Frank Ferreira - um português no Departamento de Estado dos EUA


Bureau of Arms Control, Verification & Compliance; Office of Verification
Planning and Outreach (AVCVPO)


“Acredito na diversidade cultural, no multiculturalismo e estar presente na tomada de posse 
do primeiro presidente afro-americano (Barack Obama) foi um momento que jamais esquecerei”

 

Frank Ferreira nasceu em Ranhados, Viseu, província da Beira Alta, tendo imigrado com a família para os Estados Unidos com apenas 9 anos de idade, por altura da Revolução do 25 de Abril. Durante algum tempo residiu em New Jersey, Rhode Island, Pennsylvania, Washington, DC e agora em Alexandria, Virgínia.
Depois dos estudos a nível primário e secundário, formou-se em Ciência Política pela Universidade de Saint Joseph, tendo obtido um mestrado em Gestão de Emergências e Desastres na Universidade de Georgetown. Cresceu nesse ambiente da família tipicamente portuguesa em New Jersey, a falar a língua de Camões e a cultivar os costumes e tradições portuguesas.
Considerado pelos seus colegas como um indivíduo carismático, inteligente, profissional multilingue altamente qualificado excercendo cargos públicos governamentais há mais de 25 anos, quer a nível local, estadual, federal e internacional e com grande experiencia, Frank Ferreira (Mário Francisco da Costa Ferreira) é um conceituado cientista político e especialista em assuntos intergovernamentais e do congresso norte-americano.
Depois de alguns anos no Departamento de Segurança Interna dos EUA, tendo abandonado em março de 2020 por discordar da política de liderança da FEMA (agência federal de gestão de emergências), inserida no DHS, Frank Ferreira foi recentemente admitido no Departamento de Estado dos EUA, em Washington, DC, para trabalhar no bureau de controlo de armas, verificação e conformidade, planeamento e divulgação do Departamento de Estado, onde trabalha em Assuntos Parlamentares, Públicos e Diplomáticos. Refira-se que o Bureau de Controlo de Armas, Verificação e Conformidade é responsável por prevenir conflitos e aumentar a estabilidade estratégica usando ferramentas como tratados de controlo de armas, outros acordos internacionais e medidas de transparência que visam promover confiança e a cooperação entre aliados e parceiros a fim de controlar a ameaça que na realidade representam as armas de destruição em massa, os seus meios de entrega, espaço e capacidades cibernéticas e armas convencionais.
“Esta é sem dúvida uma excelente oportunidade profissional e estou muito satisfeito por prestar mais um serviço público a este grande país que acolheu de braços abertos a minha família e muitas famílias de imigrantes, não apenas portugueses, mas de todo o mundo”, começou por referir ao Portuguese Times, Frank Ferreira, que anteriormente estava ligado à FEMA. “Enquanto estive ligado a esta agência, lidei com várias catástrofes naturais, nomeadamente aquando do furacão Katrina que atingiu alguns estados do Golfo do México, nomeadamente o estado de Louisiana e em particular a cidade de New Orleans. O meu trabalho tinha mais a ver com relações públicas, com a comunicação social, assuntos congressionais e devo diver-lhe que foi provavelmente um dos trabalhos mais recompensadores que tive, ajudando pessoas em lugares onde nunca tinha estado e aqui permaneci durante quase um ano e enfrentei situações dramáticas e trágicas em que pessoas perderam os seus haveres e os seus entes queridos”, sublinha Ferreira, que recorda as diversas barreiras burocráticas que teve de ultrapassar para ajudar pessoas nas mais variadas carências, designadamente na obtenção de uma casa. “Ainda hoje guardo comigo uma lista de 450 pessoas que ajudei perante aquela catástrofe e o governo dos EUA fez um trabalho excecional no auxílio a todos os sinistrados”, recorda Frank Ferreira.

Na tomada de posse de Barack Obama
“Acredito firmemente na diversidade cultural, no multiculturalismo e estar presente na tomada de posse do primeiro presidente afro-americano é um momento que jamais esquecerei, até porque a comunidade afro-americana tem contribuído largamente para o progresso deste país”, recorda Frank Ferreira, que se sente orgulhoso de ter feito parte da administração Obama.

António Guterres, um grande líder e excecional humanista
“O antigo primeiro-ministro português é sem dúvida um diplomata altamente qualificado, um humanista, uma pessoa que compreende perfeitamente as regras do governo quando se trata de melhorar a vida das pessoas e não conheço ninguém tão competente como Guterres na posição que ocupa atualmente como secretário geral das Nações Unidas”, reconhece Ferreira, recordando que no processo de admissão àquele cargo, Guterres foi brilhante nas suas intervenções revelando grandes qualidades humanas e capacidade extraordinária de comunicar com as pessoas, ele que se expressa fluentemente em quatro idiomas. “Nós portugueses e lusoamericanos temos grande orgulho em António Guterres, com quem travei algumas conversas e assisti à sua tomada de posse a secretário geral das Nações Unidas, tendo logo constatado tratar-se de uma pessoa simples, humilde, mas dotado de grande capacidade para desempenhar este cargo. Recordo que lhe enviei um email a felicitá-lo aquando da sua tomada de posse, e ele, rodeado de líderes de vários países, em três minutos respondeu ao meu email”, sublinha Frank Ferreira, que revela ser amigo de um outro lusoamericano que também admira particularmente, David Simas, natural de Taunton, que foi conselheiro de Barack Obama e com quem trabalhou nos bastidores (“behind the scenes”). “Ambos temos grande orgulho das origens e nas nossas conversas falamos da comunidade portuguesa e de Portugal”, refere Ferreira.

Expo 98 em Lisboa e Luso American Wave of Honor
“Recordo que o antigo congressista lusoamericano da Califórnia, Tony Coelho foi nomeado pelo presidente Bill Clinton para liderar a representação norte-americana na Expo 98 em Lisboa e através da antiga embaixadora dos EUA em Lisboa, Elizabeth Bagley estabeleci contacto com Tony Coelho em New York, com quem trabalhei aqui nos EUA neste projeto da ida do grupo a Lisboa, embora não tivesse integrado a comitiva”, recorda Frank Ferreira, que esteve há dois anos na capital portuguesa.
Um dos projetos a que o seu nome está ligado foi a construção de um monumento em memória da comunidade lusoamericana (“Luso American Wave of Honor”) no Parque das Nações em Lisboa, com os nomes das famílias gravados nesta escultura de 24 metros de largura por 1.8 metros de altura, de forma semi-cilíndrica. “Ainda não tive tempo de visitar o monumento, mas espero um dia concretizar a ideia juntamente com os meus filhos e lá prestar o meu contributo aos meus dois países a que chamo de lar: o país onde nasci, Portugal, e o país a que agora chamo de minha casa: os Estados Unidos”.

“A América dos últimos quatro anos não é certamente a América que conhecemos nos livros no tempo da minha infância ainda em Portugal: terra de oportunidades. Em contrapartida tornou-se um país concentrado numa pessoa em que tudo se tornou em ataques pessoais, sem estabilidade, falta de cultura democrática, de extremismos, não há uma política de compromisso, de tolerância, de concórdia, mas também de respeito pelas diferenças políticas, culturais, etc... e isso perturba-me imenso. O país que fui habituado a respeitar e a amar não tem nada a ver com esta situação atual que vivemos, de falta de respeito pelas instituições democráticas e que culminou no ataque ao Capitólio dos EUA em Washington”, afirma, para adiantar que o país não está devidamente preparado, apontando exemplos: “Fomos vítimas de ataques cibernéticos por forças estrangeiras, o ataque recente ao Capitólio demonstrou que as nossas forças de segurança não estavam preparadas, não nos preparámos devidamente para travar a constante disseminação desta pandemia e mais, não temos um sistema de defesa e alerta devidamente preparado, estruturado e equipado com as regras de protocolo necessárias na eventualidade de um ataque nuclear”, confidencia o nosso entrevistado.

A convivência com o novo presidente dos EUA
“Durante o seu percurso no Senado, Joe Biden tornou-se conhecido por usar os comboios Amtrak como meio de transporte até ao Capitólio. Foi num desses momentos que o conheci. Enquanto jovem funcionário no gabinete do senador Frank Lautenberg de New Jersey, tive a honra de ir buscar o então senador Biden para participar num evento de angariação de fundos”, recorda Ferreira.
Já no final da entrevista, Frank Ferreira cita uma frase do saudoso Mário Soares: “Só é vencido quem desiste de lutar”, um conceito que se aplica perfeitamente aos tempos de hoje. “Precisamos de lutar pelos nossos ideais, por aquilo que acreditamos e pelos princípios básicos humanos da democracia e da justiça social”, afirma Frank Ferreira, que acrescenta ainda em relação à entrevista que concedeu ao PT:
“Tenho muito gosto em conceder esta entrevista ao Portuguese Times, pois eu sou um New Englander... Há alguns anos vivi em Bristol, RI, numa pequena casa tipo Cottage e naturalmente deparei-me com muitos sinais vivos da presença portuguesa nesta bonita vila e ainda tenho amigos aí em RI e em MA e numa visita que fiz a essa região fiz questão de comer um bom bife à portuguesa... Tenho saudades desse ambiente português”, salienta Ferreira, ao que o entrevistador contrapõe: “Quando aqui vier será nosso convidado a ir a um dos vários e bons restaurantes que temos por estas paragens e “atacar” um bife à portuguesa”.

 

• Entrevista: Francisco Resendes