Vacinas, reações, justificações

 

 

A pandemia da COVID-19 produziu alterações profundas no modo como estavam organizadas as sociedades e na maneira como se relacionavam entre si. Em pouco tempo se percebeu o enorme grau de incerteza que marcava o funcionamento do novo coronavírus, ao mesmo tempo que se acentuava a perceção das suas profundas e terríveis consequências económicas e sociais. No fundo, quase tudo mudou.
Numa situação realmente singular, operou-se uma corrida à obtenção de uma vacina, participada por empresas e Estados os mais diversos. A primeira destas vacinas foi a Sputnik V, logo registada pelas autoridades russas de saúde, mas também, no mínimo, uma vacina chinesa, igualmente validade na China pela suas autoridades de saúde. Depois, deu-se o desde sempre conhecido: Donald Trump utilizou a COVID-19 para criar a base de um confronto com a China, ao mesmo tempo que a grande comunicação social ocidental, até mesmo técnicos reconhecidos, de pronto relegaram aqueles fármacos para o cesto do esquecimento. Era o Ocidente a defender-se da sua ultrapassagem, neste domínio, pela Rússia e pela China.
No entretanto, surgiram, finalmente, as vacinas ocidentais. Parecia que se havia chegado a um paraíso. Num ápice, deu-se corpo a sucessivos contratos, em condições planeadas para se conseguir uma vacinação completa da nossa população. Da nossa e das dos Estados da própria União Europeia. Seria a prova, para lá de tudo o resto, do essencial papel da União Europeia. Sem ela, dizia-se, Portugal ficaria entregue si mesmo e pleno de dificuldade em realizar a vacinação plena da sua população. Infelizmente, este alardeado ouro sobre azul transformou-se no mais recente fracasso da União Europeia.
No meio de tudo isto, informação completamente desencontrada sobre o alcance de algumas vacinas, uma luta desumana pelo açambarcamento das mesmas, o surgimento de casos complicados após a toma de certas vacinas, ao mesmo tempo que, afinal, tudo ia sendo… nada. Em contrapartida, os Estados da União Europeia foram-se dividindo em grupos diversos: os que se determinaram a adquirir e administrar as vacinas russa e chinesa, os que suspenderam a aplicação da vacina da AstraZeneca oriunda de de certo lote de um milhão de unidades, os que recusaram aplicar uma outra a cidadãos com idade acima dos 65 anos, para logo, em pouco tempo – uma a duas semanas –, fazerem marcha atrás. Enfim, mais uma das barracas definitórias da política da União Europeia.
A encimar toda esta barraca, a declaração do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, de que recorrer a vacinas fora do contratualizado pela União Europeia seria uma traição ao espírito de solidariedade demonstrado por esta mesma. Infelizmente, o ministro passou ao lado da crescente corrida, na Europa, à vacina Suptnik V e a outras, chinesas, mas também evitando reconhecer o fracasso da intervenção da própria União Europeia. Percebeu-se o modo fanático como se elege um contrato, para mais não cumprido pelo produtor, acima dos interesses objetivos das populações: primeiro a imagem da União Europeia, depois as pessoas.
Por fim, a realidade já dolorosamente percetível: mais uma vez, a União Europeia, tendo partido muito à frente, está prestes a ser ultrapassada pelos Estados Unidos no domínio da vacinação da sua população. Uma situação verdadeiramente dolorosa, tendo presente o caráter fortemente humanista que está na base da vida europeia em face da norte-americana. O problema está na quase completa incapacidade política de operar uma ação concertada que seja inteligente e eficaz. Até no caso da Sputnik V, e no das vacinas chinesas, a União Europeia não consegue mostrar-se diferente e melhor que os Estados Unidos. É uma realidade muitíssimo desagradável.