Tributo de homenagem a José Valadão, o fundador do carnaval terceirense nos EUA

 

 

O aparecimento do car­naval terceirense teve um fundador nos EUA. Foi José Valadão, que em 1973 arriscou sair com a primeira dança de carnaval em Lowell Ma. 

Ao falecer a 4 de junho de 2016 José Valadão dei­xou uma herança cultural carnavalesca que já soma 44 anos de existência e com projeto de continuidade.

Nasceu na ilha Terceira, freguesia das Lajes, a 30 de janeiro de 1929 e faleceu em Lowell a 4 de junho de 2016.

Prestou serviço militar na ilha Terceira tendo sido funcionário na base aérea das Lajes. Veio para os EUA radicando-se em Lowell, onde se revelou como gran­de músico, fundando a  banda do Espírito Santo do Portuguese American Cen­ter, conhecido popular­mente, como o “clube dos azuis”. Mas seria o carnaval que iria imortalizar José Valadão pela forma como o projetou no seio comuni­tário e pela forma como se desenvolveu. Era casado com Maria Natal Toledo (Ormonde). Deixa um filho, Délio Valadão e uma filha Lália Raposo.

José Valadão fez história e em homenagem àquela figura, que marcou uma época, deixamos aqui a sua imortalização, para a história do carnaval.

 

Dizia-nos José Valadão:

“Uma Petiscada”, foi o primeiro bailinho a vir a palco em 1973"

“A Galinha” (Délio Vala­dão), “O Queimado” (José Vala­dão) “A Pomba” (Fran­cisco Meneses, já falecido) e “O Melro Preto” (Lou­renço Valadão) foram os figurantes do primeiro bailinho cujo enredo era “Uma Petiscada”.

“Éramos cinco pares, que em 1973 terá sido o arran­que para o reviver de uma tradição que tem encon­trado eco pelas comuni­dades a norte e sul de Bos­ton”, disse José Valadão,  ao Por­tuguese Times. José Valadão, que se encontrava acom­pa­nhado pela esposa e filho Délio Valadão, que a comu­nidade conhece como um dos grandes impulsio­nadores daquela tradição pelos EUA.

“Depois do bailinho “A Petiscada” em 1973 surge no ano seguinte “A Artista de Cinema”, que, tal como a primeira, tinha saído no Juncal”, prossegue José Valadão no conforto do seu lar e com as paredes rechea­das de memórias foto­grá­ficas das danças efectuadas pela Ilha Terceira.


“O Portuguese American Center, Portuguese American Civic League e Sociedade do Espírito Santo em Lowell primeiras organizações a receber danças nos EUA”

 

“As apresentações das primeiras danças aconte­ceram pelos clubes dos “azuis” (Portuguese Ameri­can Center); dos “verme­lhos” (Portuguese Ame­rican Civic League) e ainda na “Pensão 50” de Porto Mar­tins, no João Cambado da Praia, por cima do “Mateus Peixeiro” e mesmo no Mar­tins Peixeiro. Nos princípios ainda nos apresentamos em Peabody, Lawrence, Cam­bridge”, prossegue José Valadão, com o apoio de seu filho Délio Valadão.


“Como diz o povo, agora estamos a ver touros de palanque”

 

“Eu fiz duas danças que seriam o rastilho para o que é hoje o carnaval por toda a Nova Inglaterra.

O meu filho Délio Valadão e mais rapaziada terceirense têm dado continuidade a esta tradição enquanto que nós passamos à reserva.

Ficamos a ver touros de palanque (expressão que o povo usa, significativo da passagem à reforma de gente activa).

Mais tarde ainda ensaiei e levei a palco o bailinho “A TAP”, onde além da gente da Terceira também apa­reciam dois ou três rapazes da Graciosa. ”Os Cowboys” foi outro dos bailinhos trazidos a palco com grande sucesso, tal como os anteriores”, prossegue José Valadão, o pioneiro do carnaval terceirense por estas paragens.

Se bem que a entrevista fosse efectuada numa noite fria e gelada mais con­vidativa a recolher a “vale de lençóis”, o nosso entre­vistado pronto a recolher, recebeu um sopro de juventude quando começou a falar do carnaval.


“Em 1975 começámos a levar os bailinhos até Pawtucket, Warren

e Taunton”

 

“Em 1975 e já com o meu filho Délio a chamar a si a res­ponsabilidade da con­tinuação do carnaval, os nossos bailinhos começa­ram a apresentar-se em Pawtucket, Warren, Taun­ton.

Pelas comunidades do sul o carnaval conhece a sua evolução graças a Victor Santos, que tem sido um grande impulsionador desta tradição”, prossegue José Valadão, tendo a seu lado o filho Délio, que acrescenta:

“Ao princípio as danças não foram bem recebidas em todos os salões. Uma vez no clube dos “azuis” em Lowell, estava uma mulher mesmo à frente que não se calava um minuto por não gostar das danças.

 

No desenrolar do bailinho o meu pai aproveitou e deu-lhe um pontapé numa canela e que passados uns minutos já estava ao fundo da sala calada que nem um rato.

Outra vez estávamos em Cambridge e chama­ram para irmos ao Clube Madeirense, em Woburn.

Por des­conhecimento da tradição e face ao barulho na sala “metemos a viola no saco” e toca a andar”, disse Délio Valadão.

 

Mas José Valadão, acrescenta:

 

“Com 13 anos de idade comecei a tocar música. Participei ainda no decorrer da minha juventude em seis danças da noite a tocar violino. A minha mãe preferia que eu me dedicasse ao clarinete e eu não gostava. O Manuel Chanceler disse-me que o melhor para mim era o saxofone alto. Acabei por vir a ser o fundador da Banda do Espírito Santo junto dos “azuis” (Portu­guese American Center) aqui em Lowell.

Lá comecei na Sociedade Velha e depois mudei-me para a Sociedade Nova. O que mais gostava na vida era a música, as danças de carnaval e as touradas”, prossegue José Valadão, que acrescenta que a dança de dia (dança de espada) dançava pela rua e a da noite (bailinho) nos salões das sociedades”, concluiu José Valadão, de que nos resta a saudade e uma herança que movimenta largas centenas de pessoas, pelas associações a norte e sul de Boston.

 

• Texto e fotos de Augusto Pessoa