Há algum médico a bordo? As linhas aéreas preferem que não

 

Com ou sem epidemias, todos nós vamos voltar a viajar, e ajuizando pelo que se passou depois da epidemia de gripe “espanhola” de 1918, seguida pelos exuberantes anos 20, as viagens vão voltar em força, tarde ou cedo. 
Sem relação com as viroses correntes que obrigam a medidas sanitárias que há muito tempo deviam ter sido postas em vigor (lembro-me bem da falta de limpeza e manutenção em alguns voos que fiz antes da epidemia),  li um artigo bastante interessante de Ivan Levingston, da Bloomberg, àcerca dos custos de ter uma emergência a bordo e seguir as recomendações do médico chamado a assistir ao doente.
Uma estimativa do custo de um desvio, uma aterragem não programada num aeroporto aonde um doente possa ser evacuado para um hospital, varia entre 10 e 200 mil dólares, de acordo com a International Air Transport Association. Enquanto o comandante da aeronave tem o direito de decisão final, este está na situação ingrata de ter que pesar a pressão da companhia para manter custos de operação reduzidos versus a recomendação do médico, que sem equipamento de diagnóstico tenta o seu melhor evitar um desenlace trágico. Note o leitor que tanto o médico como a linha aérea podem ser processados judicialmente em casos de negligência que resultaram em morte ou invalidez permanente, e logicamente o médico prefere errar por excesso do que ter que lidar com tribunais, seguros, e possíveis indemnizações.
Já fui chamado a prestar assistência por duas vezes durante voos de Boston para Ponta Delgada. Uma das vezes quando cheguei perto do passageiro, já lá estava um colega dos Açores que se encarregou da situação. Na segunda vez a hospedeira/assistente de bordo descreveu uma senhora cabo-verdiana (já vinda da Califórnia) que parecia em estado de pré-síncope. A caminho da passageira já me estava ver a ter que recomendar ao comandante um desvio para Gander, no Canadá, que os voos transatlânticos sobrevoam regularmente a pouco mais de meio caminho. Afinal, a pobre senhora estava simplesmente desidratada depois de múltiplos voos de longo curso, e a situação resolveu-se rapidamente com líquidos adequados. Evitou-se a despesa para a SATA e os atrasos nas ligações para os passgeiros em trânsito, que podiam afetar metade dos passageiros.
Então como solucionar este problema mantendo a segurança dos passageiros, a integridade financeira da linha aérea, e todos fora dos tribunais? Paulo Alves, diretor médico de Saúde na Aviação da companhia MedAire, Inc. de Phoenix, pode ter uma solução: esta companhia providencia recomendações médicas para emergências ocorridas durante o voo a mais de 100 companhias aéreas, dadas por médicos com bastante experiência. Isto permite que a tripulação não tenha que pedir ou seguir as recomendações de um médico-passageiro, por vezes sem experiência em urgências, e cuja motivação seria de recomendar um desvio, muitas vezes para não ter que assumir responsabilidades a longo prazo. Note o leitor que enquanto a sociedade civil está isenta de responsabilidade em caso de danos quando tenta ajudar alguém em dificuldades, através das “Leis de Bom Samaritano”, os médicos não. Mesmo sem conhecerem o doente, e agindo de acordo com o seu juramento de Hipócrates, os médicos podem ser processados por danos occorridos durante assistência a alguém, seja a bordo, seja na estrada. Não é justo, mas é a lei.
De qualquer modo, as emergências a bordo são raras, uma em cada 604 voos, e só 7,3 por cento resultam em desvios para outro aeroporto. Mesmo assim, as margens de lucro de qualquer linha aérea mesmo na melhor altura são tão baixas que qualquer desvio pode ter um impacto muito negativo na balança de pagamentos. Na realidade, a maioria das companhias é deficitária, necessitando de subsídios do Estado continuamente. Nunca foi bom negócio.
Quanto a si, leitor e passageiro, proteja-se. Leve consigo a sua medicação, especialmente se é diabético ou cardíaco, hidrate-se (a atmosfera a bordo é mais seca que o deserto), faça pelo menos parte da sua refeição, descanse, e periodicamente levante-se e exercite as pernas. Com isso evitará a maioria das emergências. 
Haja saúde!