“Deus quer, o homem sonha e a obra apareceu no novo Santuário de Nossa Senhora de Fátima em Cumberland”

 

— Padre Fernando Cabral

 

 

Como o fim de semana em Rhode Island se resumia aos 131 anos da igreja de Nossa Senhora do Rosário em Providence, optámos por trazer em primeira mão, num cunho não menos religioso, as obras do novo Santuário de Nossa Senhora de Fátima em Cumberland.

Ali espelha-se uma comunidade ativa, capaz de elevar a nossa identidade numa obra digna, e que vai ter honras de inauguração pelo bispo D. Edgar Cunha, Bispo da Diocese de Fall River.

O grande timoneiro desta obra de exteriorização de louvor e fé a Nossa Senhora de Fátima é o padre Fernando Cabral. O mesmo padre, que, com o apoio dos paroquianos deu uma fisionomia moderna à obra do padre José Barbosa, sem alterar o valor histórico e único da igreja de Nossa Senhora de Fátima.

O pároco que agora volta a ser notícia, ao dotar o espaço exterior com um moderno Santuário, mas uma vez mais sem alterar as linhas da construção inicial.

Já somos visitante assí­duo da igreja de Nossa Senhora de Fátima em Cumberland.

Ali começamos com o fundador e saudoso padre José Barbosa, que visionou o complexo paroquial que hoje ali se ergue com toda a sua sumptuosidade. Ali prestou um meritório apos­tolado o então padre hoje Monsenhor Victor Vieira e culminando numa presença histórica e ao mesmo tempo atual e numa visão con­cretizadora temos o padre Fernando Cabral, prestes a ver inaugurado o novo Santuário de Nossa Senhora de Fátima, coincidindo com as celebrações dos 100 anos das Aparições de Nossa Senhora aos Três Pasto­rinhos em Fátima.

São estes exemplos que dignificam a nossa presen­ça étnica num desenrolar de gerações e com obras de excelência.

E já que falamos em presenças históricas, temos de realçar o Clube Juven­tude Lusitana, dada a sua aproximação à igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde se celebrou missa após o incêndio da Missão e a inauguração da atual igreja de Nossa Senhora de Fáti­ma.

São nestes valores que a comunidade se espelha e que farão parte da história da nossa presença em Valley Falls.

“Quando cheguei à igreja de Nossa Senhora de Fáti­ma a 1 de julho de 2012, tive honras de poder cele­brar a solene Eucaristia no Santuário. Perante um ma­gnífico dia de sol brilhante constatei a adesão dos paro­quianos à cerimónia. Mas notava-se falta de condições para participar na missa. Só os que conseguiam um lugar à frente é que podiam ver o que se passava no altar. Perante tal situação notava-se uma dispersão das pessoas acolhendo-se às sombras das árvores ali existentes.

No final da missa su­blinhei as honras que me tinham dado, mas deixei no ar a importância da remo­delação do local de moldes a vir ao encontro das ne­cessidades dos paroquia­nos.

No final da missa, cons­tatei que embora a missa fosse campal, as palavras não foram levadas pelo vento, mas captadas na mente de Abel Lacerda, construtor de profissão, paroquiano de Nossa Se­nhora de Fátima residente em Seekonk.

“Eu tenho uma promessa perante Nossa Senhora de Fátima. Em retribuição à bênção concedida ofereço gratuitamente todo o trabalho de escavações e terraplanagens do santuário com a maquinaria que tenho na minha companhia. A ideia foi dada ao conhecimento da comissão de obras e manutenção, mas inicialmente a obra não avançou. Era também preciso a intervenção de um arquiteto, pelo que temporáriamente tudou ficou suspenso”.

Ao festejar-se os 100 anos das Aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos, o cuidadoso Abel Lacerda volta a reforçar a oferta como forma de cumprir a promessa.

“Perante tal insistência e dentro ao âmbito de tão importante data na vida do cristão não restava outra alternativa senão avançar com o projeto. Já se tinham feito trabalhos de recuperação no santuário, que não passavam de simples remedeios, dado que o problema subsistia.

Falei com o arquiteto Alberto Costa. Prontificou-se a colaborar. Chegou janeiro de 2017. Abel Lacerda tinha as máquinas paradas. Estávamos no inverno. A neve que havia caído em princípios de janeiro, tinha derredito. E Abel Lacerda não esperou mais. Meteu as escavadoras ao trabalho. Perante a surpresa de alguns. Mas aqui pela Nova Inglaterra o factor, condições atmosféricas, não dão tempo a pensar duas vezes. Hoje o sol brilha. Amanhã, estamos cobertos de neve. A comissão de obras concordou. E as máquinas do Abel reviraram o solo. Ou agora ou nunca.

Temos um grupo que desde janeiro tem trabalhado incansavelmente e a obra está a caminho da conclusão. Quando se fala em obras, o problema financeiro vem ao de cima. E aqui não é diferente. Todo o trabalho que nos está a trazer um novo Santuário, foi gratuito. O Santo Nome tem financiado, assim como alguns paroquianos, no seu contributo com um candeeiro ou uma árvore.

Tem havido muita colaboração. Muito entusiasmo. Muita dedicação”, disse o padre Fernando Cabral, que está a encarar o projeto com todo o entusiasmo acompanhado pelos ativos paroquianos, que vêem neste projeto uma forma de imortalizar os 100 anos das Aparições em Fatima.
“No dia da inauguração vamos ter o bispo Edgar Cunha, da Diocese de Fall River. Vai ser a missa do centenário. Vai ser bilingue. Vai ser uma data memorável”, refere o padre Fernando Cabral.

A presença do bispo Edgar Cunha é uma forma de condução das cerimónias em português. Estamos perante uma comunidade de grande percentagem de primeira geração pelo que o uso da língua de Camões continua a soar como benção aos ouvidos daqueles bons paroquianos.

“Tivemos uma colaboração imediata. Todos aceitaram o desafio. Ideias não faltaram.

Optou-se pela melhor. Surgiram várias opções. Entre as quais uma cobertura. Concluiu-se que além de ser extremamente caro, tiraria a beleza à imagem. Vai ficar ao ar livre. Iluminada. Com muito mais visibilidade. Falou-se na possibilidade da montagem de um painel com a Basílica de Fátima onde sobressaia a imagem de Nossa Senhora. Mas para se fazer o painel em cimento revestido a mosaico, teria de se sacrificar uma árvore centenária que se encontra no Santuário. Houve o cuidado de manter a estrutura existente. Manteve-se o mesmo contexto, criando melhores condições”, diz-nos ainda o padre Cabral.

Como se depreende, houve cuidado em não alterar em nada a fisionomia da obra do padre José Barbosa, o fundador daquela magnífica presença portuguesa em Cumberland. Uma igreja que teve a visão do padre José Barbosa. Uma igreja cuja construção teve a oposição do bispo. Mas uma igreja que se ergueu num contexto religioso e patriótico.

Uma igreja única num contexto de elementos que temos vindo a realçar e a levar ao mundo. Elementos que são visíveis quer no interior quer no exterior.

Deus quer o homem sonha e a obra aparece.

 

 

 

• Fotos e texto de Augusto Pessoa

• Fotos e texto de Augusto Pessoa