Quando a História se Torna Ficção e a Ficção História

 

 

E agora parecia que Pitigliano se ia aprontando aos poucos para qualquer coisa espantosa. Sei que ninguém deu por isso, nem mesmo eu era capaz de dizer o que seria, mas bastava ver as ruas para perceber os sinais.
João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir

Um Tempo A Fingir, o mais recente dos romances de João Pinto Coelho, faz parte de uma trilogia ficcional pouco ou nada comum em Portugal, por várias razões. Começou com os primeiros dois romances, que roçam a genialidade literária: Perguntem A Sarah Gross (2015) e Os Loucos Da Rua Mazur (2017), este recebeu o Prémio anual da Leya num júri sob a presidência de Manuel Alegre. Não deixem que o título da obra presente os levem a conclusões fora do contexto. O autor, cuja biografia principal deixo aqui de fora para não me roubar espaço limitado na página de um jornal, mas tenho de referir inevitavelmente um facto essencial, que vou buscar à própria capa dos seus livros. Entre 2009-2011 pertenceu ao Conselho da Europa que investigou em pormenor, juntamente com outros, o Holocausto, tendo proferido várias conferências sobre a maior tragédia do século passado. Sim, todos os seus livros abordam esses tempos e acontecimentos. Se os primeiros dois volumes se situam na Polónia, o primeiro em Auschwitz, o segundo foca o mesmo país, só que agora a perseguição e assassínio dos judeus por católicos polacos simpatizantes ou ao serviço dos nazis alemães. Um Tempo A Fingir muda toda a sua trama para a Itália sob o comando de Benito Mussolini, e o modo como a forma eventualmente tratados os mesmos os judeus: prisão e pela morte sob ordens primárias de Hitler. Mussolini chegou a ser preso, mas a Resistência não pôde evitar que comandos às ordens de Berlim o libertassem e ele regressasse aos seus crimes políticos e cívicos. Este novo romance de João Pinto Coelho traz-nos outras “verdades” e “humanidade”. Cria personagens na sua vida quotidiana e familiar, um romance de amores imaginados e dias que nos parecem normais, mas o leitor sabe que o não são, o medo uma constante, e sobre tudo amores imaginários pela protagonista de nome Annina. Não vou aqui levantar o teor principal do romance, tal as suas surpresas de frase a frase e de página a página, tal a  grandeza das suas linguagens, que estão entre a pura poesia e a prosa mais dura. Não conheço outro escritor português que tenha escrito tão brilhantemente sobre temas que nos dizem respeito só quase indirectamente no período em questão, a audácia de tratar de uma história europeia mais ou menos ao longe, e de modo tão corajoso como com tanta criatividade e verdade histórica. As personagens são muitas, mas parecem ou são saídas só da imaginação da sua figura principal, de nome Annina. Vai tudo desde os 1934, com uma passagem por 1952, em que ficamos sem saber se ainda continuam quase todos vivos e de memória clara sobre as tremendas circunstâncias que viveram ou sofreram. É um romance de vozes diferentes, falam no presente do seu tempo tal como memorizam outros passos da sua vida que haviam deixado escritos. O amor é aqui algo de muito especial. Annina vive conflictos sexuais entre ela e uma outra personagem imaginária, com que sonha ter relações sexuais às escondidas. Só que cabe ao leitor seguir o que é ficção no seu estado mais puro, e o que na realidade foi a história de um país latino apanhado entre a bandidagem política que ia dado cabo de todo um continente.
Há uma viragem na narrativa que diz respeito aos três romances de João Pinto Coelho. Da Polónia para a Itália, pensem os que quiserem pensar, quanto à História (assim com letra maiúscula) e à ficção que lhe correspondem nesse momento de desgraça e crueldade. Acontece aqui uma mudança quase radical: o assassínio generalizado e sem tréguas da Alemanha sob o comando de um louco sanguíneo e a tradição humanística de um país do sul europeu, mesmo que eu saiba, como toda a gente, da violência de Espanha na Guerra Civil e na crueldade da nossa própria colonização de vários povos pertencentes a outros continentes. A “verdade” desta ficção de João Pinto Coelho não deixa alguns desses factos pelo caminho. Mesmo que Mussolini tenha acabado pendurado publicamente de cabeça para baixo numa praça pública, o livro aqui em questão nunca o menciona, está patente aqui outro tipo de crueldade, mas também de uma humanidade que faz as personagens sentarem-se constantemente a lamber gelados e em conversas pessoais que nada têm a ver com o inferno mais a norte ou parcialmente a sul. Um Tempo A Fingir nunca foge à sua temática principal: o amor real ou fingido, desejos, como diria o outro, “demasiado humanos”, ao dia-a-dia da luta pela sobrevivência mútua de cada um em trabalhos mal pagos e de vária natureza. A certa altura, já em 1952, Ulisse, o irmão de Annina, visita as memórias que ela também ia escrevendo sobre si e outros, e conta-nos um passado já quase esquecido por todos. Não há ódio constante neste romance, antes a existência ora brutal, ora amena, do trabalho diário de cada um, ou então das loucuras de gente nova, que reconhecemos como naturais até nos nossos dias. Um Tempo A Fingir, como diria certo autor ou autores norte-americanos, é mais uma “afirmação da vida” do que a morte ou o sofrimento do coração de cada um. Não, não levanto aqui o véu total do romance, nem mesmo um sumário do seu conteúdo, que seria também uma espécie de crítica ou outro posicionamento meu perante Um Tempo A Fingir. Cada um dos passos, em parágrafos narrativos ou em diálogo faz-nos querer virar as páginas em busca do que acontecerá a seguir. Muitos outros escritores raramente o conseguem. Este, como as outras narrativas deste escritor, nunca nos leva para o tédio, muito menos para querer deixar o livro a meio. Chegamos às últimas palavras com vontade de mais. A própria capa mostra-nos uma estilização de um bela mulher com um comprido vestido vermelho. Ela, a protagonista, veste-o, assim como uma outra, quase o tornando uma outra “personagem”. Palavras e arte juntam-se num conjunto de mistérios e obsessões – sensuais, desejosas, cada leitor as querer ser reais e vir ter connosco. A mestria da grande prosa, repito. O resto fica com cada leitor.
“Para melhor a idealizar – diz-nos Annina sobre a sua grande amiga, que fazia duvidar da sua sexualidade, e mais – é ir excluindo uma a uma todas as características que me davam o encanto: se eu tinha a altura certa e formas incendiárias, Alessia era alta demais e estreitinha por igual; se eu tinha o meu cabelo preto acabava a meio das costas, o dela, tão mal cortado, lembrava repas de palha que nem chegavam aos ombros. Ainda assim, era bonita; estranha, mas fascinante, muito por culpa do rosto grosseiramente entalhado nalguma madeira exótica, ou daqueles olhos rasgados sempre um pouco contraídos, como quem olha para o mundo com suspeição”.
Quase todos – não todos, entenda-se, especialmente em Portugal, e sem dúvida noutros países e línguas – são humildes e tantas vezes inseguros, é o que me tem parecido ao longo dos anos na América e aqui no nosso país, perante a sua própria grandeza. Foi isso, a humildade que encontrei em João Pinto Coelho, e não preciso dizer em que circunstâncias ou lugar. A verdade é que espero sempre um novo livro dele. Leva-me a mundos que desconheço quase por completo. É na ficção que vem toda a verdade de um povo, acontecimentos históricos, os seus demónios, raivas e ódios, e, sim, amor e desamor. A sua obra contém tudo isso, o quotidiano dos que sofrem e dos que mandam.  O castigo de uns e outros é sempre implacável. Toda a grande literatura é um testemunho dos nossos destinos, de boa ou má sorte. Quando a literatura atinge o seu melhor, é nós que somos os seus protagonistas. Não se pode pedir mais dos artistas das palavras ou das outras grandes artes em qualquer género ou forma.
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João Pinto Coelho, Um Tempo A Fingir, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2020.