve ir, se pretende mesmo avançar com a cobertura integral dos seus trabalhos.

Acrescem outros factores: agora que a Região dispõe de uma ampla rede de cobertura de sinal televisivo, assente nas operadoras de cabo nacionais, com os açorianos a acederem a centenas de canais, é cada vez mais crucial que a RTP-Açores se concentre em con­teúdos regionais próprios, focando a sua programação no dia-a-dia de todas as ilhas, porque já chega a um auditório mais vasto, no Continente, e em breve aos EUA e Canadá, como já se comprometeu.

Um auditório com esta vastidão não está interessado em ser bombardeado com uma programação a partir do parlamento regional. Seria desvirtuar o canal e contri­buiria para o afastamento dos potenciais telespectadores da nossa diáspora.

Mais: não seriam precisos muitos dias para assistirmos, com toda a certeza, a conflitos de interesse entre as duas insti­tuições: o parlamento a exigir a transmissão de deter­minadas actividades e a RTP-Açores a invocar razões editoriais para programar outros conteúdos.

Quem decidiria o que é para transmitir? Em que horá­rios? Com que meios disponíveis?

O canal público poderia fazer o tratamento editorial da transmissão? Se for preciso interromper as transmissões para um notícia de última hora ou de interesse da Região, quem é que decide? Durante a transmissão quem é o Realizador responsável pela escolha dos planos, dos enquadramentos, dos ângulos de cada intervenção? Alguém do parlamento? Como é que isto se conjuga com os profissionais do serviço públi­co, que obedecem a regras profissionais e não de marketing ou propaganda de cariz político?

O mundo tecnológico avançou.

O parlamento devia copiar as experiências de outros canais parlamentares por este mundo. Nenhum país ou região sacrifica o seu canal principal à transmissão de trabalhos parlamentares.

Acho que faz todo o sentido o parlamento começar a sua “actividade televisiva” com transmissões cuidadas online, com um dispositivo tecnológico eficaz e de qua­lidade, e então mais tarde adaptar a experiência ao sinal aberto ( na TDT?) ou inclui-la nas operadoras de cabo.

Terá custos? Claro que sim.

Provavelmente os mesmos - ou menos - do que os que a RTP pediria pela inclusão na sua programação.

Não creio que a RTP vá por aí.

Seria um erro trágico para o canal regional, a acrescentar à lamentável agonia em que vive há vários anos... exactamente por culpa dos políticos.

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A SILLY SEASON MAIS CEDO  - Ainda agora começamos a Primavera e já rolam por a inúmeras notícias que mais parecem a tradicional silly season de Verão. A melhor de todas veio de Lisboa, com a imprensa a noticiar (com foto e tudo) que... uma vaca açoriana caiu ao Tejo. O pobre animal, que se tornou celebridade no burgo alfacinha, era transportado por via marítima de São Jorge para Lisboa e caiu ao rio Tejo quando estava a ser desembarcada do navio. “Foi resgatada com sucesso num esforço da Polícia Marítima e dos Sapadores Bombeiros, com recurso a uma grua com uma rede, explicou solícita a dita imprensa, com este pormenor: “No desembarque tresmalhou e caiu ao Tejo.”!

E assim vai o jornalismo português.
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QUANTO VALE? - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, o tal que percorre os corredores de Washin­gton à custa das Lajes, esteve lá, mais uma vez, na passada semana. Falou para a imprensa e disse que os contactos tinham sido magníficos, que estava tudo bem, que sentiu sensibilidade das autoridades americanas, que somos im­portantes estrategicamente, etc. Resumindo, o que ele disse em duas palavras (que Santos Silva muito gosta), “vale zero”!

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CERIMÓNIAS - Por que é que não vemos o governo da república numa cerimónia a entregar armas aos militares? Por que é que não vemos o governo da Re­pública numa cerimónia a entregar aviões à TAP? Por que é que não vemos o governo da República numa ceri­mónia a entregar dinheiro à Caixa Geral de Depósi­tos? Então por que é que o governo regional faz uma cerimónia para entregar “material informático” à PSP?!

 

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TRÉGUAS - Como é tradição, nesta época da recon­ciliação pascal, estas crónicas vão de férias, ressuscitando em Maio. Boa Páscoa!