Memórias portuguesas do Memorial Day


Na próxima segunda-feira, 29 de maio, é Memorial Day nos EUA, uma espécie de Dia dos Fiéis Defuntos dos militares americanos mortos em combate.  Em Portugal não existe feriado semelhante. Aliás, o país não se preocupa com os seus veteranos vivos, quanto mais mortos.
Assinalado na última segunda-feira de maio, este feriado dá também o início à temporada de férias de verão, enquanto o Labor Day na primeira segunda-feira de setembro marca o final,  mas não significando, infelizmente, que os americanos tenham férias de junho a agosto.
A origem do Memorial Day remonta à Guerra Civil e é reivindicada por várias localidades. Em Warrenton, Virginia, alguém deixou flores na campa de um soldado em 3 de junho de 1861 e localmente considera-se ter sido o primeiro Memorial Day. Em Columbus, no Mississippi, no dia 25 de abril de 1866, quatro mulheres colocaram flores nos túmulos de 2.500 soldados sepultados no Friendship Cemetery e para os locais terá sido o nascimento do Memorial Day. Contudo, na Pennsylvania, as campas dos militares mortos na Guerra Civil começaram a ser decoradas em 1862 em Gettyburg e em 1864 em Boalsburg. 
Portanto, é de concluir que várias localidades rendiam homenagem aos mortos da Guerra Civil colocando flores nos seus túmulos, mas oficialmente o Memorial Day  começou em Waterloo, estado de New York, onde o farmacêutico Henry Carter Welles tentou em 1865 que o comércio local fechasse a 5 de maio para honrar os soldados enterrados no cemitério local, mas a sugestão só foi seguida no ano seguinte. Em 1868,  o general John A. Logan, senador que chegou a ser candidato republicano à Casa Branca e era o presidente do Great Army of the Republic, organização de veteranos da Guerra Civil que chegou a ter 100.000 membros, decidiu que no dia 30 de maio deviam ser colocadas flores nos túmulos dos militares mortos e chamou-lhe Decoration Day. O primeiro Decoration Day foi a 30 de maio de 1868, o presidente James Garfield discursou no Cemitério Nacional de Arlington e 5.000 voluntários colocaram flores em mais de 20.000 campas. Em 1882, o Decoration Day passou a ser Memorial Day e depois da II Guerra Mundial passou a honrar os mortos de todas as guerras. Em 1971, o presidente Richard Nixon fez do Memorial Day um feriado nacional celebrado na última segunda-feira de maio. Em 1966, o presidente Lyndon Johnson e o Congresso proclamaram Waterloo como berço oficial do Memorial Day e 30 de maio de 1868 como data de nascimento. Contudo, vários estados do Sul continuam a honrar os seus mortos em diferentes datas, 26 de maio, 10 de maio ou 3 de junho, e chamam-lhe Memória Confederada.
Também temos uma memória portuguesa do Memorial Day. Desde a Guerra da Independência às atuais guerras no Afeganistão e no Iraque, muitos portugueses ou seus descendentes pegaram em armas pelos EUA e alguns fizeram o supremo sacrifício. Fernando Santos, antigo editor do bissemanário Luso-Americano, de Newark, NJ, publicou o ano passado o livro “Luso-Americanos que Morreram ao Serviço das Forças Armadas dos EUA” e dá-nos conta de que pelo menos 929 militares americanos com apelidos portugueses perderam a vida em combate pelos EUA. No cemitério da Murtosa, distrito de Aveiro, por exemplo, estão sepultados três filhos da terra mortos em guerras dos EUA: Manuel Evaristo, II Guerra Mundial; Manuel Branco, Guerra da Coreia e Jack Rebelo, Vietname. 
Desde os primórdios da nacionalidade que há portugueses combatendo pelos EUA. Da guarnição do navio Bonhomme Richard faziam parte 28 portugueses e 11 morreram em combate com os ingleses em 23 de setembro de 1779, durante a guerra da independência. 
Os portugueses não fogem, afinal, ao espírito dos americanos, um povo de imigrantes com muitas origens, mas animados de grande sentido cívico e que respondem à chamada sempre que o país precisa.
A Guerra Civil ou Guerra de Secessão (1861-1865), foi o conflito que causou mais mortes de americanos, num total estimado em 970.000 e dos  quais 618.000 eram soldados. A guerra consistiu na luta entre os estados do Norte industrializado e onde a escravidão tinha pouco peso económico contra onze estados do Sul latifundiário e defensor da escravidão, que tentaram separar-se e formar a sua própria união com o nome de Estados Confederados da América. O ministro da Defesa confederado era Judah Benjamin, descendente de portugueses. Ao tempo, viviam nos EUA mais de 4.000 portugueses e muitos combateram dos dois lados. Na Louisiana, viviam algumas centenas de açorianos contratados para trabalhar nas plantações de açúcar e muitos combateram pelos Confederados. Em New York e do lado da União, imigrantes espanhóis e portugueses formaram uma companhia. A Medalha de Honra do Congresso, o maior reconhecimento que um militar americano pode receber por feitos em combate, foi atribuída a um luso-descendente, o cabo Joseph H. de Castro, do 19º Regimento de Massachusetts. Era natural de Boston, onde viviam ao tempo 500 portugueses. 
Na I Guerra Mundial (1914-18) morreram 53.402 americanos em combate e 63.000 de outras causas (só a Pneumónica matou mais de 25.000). Os primeiros mortos de Fall River  (Joseph Francis) e New Bedford (Walter P. Goulart) eram luso-descendentes. Goulart morreu a 27 de outubro de 1918 e na Rivet Street, no sul de New Bedford, existe um monumento em sua memória inaugurado a 30 de maio de 1923 numa cerimónia em que a sua família recebeu a Cruz da Ordem de Cristo que lhe foi atribuída postumamente pelo Estado português. Joseph Francis não teve direito a medalha portuguesa. Morreu a 20 de abril de 1918 e em Fall River, no cruzamento da Highland Avenue com a Prospect Street, existe um monumento em sua memória, uma grande pedra de granito com uma placa de bronze com inscrições. A associação de veteranos de Fall River recebeu também o seu nome, Joseph Francis VFW Post 486.
Na II Guerra Mundial (1939-1945), em que morreram 465.000 americanos, houve pelo menos 304 baixas luso-americanas e a primeira pode ter sido de Fall River: Charles Braga, tripulante do navio Pennsylvania, morreu a 7 de dezembro de 1941, no ataque japonês a Pearl Harbor. Foi dado o seu nome à ponte que atravessa o rio Taunton. A Braga Bridge é a maior obra de engenharia dos EUA com nome português.
Dois lusodescendentes combatentes da II Guerra Mundial mereceram a Medalha de Honra: Harold Gonsalves, da Califórnia, morto em combate a 15 de abril de 1945, em Okinawa e George J. Peters, de Cranston, RI, que fazia parte da Companhia 507ª da 17ª Divisão Aerotransportada. A 8 de fevereiro de 1940, a sua unidade foi lançada em Fluren, território alemão e Peters enfrentou sozinho um grupo inimigo, abatendo dois até ser abatido. Dá o nome a uma escola de Cranston.
Na Guerra da Coreia (1950-53), morreram 50.000 americanos, entre os quais 41 luso-americanos. Um desses heróis foi Leroy A. Mendonça, nascido em 1932 em Honolulu. Morreu a 4 de julho de 1951. Ficou a proteger a retirada do seu pelotão e abateu 37 inimigos até chegar a sua hora. Contava apenas 19 anos. Postumamente, foi promovido a sargento e recebeu a Medalha de Honra do Congresso.
Na Guerra do Vietname (ou Guerra Americana, para os  vietnamitas), morreram 58.152 americanos e só de Massachusetts e Rhode Island há 53 nomes portugueses no Vietnam Veterans Memorial existente em Washington. Um desses nomes é o soldado Ralph Ellis Dias, nascido em 1950, em Shelocta, PA. Alistou-se nos Marines em 1967, seguiu para o Vietname em 1969 e morreu em combate a 12 de novembro desse ano.  Foi condecorado com várias Purple Heart e Medalha de Honra do Congresso.
Nas modernas guerras dos EUA no Afeganistão e Médio Oriente têm morrido vários lusodescendentes. No Parque dos Veteranos, em Newark, NJ, existe uma estátua do sargento Jorge Oliveira, da Guarda Nacional, morto no Afeganistão em 2011. Mas a história que vos quero contar a rematar estas memórias lusas do Memorial Day é de David Marques Vicente, cabo marine. Já contei uma vez, mas merece ser recordada. Vicente nasceu em 1979 e foi criado em Methuen, Massachusetts. Graduou em 1998 e pensou seguir a profissão de mecânico, mas decidiu alistar-se nos Marines, foi enviado para o Iraque e a sua vida foi ceifada dia 19 de março de 2004 na explosão de uma mina. 
Viria a ser sepultado em Methuen com honras militares, mas antes do funeral um familiar veio a New Bedford e pediu ao cônsul uma bandeira portuguesa que Vicente levou no caixão sobre o peito porque trazia sempre Portugal no coração.

Festas do Senhor 
Santo Cristo dos Milagres
Decorreram no passado fim-de-semana em Ponta Delgada as tradicionais festas em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, presididas este ano pelo bispo da Diocese de Fall River, D. Edgar Moreira da Cunha. O prelado tem a vantagem de falar fluentemente português (é brasileiro, nascido em 1953 em Nova Fátima, Bahia). Foi  ordenado em 1982 nos EUA, elevado a bispo em 2003 pelo Papa João Paulo II e nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese de Newark. Em 2014, o Papa Francisco tornou Cunha o oitavo bispo de Fall River, diocese com 82 paróquias no sudeste de Massachusetts, Cape Cod e ilhas de Martha’s Vineyard e Nantucket, e 285.000 fiéis, muitos dos quais oriundos dos Açores e devotos do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
Como bispo de Fall River, D. Edgar Moreira da Cunha já participou nas festas na igreja de Santo Cristo, na Columbia Street, aberta ao culto em 1891 e a primeira igreja portuguesa da cidade.
As festas de Fall River talvez sejam as maiores, mas há outras festas do Senhor Santo Cristo em Massachusetts e Rhode Island, nomeadamente na igreja de Corpus Christi, em Lawrence, Santa Isabel em Bristol e Santo António em Cambridge.
Em sintonia com Ponta Delgada, realizam-se várias festas de Santo Cristo na diáspora açoriana, nomeadamente em Hamilton, nas Bermudas; Chino, na Califórnia e Montreal, no Canadá, o que nos dá ideia da universalidade do culto iniciado por madre Teresa da Anunciada. Para milhares de imigrantes açorianos, estas festas na diáspora (e as transmissões diretas da RTP), são a possibilidade de matar saudades da festa com que foram criados.
Para a generalidade dos imigrantes cada vez é mais difícil ir às festas de Ponta Delgada devido ao preço das passagens. Os responsáveis descartam-se dizendo que apesar disso há muita gente a viajar para os Açores, mas viajaria muito mais gente se as tarifas fossem mais acessíveis. São preços proibitivos para a grande maioria dos imigrantes açorianos. Tenho familiares que imigraram há mais de 40 anos e todos os anos sonham voltar a ver as festas com que foram criados, mas as saudades desaparecem mal vêem o preço dos bilhetes.