Uma escola portuguesa em cada comunidade portuguesa da Califórnia: uma utopia possível e absolutamente necessária

 

• Diniz Borges

 

Há anos que tento refletir o ensino da língua portu­guesa na Califórnia. É verdade, faz parte da minha vida. Há mais de duas décadas que diariamente tento incutir nos meus jovens alunos o gosto pela aprendizagem da língua portuguesa e as múltiplas vertentes culturais da nossa cultura ancestral e da cultura do mundo lusófono. É que tal como nos diz um célebre provérbio chinês: o professor abre a porta, mas aluno tem que entrar por si próprio. Na realidade, através do estado da Califórnia, os nossos professores de língua e cultura portuguesas não fazem mais do que tentar abrir a porta para que cada aluno se torne num verdadeiro aprendiz para o resto da vida, estudando e praticando a língua e vivendo e conhecendo a riqueza das culturas do mundo da língua portuguesa. Como já o disse, repetidamente, com a meta­morfose que se passa na nossa comunidade de ori­gem portuguesa no estado da Califórnia, as aulas de língua e cultura portuguesas, particularmente no ensino publico californiano, são verdadeiros instrumentos de salvação para a nossa língua e para a passagem do nosso legado cultural. E no nosso movimento associativo são também a ponte natural entre as várias gerações de luso-descendentes. O ensino da língua e cultura portuguesas é, e acredito que continuará a ser, o único elo unificador das nossas comunidades espalhadas pelo estado da Califórnia.   

Olhando um pouco pela nossa realidade, há que sa­lientar que neste ano letivo de 2016-17, o qual termina dentro de três meses, registou-se, no estado da Califór­nia, um crescimento no número de alunos de língua e cultura portuguesas no ensino público e privado na ordem dos 27%. Criaram-se cursos novos no ensino público, o caso de San Diego e no ensino privado em vá­rias associações do norte e centro da Califórnia. No ensino público a presença da língua portuguesa é impe­rativa. Se estamos interessados na preservação e disse­minação da nossa língua e da nossa cultura então há que trabalhar, arduamente, para que se convençam mais escolas secundárias da Califórnia a terem a presença de aulas de português. É que estando nos currículos califor­nianos, a nossa língua, e a nossa cultura, ficam em igualdade com as outras línguas e culturas mundiais. Mais, há cada vez mais interesse pela parte da comuni­dade hispânica pela língua portuguesa. Aliás, há que trabalhar-se para que hajam currículos específicos de português para falantes de espanhol. Apesar de já existirem em várias universidades, é importante que se criem currí­culos similares para as escolas secundárias. 

Dentro do mundo académico californiano, onde a nossa língua merece estar, como se disse, em pé de igualdade com as outras línguas mais faladas no mundo, estará certamente todas as vertentes da nossa cultura e da ligação da mesma às culturas dos países lusófonos. É importante que os filhos, netos e bisnetos dos emigrantes tenham acesso à globalidade da nossa riqueza cultural, a qual, muitas vezes, no seio comunitário e familiar, fica pelas bases e raramente ultrapassa a matança do porco ou a tou­rada à corda, que são elementos da nossa cultura popular e pedaços relevantes da mesma, mas são um mero degrau na altíssima e riquíssima escada composta pela nossa herança cultural.  No seu mundo, que é o mundo dos seus colegas e amigos, fora dos guetos sociais ou físicos, onde estão as outras línguas mundiais, os luso-descen­dentes podem aprender não só a comunicarem na língua de Camões, mas também a apreciarem os valores culturais do mundo lusófono, quer através da geografia, da história, da música, da gastronomia, da literatura e das artes plásticas. 

Para que o mundo português esteja dentro do seu mun­do, e todos os dias na sua escola secundária, é importante que hajam mais oportunidades para os nossos alunos e mais escolas do ensino oficial americano que tenham cur­sos de língua e cultura portuguesas. Tal como aconteceu recentemente em San Diego, a trajetória não é fácil, mas é possível. Dentro de cada comunidade há que se criar grupos de lobby e irmos (digo no plural porque estou pronto a ajudar) junto das entidades dos departamentos de ensino americano, com entusiasmo e extremamente bem preparados, a fim de fazer-lhes sentir a importância da língua portuguesa, não só para os nossos rebentos, mas como língua mundial presente em todos os continentes. É imperativo que se criem mais cursos de língua e cultura portuguesas nas escolas secundárias da Califórnia. As nossas associações têm que ser mais ativas nesse sentido. Os nossos ativistas culturais precisam de pensar um pouco menos nas suas ambições teatrais, momentâneas e supér­fluas e darem um pouco mais (para não dizer muito mais) atenção ao que na realidade vai perpetuar a presença por­tuguesa na Califórnia, a nossa inserção no mundo ame­ricano, começando pela presença da nossa língua e cultura nos currículos das nossas escolas públicas. Se conseguirmos lavrar novo terreno, estaremos, certamente, a imortalizar a nossa presença em terras californianas. Se não tivermos aspiração e capacidade para semelhante empreendimento estaremos simples e unicamente a adiar o inevitável. É que para cada família que ainda fala português em casa, há, no mínimo 100 que não o falam, e para cada pessoa que se diverte com a cultura popular, há centenas que estão inseridas no mundo americano e não têm acesso ou tempo para essa diversão. 

Uma palavra ainda sobre as escolas do nosso movi­mento associativo. Quase todas estas unidades estão viradas, e ainda bem, para o ensino às crianças do ensino primário. O seu papel é fundamental, porque infeliz­mente o ensino das línguas na Califórnia está concen­trado no ensino secundário, e nos ciclos (Jr. High) em algumas unidades. Dir-se-á com uma palavra solidária e congratulatória que a escola primária de Hilmar com o seu Portuguese Enrichment Program é única no esta­do. Bem-haja!  Olhando para a realidade do ensino das línguas mundiais nas escolas americanas, é de salutar que o nosso movimento associativo, em várias partes do estado, tem sido inovador e tem criado escolas comu­nitárias, as quais têm um objetivo duplo: ensinam a lín­gua e a cultura aos mais jovens e envolvem os pais nas associações. Para muitas associações que se debatem com a falta de gente nova, a criação de uma escola, de cursos de língua e cultura é de suma importância. É que não só ensinam os mais novos, mas fazem com que os pais, jovens adultos, muitas vezes afastados do nosso movimento associativo, acabem por renovar o seu inte­resse nas nossas associações e nas iniciativas das mesmas. Vejo a criação de cursos de língua e cultura portuguesas no nosso movimento associativo como a outra peça do puzzle que eternizará a nossa presença em terras da Califórnia. E com os apoios que se recebe, em termos de manuais e formação, pela parte do Instituto Camões (protocolo IC-LAEF) essa tarefa está cada vez mais ao alcance de cada uma das nossas associações.  

É mais do que cliché usar-se a frase de Fernando Pessoa: a minha pátria é a língua portuguesa, mas como foi dito algures num dos congressos da Luso-American Education Foundation (o deste ano a 10 e 11 de Março em São José): a língua portuguesa é ainda o legado a que todos os luso-descendentes têm direito. Para que a metamorfose natural que a comunidade enfrenta, dia­riamente, não seja equacionada com o nosso desapareci­mento como língua e cultura viva na Califórnia, há que ser-se audaz e construir-se a utopia de em cada comu­nidade haver uma escola comunitária e de ter-se cursos de língua e cultura portuguesas nas escolas secundárias dessa mesma comunidade. 

Tal como escreveu Clarice Lispector, sobre o signi­ficado para ela da língua portuguesa, é bom que façamos da língua portuguesa uma parte importante da nossa vida interior, diria mesmo de quem verdadeiramente somos em terras americanas.