Do desenvolvimento "intelectual" da proposta de 16 de Junho de 1852 - III

 

Onde obter informação sobre ‘desenvolvimento intelectual’? Que tenha por limite temporal 16 de Junho de 1852. E que trate das três cidades dos Açores, da Ribeira Grande e de Vila Franca. Em Inquéritos ou Censos? Não. Nas monografias? Um pouquinho. Onde ir então? Ir aos jornais, aos almanaques e aos diários de viajantes? São boas fontes. E aos arquivos das instituições: autarquias, bandas de música? Melhor ainda. Vou usar aqui o que pude aí encontrar de pertinente.
Antes de avançar para o próximo ponto, justificar-se-á uma chamada de atenção: nos Açores (e no país), de uma maneira geral, o movimento associativo (independente da Igreja) surgiu em força com o liberalismo oitocentista. O associativismo económico, social e cultural ia de par com o progresso ‘intelectual.’ Era um sinal de desenvolvimento. Daí a inclusão das sociedades no preâmbulo da proposta de 16 de Junho de Loureiro. Para tentar perceber se, em 1852, em relação às já cidades e à vila, sua rival, a Vila da Ribeira Grande poderia ser considerada ‘civilizada,’ vou tentar compará-la com aquelas cidades e aquela vila. Nessas associações oitocentistas pontificava uma elite ‘civilizadora’ (e algum povo dócil) que, além de pretender ilustrar-se e divertir-se, desejava ‘civilizar’ a ‘ralé.’ Na Ribeira Grande, ao que sei, as primeiras associações que aí surgem, resultaram muito da iniciativa de residentes oriundos do Continente Português. Como veremos.
O desejo de ‘desenvolvimento intelectual’ da Ribeira Grande, certamente semelhante a tantos mais contemporâneos, poderá resumir-se do seguinte modo: andar a par ‘do progresso.’ Esta vontade vem bem expressa no editorial do primeiro jornal da Ribeira Grande, o primeiro fora de Angra e de Ponta Delgada, antes do primeiro da Horta. Diz assim o Estatuto: ‘Era tempo. O nosso progressivo melhoramento assim o exigia. Exigia-o também a grandeza da nossa população e as necessidades da época em que vivemos! Esta Vila, a primeira e principal de toda a monarquia, já pela sua numerosa população e riquezas, e já pela actividade e inteligência de seus habitantes, está no caso de ter uma Folha periódica, mostrando assim que não se torna indiferente ao grande movimento das sociedades modernas.’1 Não será, pois, de estranhar que Loureiro, no preâmbulo da proposta de Junho de 1852, tenha usado como argumento o facto de Ribeira Grande já ‘possui[r] duas sociedades de instrucção e de recreio.’  E ‘que são [eram] documentos da sua civilização.’ Comecemos por aí: ora, uma dessas duas sociedades, é a Sociedade Escolástico-Filarmónica da Ribeira Grande. Trata-se da primeira associação do género que surge na Ilha fora da cidade de Ponta Delgada. A 9 de Setembro de 1848 fora criada em Ponta Delgada a Sociedade dos Amigos das Artes e das Letras.2 Cinco meses apenas de distância, a 3 de Fevereiro de 1849, fundava-se na Ribeira Grande a Sociedade Escolástico-Filarmónica. Não será alheio ao facto, creio, haver gente da Ribeira Grande envolvida naquela sociedade de Ponta Delgada. Por exemplo, o Padre César Ferreira Cabido, nado e criado na Ribeira Grande, em 1852, era membro da direcção da Sociedade das Artes e das Letras. João Albino Peixoto (n. 05.08.1803 CRG – f. 12.07.1891 CRG), poeta, ourives, dourador, fundador do A Estrela Oriental, entre outros possíveis, colaborou com aquela associação de Ponta Delgada. Regressando à Ribeira Grande, a banda de música, uma das várias secções da Sociedade Escolástico-Filarmónica, estreou no dia 20 de Abril de 1849. O seu regulamento inicial foi aprovado em 29 de Novembro de 1850.3 A 3 de Fevereiro de 1924, celebrou 75 anos de vida.4 No entanto, seria ‘compulsivamente encerrada’ pelas autoridades do Estado Novo, em data anterior a Agosto de 1946. Uma nota ‘pescada’ numa acta da Câmara da Ribeira Grande, justifica o encerramento, por nela se praticarem ‘excessos.’5 Quais? Não nos é dito. Porém, talvez se possa chegar a uma resposta plausível se se identificar alguns dos membros de uma das últimas direcções (ou mesmo da derradeira direcção). Agostinho de Sá Vieira e Luís da Mota Faria pertenciam à loja Maçónica da Ribeira Grande denominada de Acção Renovadora (1932-1935).6 O advogado Agostinho fora um dos cabecilhas da revolta de 1931 contra a Ditadura Militar. Terá sido por isso? Na década de quarenta, seria o Estado Novo a querer neutralizar quaisquer possíveis focos de resistência A Maçonaria fora ilegalizada na década anterior.7 
O que foi essa associação, hoje tão esquecida?8 João Albino Peixoto, num ‘Canto recitado no dia 11 de Novembro de 1849 perante a Sociedade Escolástico-Filarmónica, quando pela primeira vez se toucou e cantou o seu ‘HINO,’ diz-nos por quem e porquê fora fundada: ‘(…) começada por bem intencionados mancebos, dotados de amor patriótico, e ávidos de progressos, por eles foi estabelecida com o plausível intuito, de instruir-se, deleitar-se mutuamente, e comunicar àqueles, que até então os não podiam ter, alguns dos seus conhecimentos.’ Continua Peixoto, nomeando o que criaram de pronto para o concretizarem: ‘Abriram aula de primeiras letras à noite, para as pessoas pobres de todas as idades, que não tem comodo de aprender de dia.’ Foram ainda mais longe nas suas intenções, pois, sempre segundo Peixoto, em 1850, abriram: ‘uma aula de francês, outra de música instrumental, lições de dança (…).’ Pensava-se também em ‘preleções de Botânica, e talvez lições de Desenho e Poesia.’  Quem terão sido os pais da ideia? De novo Peixoto a dar a resposta: ‘(o) Ilustríssimo Senhor Joaquim Pedro Gomes’ e ‘(o) Ilustríssimo Senhor José Manuel Gomes (…).’9 Quem eram? A começar, eram irmãos. Além do mais, Joaquim e José eram excelentes melómanos. De onde eram oriundos? De acordo com o Dr. Jorge de Melo Manuel, descendente colateral de José Manuel Gomes, vinham do Redondo, no Alentejo. José Manuel viera já casado do continente.10 A esposa, Maria dos Anjos Azevedo Vargas, natural de Lisboa, era irmã de António José Azevedo Vargas, pai de Gualberto Soares Vargas. Estes Vargas, mais tarde, estariam ligados à continuação do jornal A Estrela Oriental. José Manuel Gomes foi provido em 1841 como Cirurgião-Mor do batalhão Nacional de Infantaria da Ribeira Grande. Era também Médico do Partido da Câmara Municipal da Ribeira Grande. O irmão Joaquim Pedro Gomes casou com uma irmã dos Cabidos (entre os vários: o Padre César Ferreira Cabido e Martiniano), de quem teve filhos, um dos quais, Aníbal Ferreira Cabido Gomes. Aníbal seria Presidente da Junta Geral e um excelente investigador e publicista. 
Em 1864, num almanaque que publicou recheado de preciosa informação, Francisco Maria Supico (n. 1.11. 1830, Lousã – f. 20.08. 1911, Ilha de São Miguel), bem informado, fora Director do Jornal A Estrela Oriental mantendo bons contactos com os jornais da Ribeira Grande, testemunha a pujança desta primeira sociedade mais de uma década após a sua fundação: ‘A Philarmonica [Sociedade Filarmónica Escolástica Ribeira-grandense] (…) oferece aos sócios reuniões diárias em que se lê, conversa e joga, e bailes. Tem uma secção de música, que é constituída por uma bela banda marcial, e uma secção dramática, que em sala adequada, leva por vezes à cena alguns espectáculos.’ E confirma a segunda sociedade referida por Loureiro, algo que (manda a verdade) ainda não conseguimos identificar. Quanto à segunda sociedade, Supico refere-se-lhe como ‘A Assembleia,’ e diz que nela se ‘proporciona reuniões diárias para cavaco, leitura e recreio de jogos, que as leis não proíbem.’ 11 
Chegou a altura de ver o que se passaria até Junho de 1852 em Ponta Delgada no âmbito ‘do desenvolvimento intelectual.’ O jornalista continental José Carlos Caldeira, que a visitou no verão de 1852, dá-nos uma resposta. Escreveu: ‘[tem] 4 tipografias, e publicam-se (…) jornais, sendo dois literários. A Biblioteca Pública conta uns 9.500 volumes, parte dos quais pertenceram aos extinctos conventos da Ilha. (…) Tem a cidade um Teatro de moderna e bonita construção (…).Entre os estabelecimentos públicos também são de mencionar uma associação comercial, uma sociedade de agricultura, e outra dos amigos das letras e artes.’12 Caldeira não terá referido o Liceu Distrital, pois abrira portas a 23 de Fevereiro de 1852, quatro meses antes da sua visita. 13 Supico, em 1864, acrescenta mais outros. E, ainda na Ilha, Vila Franca, a rival da Ribeira Grande? Só em 1853 é fundada a Banda Marcial: A Timbre.14 Como se vê, nesse ponto de ‘desenvolvimento intelectual,’ a Ribeira Grande estava mais adiantada do que Vila Franca. Saltemos para Angra, uma cidade ainda mais antiga, sede do bispado. Querendo apurar as associações que Angra disporia até Junho 1852, comparei a informação de Supico adiantada no Almanaque de 1864, com a que consta da monografia sobre Angra do Heroísmo de 1867 do angrense Félix José da Costa (27 de Fevereiro de 1819 - 17 de Janeiro de 1877).15 Além de jornais e de tipografias, Angra fora a primeira a os ter nos Açores, apurei apenas a Caixa Económica (1843, para Supico, 1845, para Félix) e o Liceu (1851?). Fico com o pé atrás, pois acho que à altura haveria uma Assembleia ou Banda de Música. Com ou sem Assembleia e Banda de Música, em termos ‘de desenvolvimento intelectual,’ a Ribeira Grande, em Junho de 1852, não estaria a uma distância intransponível da realidade ‘de desenvolvimento intelectual’ da velha cidade de Angra. Assim nos parece ser, ao ler o texto de despedida de Félix José da Costa, que, em ‘comissão de serviço na comarca da Ribeira Grande,’ diz ele, ‘hei vivido algum tempo nesta antiga e grande Vila.’ Em texto de Outubro de 1856, publicado em A Estrela Oriental, não só por delicadeza, estou em crer, disse da Ribeira Grande: ‘hoje pela sua antiguidade e população, não duvidem disso os presentes, que a visitam, e lhe observam as vastas proporções de uma cidade!’ Tê-lo-á dito, não só pelas proporções da Vila, continuo a crer, mas também pela urbanidade que viveu enquanto esteve na Vila: ‘Hei vivido entre seus habitantes. Levo deles, apreciável consideração, cortezes atenções.’ 16 E quanto à Horta? José Manuel Caldeira, que visitou aquela cidade, diz apenas isso: ‘Há duas Filarmónicas, e uma assembleia.’17 Um aparte: Marcelino de Lima fala de uma Biblioteca em 1843. Importante para a comparação da Ribeira Grande com a Horta, é a conclusão que tira: ‘que numa tão pequena cidade como esta denuncia bastante civilização e amenos costumes.’ 18 Questiono-me se a opinião de Caldeira sobre a Horta não assentará como uma luva à Ribeira Grande? A mim parece que assenta na perfeição. E quem me lê? E a comparação entre Ponta Delgada e a Ribeira Grande? Em 1852, a Ribeira Grande não se situaria no ‘patamar’ ‘de desenvolvimento intelectual’ daquela cidade. Porém, não a uma distância intransponível, pois, apesar de Ponta Delgada ser sede de Distrito, o que lhe atraiu apoios da Coroa, do Governo Civil, da Junta Gral, da Câmara, e de privados, que tiravam os seus proventos de propriedades dispersas pela ilha, incluindo em grande parte a Ribeira Grande, mas apenas investiam ‘no progresso’ da sua Cidade, a Ribeira Grande unicamente com pouco mais do que o apoio da Câmara e de associações privadas, nos anos imediatos a 1852, fundaria vários jornais, várias tipografias, um arquivo e uma biblioteca municipal, um grupo de estudos, dois asilos, uma corporação de bombeiros (pioneira), várias bandas de música. Neste trabalho, tentamos perceber se, em 1852, em relação às já cidades e à vila, sua rival, a Vila da Ribeira Grande poderia ser considerada ‘civilizada.’ A minha resposta é: poderia. E poderia ser cidade? Iremos ver. No próximo artigo, conto ‘escarafunchar’ o que há (não muito) sobre os parâmetros ‘de desenvolvimento material.’

 

1 (Editorial), Estrela Oriental, Ribeira Grande, Ano I, Quarta-feira, 28 de Maio de 1856, p.1.
2 Silva, Susana Serpa, Aspectos da vida social e cultural micaelense na segunda metade do século XIX, in Arquipélago História, in Memorium Ernesto do Canto, Volume IV (N.º 2), p. 321.
3 Cabral, Joaquim Maria, Filarmónicas da Ilha de São Miguel, IAC, 2007, p. 72
4 Correio dos Açores, Ponta Delgada, 11 de Março de 1924: “Dia 3 de Fevereiro comemorou-se 75 anos (1849) que se fundou na Ribeira Grande a Sociedade de Instrução e Recreio”.
5 Silva, Armindo de Melo Moreira da, Ribeira Grande de ontem até hoje (Colectânea documental), Volume I, Edição da Câmara Municipal da Ribeira Grande, 2000, p. 141: “(...) pagamento duma multa aplicada pelo Instituto Nacional de Estatística à Extinta Sociedade Irregular de Instrução e Recreio desta Vila (Recreativa) (...)” Cf. Actas da Vereação da Ribeira Grande, sessão de 22 de Agosto de 1946. Na sessão de 12 de Setembro de 1946, fica-se a saber que “(...) uma Recreativa ilegalmente constituída, e que foi encerrada, na qual se praticavam excessos (...).” Registe-se que se desconhece o fim dado ao seu Arquivo, o que se conhece desta importante associação, é graças às notícias dos jornais e a referências nas actas da Câmara.
6 Lopes, António, A Maçonaria Portuguesa e os Açores: 1792-1933, 2008, pp. 335-336.
7 A bem da verdade, é possível que tivesse sido “reconvertida” “na Recreativa” - Biblioteca, que já vinha da década de setenta do século XIX, que perdura (com altos e baixos) ainda hoje, com o nome de Biblioteca Daniel de Sá.
8 Não conseguiu encontrar os seus Estatutos, ainda que pesquisasse no acervo do Governo Civil e no da Câmara da Ribeira Grande, pelo que tenho de me servir do que, sobretudo, encontrei em periódicos.
9 (João Albino Peixoto), Hino oferecido à Sociedade Escolástica Filarmónica da Ribeira Grande por um amante da sua Pátria, Ponta Delgada, Tipografia da Rua das Artes, 1850, pp. 32-33.
10 Confirmado por Rodrigo Rodrigues, Genealogias de São Miguel e de Santa Maria, Ponta Delgada, Sociedade Afonso Chaves - Associação de Estudos Açoreanos, 1998.
11 Francisco Maria Supico (coordenação), Almanach do archipélago dos Açores para 1865, Ponta Delgada, 1864, Tipografia a Persuasão, p. 72.
12 Caldeira, José Carlos, Apontamentos d’uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, Lisboa, 2.º Volume, 1853, pp. 318-319.
13 Sousa, Néstor, Instrução, arte e cultura na Ilha de S. Miguel, no decurso do 1.º ciclo autonómico, In: Actas do Congresso do I Centenário da Autonomia dos Açores, Ponta Delgada: Jornal da Cultura, 1995-V.2, p. 192: Apesar de ter sido criado opr decreto em 10 de Dezembro de 1841.
14 Cabral, Joaquim Maria, Filarmónicas da Ilha de São Miguel, IAC, 2007, p. 89.
15 Francisco Maria Supico (coordenação), Almanach do archipélago dos Açores para 1865, Ponta Delgada, 1864, Tipografia a Persuasão; Costa, Félix José da, Angra do Heroísmo, Ilha Terceira (Seus títulos, edifício e estabelecimentos público), 2.ª edição, 2019.
16 A Estrela Oriental, Ribeira Grande, n.º 21, 15 de Outubro, 1856, fls. 1-2.
17 Confirmo-o em Marcelino de Lima, Anais do Município da Horta (História da Ilha do Faial), 1943: confirmado, página 316;
18 Caldeira, José Carlos, Apontamentos d’uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, Lisboa, 2.º Volume, 1853, p. 300.