Os Óscares e os portugueses

 

Realiza-se no próximo domingo, 26 de fevereiro, em Los Angeles, a 89ª atribuição dos Oscares da Academy of Motion Pictures Arts and Sciences, o mais prestigiado prémio do cinema. A cerimónia decorrerá no Teatro Kodak, apresentada pelo comediante e humorista Jimmy Kimmel, apresentador do programa Jimmy Kimmel Live, talk show noturno da ABC, o network que fará a transmissão. Kimmel apresentou os Emmy Awards em 2012 e 2016.

Este ano, 85 países submeteram produções para o Oscar de melhor filme estrangeiro, mas nenhuma produção lusófona conseguiu nomeação. O Brasil enviou o filme Pequeno Segredo, de David Schumann e Portugal enviou Cartas de Guerra, de Ivo Ferreira (baseado num livro de António Lobo Antunes), o júri preferiu produções da Alemanha, Suécia, Dinamarca, Irão e Austrália.

O documentário brasileiro de longa-metragem Menino 23, de Belisário França, sobre um menino escravizado na década de 1930 por fazendeiros bra­sileiros simpatizantes do nazismo, foi pré-nomeado mas não passou à final. Tivemos ainda a curta-metragem Inner Working pré-nomeada na categoria de animação, uma produção americana mas dirigida pelo brasileiro Leo Matsuda e que também não chegou à final.

Já agora lembre-se que a primeira vez que os portugueses estiveram perto do Oscar foi em 1937 e por interposta pessoa: Spencer Tracy recebeu o pri­meiro dos seus dois Oscares de melhor ator pelo seu trabalho na personagem de Manuel Fidello, o heróico pescador madeirense do filme Captains Courageous, de Victor Fleming e baseado numa história de Tudyard Kipling.

Em 1988, Jodie Foster também recebeu o prémio de melhor atriz pela sua interpretação da figura da luso-descendente Sarah Tobias no filme The Accused, inspirado no caso Big Dan de má memória, a violação de uma mulher num bar de New Bedford, a 6 de março de 1983. Foster fazia o papel da vítima, Cheryl Araújo, que no filme realizado por Jonathan Kaplan passou a chamar-se Sarah.

Até hoje só um português foi premiado com o Oscar e ouviu a frase sacramental: and the winner is... Foi Carlos de Matos, que veio aos 18 anos para Los Ange­les, fundou com três amigos a Matthews Studio Equip­ment e ganharam dois Oscares na categoria de con­tributo técnico: pela grua Tulip Crane em 1983 e pela Cam Remote, câmara de controlo remoto, em 1985.     

Outro português que tem andado perto da famosa estatueta dourada é o diretor de fotografia Eduardo Serra, que já foi nomeado três vezes para o Oscar de me­lhor fotografia, em 1977 (The Wings of the Dove), 2003 (Girl with a Pearl Earring) e 2006 (Blood Dia­mond).

Pelo menos cinco luso-descendentes já ganharam o Oscar. A belíssima Mary Astor, que se chamava na realidade Lucile Vasconcellos Langhank e era neta de madeirenses, obteve o Oscar de melhor atriz secun­dária em 1941, pelo seu trabalho em The Great Lie. Tom Hanks, bisneto de açorianos, recebeu a estatueta de melhor ator por Filadélfia (1993) e Forrest Gump (1994), e foi ainda nomeado por Big, Saving Private Ryan e Cast Away. O realizador Sam Mendes, que rece­beu os Oscares de melhor filme e melhor realizador com American Beauty (1999), descende de madei­renses que se fixaram em Trinidad e Tobago.

Também não podemos esquecer os irmãos Hall Pereira (1905-1983) e William Pereira (1909-1985). Hall chefiou 18 anos a direção de arte da Paramount, foi nomeado 23 vezes para o Oscar, mas ganhou ape­nas um Oscar em 1955 por The Rose Tattoo, filme baseado na peça homónima de Tennessee Williams e que valeu também o Oscar de melhor atriz à italiana Anna Magnani. Enquanto não se afirmou como arquiteto, William Pereira também trabalhou como diretor de arte na Paramount e ganhou o Oscar de efeitos especiais com Reap the Wild Wind (1942).

A primeira e até ver única atriz de língua portuguesa nomeada para o Oscar de melhor atriz foi a brasileira Fernanda Montenegro pelo seu trabalho em Central do Brasil em 2003, mas a estatueta foi para Gwyneth Pal­trow, por Shakespeare Apaixonado. Central do Brasil, realizado por Walter Salles Jr., também estava nomeado para o Oscar de melhor filme de língua estrangeira, mas o prémio foi para A vida é bela, do italiano Roberto Benigni.

Além de Central do Brasil, outros três filmes brasilei­ros foram nomeados para o Oscar de melhor filme de língua estrangeira: O pagador de promessas (1963), O quatrilho (1994) e O que é isso, companheiro? (1998). Refira-se ainda O beijo da mulher-aranha (1986), produção brasileira-americana realizada por Hector Bebenco, um argentino naturalizado brasileiro, que valeu ao americano William Hurt o Oscar de melhor ator principal e à brasileira Sónia Braga a nomeação para o prémio de melhor atriz secundária.

Bebenco foi nomeado para o prémio de melhor realizador e a realização de Cidade de Deus também valeu a outro brasileiro, Fernando Meirelles, nomeação para este prémio. Aliás, este filme teve outras nomea­ções: melhor fotografia, melhor argumento adaptado e melhor edição.

Diários de motocicleta (2005), de Walter Salles Jr., sobre a jornada sul-americana de Che Guevara com 23 anos, também foi nomeado para o prémio de melhor argumento e melhor filme em língua estrangeira, mas só ganhou o Oscar de melhor canção original: Al outro lado del rio, de Jorge Drexter.

Até hoje, o Brasil só ganhou um Oscar e, mesmo assim, dividido com a França. Em 1959, Orfeu Negro, de Marcel Camus, inspirado na obra de Vinícius de Moraes, foi o melhor filme de língua estrangeira.  Tudo no filme era brasileiro, o cenário, os atores, os diálogos, a música, mas o Oscar foi para a França, uma vez que a produção era francesa.

Já agora, lembre-se que a primeira participação brasileira (e portuguesa) na festa do Oscar foi em 1941, com Carmen Miranda, a cantora que era the brazilian bombshell embora tivesse nascido a 9 de fevereiro de 1905 na freguesia de Várzea da Ovelha e Aliviada em Marco de Canaveses, a 50 kms do Porto. Carmen morreu em 1955, aos 46 anos, vítima de ataque cardíaco em Hollywood. Se fosse viva, teria feito este mês 108 anos de idade e a Google assinalou o aniversário dia 9 de fevereiro com uma imagem dedicada à artista na página inicial do motor de busca.

Chegou a New York em maio de 1939, nas vésperas da 2ª Guerra Mundial, contratada para a revista musical Streets of Paris, na Broadway, sem saber falar sequer uma palavra em inglês. Tornou-se um tal sucesso que, em meados dos anos 40, Carmen Miranda era a artista mais bem paga dos EUA e a mulher que mais pagava imposto de renda no país. Fez 14 filmes em Hollywood (além de sete no Brasil) e deu voz a mais de 300 canções que atravessaram gerações. Embora tenha falecido há 62 anos, Carmen continua a imagem do Brasil no mun­do, mas em Portugal a maioria dos seus compatriotas nem sequer sabe que ela existiu.

 

Carnaval do Rio de Janeiro

a maior festa do mundo

Está a decorrer o carnaval do Rio de Janeiro, a maior festa popular do mundo e foi iniciativa dos portugueses. Começou em 1641, nos tempos coloniais do Brasil, por decisão do governador Salvador Correia de Sá e Benevides, descendente dos fundadores da cidade (Mem de Sá e Estácio de Sá), que autorizou a realização de festejos populares em homenagem ao rei D. João IV, restaurador do trono português. Em 1723, a população do Rio, maioritariamente constituída por transmontanos e minhotos, já festejava o entrudo das terras de origem, com brincadeiras de rua por vezes grosseiras, como lançar sobre as outras pessoas água, farinha, pó de cal (que podia até cegar), limões-de-cheiro feitos de cera (como as limas ainda hoje populares no carnaval micaelense), vinagre e outros líquidos. Com o tempo, o carnaval carioca foi incorporando elementos dos carnavais europeus e personagens como a colombina, o pierrô, o Rei Momo e os bailes de máscaras, o pri­meiro dos quais foi em 1840 no Hotel Itália, proprie­dade de italianos.

Na segunda-feira do carnaval de 1846 deu-se um acontecimento que revolucionou o carnaval carioca: o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes  juntou alguns amigos numa barulhenta pas­sea­ta pela cidade animando a folia ao som de zabum­bas e tambores e que os jornais da época chamaram de zés pereiras. O historiador Vieira da Fazenda, autor de Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, men­ciona as origens do zé-pereira, só não esclarece a razão pela qual ganhou o nome de zé-pereira e não de zé-nogueira.

Nos carnavais seguintes, outros zés pereiras criados pelos comerciantes portugueses sairam a passear pelas ruas e acabaram misturando-se com os grupos de congadas (ou congos) e cucumbis, criados pelos negros. A junção destes grupos misturou diferentes influências rítmicas como lundu, polca, maxixe e tango num tipo de música que passou a animar as festas dos negros e que viria a chamar-se samba.

O primeiro bloco carnavalesco, com alegorias e sátiras ao governo, surgiu em 1855 e chamava-se Con­gresso das Sumidades Carnavalescas. Hoje, o Rio tem mais de 400 blocos carnavalescos e foram esses grupos, desfilando fantasiados e em carros decorados, que deram origem às escolas de samba. A primeira foi fundada em 1928, na Rua Estácio de Sá e chamava-se Deixa Falar.

Hoje, há escolas de samba no Rio da Jeneiro, São Paulo e outras cidades brasileiras. Há mesmo escolas de samba em muitos países do mundo, nomeada­mente em Portugal, onde são mais de duas dezenas e animam o carnaval de localidades como Cantanhade, Estarreja, Figueira da Foz, Ovar e Sesimbra. Nos EUA também existem dezenas de escolas de samba, só em San Francisco são cinco: Académicos Estrada Real, Samba do Povo, Batucada do Leste, Samba do Cora­ção e Carnaval San Francisco.

Entre as estrelas que confirmaram presença no carnaval carioca deste ano está a cantora Beyoncé, embora esteja grávida de gémeos e deva dar à luz em meados de junho. Este ano a escola de samba Unidos da Tijuca resolveu contar a história da música dos EUA com homenagem a Beyoncé, Michael Jackson, Whitney Houston e outros. O carnaval deve atrair 2,6 milhões de visitantes estrangeiros que represen­tarão a entrada de mais de 105 milhões de dólares na economia brasileira. Cerca de 20% são norte-ameri­canos, embora o carnaval brasileiro também já tenha chegado aos EUA e aconteça em Boston, Las Vegas, New York e outras cidades.

Vive cerca de um milhão de brasileiros nos EUA e celebram o carnaval tanto quanto possível à moda da terra natal. Em Austin começou em 1975 por iniciativa de um grupo de estudantes brasileiros e hoje é evento obrigatório no calendário da cidade texana reunindo sete mil foliões e com direito a escola de samba com 100 elementos.

No próximo dia 25 de fevereiro temos carnaval brasileiro em Austin, Houston e Sacramento, e tudo isto começou em New York.

Na sua edição nº 55, de 9 de fevereiro de 1972, Portuguese Times assinalava o primeiro ano de publi­cação, uma vez que saira pela primeira vez à procura do leitor no dia 8 de fevereiro de 1971 e o destaque da primeira página era uma reportagem intitulada Carnaval A Night in Rio 72, sobre o baile de carnaval organizado pela Brazilian American Society no Grand Ballroom do famoso Waldorf Astoria. A atração foi Jair Rodrigues, cantor falecido em 2014.

A Brazilian American Society estava instalada em 57 West 46th Street e, além do baile no Waldorf Astoria, deu origem às celebrações do Dia do Brasil na Rua 46, entre a 5ª e a 6ª avenidas, perto de Times Square.

A iniciativa de tudo isso foi de Jota Alves, que já re­gressou ao Brasil. Nascido em Mato Grosso e com curso de Direito pela Universidade Lumumba, de Moscovo, Jota Alves publicava em New York o jornal The Brasilians, mensário que era composto e montado no Portuguese Times, ao tempo instalado na Wilson Avenue, em Newark e onde comecei a trabalhar em fins de 1973, tendo paginado duas ou três edições do jornal, até à transferência do PT para New Bedford. Não havia dinheiro e Jota Alves pagava-me com bi­lhetes para o baile do Waldorf e que eu oferecia aos amigos por não ser dançarino. Mesmo assim, foi giro.