INDISCIPLINA: O maior tormento escolar

 

O começo do ano escolar alerta-nos para os problemas mais tormentosos que as escolas enfrentam todos os anos. Na maioria das escolas os docentes vêem a indis­ciplina como o maior obstáculo na aprendizagem e no ensino. Muitos estudos confirmam que a indisciplina afeta o trabalho dos docentes, bem como a aprendizagem de todos os alunos/alunas na aula (K. Rigby, 2007). Contudo, é importante compreender-se como funciona o ambiente familiar e social, bem como o clima escolar em que as crianças estão inseridas, podendo estes fatores contribuir para o aumento do comportamento negativo/agressivo, que as crianças exibem. Na maioria dos casos as crianças não são responsáveis pelo seu comporta­mento, porque não foram na idade apropriada educadas e treinadas nas competências socias necessárias, baseadas no acolhimento, respeito, aceitação, e compreensão para com os/as colegas e adultos. No mundo globalizado em que a diversidade linguística, cultural e religiosa é cada vez mais visível em todas os sistemas de ensino, exige-se um amplo nível de respeito e compreensão mutua, entre docentes, pais e alunos/as.

Carga horária elevada, classes numerosas (ideal 16 alunos/as por classe), corredores, lavabos, pátios, ginásios etc. não apropriadamente supervisionados por adultos (segurança), treinados para lidar com alunos proble­máticos, e não só, podem ser fatores que contribuem para a indisciplina. Docentes e ajudantes de professores, não treinados em métodos inclusivos comportamentais, faz com que, todo o pessoal escolar mesmo os professo­res/as, até os mais especializados, tenham dificuldade em conduzir eficazmente as suas classes. Pode ser inje­tado todo o dinheiro possível num sistema escolar, mas se os docentes não forem devidamente treinados em técnicas comportamentais, métodos cooperativos de aprendizagem, ou em muitos outros modelos de ensino, a probabilidade de sucesso será sempre difícil.

Por exemplo, a Aprendizagem Cooperativa (AC) através das suas estratégias comportamentais e estruturas de ensino/aprendizagem facilitam a interação controlada de todos os alunos/as na aprendizagem da matéria. O benefício do uso das estruturas e estratégias cooperativas de ensino/aprendizagem, reflete o trabalho cooperativo em grupos, que requer não só a interdependência positiva, a responsabilidade individual dos alunos/as, mas também a responsabilidade do grupo. Ou seja, se um grupo de três, ou quatro estudantes, máximo, estão estudando a ma­­téria ensinada, ou revendo a mesma para um teste, quando o docente coloca uma questão, qualquer membro do grupo tem de estar preparado para dar uma resposta correta. A resposta é consequência do modo como a do­cente apresenta/explica a matéria, dedicação e estudo dos alunos/as, interação positiva do grupo, e uma discussão cons­trutiva entre os membros do mesmo, sendo a resposta consensual.

Aleatoriamente o docente escolhe um aluno ou aluna a dar a resposta, se a mesma não for correta, todos os alunos/as no grupo falharam. Falhar, indica que o grupo não cooperou apropriadamente, de modo que todos os estudantes aprendessem a matéria, tendo que a reestudar na escola, e revela em casa (Johnson & Johnson). Todos os estudantes são testados individualmente. A duração do tempo dado a um grupo cooperativo de aprendizagem para uma atividade, tem de ser sempre curto, para não dar lugar a conversas supérfluas. Hoje a AC tem vindo a ser usada na Europa (Alemanha, Inglaterra, Franca, Suécia etc. etc.) no Japão, USA e Israel com grande sucesso.

Com o aparecimento das novas tecnologias, o ensino e a aprendizagem a todos níveis mudaram. Ser-se professor hoje requere um conhecimento profundo da matéria, como sempre, navegar na NET fluentemente, porque qualquer aluno/a intrigante, pode embaraçar o professor, indicando que a informação no computador é diferente e mais elaborada do que, a que, o docente está apresen­tando/passando à classe. Tal intervenção pode causar distúrbio numa classe indisciplinada.

Para beneficio do docente, individualmente ou em grupo os métodos desenvolvidos pela AC, podem resol­ver o problema indisciplinar/bullying, ou pelo menos minimizá-lo, embora minimizar por vezes significa perpetuar, o que é negativo.

A solução ideal é desenvolver/começar um programa piloto, que gradualmente treinará todos os docentes no método cooperativo de ensino/aprendizagem, desde a pré-primária ao decimo segundo grau. Todavia em termos de comportamento, as idades mais apropriadas para começar o treino, são as compreendidas entre a pré-primária e a quarta classe (primeiro ciclo). Se entre estas idades, as crianças forem devidamente educadas e treinadas em competências sociais usando as estratégias cooperativas, tanto na aprendizagem como no compor­ta­mento, revisadas todos os anos letivos, até nas escolas secundárias, o problema da indisciplina, e do bullying, poderá ser resolvido (W. O’Leary, Slavin, Kagan, etc.). As universidades também têm que treinar/expor os alunos/as, que estão sendo preparados para no futuro se­rem professores, em múltiplos métodos de ensino/apren­dizagem como Cooperative Learning (Aprendiza­gem Cooperativa). 

Um programa piloto só se concretiza se os pais, a administração escolar e os docentes lutarem arduamente para que tal aconteça. Todavia, qualquer docente pode individualmente, e dentro da sua sala-de-aula, aplicar as estratégias e estruturas cooperativos de ensino/apren­dizagem, tendo sempre como prioridade as necessidades de aprendizagem e educação cívica dos alunos/as, satisfazendo também os requisitos do curriculum pré-estabelecido.

O professor doutor Nuno Lobo Antunes no seu livro Sinto muito (2008, p.147), diz-nos que “As crianças não acordam de manhã com intenção de falhar, errar, criar angústia em pais e professores. Se isso acontece, é porque a vida escolar nada lhes trouxe que as faça felizes ou confiantes.

A minha ideia mais simples, e porventura a mais im­portante, é de que no mundo das crianças a preguiça não existe”.