Maratona de Boston, a mais famosa corrida do mundo

 

Correm-se anualmente mais de 500 maratonas em todo o mundo, extenuante prova de 40 quilómetros em homenagem à lendária corrida do soldado ateniense Fidípides, que em 480 a.C. teria corrido dos campos de batalha de Maratona até Atenas para avisar os gregos da vitória sobre os persas. Correu tão rapidamente quanto pôde e, ao chegar, conseguiu apenas dizer “vencemos” e caiu morto. 
A maratona tornou-se a prova nobre do atletismo e há maratonas para todos os gostos. A semana passada, com 50 graus centígrados à sombra, correu-se em Marrocos,  no deserto do Saara, a Maratona das Areias, que ganha pela sueca Elisabet Barnes que concluiu os 250 quilómetros das cinco etapas em 23h16m12s. Atletas com vocação para pinguim têm a Maratona da Antártida a 24 de novembro. E quem goste de subir escadas pode tentar a Maratona da Muralha da China em 20 de maio e que são 42,1 km a subir 5.164 degraus. 
Contudo, a maratona mais famosa continua sendo a de Boston, que teve segunda-feira, 17 de abril, a 121ª edição. Existe desde 1897 sem interrupção e é organizada ainda hoje pela Boston Atlhetic Association (BAA). Foi inspirada na maratona dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna realizados em 1896. John Graham, dirigente da equipa de atletismo dos EUA que esteve em Atenas e era constituída por alunos da Universidade de Harvard e do MIT, era também dirigente da BAA e, regressado a Boston, decidiu que a cidade teria uma maratona corrida anualmente.
A data escolhida foi 19 de abril, Patriots’ Day, feriado regional comemorando o início da luta pela  independência dos EUA e assinalado apenas em Massachusetts e no Maine (que até 1920 fez parte de Massachusetts). Em 1969, o feriado passou a ser na terceira segunda-feira do mês de abril e a corrida passou a realizar-se nesse dia. Quanto ao nome, começou por chamar-se American Marathon ou BAA Marathon Race e só em 1978 se tornou Boston Marathon e uma vitória nesta prova é considerada a mais prestigiada, depois da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.
O ponto de partida da primeira maratona foi a localidade de Ashland, participaram apenas 18 atletas e o vencedor foi John McDermott, litógrafo novaiorquino que cobriu a distância de 39,42 km em 2h55m10s. Em 1924, a partida passou a ser em Hopkinton, onde se mantém, e a  meta é na Boyston Street, em Boston. Em 1927 a distância passou a ser oficialmente de 42,195 km, de acordo com os padrões olímpicos vigentes. 
Durante a maior parte da sua existência, a corrida de Boston foi completamente amadora, o único prémio dado ao vencedor era uma coroa de ramos de oliveira, à semelhança do laurel olímpico. Devido ao surgimento de muitas outras maratonas com prémios em dinheiro, Boston começou também a oferecer prémios em 1986: vencedores masculino e feminino recebem $150.000 e se baterem o recorde terão mais $200.000. Os segundos classificados têm $75.000 e os terceiros $40.000. Há prémios monetários até à 10ª posição e na competição de cadeira de rodas os três primeiros recebem $20.000, $10.000 e $5.000
Durante muito tempo, Boston foi uma maratona masculina. Não era regra, era um preconceito masculino, os organizadores alegavam que as mulheres não tinham capacidade para competir. Em 1966, Roberta Gibb, de Cambridge, provou o contrário, fazendo-se passar por homem concluiu a prova com o tempo de 3h21min. No ano seguinte, Katherine Switzer,  20 anos, estudante de jornalismo na Universidade de Syracuse, tornou-se a primeira mulher a inscrever-se na Maratona de Boston com o número de dorsal 261. Alguns quilómetros à frente, quando descobriu que se tratava de uma mulher, Jack Semple, o esbaforido diretor da prova, agarrou-a pela camisola para a tirar da corrida. Mas foi impedido nos seus intentos pelo namorado de Kathy, que também corria. Os organizadores passaram a permitir a participação feminina, mas só foi reconhecida oficialmente em 1972 e Nina Kuscsik foi a primeira vencedora da maratona de Boston. 
Quanto a Kathy, fez mais de 30 maratonas e até venceu a de New York em 1974. Segunda-feira, com 70 anos, voltou a correr em Boston com o seu clube feminino de corridas de beneficência, “261 fearless”, o número que ela tinha em 1967. Hoje, cerca de 10 mil mulheres participam na maratona de Boston. E cinco anos depois de terem começado a correr em Boston, as mulheres entraram também para os Jogos Olímpicos.
Foi em 1984, em Los Angeles, onde Carlos Lopes venceu a maratona mascuilina, conquistando o primeiro ouro olímpico para a Portugal. Na primeira maratona olímpica feminina, Rosa Mota ganhou a medalha de bronze e em 1988, nos Jogos de Seul, ganhou o ouro. Nessa altura já a Rosinha tinha sido a mais rápida em Boston em 1987 e voltaria a vencer em 1988 e 1990.
Em 1909, Boston atraiu 164 maratonistas e esse número não aumentou muito nas décadas seguintes. Em 1964, a corrida teve 369 participantes, continuou crescendo e em 1969 ultrapassou os 1.000. Desde então esse número tem aumentado continuadamente e em 2017, tal como nos dois anos anteriores, alinharam à partida 30.000 atletas, dos quais  5.000 de Massachusetts e os restantes representando os 50 Estados Unidos e 99 países.
O recorde de participação aconteceu na edição centenária, em 1996, que entrou para o Guiness Book, o livro dos recordes: inscreveram-se 38.708 atletas e 35.868 concluiram a prova. 
Não é fácil participar na maratona de Boston, este ano quase três mil atletas que já se tinham inscrito ficaram de fora e em 2016 não foram aceites 4.562 inscrições. O motivo é simples: muita gente sonha correr em Boston. Há agências de viagens, nomeadamente em Portugal, que asseguram a inscrição de atletas estrangeiros e costumam organizar-se grupos de cem e mais corredores. São todos benvindos, cada corredor visitante gasta em média $3.000 na cidade. A maratona tornou-se um rico negócio. O Greater Boston Visitors and Convention Bureau estima que este ano gerou mais de 192 milhões de dólares, 2% mais do que o ano passado. 112 milhões foram em gastos diretos nos cinco dias que antecederam a prova e feitos pelos corredores e  acompanhantes visitando lojas e restaurantes. 
Um recurso dos americanos para participar é a inscrição por meio de donativos para instituições de caridade. O Boston Marathon Official Charity Program permite a inscrição de atletas que angariam donativos para causas nobres. O American Liver Foundation Marathon Team foi o primeiro há 27 anos e já angariou mais de 18 milhões de dólares para tratamento das doenças hepáticas. O Dana-Farber Marathon Challenge (DFMC) espera angariar este ano cinco milhões de dólares para combater o cancro. Mais de 200 organizações angariam donativos através de participantes na maratona e este ano foram angariados mais de 36 milhões de dólares.
O sargento José Luis Sanchez, fuzileiro naval que perdeu parte da perna esquerda ao pisar uma bomba no Afeganistão em 2011, correu  a sua primeira maratona em 2015 em Washington DC, e terminou a Maratona de Boston no ano passado em pouco menos de seis horas. Voltou este ano a Boston e correu toda a maratona empunhando uma bandeira dos EUA. Faz parte da equipa Semper Fi, que angaria donativos para o Fundo Semper Fi, que presta assistência aos deficientes das forças armadas.
Há muitas razões para correr em Boston e para os atletas profissionais é o prestígio da prova e a possibilidade de ganharem prémios. Mas para a grande maioria dos atletas é apenas o prazer de participar, caso de Rick Hoyt, que nasceu em 1962 com paralisia cerebral e reside em Holland, Massachusetts. Em 1977, pediu ao pai, Dick, que o ajudasse a participar numa maratona a fim de angariar donativos para um jogador da equipa de lacrosse da sua escola que ficara  paralítico. Rick empurrou a cadeira de rodas do filho, gostaram da experiência e, em 1984, os Hoyt correram a primeira maratona de Boston. Viriam a participar em 30 corridas. Em Hopkinton, próximo do local de partida da maratona, existe uma estátua de Dick e Rick, que se tornaram uma fonte de inspiração mundial. Dick, 73 anos e tenente-coronel reformado da Guarda Nacional, deixou de correr em 2014, mas Rick  continua, agora empurrado por Bryan Lyns, 45 anos, dentista em Billerica.
Um atentado no início da tarde de 15 de abril de 2013, o rebentamento de duas bombas de fabrico caseiro na linha da meta, provocou três mortes e 260 feridos, incluindo 16 que perderam membros inferiores. Dez atletas correram este ano em memória de Lingzi Lu, a chinesinha de 23 anos, aluna da Universidade de Boston, morta no atentado. Foi o segundo ano em que isso aconteceu e o grupo pretende angariar fundos para atribuir anualmente uma bolsa de estudos em nome Lingzi Lu. Por outro lado, a BAA contribuiu com $20.000 para o Martin’s Park, um playground em construção próximo do Museu das Crianças de Boston. Martins W. Richard, oito anos, foi a vítima mais nova do atentado.
Roseann Sdoia, 48 anos, de Quincy, uma das pessoas feridas no atentado, teve uma perna amputada. Foi socorrida por um bombeiro de Boston, Mike Materia, 37 anos, que a levou ao hospital e continuou a visitá-la durante a longa reabilitação. Apaixonaram-se e planeiam casar em outubro. Entretanto,  Roseann acaba de publicar um livro intitulado “Perfect Strangers: Friendship, Strengh and Recovery After Boston’s Worst Day”. sobre as vidas que se cruzaram devido ao atentado.
Outra vítima, Rebeka Gregory, de Houston, Texas, que perdeu uma perna, publicou “Taking My Life Back”. Rebeka perdeu uma perna no atentado e perdeu o marido, mas já arranjou prótese, para a perna e para o companheiro.
Jeff Bauman, o indivíduo que estava na meta à espera de ver chegar a namorada corredora e perdeu ambas as pernas na explosão, também escreveu as suas memórias intituladas “Stronger” e publicadas em 2014, no primeiro aniversário do atentado. O livro foi adaptado ao cinema por David Gordon Green, com Jack Gyllenhaal no papel de Bauman, e estreará a 22 de setembro próximo.
Outro filme sobre o atentado, “Patriots Day”, estreou em dezembro do ano passado. Realizado por Peter Berg e protagonizado por Mark Wahlberg, o filme  conta a história do atentado.
Segunda-feira também estreou no Wang Theater o primeiro longa-metragem documental da maratona, realizado por Jon Dunham, produzido por Megan Williams e narrado por Matt Damon e intitulado “One Boston Day”. É a história da maratona de Bostion contada pelos seus campeões, organizadores e pelos colaboradores, que são nada menos 7.000 e todos voluntários.
O ano passado estreou “Marathon: The Patriots Day Bombing”, documentário de Ricki Stern e Anne Sundberg focado nas histórias de três famílias que atingidas pela explosão e que pretede explicar os altos e baixos do longo caminho da recuperação. Um exemplo é o casal Patrick Downes e Jessica Kensky, perderam parte de uma perna. Ele foi capaz de andar novamente com o uso de uma perna protética, e ambiciona correr uma maratona, nomeadamente a de Boston. Já a mulher continua a enfrentar várias cirurgias.
Agora vamos aos resultados. Os primeiros a partir foram os das cadeiras de rodas e foram os primeiros a atravessar a meta. Na corrida prova feminina, a suíça Manuela Schar ganhou com 1h28m16s. Era a sua primeira presença em Boston. Na prova masculina, Marcel Hug, também suíço, ganhou com 1h18m4s e foi a sua terceira vitória consecutiva em Boston. Os quenianos dominaram as corridas masculina e feminina. Edna Kiplagat ganhou entre as mulheres. Foi a estreia em Boston desta mulher polícia no Quénia, mãe de cinco filhos, que foi duas vezes campeã mundial e já teve vitórias nas maratonas de Londres, New York e Los Angeles. Kiplagat correu em 2h21m52s, batendo Rose Chelimo, do Bahrein, a 59 segundos, e a americana Jordan Hasay, que terminou na terceira posição, a 1.08 minutos. A propva masculina foi ganha pelo queniano Geoffrey Kirui, 28 anos, que correu em Boston pela primeira vez, com o tempo de 2h09m37s, à frente do americano Galen Rupp, a 21 segundos. O japonês Suguru Osako fechou o pódio, com mais 51 segundos que o vencedor.
A lenda da maratona Bill Rodgers, que venceu quatro vezes em Boston, disse que os americanos precisam de mais apoio nas provas de maratona. Mas a verdade é que este ano mundo de corrida tivemos um queniano e um japonês entre os dez primeiros e os restantes oito foram corredores americanos. São todos velozes. O problema é que há pelo menos 200 corredores quenianos que são mais velozes.
O comissário de polícia de Boston, William E. Evans, 58 anos, completou segunda-feira a sua 52ª maratona, que foi a 19ª em Boston e primeira desde os atentados de 2013, o que é sinal de que, quatro anos depois do atentado, a corrida está a retornar ao seu normal.