Saudosas profissões: “As raparigas do tabaco”

 

DAVA-SE O NOME DE “RAPARIGAS DO TABACO” às mulheres (jovens e adultas) que, antigamente, na ilha de São Miguel, trabalhavam nas fábricas de tabaco “MICAELENSE” e “ESTRELA” localizadas na cidade de Ponta Delgada.
ERAM RAPARIGAS DE XAILE E LENÇO, repenicando as galochas na calçada, logo pela manhã, que partiam das suas moradias, na Covoada e Arrifes, a caminho da fábrica onde trabalhavam para angariar meios para o seu sustento e restante família.
ENTRAVAM, NA CIDADE, pelo Canto da Fontinha. Desciam a Rua da Canada e seguiam pela Rua de Lisboa rumo às fábricas situadas nas Ruas de Santa Catarina de Cima e de Baixo, cheias de frescura, própria da juventude, em grupo, martelando as suas alvas galochas na calçada, despertando, assim, o sono da manhã a muitas pessoas para quem aquele barulho estranho, à mistura com as gargalhadas vindas do exterior, indicava a hora de começarem o seu dia de trabalho. 
ERA ASSIM TODA A SEMANA a passagem de várias raparigas, com as suas faces rosadas e sorriso nos lábios, às quais, os rapazes dirigiam alguns gracejos.
RAPARIGAS ALEGRES, na sua maioria, de tons morenos, com tranças, de cabelos escuros e lustrosos, bem arrematadas, no seu desfile diário para o trabalho, qual revoada de pombas buliçosas. Tinham as pernas e faces rosadas pelas energias que cada dia tinham de despender com a caminhada e a exposição ao sopro das aragens frescas da manhã e ao sol abrasador das tardes de verão.
ERAM UMAS DEZENAS DE JOVENS, ruidosas e ativas, de xaile a agasalhar. Nos pés calçavam galochas forradas de pano ou cabedal amarelo, arrematado com pregos de cabeças metálicas. Algumas galochas exibiam bordados de flores nos seus topos.
O MATRAQUEAR DESSE CALÇADO rústico de madeira, mantinha-lhes os pés quentes. O chilrear das conversas produzia uma algaraviada característica, que vinha quebrar a pacatez e o silêncio da manhã, na Rua de Santa Catarina, onde os moradores, por vezes, vinham às portas assistir àquele exuberante desfile. 
UMA DAS TRAQUINICES que a rapaziada gostava de praticar, e que as “raparigas do tabaco” detestavam, era a simples e banal provocação, sempre que o vento trazia às nossas narinas o cheiro do tabaco. Alegoricamente e com base no rapé, ao fazerem o sinal de expirar “ATXIM”, por vezes uma galocha voava ao encontro da rapaziada, vindo depois a mancar para recuperar a tamanca. Hoje com o advento do progresso, o andar a pé tornou-se um anacronismo. Essas revoadas alegres, das raparigas do tabaco, foram substituídas pelas camionetas ou, na melhor das hipóteses pelos carros dos maridos.