Fantástica propaganda

 

A atual grande batalha da Ucrânia tem vindo a ser acompanhada de uma fantástica propaganda por parte de jornalistas, analistas e comentadores. Muito provavelmente, no espaço da OTAN e da União Europeia esta propaganda deverá ser imensamente geral. É uma propaganda que se traduz nesta regra simples: Putin e a Rússia são coisas distintas, terrível o primeiro, excelente a segunda, ao mesmo tempo que os ucranianos são excecionais e humaníssimos.  
Invariavelmente, quase ninguém procura a causa deste conflito, e muito menos a Paz. Nem surge, na OTAN ou na União Europeia, um ínfimo gesto destinado a construir, com a generalidade dos Estados em causa, um programa de garantia para a uma Paz duradoura naquele espaço, e muito menos uma ideia de se progredir no sentido de baixar o nível dos armamentos, agora a sofrer fortíssimos incrementos, deste modo gerando perdas em domínios essenciais para as pessoas.
Claro está que os Estados Unidos não têm um interesse mínimo na construção da Paz, porque a sua história, como muito bem referiu um negro norte-americano recentemente – atentou num qualquer metropolitano, mas tinha razão no que posteriormente referiu –, sempre assentou na violência. Há muito que pude explicar isto mesmo. De resto, o que se passa com a venda de armas no seio da sociedade norte-americana, tal como os diários tiroteios por razões as mais diversas, é causa e consequência da natureza violenta da sociedade norte-americana, e ao longo de toda a sua história.
Interessante é notar como tal realidade raramente é tratada, de um modo capaz, nos nossos canais televisivos. Olhando o que está a passar-se desde a entrada das tropas russas na Ucrânia, percebe-se o abismo do que se noticiou ao tempo da Guerra do Iraque, e do que agora diariamente se expõe aos portugueses. E não custa perceber que tudo seria incomensuravelmente diferente se nesta guerra estivessem os Estados Unidos, com tudo o resto a desenrolar-se do mesmo modo. Sendo certo que nas guerras nunca os números são fidedignos – Carlos Mendes Dias dizia ontem, com razão, que a guerra se desenrola sempre em ambiente de caos –, a verdade é que sempre se noticiou, e por todo o lado, que o número de vítimas de iraquianos na Guerra do Iraque – ilegal, à luz do tal badalado Direito Internacional Público – terá sido da ordem das centenas de milhares. Um número que, em 2013, se estimou como estando entre 170 000 e 500 000. Em todo o caso, uma estimativa, embora já muito bem trabalhada. Isto, apenas no caso de mortos iraquianos.
Dois fatores contribuíram para o razoável silêncio em face da Guerra do Iraque: como bons, os Estados Unidos, naturalmente logo seguidos dos britânicos e de um conjunto de outros países que constituíram a coligação internacional; do outro, os maus, que eram os iraquianos, ou os seus líderes. Em contrapartida, nesta grande batalha da Ucrânia, a situação é a inversa: como bons, os ucranianos, bem como os Estados da OTAN e a generalidade dos da União Europeia; do outro, os maus, Vladimir Putin e todos os seus homens ligados à soberania russa, mas não a população russa – politique oblige. O que é para mim mais espantoso é constatar como a vivência das ditas democracias acaba por nada conseguir em termos de evitar este tipo de propaganda! Uma fantástica propaganda!!