O Festival Cabrilho continua português, até ver

 

 

Realizou-se dias 29 e 30 de setembro, em San Diego, a 54ª edição do Festival Cabrilho. Propositadamente, escrevemos Cabrilho à portuguesa com lh, mas na Califórnia é mais conhecido o Cabrillo à espanhola, com dois ll.

O festival celebra a descoberta europeia da Califórnia em 1542 pelo tal Cabrilho, cuja nacionalidade é reivindicada por Portugal e pela Espanha. Como tal, no monumento existente em San Diego, o nome do descobridor está inscrito em português numa placa (João Rodrigues Cabrilho) e noutra em espanhol (Juan Rodríguez Cabrillo), para não desagradar a ninguém.

Português ou espanhol, Cabrilho é um enigma, embora tenha sido uma das principais figuras da Nova Espanha, o vice-reinado espanhol no período colonial da América do Norte e Central, que era formado pelos estados de Arizona, Califórnia, Nevada, Novo México e Utah, nos EUA, e até à Costa Rica na América Central.

Segundo a teoria portuguesa, Cabrilho terá nascido entre 1496-1499 na freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, distrito de Vila Real. O seu nome era João Rodrigues. Cabrilho (Cabrillo) terá sido alcunha para o distinguir dos seus homónimos coevos. Em Cabril, há a Casa do Galego, onde alegadamente Cabrilho nasceu, como é afirmado em placa ali colocada. Mas nada disto prova que fosse português e outras loca­lidades chamadas Cabril na Beira Alta, Castro Daire, Viseu e Pampilhosa da Serra também reivindicam terem sido berço de Cabrilho.

Mesmo tendo nascido em Portugal, Cabrilho terá sido criado em Castela e com humildes começos. Tornou-se marinheiro e, em 1502, fez parte de uma expedição de 30 navios e 2.500 soldados que foi colonizar a ilha de Cuba e assumiu rapidamente posi­ções de comando. Em 1519, fez parte da expedição que o primeiro governador cubano, Diego Velasquez, mandou ao México para capturar o rebelde Hernán Cortés, que havia desobedecido às ordens na sua conquista do império asteca de Moctezuma (o atual território do México). Mas Cabrilho passou-se para o lado de Cortés, que lhe confiou a construção de 13 galés usadas no ataque à capital asteca de Tenochtitlán (Cidade do México) em 1521.      

Entre 1523 e 1535, o nosso aventureiro juntou-se às expedições de Pedro de Alvarado para conquista dos territórios que compreendem hoje Honduras, Guate­mala e San Salvador. Fixou-se na Guatemala associado a um camarada de armas, Diego Sánchez de Ortega, que mais tarde se tornaria cunhado. Foram-lhe concedidas terras e teve também sucesso na mineração de ouro, ganhando entre 500 e 700 pesos por ano, que era uma soma considerável. Arranjou companheira indígena, que lhe deu vários filhos, mas em 1532 viajou para Espanha a fim de casar com a irmã do sócio, Beatriz Sánchez de Ortega. O casal fixou-se na cidade de Santiago dos Cavaleiros da Guatemala, a capital colonial espanhola da Guatemala e a mulher deu-lhe mais dois filhos.

Ao tempo, os espanhóis já tinham concluído que a Califórnia não era uma ilha e a América do Norte não era a Índia, como acreditava Cristóvão Colombo, e D. Antonio Mendoza, vice-rei da Nova Espanha, en­carregou Cabrilho de procurar novas terras e o famoso estreito de Anian (ou Passagem do Nordeste), que segundo a crença geral da época permitia a passagem do Oceano Pacífico para o Atlântico.

Sobre essa expedição, o cronista castelhano e Chefe das Índias Espanholas, D. Antonio Herrera e Torde­sillas, escreveria na sua Historia General de los hechos de los Castellanos en lás Islas y tierra firme del Mar Oceano (1615) ter D. Antonio Mendoza aprestado os navios San Salvador e Victoria para prosseguirem na exploração costeira da Nova Espanha, e que nombrô por Capitan dellos a Juan Rodriguez Cabrillo Portu­guês, persona muy platica en las cosas de la mar. Em português, o vice-rei António  Mendonça nomeou capitão João Rodrigues Cabrilho, “português e pessoa mui experimentada nas coisas do mar”.

Cabrilho tinha três navios sob seu comando. Além do San Salvador, um galeão de 100 metros que lhe pertencia, a fragata Victoria e o San Miguel, uma pequena galé. Os três navios, com provisões para uma viagem de dois anos e guarnição de 170 homens, larga­ram de Navidad (perto do moderno Manzanillo, no México) a 24 de junho de 1542 e a 25 de setembro, após três meses de viagem, chegaram a uma baía a que Cabrilho deu o nome de San Miguel e que é hoje San Diego, a oitava maior cidade dos EUA.

No dia 28 de setembro de 1542, Cabrilho desembarcou no areal de Point Loma para tomar posse formal da terra em nome do rei Filipe de Espanha e do vice-rei da Nova Espanha. Para San Diego, o San Salvador é um símbolo da Califórnia como o Mayflower para a Nova Inglaterra.

A expedição de Cabrilho prosseguiu lentamente para norte ao longo da costa, mas com a chegada do inverno decidiram voltar e fundear na ilha de San Miguel para reparações. Na véspera do Natal, os espanhóis foram atacados por guerreiros indígenas de Tongva e, quando procurava valer aos seus homens, Cabrilho tropeçou nas rochas e partiu um braço. A lesão infetou, desenvolveu gangrena e o navegador morreu a 3 de janeiro de 1543. Terá sido sepultado na ilha San Miguel e, embra o túmulo nunca tenha sido encontrado, em 1937 os Ca­brillo Civic Clubs colocaram um pequeno monumento a Cabrilho na pequena ilha.

Os Cabrillo Civic Clubs surgiram em 1934 em San Francisco e resultam do orgulho lusocaliforniano pela histórica ligação étnica ao descobrimento do estado onde residem, considerando que, embora a descoberta tenha sido uma empreitada espanhola, foi liderada por um português. Em 1935, os Clubes Cabrillo conseguiram que o 28 de setembro fosse proclamado Dia de Cabrilho na Califórnia. Em 1992 também conseguiram que o Serviço Postal dos EUA dedicasse um selo ao navegador supostamente português, mas foi um desapontamento: o selo não continha referência à nacionalidade portu­guesa de Cabrilho e ainda por cima adotaram a grafia espanhola do nome. Várias organizações luso-ameri­canas e o próprio embaixador de Portugal protestaram junto do diretor dos Correios, mas de nada valeu. Hoje, existem apenas nove Clubes Cabrillo (com mais de 1.975 membros) que concederão este ano 165 bolsas de estudo de $500 a estudantes lusodescendentes.

O interesse dos portugueses por Cabrilho começou em 1892, quando do quarto centenário da descoberta da América e se gerou polémica quanto ao descobridor da Alta Califórnia. Os anglófilos defendiam Francis Drake, o famoso corsário da rainha Isabel I que desem­barcou na Califórnia em 1579. Várias organizações da comunidade portuguesa insurgiram-se e conseguiram que Cabrilho fosse oficialmente reconhecido como descobridor. O sucesso foi assinalado com uma ceri­mónia simulando o desembarque do navegador em  San Diego. A reconstituição desse momento é hoje o ponto alto do Festival Cabrilho, com Donald Valadão fazendo de Cabrilho há 22 anos.

Em 14 de outubro de 1913, o presidente Woodrow Wilson assinou uma proclamação reservando parte do Forte Rosecrans para o Monumento Nacional Cabrillo   e começou a falar-se num monumento dedicado a Cabrilho, uma espécie de Estátua da Liberdade da Costa Oeste.

Os monumentos nacionais preservam capítulos mais notáveis da história dos EUA. A Estátua da Liberdade é um monumento nacional, assim como a Ellis Island e o USS Arizona Memorial em Pearl Harbor. Portanto, embora mais pequeno, o monumento de Cabrilho era uma grande honra, mas nos primeiros tempos foi uma deceção. O presidente Wilson pediu a um clube cívico, a Ordem do Panamá, que erguesse uma estátua no parque, mas nada fez. Uma década depois, os Native Sons of the Golden West assumiram a tarefa com os mesmos resultados.

Finalmente, em 1939, o governo português decidiu encomendar ao escultor Álvaro de Bré uma estátua de Cabrilho destinada a San Diego, mas que antes devia ser exposta na exposição mundial de San Francisco (1939-1940). A estátua, pesando sete toneladas, chegou tarde para a exposição e ficou armazenada numa garagem particular de San Francisco. Procurando agra­dar à numerosa comunidade portuguesa de Oakland, o governador Culbert Olson prometeu-lhe a estátua. Mas San Diego estava atenta. O senador estadual Ed Fletcher recorreu ao picaroto Lawrence Oliveira (o Lawrence Oliver, autor da famosa autobiografia “Never Back­ward”), que conseguiu localizar a estátua e convencer a senhora que era guardiã a entregá-la. A comunidade de Oakland reclamou, o governador acusou Fletcher do sequestro de Cabrilho, mas a estátua foi mesmo para San Diego, onde ficou armazenada porque entretanto começou a II Guerra Mundial e só seria inaugurada em 1949.

O Festival Cabrilho começou em 1964 por iniciativa da Câmara de Comércio de San Diego, Monumento Nacional de Cabrillo, Clube Social e Cívico Português-Americano (fundado por Lawrence Oliveira) e Cabrillo Club Nº 6. Em 1978, a organização convidou pela primeira vez um representante de Espanha e desde então o festival reúne representantes oficiais do México, Portugal, Espanha e EUA, bem como grupos da tribo india Kumeyaay.

Um dos principais apoiantes do festival é a Marinha portuguesa e a tradição determina que o chefe do esta­do maior da Marinha portuguesa seja o alto comissário do governo português no festival e na falta dele o adido naval em Washington. O veleiro português Sagres já esteve várias vezes em San Diego.

Miss Cabrilho (que nos tempos da outra senhora era recebida em Portugal pelo presidente Américo Tomás), continua a ser eleita e em 2017 foi Katrina Salehyan.

A atriz Mandell (Correia) Maughan, da série Bajil­lion Dollar Propertie$, da NBC, foi Miss Cabrillo 2001.

Em grande medida, o festival continua a existir graças ao empenho da comunidade luso-americana de San Diego e por isso a cidade não está interessada na polémica quanto à nacionalidade do navegador, os portugueses podem mesmo começar a borrifar-se no festival e já não será a mesma coisa.

Este ano, a novidade do festival foi uma réplica de 200 toneladas do galeão San Salvador, o barco de Cabrilho, que foi enfeitada com bandeiras espanholas e portuguesas para não ofender ninguém.

Para os lusocalifornianos basta que o mais influente historiador do período colonial, Antonio de Herrera e Tordesillas, ter dito que Cabrilho era português e na  Biblioteca do Congresso dos EUA o navegador é referido como português.

Mas há historiadores com outras opiniões. O americano Harry Kelsey diz que Cabrilho nasceu em Sevilha, em data incerta. A canadiana Wendy Kramer apurou recentemente que Cabrilho nasceu em Palma del Río (Córdova), no sul da Espanha, segundo o próprio confirmou num depoimento em tribunal durante uma investigação ao roubo de ouro perten­cente à Coroa de Espanha a bordo de um galeão que partiu de Veracruz (México) rumo a Sevilha em 1532. Não é uma prova definitiva, mas é um dado sólido. Tanto mais que Cabrilho viajou com efeito para Sevilha em 1532, quando foi casar.

O lugar (aproximado) onde Cabrilho desembarcou é hoje um agradável parque chamado Spanish Landing (literalmente, o Parque do Desembarque Espanhol) com a estátua de Cabrilho olhando o mar. A estátua original, de Álvaro de Bré, foi substituída em 1988 por uma réplica da autoria de outro escultor portu­guês, Charters de Almeida. No Museu Marítimo, os visitantes (800.000 por ano), ficam também a conhecer parte da misteriosa história de Cabrilho, que não deixou certidão de nascimento nem certidão de óbito. A única coisa que se sabe é que pode ter sido português ou espanhol.

A resposta depende de quem pergunta.