Ainda os velhinhos jornais em papel

 

 

Os jornais, na sua versão em papel, estão num já bem documentado declínio. A tendência é transversal às mais variadas geografias e tipos de publicação, periódicas ou diárias, de informação geral ou especializada. 
Em Portugal, segundo dados do INE, entre 2011 e 2017, o total de exemplares em papel vendidos desceu 40%. Até o líder destacado por larga margem, o mui nobre Correio da Manhã viu os seus números descerem de 87.125 exemplares vendidos, em 2017, para 80.324 em 2018, uma descida de 7.8%. No mesmo ano, as vendas do Expresso, líder na sua periodicidade, encolheram 9.2%.
Alguns jornais conseguiram atenuar a quebra na procura, oferecendo conteúdo de qualidade nas suas versões digitais, com acesso condicionado por uma paywall. Afastaram-se, assim, do seu modelo de negócios tradicional, devastado pela fuga de receitas da publicidade para as gigantes da internet. É também o caso do New York Times e do Wall Street Journal, publicações que ultrapassaram - umas excecionais - duas milhões de subscrições digitais, o último no início deste ano.
Outros modelos de negócio, não fundamentados na obtenção de lucro e, com uma assumida função social, também se têm afirmado como uma tábua de salvação para o ecossistema mediático. É o caso do ProPublica, nos EUA, ou, por cá, da plataforma Fumaça.
Na América, onde por vezes parece haver mercado para tudo, a cadeia de cafés Starbucks deixou de ter jornais nas suas lojas e a tendência estende-se aos grandes supermercados. Até recentemente a aliança entre retalhistas e as publicações impressas funcionava, numa lógica de cross-selling vantajosa para ambas as partes. Hoje, essas empresas estão a desalojar as bancas de jornais, procurando colocar outros produtos mais lucrativos.
Foi já num cenário de devastação económica deste ofício que fui jornaleiro, um dos meus primeiros trabalhos, há alguns anos, numa histórica tabacaria da baixa lisboeta.
Escuro ocre ainda, depois de um galão matutino, e de separadas as encomendas para a Gulbenkian, para o Supremo Tribunal de Justiça, para Associação de Futebol de Lisboa e para um galego abastado que vivia no Chiado, era tempo de ler as manchetes internacionais. E que privilégio era vislumbrar o mundo antes dos destinatários finais, mesmo que os jornais muitas vezes se desatualizassem no exato momento em voavam da gráfica.
Tenho subscrições digitais de jornais portugueses. Quero estar informado em tempo real e ter a possibilidade de ler onde quiser, quando quiser. Mas o acesso a um jornal em papel consubstancia uma leitura horizontal, o que permite, portanto, tecer um fio condutor dos eventos e assimilar a espuma dos
dias cronologicamente. É esta suspensão da informação em blocos inteligíveis e com um encadeamento lógico e cronológico que nos permite pensar o que é lido, ao invés de consumirmos informação em barda.
Talvez este texto tente nostalgicamente e de forma ténue pôr cobro, só por capricho ou resistência vã, a uma mudança anunciada, mas não esquecerei certamente o cheiro da tinta culta nas manhãs da minha juventude enquanto jornaleiro.