A Face da Infâmia

 

 

 

Várias vezes ao longo do mandato de Donald Trump, escrevi neste jornal sobre os perigos da democracia americana eleger um impreparado e mentecapto neopolítico, bem como das apreensões sobre tal personalidade. Todos os nomes que lhe chamei foram poucos diante do que agora se tem vindo a verificar. O dia 13 de janeiro de 2021, ficará na História dos Estados Unidos da América como o dia em que um presidente foi impugnado pela segunda vez. 
Exatamente uma semana depois de ter incitado milhares de pessoas a atacar o Capitólio – o Parlamento americano – quando os congressistas de ambos os partidos estavam reunidos para certificar a sua derrota eleitoral.
Exatamente uma semana antes de sair da Casa Branca, na próxima 4ª feira, 20 de janeiro, data em que Joe Biden, o novo presidente tomará o poder. 
As repercussões de tal decisão da Democracia americana vão sentir-se ainda por algum tempo e irão refletir-se na democratização digital que a humanidade tem vindo a usufruir.
Não foi por acaso que a Twitter retirou a conta que Trump utilizou ao longo de todo o mandato. A decisão pecou por tardia, mas ela trás algo de apreensivo. É que agora sabemos que as multinacionais digitais podem deliberar em retirar os seus serviços sem passar por qualquer decisão política, judicial ou mesmo democrática.
Na campanha para as presidenciais no Uganda, o atual presidente do país mantinha várias contas falsas com a Facebook, através das quais denegria os adversários com acusações falsas. A Facebook fechou essas contas e o presidente, unilateralmente, mandou encerrar toda a atividade digital no país, nomeadamente a internet. Já Putin tentou o mesmo na Rússia e ainda não desistiu de ter um sistema informático próprio e independente do resto do mundo. Restrições das redes sociais que agora damos como direito adquirido, podem ser aplicadas a qualquer momento. Um bom tema a debater proximamente.
Por agora temos a capital americana praticamente em estado de sítio em véspera da tomada de posse do novo executivo, com mais de 20,000 militares armados até aos dentes por toda a cidade de Washington e seus edifícios públicos, perante ameaças que os serviços secretos receberam de que uma multidão de trumpistas armados se preparam para boicotar a tomada de posse do novo presidente no dia 20 de janeiro.
Com cerca de 70 milhões de pessoas que votaram em Trump e num país onde ter uma arma é quase um direito constitucional, vamos supor que apenas 1% desses 70 milhões decide invadir a capital, isto equivale a um imparável exército armado de 700,000 rebeldes. 
De uma crónica que escrevi e publicada em vários jornais açorianos e da Diáspora em maio/junho 2019 intitulada “In Trump We Trust”, retiro o seguinte excerto:  
“… Em 2017, os números indicam que 39,773 pessoas nos EUA perderam a vida por causa de uma arma, de acordo com os mais recentes números do Centro para o Controlo e Prevenção. Quer isto dizer que cerca de 100 pessoas são mortas por dia em toda a nação americana. 
Em cada 100 cidadãos americanos, 90 possuem armas. Em 36 dos 50 estados americanos – entre eles Alabama, Alasca e Florida – não é preciso nem sequer registar a arma ou obter uma licença para a posse e o porte. Em 45 estados é totalmente legal exibir armas de cano curto (como pistolas) em público – e em 31 estados não é necessária uma licença para isso. Dezenas de estados, como o Texas, também permitem andar com armamento pesado e armas semiautomáticas. Doze estados, entre eles o Mississípi, também permitem o porte de armas sem a necessidade de licença.
Em 2018, uma pesquisa do projeto Small Arms Survey estimou que existem pelo menos 390 milhões de armas de fogo em poder de civis no país – mais de uma por habitante. O projeto apontou ainda que metade das armas de fogo que pertencem a civis no mundo estão nos EUA, apesar da população do país mal alcançar 5% da mundial…”
O processo de impugnação do presidente em fim de mandato, terá ao menos a vantagem de Trump não poder candidatar-se de novo em 2024, nem nunca. Ficará na História como presidente infame que incitou uma rebelião contra o poder democrático. Esta foi uma amarga lição que custou 5 mortes, sendo uma delas a de um polícia.