Vitória de Portugal no Festival da Eurovisão e a canonização dos Pastorinhos de Fátima


Sábado, 13 de maio de 2017. Foi dia em cheio para o Portugal dos três efes: Fátima, Futebol e Fado. A triologia fartou-se de dar alegrias aos portugueses: de manhã, o Papa Francisco canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, a primeira canonização em Portugal e em português, perante um milhão de peregrinos; à tarde, o Sport Lisboa e Benfica venceu o Vitória de Guimarães por 5-0, conquistando o seu 39º campeonato nacional de futebol da 1ª Divisão; à noite, com Salvador Sobral cantando Amar Pelos Dois, Portugal sagrou-se pela primeira vez vencedor do Festival Eurovisão da Canção, onde participa desde 1964. E houve quem dissesse que tinha sido milagre de São Francisco e da mana Santa Jacinta.
Na verdade, mesmo para os não crentes, canonização dos pastorinhos e a presença do Papa no santuário de Fátima é assunto importante. A 128 quilómetros de Lisboa, o santuário ergue-se no local onde há precisamente um século, a 13 de maio de 1917, quando apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, Francisco, então com nove anos, a irmã com sete e a prima, Lúcia, com dez anos, viram um clarão que pensaram ser uma trovoada e era “uma senhora mais brilhante do que o Sol” em cima de uma azinheira. Essa senhora voltaria a aparecer às crianças mais cinco vezes nos meses seguintes, sempre no dia 13 e dizendo-lhes que rezassem pela paz no mundo. Poucos acreditaram e na segunda aparição apareceram somente 50 pessoas. Mas os pastorinhos disseram que, na aparição de 13 de julho, a Virgem prometera um milagre para o dia 13 de outubro de 1917 “de modo a que todos pudessem acreditar” nas aparições. Nesse dia,  num tempo em que não havia estradas, nem formas de comunicação fáceis, cerca de 70.000 pessoas juntaram-se na Cova da Iria para testemunharem um fenómeno que é recordado hoje como “o milagre do Sol” e Fátima, como disse o Papa Francisco,  tornou-se um “rio de oração que corre há 100 anos”.
Minha mãe era crente e comecei a ir à Cova da Iria ainda de colo. Nos tempos da guerra de Angola, quando andava pela mata, rezei tanta Avé Maria que Nossa Senhora já não me podia ouvir. Mas hoje, radicado nos EUA, quando volto a Portugal, posso não ir à bola nem aos fados, mas nunca deixo de ir a Fátima e está tudo dito.
Não sei se, como dizem alguns padres, as crianças foram aproveitadas pelos bispos portugueses para combater o clima anti-clerical do Portugal republicano de 1917 ou se pôr a santinha a rezar pela conversão da Rússia fez parte da estratégia anticomunista dos EUA durante a Guerra Fria. Mas tenham sido ou não aproveitados pelos poderes políticos, os pastorinhos fizeram um grande trabalho. Fátima é hoje o maior fenómeno religioso português e um dos maiores a nível internacional. 
Com os oito milhões de visitantes aguardados neste ano e os entre seis e sete milhões dos anos anteriores, Fátima é um dos santuários marianos mais frequentados do mundo, perdendo apenas para o mexicano de Guadalupe (20 milhões) e o brasileiro da Aparecida (12 milhões), mas acima do francês de Lourdes (6 milhões). Além disso, em todo o mundo, 120 países têm santuários, igrejas, missões, congregações, escolas, movimentos e instituições dedicados ao culto à Virgem de Fátima. Há 260 santuários de Fátima, 31 nos EUA. Paróquias de Nossa Senhora de Fátima são 1.138 e uma das mais antigas nos EUA é a de Cumberland, Rhode Island, fundada em 1933. 
Existem centenas de associações (447), de movimentos (490), de instituições de solidariedade social (100) e estabelecimentos de ensino (338) inspirados em Nossa Senhora de Fátima. Só nos EUA são 34 escolas, uma delas em New York e em Newark, NJ, vamos encontrar uma Banda de Nossa Senhora de Fátima, que faz parte da paróquia portuguesa local. 
A devoção a Nossa Senhora de Fátima nos EUA é especial e a imagem peregrina da Virgem visitou 100 dioceses para comemorar o 100º aniversário das aparições.  A devoção das comunidades portuguesas neste país contribuiu para a divulgação deste culto mariano, mas como diz o arcebispo de Boston, cardeal Sean O’Malley, não há só igrejas de Nossa Senhora de Fátima onde vivem portugueses e lembrou uma igrejinha dedicada à Virgem de Fátima numa reserva dos índios no Arizona, onde menos se esperava.
Também ninguém esperava e aconteceu dia 13 de maio. Portugal, o país mais derrotado do Festival da Eurovisão em 49 participações desde 1964, ganhou este ano com Salvador Sobral, cantando Amar Pelos Dois, letra e música da irmã e também cantora Luísa Sobral, que foi também distinguida pela autoria da melhor composição a concurso, uma homenagem atribuída pelos compositores dos outros países.
A canção Amar Pelos Dois está a ser cantada por todo o mundo, havendo já versões noutras línguas, como o inglês, o maltês, o finlandês e o ucraniano. Salvador já tem concertos agendados em Portugal e no estrangeiro. Segundo o jornal Correio da Manhã, por cada atuação recebe 3.500 euros, valor que aumentou após a vitória no Festival da Canção. Mas quem é este jovem com um sorriso tímido, de barba rala e cabelo comprido apanhado num rabo de cavalo? Nasceu em 1989 em Lisboa. Desde pequeno que cantava as canções de Stevie Wonder e em 2009 concorreu ao concurso Idolos, da SIC. Deixou de cantar uns tempos para estudar Psicologia, mas em 2011, quando estudava em Maiorca, Espanha, juntou-se a um guitarrista de blue a tocar e a cantar e começaram a ganhar dinheiro atuando em bares e hotéis. Em Barcelona matriculou-se na escola Taller de Músics e decidiu fazer da música profissão. A carreira corre bem, o problema é a saúde. O cantor, de 27 anos e que recentemente foi operado a duas hérnias, uma no umbigo e outra no intestino, tem problemas cardíacos e está em lista de espera para um transplante do coração. 
Luísa Sobral nasceu em Lisboa em 1987. Saiu do anonimato em 2003, com 16 anos, como concorrente no programa Ídolos, da SIC, onde ficou em 3.º lugar. Pouco tempo depois rumou para os EUA, para estudar no Berklee College of Music, de Boston, onde terminou a licenciatura em 2009. Durante a estadia nos EUA, foi nomeada nas categorias Best Jazz Song  no Malibu Music Awards em 2008; Best Jazz Artist no Hollywood Music Awards; International Songwriting Competition em 2007 e The John Lennon Songwriting Competition também em 2008. Já gravou três discos, um dos quais em Los Angeles, nos United Recording Studios e excursionou pela Europa com a cantora americana Melody Gardot.
Quanto ao Festival Eurovisão da Canção foi criado em 1956 pela European Broadcasting Union com sede em Genebra e consegue atrair a atenção de quase um bilião de pessoas por ano, em todo o Mundo. Em 1974, ABBA ganhou o concurso para a Suécia com Waterloo. Celine Dion ganhou para a Suíça em 1988 e Olivia Newton-John competiu pelo Reino Unido em 1974. Em 1958, o italiano Domenico Modugno também não venceu o Eurovisão com Volare, mas vendeu 22 milhões de discos.
Seis países têm sempre garantido um lugar na final do festival – o país anfitrião e a França, Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido, porque pagam mais dinheiro para o custo da competição. A Irlanda já ganhou sete vezes, a Suécia seis vezes e o Luxemburgo, França e Reino Unido cinco vezes. No entanto, a vitória tem um custo: a nação vencedora deve sediar o concurso no ano seguinte. Portanto, cabe à RTP organizar o Festival Eurovisão da Canção de 2018, que não é barato: 30 milhões de euros no mínimo. Por isso, com o seu bom humor, Salvador já pediu desculpa aos portugueses.
O Festival da Eurovisão pode ser visto nos EUA, mas os americanos não podem votar, o que pode vir a mudar. Embora não seja país europeu, a Austrália participa no concurso desde 2015 devido ao facto do programa ser transmitido desde 2015 por uma televisão do país, SBS, e com grande audiência. Israel e Azerbeijão são outros concorrentes não europeus, mas estes países fazem parte da European Broadcasting Union. 
Não é de excluir a possibilidade dos EUA virem a participar no Festival da Eurovisão e para já a NBC pretende lançar o mesmo tipo de concurso nos EUA. Este network do grupo Comcast (o maior distribuidor de TV-cabo), acaba também de tornar-se acionista do Euronews, o canal pan europeu multilinge (nove línguas, entre as quais o português). A NBC tem uma participação de 25% que custou 30 mi-lhões de dólares e a Euronews será rebatizada como Euronews NBC. O principal acionista é o magnata egipcio Naguib Sawiris, que possui 53% do capital e o resto divide-se pela Television Française, RAI italiana e TVE espanhola.
Quanto ao concurso, depois de saber que o American Idol da Fox superou a audiência dos Grammy, a NBC está a trabalhar num concurso tipo Eurovisão made in USA, que é bom para despertar rivalidades regionais, com cantores amadores ou profissionais de cada estado e que terão de vencer eliminatórias para chegar à final. O vencedor ganha um contrato de gravação e a votação estará nas mãos dos telespectadores.
A data de começo do concurso ainda não é conhecida, mas Ben Silverman está a trabalhar nisso e disse que vai tentar seguir ao máximo o Eurovisão, “que é o avô de todos os shows de talentos e o Super Bowl de cantar”.