Pobretes, mas alegretes

 

 

Quando um indicador estatístico sobre qualquer actividade nos Açores é positivo, somos prontamente bombardeados pelos comunicados do batalhão de assessores do governo, discursos de hossanas no parlamento e declarações de euforia dos governantes. Quando os indicadores são um desastre, temos silêncio absoluto ou então nasce o discurso da imaginação, que é ir buscar uma realidade que mais ninguém vê.

Acontece, todos os anos, com os chamados rankings escolares.

Desde 2010 que os Açores aparecem sempre na cauda dos rankings, sem que nenhuma escola consiga entrar nas 100 melhores do país.

Continuamos a fazer esta caminhada sempre no fundo da tabela, mas os nossos governantes continuam a ver nisto... um sucesso!

Em 2016, o Secretário Regional da Educação, Avelino Meneses, atreveu-se mesmo a achar que era motivo de “júbilo” o nosso colossal afundanço escolar, só porque duas escolas estavam entre aquelas que mais subiram na tabela nacional.

A semana passada, conhecido mais um desastre, Avelino Meneses foi mais contido. Desta vez diz que houve “ligeiras melhorias”... Isto é, quando deixamos de estar enterrados na lama até ao nariz e passamos para o pescoço, temos uma ligeira melhoria, mas continuamos atolados.

Há sempre quem desvalorize estes resultados e são os próprios governantes que vêm dizer que não gostam dos rankings, aparentemente porque não têm em linha de conta os dados socioeconómicos de cada escola. Isto é o mesmo que encontrar as origens socioeconómicas dos jogadores das equipas de futebol para determinar se os seus resultados são certos ou não. Seja como for, conceda-se que esta condição parece ser determinante, a julgar pelas declarações do Director da Escola de Nordeste, a braços com uma população escolar em que 80% dos alunos são carenciados. Então temos aqui outro problema, o da pobreza quase extrema, que os nossos governantes também não gostam de admitir, porque vivemos no paraíso do Dr. Sérgio Ávila.

Não haja hipocrisia! Os dados são os melhores indicadores disponíveis para avaliar a situação relativa do sucesso do ensino (leia-se a sua capacidade de ensinar para um determinado padrão). 

Como nos podemos contentar com “ligeiras melhorias” há mais de uma década? Como é que se pode falar em sucesso escolar, quando vemos outras regiões a avançar e nós sempre na cauda?

Em Setembro de 2016 o Presidente do Governo, Vasco Cordeiro, anunciava na inauguração da nova Escola Gaspar Frutuoso (18 milhões de euros), na Ribeira Grande, que “a estratégia de promoção do sucesso escolar começa a apresentar resultados encorajadores na região”.

Passados quase dois anos e entrando no terceiro do famoso ProSucesso, somos novamente confrontados com estes indicadores desastrosos do ranking escolar nacional. É isto o sucesso? Quanto tempo mais é preciso para se perceber que isto está tudo a falhar?

Daí a pobreza que nos fustiga!

Começa com a incapacidade dos governantes em debelar problemas de fundo como é o da aprendizagem e da criação de capacidades competitivas na nossa população.

O ProSucesso está a falir em grande, como estão as empresas públicas, num padrão que só não dá desgraça porque continuamos a banquetearmo-nos em generosas transferências da União Europeia e do Orçamento de Estado, com outros programas nacionais que, discretamente, vão alimentando programas de rendimentos mínimos garantidos.

Na avaliação geral do 9º ano, de entre 1.049 escolas, a melhor dos Açores, por sinal um colégio privado, está na posição 167, sendo que a segunda melhor está na posição 325.

As duas piores estão mesmo no fundo da tabela com as posições 1.045 (a quatro posições do último lugar) e 1.031. Vinte e uma das 25 escolas estão para além da posição 600!

Na avaliação geral do 12º ano as coisas não estão nada melhores. Das 593 escolas, 19 estão para além do meio da tabela e só 3 têm uma posição abaixo dos 300. Se no geral a situação não é boa, também não o é nas disciplinas fulcrais de Português e de Matemática. Em ambos os casos, só três a quatro escolas é que conseguem estar acima do meio da tabela, sendo que existe uma concentração elevadíssima no fundo da tabela.

É caso para perguntar para que serviram as centenas de milhões de euros investidos em edifícios sumptuosos e outros tantos milhões na contratação de professores e mais uns milhões em programas como o ProSucesso, sem vestígios visíveis.

Em vez de estarmos preocupados e a reflectir sobre as causas do descalabro, aplaudimos a “ligeira melhoria” e o discurso habitual dos “acidentes de percurso”. Tipicamente da nossa terra: pobretes, mas alegretes.