A peça The Portuguese Kid na Broadway

 

 

Gosta de teatro? Então dê uma saltada a New York e veja a peça The Portuguese Kid no palco do New York City Center, 131 West da 55ª Street (entre a 6ª e a 7ª avenidas). É uma produção da prestigiosa Manhattan Theatre Club, uma das mais aclamadas companhias teatrais dos EUA cujos espectáculos já foram distinguidos com uma infinidade de 23 prémios Tony (o Oscar da Broadway), 6 prémios Pulitzer e 39 Drama Desk Awards. The Portuguese Kid iniciará as pré-apresentações em 19 de setembro e terá a estreia formal a 24 de outubro.

The Portuguese Kid envolve alguns pesos-pesados do teatro norte-americano, a começar pelo autor e diretor da peça, John Patrick Shanley. É um mestre no ofício de autor, encenador e realizador cinematográfico e tem uma série de prémios para provar isso, incluindo o Oscar de 1988 pelo argumento de Moonstruck, a comédia romântica de Norman Jewison ambientada na comunidade ítalo-americana e onde a cantora Cher, então no auge da carreira, faz uma jovem viúva que vai casar com um homem mais velho, mas apaixona-se pelo futuro cunhado (Nicholas Cage). O filme foi premiadíssimo e o argumento de Schanley distinguido em vários países.

Autor de mais de dez argumentos e de filmes bem diferentes como Congo e Joe Versus the Vulcano, Shanley teve um dos seus maiores malogros cinematográficos num dos seus maiores sucessos teatrais, Doubt (A Dúvida), peça premiada em 2005 com o Pulitzer de melhor drama e quatro prémios Tony. A ação decorre no bairro do Bronx, em New York, quando novos ventos começaram a soprar na sociedade racista norte-americana de 1964. Donald Miller, 12 anos, é o primeiro menino negro aceite na escola católica St. Nicholas e a madre superiora que dirige a escola, a irmã Aloysius, acusa o bem-humorado padre Flynn de assediar sexualmente Donald.

O próprio Shanley adaptou a peça para o cinema e dirigiu o filme com Phillip Seymour Hoffman e Meryl Streep nos papeis principais, mas embora tenha tido cinco nomeações para o Oscar esteve longe de ser um sucesso. Como por vezes acontece com adaptações teatrais, o filme era teatro filmado mas não conseguiu ser cinema.

Por sinal, esta peça foi traduzida por Felipa Mourato e Ana Luisa Guimarães (também encenadora) e levada à cena em 2007 no Teatro Maria Matos, em Lisboa, com Eunice Muñoz na irmã Aloysius e Gabriel Infante no padre Flynn.

De qualquer modo, John Patrick Shanley combina humor, assuntos atuais e parece gostar de relacionamentos étnicos. Um dos seus trabalhos anteriores foi Outside Mullingar, de 2014, drama romântico ambientado na Irlanda rural e por isso há um certo interesse quanto a The Portuguese Kid, que foi lida em 2016 no festival do Vassar College e Powerhouse Theatre Training Program, na localidade de Poughkeepsie, NY. Trata-se de um festival onde são apresentados todos os anos cerca de 20 projetos teatrais. Nem todos esses projetos chegam aos palcos da Broadway, mas Hamilton, vencedor do Tony de melhor show do ano de 2016, foi visto no Vassar em 2013.

A leitura no Vassar College esteve a cargo de Jason Alexander, Debra Messing (intérprete de Outside Mullingar), Andy Karl e Anna Camp, mas só Alexander integra o elenco de The Portuguese Kid e os restantes serão Sherie Rene Scott, Mary Testa e Pico Alexander.

Jason Alexander é mais conhecido por ter feito parte do elenco da icónica série de televisão Seinfeld (1989-1998), onde era o George Constanza, papel que lhe valeu sete nomeações para o Prémio Emmy (mas nunca ganhou). Depois disso produziu e protagonizou a série cómica Hit the Road para Audience Network e foi também diretor de episódios das séries Criminal Minds, Mike and Molly e Todo Mundo Odeia o Chris. Os seus créditos cinematográficos incluem Pretty Woman, Love e The Hunchback of Notre Dame.

Nascido em Newark, NJ, Alexander fez a sua estréia na Broadway em 1981 em Merrily We Roll Along e, em 1989, recebeu o Tony de melhor ator num musical pelo seu trabalho em Jerome Robbins’ Broadway. Os seus créditos como ator de teatro incluem ainda Forbidden Broadway, Personals, Light Up the Sky, The Rink, Broadway Bound, Accomplice e, mais recentemente, Fish in the Dark, onde substituiu o criador de Seinfeld, Larry David. Apareceu ainda na produção de Los Angeles do musical The Producers com Martin Short e é diretor artístico de Reprise! Broadway’s Best in Los Angeles, onde dirigiu vários musicais.

Sherie Rene Scott é atriz, cantora e autora que já esteve em 15 shows da Broadway e cinco filmes. É também produtora de discos e tem uma etiqueta que grava os elencos originais dos shows da Broadway e já lançou 150 álbuns e ganhou três Grammy.

Mary Testa, atriz e cantora, nasceu em Philadelphia, mas foi criada em Rhode Island e foi em 1976 para New York tentar a sorte na Broadway.

Pico Alexander, e antes que comecem a dizer que o rapaz é picaroto, esclareça-se que nasceu em 1991 em New York e chama-se Aleksander Lukasz Jogalla. Os pais são polacos. O pai, Lukasz Jogalla, é diretor de fotografia, e o avô, Jerzy Jogalla, é ator. Pico é a sua alcunha desde criança.

A única coisa que se sabe quanto a The Portuguese Kid é que é um musical. A ação da peça decorre em Providence, Rhode Island, onde como se sabe existe uma comunidade portuguesa que começou a surgir nas primeiras décadas do século XX na zona de Fox Point, quando Providence passou a substituir New Bedford como porta de entrada da imigração portuguesa na Nova Inglaterra. Embora a maioria dos imigrantes desembarcados em Providence mudassem depois para outras cidades industriais da região, muitos permaneceram trabalhando na cidade. Em 1915, Providence e East Providence contavam 5.000 moradores de origem portuguesa, que ainda hoje representam 4,42% dos 200.000 habitantes de Providence.

Sabe-se que na peça Jason Alexander faz um advogado meio mafioso chamado Barry Dragonetti, portanto de origem italiana, que tem uma cliente chamada Atalanta (Sherie Rene Scott), viúva crónica cujos maridos têm a desafortunada tendência para morrer repentinamente. Atalanta quer que o advogado resolva os assuntos financeiros do seu último marido grego e torna um inferno a vida de Dragonetti, que ainda por cima tem uma mãe croata (Mary Testa), farta de o ver solteiro. Portanto, só aqui temos um italiano, um grego e uma croata. E teremos que esperar pela estreia para saber se The Portuguese Kid tem personagens de origem portuguesa.

Já agora lembre-se que já tivemos personagens portugueses numa comédia de um ato intitulada Not Smart e da autoria de Wilbur Daniel Steele. A ação decorre entre pescadores portugueses de Provincetown, no Cape Cod e onde há duas figuras de açorianos, a empregada Fannie e o pescador Milo. No final, descobre-se que ela não é “inteligente” (deixou-se engravidar), mas eles resolvem casar porque “estes pescadores ásperos” são “ignorantes e grosseiros”, mas “têm neles uma centelha de sentimento ou honra”, considera outro personagem.

Wilbur Daniel Steele (1886-1970) foi um contista e dramaturgo muito popular entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais. Tem três coletâneas de contos, The Man Who Saw through Heaven, Best Stories e Full Cargo (1951). Publicou também três romances, Taboo, That Girl from Memphis e Their Town. Foi também argumentista em Hollywood, escreveu sete peças e com a segunda esposa, a atriz Norma Mitchell, escreveu a peça The Post Road.

Antes de ser escritor, Wilbur Daniel Steele pensou ser pintor e estudou em Boston, onde terá conhecido a primeira esposa, Margaret Steele, que era pintora. O casal fez parte do primeiro grupo de intelectuais novaiorquinos (do Greenwich Village) a descobrir em 1907 a vila de Provincetown, no extremo do Cape Cod, em Massachusetts e onde os pescadores portugueses oriundos dos Açores e de Cabo Verde se tinham começado a fixar no tempo da caça à baleia e em 1870 eram um quarto da população. Provincetown é hoje uma das mais turísticas localidades de Massachusetts e a população de três mil residentes sobe para 60 mil no verão. A localidade ainda tem inúmeros vestígios da presença portuguesa, nomeadamente na ementa dos restaurantes, na Portuguese Bakery da Commercial Street e no festival português, a maior festa popular local que inclui a benção da frota pesqueira começada em 1948 por iniciativa do padre Silva, pároco da igreja de São Pedro, e foi realizada pela primeira vez pelo bispo James E. Cassidy, bispo de Fall River e o primeiro prelado americano que recebeu a Ordem de Cristo oferecida pelo governo português.

Os primeiros intelectuais novaiorquinos a descobrir Provincetown foram a escritora e sindicalista Mary Heaton Vorse e o marido Bert Vorse. Mary Vorse, que faleceu em Provincetown em 1966, com 92 anos, escreveu em Time and the Town a respeito dos portugueses: “As pessoas em Provincetown sempre dançaram e cantaram. Os portugueses chegaram cedo e trouxeram com eles a alegria latina e “mucho” gosto pela vida. Essa exuberância ajudaria a criar um clima hospitaleiro para os artistas, autores e pessoas do teatro que começaram a chegar”. Mary Heaton lembra ainda que naqueles tempos eram muito populares em Provincetown as chamarritas dos açorianos, que ela chama de “charmalita”.

Aos casais Vorse e Steele juntaram-se a escritora e dramaturga Neith Boyce e o marido, o jornalista Hutchins Hapgood, e os escritores Susan Glaspell e George Cram Cook. Mas o grupo aumentou depressa, o começo da Primeira Guerra Mundial em 1914 fez com que intelectuais americanos que andavam por Paris regressassem ao Greenwich Village e, muitos passaram a gozar o verão em Provincetown.

O jornalista Jack Reed (imortalizado no filme Reds de Warren Beatty), era um dos vindos da Europa com a sua amante milionária Mabel Dodge, que tinha conhecido em Nápoles, e com a jornalista (e ativista) Louise Bryant atrás. Reed e Mabel acamparam numa tenda de seda nas dunas da praia e Reed era descrito como “The Village’s Golden Boy”. Reed ainda se envolveu na criação do famoso grupo de teatro Provincetown Players, mas teve que partir para ir cobrir a revolução bolchevista na Rússia (escreveu um livro célebre, Dez Dias que Abalaram o Mundo) e Louise Bryant foi atrás dele. Viriam a casar em 1917, mas Reed morreu três anos depois, aos 32 anos. Mabel, que entretanto arranjara novo amor, o pintor Maurice Stern, continuou a fazer parte da animada e tolerante comunidade intelectual veraneante de Provincetown de que faziam parte nomes como John dos Paços (neto de madeirenses), Tennessee Williams e Norman Mailer, então no início da carreira.

Os Provincetown Players (mais tarde Provincetown Repertory Theatre) começaram de certo modo graças a Neith Boyce e ao marido, que tinham por hábito reunir os amigos em serões na sua casa para leitura de peças originais. Uma dessas peças foi Constancy, da autoria de Boyce e uma paródia ao romance entre Mabel Dodge e Jack Reed, representada na varanda da casa. Mas normalmente eram dados a conhecer os novos dramaturgos europeus, Ibesen da Noruega, Strindberg da Suécia, Wilde e Shaw de Inglaterra e Synge da Irlanda, contribuindo assim para refrescar as ideias num tempo em que o teatro nos EUA consistia sobretudo de vaudeville, melodramas e farsas. Há quem diga que o teatro moderno americano nasceu em Provincetown.

Em 1915, Mary Heaton Vorse O’Brien (divorciara-se de Bert Vorse em 1913 e casara com Joe O’Brien, jornalista e socialista da Virginia que ela conhecera numa greve da indústria têxtil em Lawrence) adquiriu por $2.000 o Lewis Wharf, um velho armazém de peixe à beira mar na Commercial Street, sobre estacas e que se tornou o original “theatre-on-the-wharf”. As primeiras apresentações foram gratuitas.

Naquela época aparece em Provincetown um jovem dramaturgo de 27 anos chamado Eugene Gladstone O’Neill, que conseguiu ter a sua peça Bound East for Cardiff (um monólogo) lida nos exigentes serões do casal Susan Glaspell e George Cram Cook. A peça agradou e foi à cena no Lewis Wharf na noite de 28 de julho de 1916. Susan Glaspell descreveria mais tarde o evento desta forma: “O mar foi bom para Eugene O’Neill”.

A carreira de Eugene O’Neill, que é indiscutivelmente o maior dramaturgo americano, começou assim à beira mar na baia de Provincetown. Após a temporada de verão bem sucedida em Lewis Wharf, os Provincetown Players mudaram-se para New York, para um teatro na MacDougal Street, no Greenwich Village e tiveram uma primeira e inovadora temporada novaiorquina a que se seguiriam muitas outras. Bette Davis, Claudette Corbert e Richard Gere fizeram parte da companhia.

No verão, a companhia voltava a Provincetown, onde Eugene O’Neill, entretanto casado com Agnes Boulton, continuava a residir. O’Neill ganhou o seu primeiro prémio Pulitzer por Beyond the Horizon. Ganharia mais três Pulitzers e tornar-se-ia o único dramaturgo americano a ganhar um prémio Nobel de Literatura em 1936. Uma carreira fabulosa que começou em Provincetown, entre pescadores portugueses que dançavam a chamarrita.

No dia 14 de julho de 1916, o teatrinho Lewis Wharf de Provincetown levou à cena três peças em um ato: Winter’s Night de Neith Boyce, Not Smart de Wilbur Daniel Steele e Freedom de Jack Reed. Not Smart é a tal peça com personagens portugueses. A encenação foi de Erin E. Kelly e o ator que fazia Milo era Stuart Derrick. Portanto, se The Portuguese Kid não fizer referência a portugueses, não é problema, isso já aconteceu há 101 anos.