Cerimónias da Semana Santa

 

A comunidade continua a ser palco de celebrações de índole histórico-religioso. Evocando a paixão e morte de Cristo, a Semana Santa consegue o apogeu das cerimónias que começam semanas antes, com as romarias quaresmais e culminam ao acender da chama da vida, significativa da Ressurreição de Cristo.

Nota-se uma adesão cada vez maior por parte de uma comunidade ativa, católica e o mais importante pra­ticante. Estamos perante uma manifestação históri­co-religiosa, os Romeiros, que bem se pode traduzir por uma caminhada de fé, horação e penitência.

Estivemos em New Bed­ford, em Sábado de Aleluia. Em Pawtucket e Bristol em Domingo de Ramos e concluimos em Fall River em Sexta-Feira Santa, onde se registou o culminar das romarias quaresmais.

Mas porque raio é que chegando a casa por volta da 1:00 hora da manhã, após concluída uma repor­ta­gem com cerca de 1 hora de caminho, levantamos pelas 3:30 para estarmos na St. Bernard Church em Assonet, para a saída da romaria da Nova Inglaterra. Podiamos ignorar. Eramos os únicos a registar mais este acontecimento histó­rico. Gente crente. Gente praticante. Gente que man­tém a sua identidade. Gente que ao sentir-se apoiada continua. Gente que ao sentir-se desamparada, desanima e abandona.

Não foi por acaso que Manuel Reis nos dizia para estarmos pelas 6:00 da manhã no salão da igreja do Espirito Santo em Fall River. Deparamos com 350 romeiros, prestes a percorrer as ruas da “capital dos portugueses nos EUA”. “Valeu a pena vir”, dizia-nos Manuel Reis, para acrescentar: “Sirva-se de um pedaço de massa sovada. E beba um copo de leite. Todos os irmãos têm direito”. Sim, porque em dia de romaria todos são irmãos. Todos comungam da partilha. Todos rezam por eles e pelos outros. Todos se despejam dos bens materiais e pegam nos espirituais.

E ali em Fall River em dia de Sexta-Feira Santa viveu-se a romaria quaresmal.

A mesma cidade que acolhe as Grandes Festas do Espírito Santo da Nova Inglaterra que movimentam mais de 200 mil pessoas, já considerada a maior festa dos portugueses nos EUA, envolvendo as componentes religiosa e popular.

Foi Fall River que ouviu o som arrastado de uma Avé Maria e de um Pai Nosso entre as 7:00 da manhã e as 7:00 da noite. Foi Fall River que viu uma caminhada de oração, repartida por mais de 350 fiéis seguidores da palavra de Deus, que o mestre António Faria, fazia ouvir e encontrava eco nos crentes que o acompa­nhavam. Antes do início da caminhada falou a todos eles. Mas com voz de mestre, amigo, crente. Não resta outra alternativa. “Vens comigo. Há normas a seguir. Não há telemóveis. Não há conversas. Cami­nha­mos com Deus no coração e o olhar no céu”.

Somos na verdade uma comunidade exemplar, onde não deixa de ser revoltante o oportunismo de quem não vive este manancial da presença lusa por estas paragens, mas chega com falinhas de gente entendida, parafra­seando o que vem lendo no Portuguese Times, adapta e diz que são trabalhos inéditos.

E tal como já o temos referido, os arautos que vêem nos astros o fim da comunidade, das iniciativas lusas nos EUA, estão cons­tantemente a encontrar revés às suas profecias. E não nos venham dizer que foram os pais que obrigaram a grande percentagem de jovens a tomar parte na romaria em Fall River. São jovens, uns que ali temos vindo a ver, anualmente. Outros que vieram pela primeira vez. Façam como São Tomé. Ver para crer.

Mas tal como o romeiro, vamos manter a nossa ca­minhada comunitária, dan­do voz ao que fazem coisas lindas, tendentes a manter a nossa identidade.

Dizia o professor Amadeu Casanova Fernande: “Sobe­ja-lhes no entusiasmo na falta da formação académi­ca”, numa alusão direta aos “heróis” que ergueram o Clube Juventude Lusitana.

Os tempos mudaram, hoje já temos gente com formação, dando seguimento ao trabalho dos pioneiros.

 

• Fotos e texto de Augusto Pessoa