Hino dos Açores e outros mimos

 

 

Leio no Diário dos Açores que são poucos os aço­rianos sabem cantar o Hino dos Açores, apesar das filar­mónicas o tocarem nas cerimónias oficiais e ser aceite pela generalidade das pessoas.

A música foi composta na década de 1890 por Joaquim Lima, regente da Filarmónica Progresso do Norte, de Rabo de Peixe, e tocada pela primeira vez em público a 3 de fevereiro de 1894. Ao longo dos anos, e em função da evolução política, o hino terá tido várias letras, mas com o advento do Estado Novo foi votado ao ostracismo. Com a autonomia cons­titucional pós 25 de Abril, o Hino dos Açores foi oficialmente adotado pelo parlamento açoriano a 21 de outubro de 1980 e foi encomendada uma nova letra à grande poetisa açoriana Natália Correia (viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, onde era uma ins­tituição, mas nasceu em 1926 na Fajã de Baixo, São Miguel). A atual versão oficial do Hino dos Açores foi cantada pela primeira vez em público a 27 de junho de 1984  por alunos do Colégio de São Francisco Xavier.

Mas não surpreende que poucos açorianos saibam o Hino dos Açores, afinal o Hino Nacional português, “A Portuguesa”, foi adotado pela República em 1911 e ainda hoje se diz que 90% dos portugueses não sabem a letra do hino. De cor e salteado, como exigia D. Aline, a minha primeira professora.

Por sinal, o ano passado uma cidadã indiana casada com um português, mãe de dois filhos portugueses e residente desde 1997 em Portugal, cuja língua fala fluentemente, viu recusada pelo Tribunal da Relação de Lisboa o pedido para lhe ser atribuída a nacionalidade portuguesa pelo facto de desconhecer a “letra e música do hino nacional”.

Felizmente que a lei da naturalização dos Estados Unidos passa apenas por um teste de cidadania com perguntas sobre a História e a Constituição e não exige cantar o hino, de contrário eu não seria hoje americano. É que faço parte dos mais de 85% dos americanos que não sabem cantar o hino nacional, “The Star-Spangled Banner”.

Mas não estou sozinho, o presidente também não sabe, como se viu recentemente na televisão durante a final do campeonato de Futebol Americano Universitário em Atlanta, Donald Trump cantou apenas as partes mais conhecidas do hino e limitou-se a mexer os lábios no resto.

Em princípio seria apenas falta de civismo, mas torna-se caso político dado o conflito que o presidente tem com os jogadores negros da NFL (a liga de futebol americano) por causa do hino nacional. Mr. Trump exige o despedimento dos jogadores que se ajoelham ou levantam os punhos cerrados durante a execução do hino nacional em manifestação de repúdio à violência policial contra os negros e afinal ele próprio não mostra muito respeito pelo hino.

Por falar em hinos, há um episódio que me apraz recordar e se prende com o início da guerra colonial em Angola. Era preciso que ninguém duvidasse de que Angola fazia parte de Portugal e, em junho de 1961, surgiu o hino “Angola é Nossa”, guerreiro e panfletário, com música de Duarte Pestana e letra de Santos Braga. Tratava-se de uma notável peça de propaganda cantada nas escolas e na rádio, e que ficou no ouvido  dos portugueses.

Naquele tempo eu iniciava a vida de radialista e apresentava um programa pomposamente intitulado “Festival da Noite” na Rádio Voz de Lisboa, das 2:00 às 7:00 das manhã de domingo, e o dono da estação, Fernando Laranjeira, fez-me chegar um disco com incumbência de transmitir várias vezes durante a emissão. Era um 45 RPM da etiqueta A Voz do Dono (a versão portuguesa da His Master’s Voice, do Valentim de Carvalho). Foi gravado nos estúdios da Emissora Nacional pelo coro e orquestra da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), que eram dirigidos pelo maestro Duarte Pestana, um excelente músico militar que dirigiu as bandas do Exército e da GNR e nunca passou de primeiro sargento. Além de “Angola é Nossa”, o disco tinha outra canção propagandista, “A Marcha do Trabalho” e duas cantigas populares, a “Caninha Verde” e “Tia Anica de Loulé”.

Mas o meu envolvimento com Angola não se limitaria à transmissão de “Angola é Nossa” na Voz de Lisboa. Embora já tivesse cumprido o chamado serviço militar, fui chamado dois meses depois da guerra ter começado para dar a recruta da classe de 1961 da Escola Prática de Infantaria em Mafra (um dos recrutas era o angolano Rui Mingas, atleta do Benfica) e acabei mobilizado para Angola pelo Batalhão de Caçadores 317, companhia 319. Viajei no paquete Vera Cruz, em segunda classe como competia a um segundo sargento (miliciano) e ouvindo a toda a hora na instalação sonora do navio o “Angola é Nossa” para criar brios patrióticos.             

Desembarcámos em Luanda em novembro de 1961, ao som do “Angola é Nossa”. Andámos pelo Ucua, Quitexe, Zalala, Cólua e Aldeia Viçosa. A minha companhia, por exemplo, assegurou a segurança de Américo Tomás na visita que o presidente fez ao Quitexe e Aldeia Viçosa em setembro de 1963. É uma longa história e não vou enfastiar-vos com isso, mas nos entrementes comecei a colaborar no Rádio Clube do Uige da cidade de Carmona e onde ficaria a trabalhar concluída a comissão em 1964. E por sinal “Angola é Nossa” abria e fechava as emissões da estação.

Foi nessa altura que surgiram em Angola rádios AM e FM portáteis japoneses a pilhas que se tornaram muito populares entre brancos e negros. Não eram pequenos como hoje, que são um telemóvel, mas os negros em Luanda habituaram-se a passear com eles colados ao ouvido. Eram baratos e cumpriam bem as suas funções. Permitiam ouvir as notícias, os relatos de futebol e os programas de discos pedidos. Acrescente-se que muitos angolanos que fugiram para o mato depois dos massacres de 15 de março temendo as represálias dos brancos possuiam o seu radiozinho e tínhamos informações de que ouviam o Rádio Clube do Uige.

Esclareça-se que, depois dos primeiros revezes, as tropas portuguesas retomaram o controlo de todo o Norte e, embora a guerrilha permanecesse, no começo de 1962 as primeiras populações que se tinham refugiado nas matas começaram a entregar-se às autoridades coloniais.

Em Carmona, o administrador do concelho do Uige, o administrador Pião, destinou três ou quatro camiões para trazer os povos das sanzalas que se tinham refugiado na serra do Uige e, surpresas das surpresas, quando entraram na cidade alguns angolanos vinham a trautear “Angola é Nossa”. Tinham aprendido ouvindo o Rádio Clube do Uige. Teve piada e foi profético.  Afinal Angola era mesmo deles.

 

Escândalo Wynn chega a Macau

Depois de Hollywood e Washington, os escândalos de assédio sexual chegaram a Las Vegas: o Wall Street Journal publicou uma reportagem com várias empregadas dos casinos e hotéis de Steve Wynn, que acusam o magnata de abusos sexuais. Wynn terá pago 7,5 milhões de dólares num acordo extrajudicial para calar uma manicure que terá forçado a ter relações sexuais em 1998, no Mirage Hotel de Las Vegas.

Wynn nasceu há 76 anos em New Haven, Connecticut e começou com um pequeno grupo de salas de bingo herdadas do pai. Em 1967, mudou-se para Las Vegas e comprou um pequeno casino, o Frontier, a partir do qual construiu um império que incluia os casinos Mirage, Treasure Island, Golden Nugget e Bellagio.

Em 2000, Wynn vendeu a sua empresa, Mirage Resorts, à MGM e criou a Wynn Resorts, alargando a sua atividade na antiga colónia portuguesa de Macau:  abriu o Wynn Las Vegas em 2005, Wynn Macau em 2006, Encore Las Vegas 2008, Encore Macau 2010 e Wynn Palace Macau 2016. Com fortuna estimada em 2,4 biliões de dolares, Wynn começou a ganhar também peso político, o presidente Donald Trump nomeou-o diretor de finanças do Comité Nacional do Partido Republicano, mas foi obrigado a resignar depois da  publicação do artigo e deixou também a presidência do seu grupo. As ações do grupo Wynn Resorts cairam e a desvalorização em bolsa já custou ao empresário 440 milhões de dólares, pois não vendeu uma única ação desde que o escândalo rebentou. O casino que Wynn está a construir em Everett, arredores de Boston, num investimento de 2,5 biliões de dólares e que será inaugurado em 2019, também ficou abanado com o escândalo: a comissão de jogos de Massachusetts está a ser pressionada para revogar a licença e Wynn já concordou em que não terá o seu nome.  O escândalo chegou também a Macau, a jóia da coroa do império Wynn, os seus três casinos no território têm receitas mais de oito vezes superiores às dos casinos de Las Vegas. Dos ganhos de 1,7 mil milhões de dólares do grupo Wynn nos últimos quatro meses de 2017, mais de 1,3 mil milhões foram apurados em Macau. Steve Wynn resignou da presidência da Wynn Macau Lta. A direção de Inspeção e Coordenação de Jogos de Macau poderá não renovar a licença da Wynn Macau, que expira em 2022.  Steve Wynn dava grandes quecas nas pobres empregadas, mas está a levar uma muito maior.

 

Portugal nas Olímpiadas

de Inverno

Teve início dia 9 de fevereiro e prolonga-se até dia 25 em PyeongChang, Coreia do Sul, a 23ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. Com 2.925 atletas de 92 países, a edição de 2018 dos Jogos de Inverno é a maior de toda a história da competição e a dos Estados Unidos a maior delegação de sempre com 242 atletas, 107 mulheres e 135 homens. Portugal também tem a sua maior delegação de sempre, dois esquiadores: Arthur Hanse vai participar na prova de esqui alpino (slalom e slalom gigante) e Kequyen Lam na prova de esqui de fundo. Hanse nasceu há 24 anos em Paris, é neto de uma portuguesa, vive em Lyon e já representou Portugal nos Jogos de Sochi 2014. Kequyen Lam é natural de Macau, reside em Vancouver, Canadá, e começou a representar Portugal em provas internacionais de snowboard em 2008. Já tinha tentado a qualificação para Sochi 2014, mas uma lesão impediu-o de disputar as últimas etapas de apuramento. Em 2015, decidiu tentar PyeongChang 2018 numa outra modalidade, o esqui de fundo (cross country) e conseguiu qualificar-se. De referir que a participação lusa nos Jogos de Inverno tem sido sempre reduzida e a cargo de emigrantes ou nascidos no estrangeiro. Por razões climatéricas evidentes, Portugal não tem tradição nos desportos de inverno. É certo que a Serra da Estrela tem neve no inverno, mas o único desporto praticado é a caça. Ao turista.

 

Viagens dos políticos

Pesquisa recente do canal WCVB-TV, de Boston, apurou que os legisladores estaduais de Massachusetts fizeram nos últimos cinco anos centenas de viagens pagas por governos estrangeiros. De acordo com a lei estadual, os legisladores não podem aceitar presentes no valor de $50 ou mais, mas essas viagens que valem dezenas de milhares de dólares não são problema desde que os viajantes justifiquem que “servem um propósito público legítimo”.

Um dos principais destinos dessas viagens foi Portugal e os Açores. Desde 2012, o  deputado António Cabral, de New Bedford, efetuou 11 viagens a Portugal e aos Açores.

Desde 2015, o senador Michael Rodrigues, de Westport, somou quatro viagens a Portugal e uma aos Açores. E desde 2014, o senador Marc Pacheco, de Taunton, fez nada menos de 28 viagens a Portugal.

Chip Faulkner, da organização Citizens for Limited Taxation, considera que estas viagens são “compra de influências”. Pam Wilmot, líder do grupo Common Cause Massachusetts, alerta para potenciais conflitos de interesse e cita o exemplo das viagens que legisladores fazem anualmente a Israel pagas pelo Conselho de Relações Comunitárias Judaicas da Grande Boston e que obviamente espera o voto favorável do viajante.

Mas no caso português a maioria das viagens foi paga pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, instituição criada em 1985 pelo Estado português mas cujo património são verbas dos Estados Unidos provenientes do acordo da base das Lajes. Portanto, o pessoal da Common Cause Massachusetts pode tranquilizar, as viagens do Cabral, do Rodrigues e do Pacheco a Portugal a convite da FLAD, foram pagas pelo Tio Sam.