Victor Pinheiro recebido com honras de rei quando aportou ao Faial com o veleiro Maravilhas

 

Victor Pinheiro é um dos muitos e talentosos jovens de uma segunda geração que orgulhosamente imortalizam a nossa comunidade. Nesta edição tivemos o cuidado de ir em procura de jovens, que ressurgem de uma comunidade de pais e avós que com um sorriso na cara e uma lágrima de orgulho, vêm imortalizado o seu saber de experiência feito para sempre.

Victor Pinheiro é disto um exemplo vivo.

“A minha familia é oriunda do Faial. Veio para os EUA, quando os portos americanos se abriram para acudir à tragédia originada pelo vulcão dos Capelinhos. Gente do mar. Baleeiros do tempo do meu avô. Velejadores do tempo do meu pai. De muito novo comecei a sentir na cara o respingar da água salgada, quando a quilha do meu veleiro cortava a onda. Tinha entre os 7 e 8 anos de idade. Comecei com o meu pai a fazer regatas. Quando se faz uma regata entre dois pontos, na nossa mente desenha-se o mais além desses pontos. É algo inexplicável. Mas acontece. E aconteceu. O homem sonha e a obra aparece”. Recuando na história: “os barcos baleeiros saídos de New Bedford quase sempre aportavam à Horta, Faial. Os Açores estavam num lugar chave no meio do Atlântico. Ali seguiam o rumo do sul da América, sempre a favor dos ventos. Aqui reúnem-se duas componentes por detrás desta minha odisseia marítima. O familiar e o histórico.

 

Quem vai para o mar prepara-se em terra

Se bem que com mais de 40 anos à volta de barcos à vela, esta odisseia entre New Bedford e o Faial teve um ano de preparação. Foi necessário juntar a tripulação e depois preparar o barco com tudo o que pode ser necessário a bordo. Alimentação, medicamentos, aparelhagem de navegação, peças para substituição em caso de necessidade. Temos pela frente uma viagem de 2 mil milhas, o equivalente a quase 2 semanas no mar. Temos de ter em conta que no alto mar não há lugares para parar (disse no meio de um sorriso). Não podemos chamar ninguém (só em caso de extrema necessidade se pode pedir ajuda via rádio). Saimos com planos, quando em caso de avaria, como é que vamos resolver, esse problema. Tudo isto foi metodicamente estudado, delineado, estruturado e equacionado”, diz-nos Victor Pinheiro.

Se bem que há quem faça voltas ao mundo a solo, como o fez Genuino Madruga, Victor Pinheiro não foi em tal aventura e fez-se acompanhar por uma equipa experi­mentada na vela e no mar.

“Nenhum dos primeiros três convidados a empreender a façanha da ligação em barco à vela New Bedford/Faial, acabaria por tomar lugar na viagem. Contratempos nas suas vidas particulares impediram os seus planos iniciais. No verão de 2013 é que a viagem começou a ser encarada com forma de finalização. Quem se aventura a uma façanha desta envergadura tem que ter conciência que vai viajar com quatro pessoas, num espaço de tamanho muito reduzido, durante duas semanas. Tem que haver uma excelente relação entre todas e em situações, que às vezes não são das mais confortáveis. É importantíssimo haver uma boa relação entre todos.

Um dos três iniciais adoeceu e viu-se impossibilitado de poder ir. Com o andar dos tempos todos acabariam por desistir. Fiz uma lista de quinze pessoas e já estava quase a finalizar, quando surgiram os que se aventuraram a acompanhar-me”, prossegue o descendente de baleeiro, velejador, em cujas veias corre o mar salgado que alimenta a aventura, devidida em várias etapas.

 

A viagem

“Saimos de New Bedford em direção ao Faial. Ali o barco ficou pelo período de 2 meses. Regressamos para fazer a regata São Miguel, Terceira, Faial. Estivemos ali mais duas semanas. Coincidiu com a Semana do Mar na Horta. Voltamos em setembro e fizemos Faial, ilhas Canárias. Localização de 20 milhas a sul e da Costa de África. Fizemos uma paragem na Madeira, a 640 milhas do Faial, percurso que nos levou 4 dias a percorrer. Depois de 24 horas na Madeira e aqui abro um parentesis para sublinhar as belezas da Pérola do Atlântico. Em 24 horas de taxi percorremos os pontos mais turísticos da ilha, onde espero voltar para visitar mais em pormenor. Mas voltando à viagem, partimos em direção às Canárias, cerca de 300 milhas a sul da Madeira. O barco ficou nas Canárias de setembro a novembro. Fizemos a regata das Canárias às Caraíbas. Saimos a 22 de novembro juntamente com mais 22 barcos, para um percurso de 3 mil milhas que levou cerca de 17 dias no mar. Chegamos às Caraibas uns dias antes do Natal. O barco passou o inverno nas Caraíbas. Na primavera de 2015 mas propriamente no mês de maio, fizemos a ligação Caraíbas/New Bedford. Uma vigem de 1.500 milhas, para oito dias no mar. No respeitante à tripulação só Ryan Hughes é que fez todo o trajeto com exceção da ligação Caraíbas/New Bedford.

O meu pai fez do Faial/Canárias. A minha filha Mia, a mais nova, fez Caraíbas/New Bedford. Concluiu a universidade numa sexta-feira e na segunda-feira voou juntamente comigo e o resto da tripulação para as Caraíbas para fazer a ligação daquela ilha a New Bedford. Eu estive presente em todas as etapas desde a saida à chegada a New Bedford. O Ryan Hughes só não esteve na última etapa. O total da odisseia totalizou mais de 9 mil milhas”, salienta Victor Pinheiro para acrescentar:

“Olhando para trás, temos de considerar uma viagem à vela, sem problemas. Condições atmosféricas, boas, em mais de 85 por cento. Direi que encontrei pelo caminho, os ventos mais fortes e as ondas mais altas. Independentemente de dois dias mais tempestuosos todo o resto da viagem foi excelente”.

Como as estradas do mar não têm sinalização, há métodos rudimentares e tecnológicos para uma orientação perfeita. Com estes últimos a prevalecer o iate Maravilhas, usou as maravihas das novas tecnologias, se bem que, havia conhecimento dos meios rudimentares, da orientação pelo sol ou pelas estrelas.

“Com a utilização do GPS na navegação estavamos preparados em caso de avaria para uma orientação através do sol e das estrelas. Não direi que tenha muita prática nesta última forma de orientação no mar, mas se tivesse sido necessário, tenho a certeza que iamos encontrar os Açores”, diz Victor Pinheiro, no meio de uma risada, no prosseguimento de uma conversa, cheia de atrativos, daquelas que dá gosto ter.

Mas havia que manter o contacto com terra. Houvem-se vozes amigas. Palavras de incentivo. “

 

Se por qualquer motivo eu não podia comunicar, recebiam um sinal via satélite, que informava que o barco estava em movimento e se mantinha a rota certa

“Tinhamos um sistema de rádio de ondas curtas, com que mantinhamos contacto com um amigo no Faial, rádio amador. Diariamente às 10:00 da noite estabeleciamos contacto. Tinhamos também ao nosso serviço os telefones via satélite, que era a nossa principal forma de contacto com terra. Os rádios de onda curta eram só para situações de emergência, que Graças a Deus, nunca foram necessários. Recebiamos email através do telefone via satélite, principalmente as informações sobre as condições e previsões atmosféricas”. Mas no meio de tudo isto, temos a família. Temos a mulher, as filhas e os pais. O maior é traiçoeiro. E como tal temos uma preocupação constante. O pai João Carlos Pinheiro é homem do mar. As filhas já têm a experiência da vela. Todos têm noção do perigo, pelo que longe da vista, perto do coração. “Diariamente havia um contacto com a familia a uma hora marcada. Havia que sossegar os corações amedrontados perante alguém que estava no mar.

Além disso tinhamos a bordo um sistema de localização continua do barco no mar e a sua posição dentro da rota. Se por qualquer motivo eu não podia comunicar, recebiam um sinal via satélite, que informava que o barco estava em movimento  e se mantinha a rota certa”.

 

Sozinhos no mar

“Vimos alguns barcos. Localizamos um barco grego com quem comunicamos, dado estarmos sensivelmente na mesma rota e como iamos passar junto a ele durante a noite precisávamos de maior espaço. O comandante acatou o pedido e seguimos na nossa rota, sem qualquer problema. Já nos últimos dois dias, já mais próximo dos Açores, encontramos mais dois veleiros. Por sua vez, entre o Faial e as Canárias, não vimos tráfego marítimo absolutamente nenhum. Sozinhos no mar”

 

Chegada ao Faial

“A chegada ao Faial foi sensacional. Já nas últimas milhas fomos escoltados por uma lancha que nos deu as boas vindas ainda no mar. A lancha “Orquídia” do tempo da faina da baleia. E aqui houve um misto de história e sentimentalismo. Dado que foi aquela lancha que rebocou o meu avô no tempo da pesca à baleia. Quando nos aproximamos mais do cais de acostagem comecei a ver muito movimento. Como era sábado à noite, julgava que era uma prática normal de fim de semana. Estavam mais dois iates à espera da visita das autoridades alfandegárias para poder desembarcar. Eu salto do meu, passo por cima dos outros dois e quando chego à doca, foi a grande receção. As tripulações dos outros veleiros ficaram espantados e comentaram: “Quem é este velejador? Já estamos há duas horas à espera e chega este indivíduo a quem são tributadas todas as honras. Deve ser o “rei” de Portugal. E como diz o fado, “houve beija mão real e dançou-se a chamarrita”. E Victor Pinheiro, continua.

“Jamais poderei esquecer esta receção. Foi mais uma demonstração de como a nossa gente sabe receber. E ainda mais na terra do meu avô, na terra do meu pai. Na terra dos baleeiros de que orgulhosamente herdei o gosto pelo mar e pela vela e que já consegui transmitir às minhas filhas.

 

Foi maravilhoso poder transmitir a minha experiência a um auditório esgotado no Museu da Baleação em New Bedford

“Esta viagem foi a maravilhosa concretização de um sonho, que tornado realidade enriquece os meus conhecimentos marítimos, os meus conhecimentos de vela, os meus conhecimentos da vivência em espaço reduzido com mais quatro velejadores.

E ainda mais foi maravilhoso poder transmitir a minha experiência a um auditório esgotado no Museu da Baleação em New Bedford”, concluiu Victor Pinheiro.

 

• Entrevista de Augusto Pessoa • Fotos cedidas por Victor Pinheiro