A revolução do assédio sexual agita os Estados Unidos

 

Desde os primórdios da humanidade que as mulheres têm sido vítimas de abusos sexuais pela sua fraqueza física diante do homem. Nos mundos muçulmano e africano ainda continuam a ser consideradas mais objetos do que seres humanos, são encerradas em haréns ou sub­metidas a mutilações genitais, um horror a que foi sujeita 45% da população feminina da Guiné Bissau, segundo a Organização Mundial de Saúde. No mundo ocidental as coisas estão a mudar, especialmente nos Estados Unidos, onde três famosos jornalistas da televisão foram recentemente despedidos por abusos sexuais.

A NBC despediu Matt Lauer, apresentador do Today Show, por “comportamento sexual inadequado”. Lauer, 59 anos, que trabalhava na NBC desde 1997 com o salário de 25 milhões de dólares anuais, costumava chamar colegas de trabalho ao seu gabinete, baixar as calças e mostrar-lhes o pénis.

Não me parece que o Today Show perca muito com a saída de Lauer. Com os 25 milhões que lhe pagava pode contratar 500 repórteres mais talentosos do que ele, considerando que um jornalista nos Estados Unidos ganha em média $50.000 por ano. Os que ganham, claro.

Nesta altura, Lauer deve estar a tomar um copo com Charlie Rose, que foi despedido pela CBS e PBS. Houve um tempo em que Rose, 75 anos, convidava jovens candidatas a vagas no seu programa no PBS para irem a casa dele e depois aparecia-lhes de roupão ou mesmo nu.

Em abril, a Fox TV despediu Bill O’Reilly, apresentador do programa mais visto da TV cabo e pagou 13 milhões de dólares a cinco mulheres para abafar as suas denúncias de assédio sexual. A Fox pagaria ainda 20 milhões de dólares à apresentadora Gretchen Carlson, demitida por rejeitar os avanços sexuais do então presidente da emissora, Roger Ailes.

A queda de figuras proeminentes por assédio sexual tornou-se frequente e as coisas começaram a mudar quando o comediante Bill Cosby foi acusado de drogar e violar mais de 50 mulheres ao longo dos anos. Foi julgado em junho passado num tribunal de Norristown, Pennsylvania, mas após mais de 50 horas de deliberações o júri não chegou a acordo num veredito e o veterano comediante livrou-se de dez anos de prisão.    

Nessa altura já o escândalo Harvey Weinstein, uma história sórdida de assédio e violência sexual, estava em todos os jornais. O poderoso produtor de cinema usava sempre o mesmo método: convidava atrizes para reuniões de trabalho num quarto de hotel e depois exigia-lhes serviços sexuais a troco de uma carreira em Hollywood. Ashley Judd foi a primeira a denun­ciar os abusos e Weinstein já foi acusado por 80 atrizes, entre elas caras conhecidas como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Rosanna Arquette, Kate Beckinsale, Cara Delevinge, Claire Forlani, Paz de la Huerta, Lupita N’yongo, Sarah Polley, Léa Seydoux, Mira Sorvino, Uma Thurman e Rose McGowan.

O produtor foi expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar e as denúncias ainda podem levá-lo à prisão. Weinstein tem estado numa clínica escocesa que acalma libidos exaltados e onde outro célebre paciente é o ator Kevin Spacey, vencedor de dois Óscares e acusado de assédio sexual por jovens atores como Anthony Rapp, Harry Dreyfuss (filho de Richard Dreyfuss), Tony Montana e três atores da série House of Cards, de que era pro­tagonista e foi suspensa quando já ia na sexta temporada. Spacey foi também diretor do teatro Old Vic, de Londres, onde as acusações de assédio já vão em 30.

Não há dia em que não surja uma denúncia de assédio em Hollywood. O caso mais recente é a atriz Bette Midler, que acusou o jornalista Geraldo Rivera, de a ter apalpado nos anos 70.

No tocante a realizadores, a atriz Carrie Stevens acusou Oliver Stone; seis atrizes, entre as quais Natasha Henstridge e Olivia Munn, acusaram Brett Ratner e 38 mulheres, entre elas as atrizes Rachel McAdams e Julianne Moore, acusaram James Toback. Woody Allen disse que o caso Weinstein deu origem a uma caça às bruxas. Há anos, Allen foi acusado de abuso sexual por uma filha adotiva, Dylan Farrow.

O ator Jeffrey Tambor, 73 anos, protagonista da série Transparent, é acusado de assédio por Trace Lysette e Van Barnes, colaboradoras da série. A escritora Anna Graham Hunter acusou o ator Dustin Hoffman e a atriz Julianna Margulies acusou Steven Seagal. As comediantes Dana Min Goodman, Abby Schachner, Julia Wolov e Rebecca Corry acusaram o também comediante Louis C.K. de masturbar-se à frente delas, a HBO não achou piada e prescindiu dos serviços dele.

A onda de acusações ainda não parou e o número de pessoas acusadas judicialmente de assédio sexual já vai em mais de meia centena e promete continuar. A lista tem caras conhecidas como o telecozinheiro John Besh, acusado de assédio sexual por 25 mulheres que trabalharam na sua cadeia de 10 restaurantes.

As denúncias surgiram noutros campos e parece terem acendido uma chama difícil de apagar. No mundo do rock, Jessicka Addams, vocalista da banda Nine Inch Nails, acusou o baixista Jeordie White de a ter violado e Alice Glass, ex-vocalista da banda Crystal Castles, também acusou o guitarrista Ethan Glass. O cantor R. Kelly é motivo de investigação policial pela suspeita de manter um culto sexual em várias casas de Atlanta, onde tem mulheres sequestradas e a denúncia foi feita por três mulheres que fizeram parte desse culto. Na chamada música erudita, o maestro James Levine é acusado de assédio por três homens e foi suspenso da Metropolitan Opera de New York.

Os casos de assédio sexual por parte de figuras mundialmente conhecidas estendeu-se a Portugal. A diretora de castings Patrícia Vasconcelos, filha do realizador António-Pedro Vasconcelos, disse que o ator francês Gerard Depardieu meteu-lhe há anos a mão no rabo e foi obrigada a dar-he um estalo.

As acusações surgiram também no desporto. Hope Solo, ex-guarda-redes da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, acusou o antigo presidente da FIFA, Joseph Blatter, de lhe ter apalpado o traseiro em 2013, numa gala da Bola de Ouro. Mais grave o caso de 300 ginastas que acusam os treinadores de abusos sexuais. Uma centena dessas atletas acusa Larry Nassar, que foi duas décadas médico da seleção de ginástica dos Estados Unidos e já está numa prisão do Michigan por um outro caso de pornografia infantil.

As denúncias também chegaram ao Congresso dos Estados Unidos. A congressista democrata Jackie Speier, da Califórnia, diz que dois con­gressistas, um republicano e um democrata, e que estão no exercício das suas funções, praticaram assédio sexual. Entre 1997 e 2017 o Congresso gastou nada menos do que 17 milhões de dólares para resolver 264 casos de queixas por assédio sexual.

A atual vaga de denúncias no Capitólio come­çou com o congressista democrata John Conyers, do Michigan, que deverá resignar esta semana, e com Leeann Tweeden, locutora de uma rádio de Los Angeles, a acusar o senador democrata do Minnesota, Al Franken (antigo comediante), de a beijar e apalpar sem consentimento durante um espectáculo para as forças armadas no Médio Oriente em 2006.

Em Rhode Island, a deputada estadual Teresa Tanzi, democrata de Wakefield, acusa dois colegas da Assembleia Estadual não identifica­dos de lhe prometerem votar a favor das suas propostas legislativas se ela estivesse disposta a fazer-lhes “favores sexuais”. Em Massachusetts, quatro homens acusaram Bryon Hefner de assédio sexual. Hefner é o marido do presidente do Senado estadual, Stan Rosenberg, 68 anos. Estão juntos desde 2008 e casaram em 2016. Devido a este escândalo Rosenberg deixou a presidência do Senado.

Assédio sexual e política são mistura altamente inflamável, sobretudo na Casa Branca. O caso de Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinsky voltou a ser falado e até mesmo democratas como a senadora Kirsten Gilliband, de New York, acham que ele devia ter renunciado.

Seis mulheres, entre elas a atriz Heather Lind, também acusaram agora o antigo presidente George H. Bush, 93 anos, de lhes apalpar o rabo quando posavam para fotos em atos públicos.

A inclusão de Bush pai nesta onda de acu­sações é um aviso para o atual inquilino da Casa Branca, Donald Trump, a quem uma dúzia de mulheres acusa de contatos sexuais inapro­priados e não autorizados.

Antes das eleições presidenciais do ano passado, o Washigbton Post divulgou um vídeo feito em 2005 e no qual Donald Trump se gaba de que podia apalpar os genitais de qualquer mulher e fazer com ela o que bem entendesse pelo facto de ser rico e famoso (naquele tempo era a estrela do programa The Apprentice).

Esta fanfarronada teria liquidado qualquer político, mas Trump é imune às regras da política porque não é um político. É um menino rico que nunca precisou de trabalhar e cujo primeiro emprego é, por sinal, o de presidente dos Estados Unidos, um país que de vez em quando tem surtos de demência coletiva. Já teve a loucura da Lei Seca, da Ku Klux Klan, do Macarthismo e agora é a loucura do Trumpismo, uma ideologia que não anda muito longe do fascismo.

Muitas americanas ainda não aceitam a eleição de Trump e uma das mais inconformadas é a cantora Madonna, que chegou a oferecer sexo oral a quem votasse em Hillary Clinton. Agora, com Trump na Casa Branca, Madonna continua disposta a todos os sacrificios e até diz que vai viver para Portugal.