Viragem a estibordo

 

Aí está o mais recente lançamento do foguetão político criado em Portugal ao redor da vacinação contra a COVID-19: a entrevista, nesta mais recente edição do EXPRESSO, dada por Henrique de Gouveia e Melo. Uma entrevista muito clarificadora e que interpreto como uma claríssima viragem a estibordo, e que há muito esperava. Ainda assim, penso tratar-se de uma entrevista algo fora do tempo, embora pareça pretender aproveitar uma espécie de linha política de cumeada.
Há algum tempo atrás, tive a oportunidade de referir uma conversa com certo engenheiro de grande nomeada, especializado em máquinas hidráulicas. Era o tempo do segundo mandato de Eanes em Belém, já com o PRD em bom andamento: a caminho da sua realidade intrínseca e do seu fim. A dado passo da conversa, mostrando eu alguma esperança na posição política de Eanes, que desejava ser defensora do mais importante da Revolução de Abril – o Estado Social –, dele recebi esta chamada de atenção: os militares são sempre iguais, sejam os de hoje ou os do tempo da outra senhora, são sempre de Direita e conservadores.
Devo dizer que não acreditei nestas palavras, embora me tenha surgido esta ideia: este tipo é velho e sabedor, e é do PCP, portanto, é capaz de ter razão... Nunca mais esqueci esta chamada de atenção, que vim a compreender cabalmente com quanto se passou com o PRD, mas também com o doutoramento de Eanes na Universidade de Navarra – da Opus Dei –, com certa entrevista sua a Mário Crespo, no Jornal das Nove – verdeiro conjunto de pés e mãos à mistura –, bem como pelas mais diversas tomadas de posição que se têm podido observar com o antigo Presidente da República. De um modo simples: um homem – militar – da Direita.
Quando, há um tempo atrás, visionei a entrevista do nosso marinheiro com Fátima Campos Ferreira, de pronto disse: temos uma segunda via do Eanes em formação... A verdade é que tal entrevista mostrou diversas marcas do nosso militar: mostrou-o como um militar, sempre pronto a servir o País para onde o poder legítimo o determinasse, mas sem conseguir ver-se como um político. Era um militar e era nesta condição que pretendia continuar a servir Portugal e os portugueses.
Ora, nesta entrevista ao EXPRESSO, Henrique de Gouveia e Melo já não repudia a ideia de uma passagem pela política, e logo como Presidente da República. E tudo na base da possibilidade de um movimento da cidadania, não necessariamente de um partido. Ou seja: tudo a partir de uma posição suprapartidária... Uma resposta deveras significativa.
Acontece que esta sua resposta concatena-se com a ideia de que não é da Esquerda nem da Direita, o que significa, nos dias da III República, ser-se da segunda. Tendo a III República nascido iluminada por ideais usualmente brandidos pela Esquerda, não se ser da Esquerda nem da Direita só pode querer dizer que se é desta última, embora tal não possa (quase) nunca ser assumido. De resto, e até ver, existe uma maioria sociológica da Esquerda, dada a pobreza histórica do País e de uma enorme parte dos portugueses.
Por fim, o tal preconceito contra os militares. O problema existe, mas tem a sua razão de ser, porque os militares, quase por todo o mundo, foram sempre o suporte das mais terríveis ditaduras da História do Mundo. E depois, é essencial não esquecer o que se passou com Humberto Delgado, quando decidiu apresentar-se como candidato, e depois com António de Spínola, que até acabou por ser tornado marechal, mesmo depois de ter fugido do seu País! E ainda  facto de ter sido o Exército um dos pilares da II República.
Quando Henrique de Gouveia e Melo refere que deixou toda a máquina da vacinação em condições funcionais, pelo que se algo vier a não funcionar bem, deverá procurar-se a causa nas limitações da Administração Pública, tal acaba por colocá-lo como alguém insubstituível, também militar, porventura providencial. Certamente por acaso, lá nos surgiu Durão Barroso a chamar a atenção para que se tem de evitar ficar para trás nesta nova dose da vacinação – Lacerda Sales diz que até estamos adiantados em face do planeado. Podendo não ser tudo isto um poema, a verdade é que estes dois versos rimam em cheio... É verdade que o acaso existe, mas também existem mecanismos com fortes dependências causais.
Depois desta entrevista, nos termos da minha perceção desta realidade política – a realidade política que a grande comunicação social, hoje cabalmente alinhada com a Direita, criou ao redor de Henrique de Gouveia e Melo...–, tudo aponta para que o nosso marinheiro seja, de facto, um militar, ou seja, um concidadão conservador e da Direita. De um modo simples e claro: esta entrevista mostrou um almirante português a iniciar a viragem da nau nacional para estibordo...