Boias da Memória

 

Tomo a liberdade de trazer aos meus potenciais leitores algumas páginas do meu livro publicado em 2016 com o título em epígrafe. Selecionei o trecho que segue, feito de retalhos, ao texto da segunda edição, que será pu­blicada em data ainda por aprazar. Mais de dois terços da primeira edição foram já vendidos em pouco mais de três meses

A tarefa da distribuição dos presentes pertencia ainda ao Menino Jesus. Nas montras da cidade provincialista, os brinquedos desconheciam as tecnologias dos nossos dias. Como no resto do mundo, não havia computadores nem telefones portáteis. Mas os telefones regulares, de aspeto primitivo e de cor preta como o azeviche da ligni­te, caberiam todos sobre uma mesa ou talvez ou três em toda ilha. A televisão tampouco era concebível embora já tive aparecido nos Estados Unidos pouco antes do colapso económico de 1929.

As bonecas de cabelos loiros e olhos azuis aconchegadas nas prateleiras não se relacionavam com os olhos casta­nhos e os cabelos negros e a pele amorenada da maioria das meninas faialenses. As miniaturas dos automóveis americanos não cabiam no poder de compra da plebe ou mesmo no estilo de vida da classe média quase inexis­tente. A última, nem sempre solidária para com os po­bres, não podia deixar de se mostrar subserviente perante a elite mandatária do governo do império sem colocar em risco os seus empregos ou quaisquer benefícios corre­la­cionados. Por isso os jornais faziam eco do que o go­verno lhes dizia através de modos de sugestão nem sempre óbvios ou até entendidos. Salazar era um dos vocábulos mais comuns nas páginas da imprensa. E na maior dos casos os membros áulicos da elite social e po­lí­tica quase o adoravam como uma figura divina. O asceta de Santa Combadão salvara Portugal. Nada menos.

Os chamados altos funcionários, chefes de repartições e diretores de empresas privadas tinham um estilo de vida simples pelas medidas europeias e americanas, mas incomparavelmente superior à classe proletária. Com a burguesia dos comerciantes e dois ou três empreiteiros bem-sucedidos, eram vistos como “os ricos”.

Ricos, muito ricos, havia poucos pelos critérios euro­peus e americanos. Mas no contexto da economia local o contraste entre estes indivíduos e famílias pecuniosos e os pobres não alteraria a diferença simbólica entre o tamanho de um camelo bíblico e o orifício de uma agu­lha. Quase não tinham pares na ilha, onde o popó do João da Cruz, um “Dona Elvira” descapotável, ou as baratinhas de propriedade do Pinheiro, da Praça do Infante Dom Henrique, percorriam, intermitentemente, as vias calcetadas de basalto polido.

A estes veículos fazia companhia, nos dias de “São Va­por”, a camioneta do Jõao Miguel. E também a carroça do Cabaça, lenta, puxada pela mula dócil ou o cavalo Malcriado, ambos cansados da mornaça do verão. Ia e vinha entre a moagem do Peixoto e o Cais de Santa Cruz, em frente ao Posto de Desinfeção. Naquele local amarravam o Rival e o Adamastor, os barcos do porto fronteiriço da Madalena.

A festa dos meninos possuía um aspeto triste, repe­titivo. Havia-os sempre descalços, com a lama entre os dedos dos pés nos dias chuvosos, de verão e de inverno. No Bairro da Doca, famílias inteiras abrigavam-se em cafuas feitas com folhas de latão e fragmentos de tecidos impermeáveis roubados na baía. E pedaços de tábuas de madeira ou paus de lenha do Pico servindo de te­lhados nos espaços entre grandes blocos de pedra. Tinham sido deixados no local desde que se construíra a doca artificial. Era por isso que a zona recebera aquele nome no fim do século XIX.

Ninguém, todavia, se pronunciava acerca desta miséria inconcebível. Olhavam-se os desgraçados com desprezo, como se fossem membros de outra espécie e responsáveis pela sua infeliz condição. A elite julgava-os seres despre­zíveis. Vestiam-se de andrajos, calças e camisas confecio­nados de remendos. Nem possuíam meios higiénicos nas suas choupanas. Por vezes viam-se-lhes as caras sujas e os piolhos que levavam para as escolas. Vestiam casacos que de tantas emendas ou reparações lhes terem sido costurados com linhas de várias cores não se poderia descortinar o que fora o tecido original.

A doença manifestava-se nas efusões que escorriam pelos ouvidos de alguns. Um homem de alcunha Pata­cho, por vezes metia a ponta de um dedo indicador nos ouvidos e depois limpava o pus nas calças. Na visão do mundo desta gente miserável talvez tudo sempre fora assim. O natal era um dia como qualquer outro. As mu­lheres, muitas delas jovens ainda, tinham faces envelhecidas. Avós viúvas vestidas de negro, mães e filhas carregavam no semblante a tristeza das depressões. Haviam já vertido todas as lágrimas da sua vida. Ama­mentavam bebés desnudos com seios emurchecidos, enquanto outras crianças com pouco mais idade chora­vam de fome.

Os maridos dormiam ou estavam prostrados em camas com cobertores rotos, inânimes, frequentemente, depois de gastarem os últimos tostões em vinho ou cachaça. A apatia, o desinteresse por tudo e pela vida e a irascibilidade causavam-lhes conflitos com os amigos e a família. Mas ninguém atribuía estes comportamentos à depressão clínica. A desmotivação caraterística desta doença mental, na crítica alheia dos bem-amanhados tinha por explicação causal a ociosidade. Eram na maior parte homens sem futuro, como o Viriato Ferreira que criticava tudo e todos. A elite não protestava, todavia. Para fazê-lo, os seus elementos teriam de ser apodados de “doidos” como o pedreiro Zé Pequeno.

Poucos apontariam a si próprios o hipercriticismo e o sentido de desamparo e a autoperceção de valor nulo de um homem de apelido Câmara. Um dia, passou na Bombardeira pelo Tio Artur a caminho do Monte de Guia. Não regressou a casa. Procurado por toda a parte, dir-se-ia que o chão o sumira. Algumas semanas depois, pescadores encontraram o seu cadáver já em decom­po­sição detrás daquela elevação, na base de um precipício.

Existir tornara-se doloroso com a experiência da penúria, a falta de liberdade e a indignidade de encarar a família sem lhe poder mitigar as condições de uma vida sem esperança. Em Castelo Branco, numa atafona vazia, um pobre homem lançou uma corta a um tirante envolvido em teias de aranha e pôs fim à existência amargurada ao modo terrível de Judas. Encontraram-no com as pontas dos sapatos tocando o chão e a língua descomunalmente inchada saindo-lhe pela boca. O cadáver tinha as faces negras e os olhos entumescidos de um sapo. Um primo do Manuel da Luísa, o José Mau­rício, petrificado em frente do morto ainda depen­durado pelo pescoço, chorou em silêncio. Homem de sensibilidade genuína, as lágrimas grossas corriam-lhe pelas faces. Em silêncio.

Muitas crianças, quase adolescentes num sentido psicodesenvolvimental, com as suas mães cobrindo a cabeça com um xale ou um lenço sem cor, esvaído e cheio de remendos, olhavam as vitrinas com o nariz esborrachado contra a vidraça do senhor Katzan. Andavam com os pés nus. Algum dia, quiçá, o Filho da Virgem lembrar-se-ia dos seus nomes esquecidos agora nas barracas da doca, nas Angústias. Ali a ralé curtia a depressão com a aguardente da Ilha Alta na imundície do ambiente exterior que a rodeava.