Os bichanos cá de casa

 

à Regina, à Tânia e ao Pedro

A gata “Fusguita” e o gato “Virgulino” dormem deliciadamente estendidos sobre o sofá.
A “Fusguita” é desconfiada, indiferente e tem mau feitio. O “Virgulino” é neurótico e alucinado e roça-se, submisso, nas nossas pernas. Sem qualquer pedigree, foram ambos retirados da rua, vivem hoje no plácido conforto do lar e são a nossa melhor e afetuosa companhia. Mesmo quando nos arranham…
Desregrado é o convívio da “Fusguita” e do “Virgulino”, irmãos e ex-amantes liquefeitos e incestuosos… Agora, ela esterilizada e ele castrado, protegem-se um ao outro com o seu puro amor, e defendem-se com o seu ódio mais felino. Quando têm fome miam com raiva desesperada. E põem tudo em rebuliço quando lhes dá a ciumeira. Perseguem-se em loucas e inusitadas correrias, num jogo de gato e rato, até ficarem exaustos. E depois buscam o calor do aconchego dos nossos colinhos. E são acariciados com gestos lentos, vagarosamente, do alto da cabeça até ao fim da cauda. E, arquejando o lobo, eles fitam-nos, os olhos semicerrados, em êxtase, ronronando, ronronando… para mostrar gratidão.
Que rica e preguiçosa vida levam os bichanos cá de casa: comem, dejetam, cheiram, bocejam e dormem. Dormem muitíssimo. E passam a vida em busca de um lugar ao sol, a pedir-nos biscoitos e afetos, a esfregar os focinhos nos móveis, a arranhar os sofás e os tapetes, e a deixar pêlo por tudo quanto é sítio. Nada lhes escapa, até porque eles enxergam melhor do que nós. Atentos ao mínimo ruído, passam horas a fitar, através dos vidros da marquise, o que se passa na rua: vozes, vultos, os gatos das vizinhas, o esvoaçar de algum pássaro… Caçadores natos, apanham, com grande agilidade, baratas e lagartixas e, despudoradamente, depositam os seus “troféus” nos lençóis das nossas camas... 
O que eu mais invejo nestes felinos, para além da sua higiene, é a sua ociosidade, a sua nobreza e a sua independência. Pura e simplesmente estão-se nas tintas: vivem e deixam viver. Dissimulados, são mestres na arte do disfarce. Olham-nos de cima para baixo, com desdém e sobranceria. E quão misteriosos e profundos e fascinantes são as cores dos seus olhos que, diz-se, variam com os ciclos lunares…
Dados a conflitos territoriais de portas adentro, os meus gatos buscam a toda a hora fontes de calor e são de uma extraordinária exigência. Acham que são mais do que nós e tratam-nos como seus servos. De tal maneira que, no dia a dia, sinto que vou sendo por eles domesticado…