Será comunista o Papa Francisco?!

 

A pergunta apareceu nalgumas publicações nos Estados Unidos, após a visita papal a este país, onde não deixou de criticar os excessos do capitalismo. A sua presença, todavia, despertou extraordinário interesse e curiosidade. A dimensão humanística da sua pessoa, a sua humildade, o seu carinho e carisma, a atenção sincera às pessoas mais carenciadas, o apreço pelo meio ambiente como obra divina que as filhas e os filhos de Deus têm obrigação de cuidar não deixou ninguém indiferente. Mas, sobretudo, a denúncia inequívoca da desigualdade e injustiça sociais pôs o dedo nas grandes chagas da sociedade americana. Da riqueza excessiva e da pobreza degradante. Esta disparidade de recursos e oportunidades no país da maior opulência mundial foi assunto muito incómodo para muita gente durante a visita do humilde e despretensioso Francisco, mesmo para aquela que se professa religiosa e crente num Deus que não faz acepção de pessoas.

Nalguns meios de comunicação como a Fox News, News Week, The Week, Time Magazine, e outros menos notáveis, algumas individualidades da classe dominante e da vanguarda clássica do jornalismo bem-pensante que no seu pretensiosismo de intelectualidade quase dogmático chegaram mesmo ao insulto pessoal. Apelidando o papa de marxista, qual Che Guevara em pele de cordeiro que devia ter ficado em casa, na clausura da cidadela vaticana. Inclusivamente, foi denunciado por alguns políticos radicais e fanáticos como clérigo ingénuo que até se imiscuiu no labirinto da ciência e do mundo económico e financeiro, e até em questões climáticas atribuindo-as à atividade humana e não a ciclos da evolução natural. Que a finalidade principal do capitalismo e da política mais do que a preocupação do bem comum, devia ser a acumulação da riqueza nas mãos da classe privilegiada que a sabe investir e distribuir a conta gotas de caridade. Com algumas raras exceções, para esta elite egoísta e ambiciosa, cerca de 2% dos 7 biliões que povoam o nosso planeta, a restante maioria esmagadora devia contentar-se com as migalhas do seu desperdício. Um capitalismo sem rosto humano nem consciência moral.

Perante este cenário, o primeiro papa oriundo da América Latina, conhecedor dos contornos de pobreza nos bairros deprimidos de Buenos Ayres, não podia deixar de manifestar, no palco de maior visibilidade mundial, os EUA, a impressão do seu olhar de chefe da igreja católica sobre as principais questões, algumas delas dramáticas, que a humanidade presentemente enfrenta. Ao expressar o que lhe ia na mente e no coração, fê-lo com muita simplicidade, verdade, honestidade e profunda convicção que a ninguém de boa vontade deixou indiferente.

Os Estados Unidos da América do Norte são um país com cerca de trezentos e vinte milhões de habitantes, aglomerados em cinquenta estados e inúmeras zonas de influência, antagónicos credos religiosos e políticos, inúmeras denominações religiosas que vão do ramo transversal das igrejas universalista que aceitam qualquer credo sem dogmas nem definições doutrinárias, no mais lato e profundo ecumenismo e convicções pessoais, ao mais restrito fanatismo religioso de algumas seitas que por vezes se tornam ameaças e atentados à segurança pública e dignidade humana. 

Numa outra perspetiva, a influência americana faz-se sentir à escala mundial como nenhuma outra, e o papa soube tirar partido da oportunidade que a sua primeira visita oficial lhe oferecia para usar o poder da sua poderosa palavra de esperança e de justiça sem ameaças de armas nem explosivos, mas tão somente de bom senso, misericórdia e amor, numa proximidade e identidade evangélica inegáveis.

Mas estes ideais para os americanos e muita outra gente no nosso planeta, ainda traz medos e intimidações à ordem estabelecida do capitalismo ocidental estabelecido e mantido pelos tais 2% dos 7 biliões! Deste modo, a grande expectativa da visita do papa foi ocasião para os contrastes e conflitos que permeiam a sociedade americana aparecerem de maneira eruptiva sem deixar ninguém indiferente. E ainda bem!