Não tenham medo de viver

 

 

“Esta neoautonomia além de falsa, é 
descaradamente enganadora e só serve para tourear as mentes desprevenidas”

 

Na hora de fechar este escrito, os números de infetados pelo vírus em todo o mundo já ultrapassava a população do território açoriano e aproximava-se a passos largos para o quarto de milhão de pessoas.
O silêncio sepulcral que se experimenta ao ver a baixa de Manhattan e a Broadway, os Champs-Élysées e o Arco do Triunfo, o Rio de Janeiro e o Calçadão de Copacabana, Berlim, Madrid, Tóquio e muitas megacidades deste planeta praticamente sem vivalma é de verdadeira devastação. Ficamos com a estranha sensação de que algo dantesco se passou ou de que poisamos num planeta gémeo do nosso em tudo, mas vazio de vida. Mas este vazio é logo preenchido com a realidade que nos rodeia.
As primeiras opiniões dos especialistas em todo o mundo são devastadoras:
Esta crise irá contaminar cerca de 60% da população humana;
Irá provocar pelo menos entre 25 a 30 milhões de desempregados.
Os esforços de todos os governos vão mais no sentido de exaltar os esforços de todos e todas que trabalham nos serviços de saúde e apoio, do que apresentar qualquer solução que, aliás, ignoram de momento.
O cuidado nas palavras sobressai em todas as intervenções, denotando uma completa ignorância no assunto e a preocupação inevitável de manter os povos excluídos do pânico, do medo e do subsequente caos social, que seria um desastre pior do que o próprio vírus.
Enquanto a China anuncia ter já uma vacina, os Estados Unidos da América dizem que uma vacina levará cerca de doze meses a ser desenvolvida. 
Havendo alguma verdade nas notícias vindas da China e sendo cientificamente impossível (segundo os epidemiologistas) a vacina imediata, trespassa-nos a desconfiança por uma boa parte dos principais líderes globais. Quem está a mentir?
Começando por Donald Trump, politicamente ignorante, adverso a relações públicas, prepotente amador e narcisista cultural. Com acesso a demasiado poder para uma personalidade tão inconstante e perturbada, dele não transparece o líder que transmita confiança necessária que o momento exige. Com vocabulário fraco e nada dignificante para o cargo, nota-se demasiado o déspota encapotado e controlado pelas circunstâncias da grande democracia americana.
Do lado da China a mesma coisa ou pior. Sendo que podemos esperar antecipadamente isso mesmo. É uma ditadura comunista e pronto. Luta por todos os meios para manter um regime caduco, fora de prazo, que escraviza para sobreviver, que se revê exclusivamente nas costas do espelho. 
Em toda esta confusão fabricada, assistimos a uma limpeza sectorial da humanidade: Idosos. Simpaticamente chamada de terceira idade porque a sua existência nos últimos cinquenta anos tem aumentado, graças ao contributo da ciência para essa longevidade.
Olhando através da minha janela, inspiro-me no meu quintal, que é um enorme deserto líquido, esse hidrotório aurífico que é o meu Mar, tão cobiçado e invejado pelos DDT-Donos Disto Tudo. 
Estou em casa. Com o estado de emergência declarado pelo Marcelo (não o Caetano mas o seu afilhado Rebelo), tenho de confinar-me, isolar-me. Não me queixo, porque tenho muita escrita para pôr em dia e empoleirar-me no escadote da minha biblioteca. Tenho muitos livros a quem me queixar e eles nunca me repreendem pelas minhas lamúrias e até me ensinam a sair delas. 
Todos os canais televisivos no mundo a que tenho acesso são uníssonos nas notícias: Este vírus que se espalha, tal praga do Egipto contada no Velho Testamento. Oxalá passe pela minha porta e veja a marca de sangue de carneiro nela pintada e continue no seu trajeto mortal. Que se detenha nos palácios faraónicos responsáveis destas orgias pandemónicas.
As águas dos canais de Veneza estão a ficar transparentes e limpas, os peixes estão a voltar. 
Olhando o meu Mar, respiro profundamente, limpando os pulmões de todas as angústias que tenho de pagar por decidir continuar a viver.
Se pelo Natal alguém ousasse afirmar que teríamos uma Primavera Negra, com uma nuvem de morte a arrasar o planeta, diríamos que o hospício era o seu lugar.
Nesta terra açoriana, o isolamento confinado pela Natureza é uma faca de dois gumes. Pode evitar que o inimigo invisível entre em força, como pode impedir ou dificultar a batalha iminente. 
Mais uma vez a História se repete com os poderes prepotentes e as disputas de vãs soberanias da parte dos colonialistas portugueses que não permitem que os governos dos territórios insulares da Madeira e dos Açores fechem as frágeis fronteiras como defesa natural das suas populações.
Para eles, a saúde destes insulares é de somenos. A subjugação à interpretação astuciosa de constituições caducas está acima da vida dos insulares.
Felizmente que algumas decisões corajosas foram tomadas a nível insular por Vasco Cordeiro nos Açores e Miguel Albuquerque na Madeira, ao que imediatamente vieram os constitucionalistas habituais por em causa a ousadia e legalidade das mesmas decisões.
Esta neoautonomia além de falsa é descaradamente enganadora e só serve para tourear as mentes desprevenidas.
Voltaremos a estes assuntos da nossa existência insular.
Não se esqueçam: Cuidem-se. A situação é extremamente perigosa. 
Lavem as mãos várias vezes ao dia. O Planeta agradece.