A Outra Suprema Poesia Luso-Americana

 

There was a boat, there were many boats,/patterned after a fashion into a fleet./there were Portuguesse widows who paryed/and those who sang of sailors and their strong sea…/Havia um barco, havia muitos barcos,/num alinhamento marítimo que relembrava outras frotas./Havia as viúvas que rezavam/e outros que cantavam de pescadores e o seu mar medonho...
Millicent Borges Accardi, Through a Grainy Landscape.

Já li e escrevi sobre alguma poesia de Millicent Borges Accardi. Faço sempre uma questão de nunca rever o que já escrevi. Fazer crítica ou ensaísmo literário constante a certos autores ou autoras é sempre correr o risco de nos repetirmos sub-conscientemente. Basta aqui dizer que Millicent é não só uma das nossas maiores e melhores poetas da nossa Diáspora na América do Norte, é ainda uma enérgica organizadora dos mais variados encontros entre todos os seus colegas no grande país, desde a Costa Leste e Chicago até à Califórnia. De descendência mista, aliás como demonstra o seu próprio nome, são as suas memórias lusas que mais a comovem e inspiram a sua obra maior. Ler este livro de poetas mais recentes é-me um acto de humildade e agradecimento. Os primeiros dois prefácios desta poesia são assinados por duas figuras de valor maior na literatura americana: Katherine Vaz e Frank X. Gaspar. Depois vêm outros, uns mais “canónicos”, outros em via de conquistarem esse estatuto, nomes vindos na contracapa sobre a poesia que leram. O que eles escrevem é também quase impossível ultrapassar nas minhas palavras ou nas suas leituras deste livro maior, ou, uma vez mais, supremo. São muitos esses nomes para eu os mencionar aqui. Fico-me pelas minhas noções do que é ou não a grandeza da literatura luso-americana em curso contínuo, particularmente desde os anos 90. Sinto-me constrangido neste texto? Sim. Sinto-me que a um tempo deveria superá-los mas não consigo. Direi só da minha justiça e de crítico que desde há muito iniciou a avaliação desta escrita, sempre em língua inglesa, que vem brotando com persistência das nossas comunidades, a de escritores, que mesmo fora delas nalguns casos, as têm como referência quase constante, Com este Through a Grainy Landscape/Através de Um Campo Fértil, através dos vastos terrenos hiper-produtivos da Califórnia, nasceu o que mais enriqueceu e dignificou a nossa gente maioritariamente açoriana. Com esse feito braçal e de inteligência desde há séculos nasceu e desenvolveu-se o mais rico de todos os territórios “açorianos”. A dor humana nessa luta faz parte destes grandiosos poemas de Millicent Borges Accardi. Do heroísmo vem a dor de termos sido, vem a dor “demasiado humana” do trabalho, das relações íntimas portas adentro, vem a dor da saudade sem fim, da memória da terra-pátria, a dor da memória que temos de nós próprios e a memória dos que deixámos, sempre ou quase sempre, nas décadas de chumbo e de choro. A poesia de Millicent Borges Accardi torna-se desde a primeira à última pagina uma narrativa poética sequencial, e o leitor depressa regressa a estar a ler versos ou um romance em fragmentos. A força de cada palavra, de cada verso, de cada estrofe, coloca-nos no centro do triunfo e da tragédia. As viagens quotidianas e outras são muitas. Do espaço primordial da terra de origem até à América, a poeta leva-nos a outras geografias bem mais longínquas na outra Europa, ou na Europa que recentemente se declarou algo ambiguamente de nós todos. Só as nossas origens lusas e americanas permanecem no centro. Como sempre foi, como creio que ainda hoje nos é ou são.
O título, em parte, de Fértil Terreno (Grainy Landscape) tem muito que se lhe diga. Por um lado traz consigo a significação de terra desejada ou prometida, promised land, por outro das desilusões, da tristeza e, sempre, da saudade de um outro passado, gente e modo de vida. Na poesia de Millicent Borges Accardi a ironia é uma constante. Sim, vem com ela a vida dos vencedores e sofredores juntamente com a ilusão das grandes lojas de tudo e mais alguma coisa, das roupas novas e de todo o tipo de objectos úteis e inúteis, das mães que estão sempre na cozinha, primeiramente, e dos pais que nunca deixam de trabalhar e chegar a casa cansados, com carinho e amor. As linguagens poéticas da autora combinam sempre esses mundos mais ou menos fechados ante a grande América que os rodeia. Esta nunca é uma poesia ou escrita que se limita a esses espaços caseiros na sua própria solisãos, isolados, ou aparentemente desligados do grande mundo que tende a os encobrir
.Olha sempre atentamente para a vastidão da Grande Sociedade. Se os pais ou avós pouca atenção prestavam a isso tudo, os seus rebentos estão sempre na realidade maior. Estudam, namoram, casam, mas sem nunca esquecerem as suas origens. Millicent Borges Accardi faz algo aqui que recorda isto. Vai buscar versos a diversos poetas portugueses, desde Renata Correia Botelho a Carolina Matos, assim como a outros como João Miguel Fernandes, entre muitos poetas portugueses e luso-americanos, com alguns poemas também a eles dedicados. Por isso escreve, no prefácio o grande poeta luso-americano, nascido e criado em Provinceton (Massachusetts), Frank X. Gaspar, que tudo isto viveu e relembra na sua própria obra: “In this book, Millicent has done something remarkable. She seamlessly alloys her poems with seminal lines from Potuguese and Portuguese-American poets, writing from theirr own culture and in their own native language. It is no small idea, no simple looking for a “hook” or a “trigger for the poems she is about to write/Neste livro Millicent Borges Accardi fez algo verdadeiramente admirável. Ela liga perfeitamente os seus poemas a versos seminais portugueses e de luso-americanos, todos eles e elas escrevendo a partir das suas próprias culturas e nas suas línguas natais. Não se trata de uma ideia menor, nem de uma âncora fácil para os poemas que ela estás prestes a escrever)”.
Para os que entre nós ainda pensam que estamos distantes uns dos outros, na nossa e noutras línguas e literaturas, deem um volta ao seu pensamento. Ainda há poucos dias um amigo meu disse-me que só me deveria dedicar a grandes escritores “estrangeiros”. Sim? Olhe ele que estão sempre ligados, dentro das possibilidades do tempo, esses outros mestres da escrita. Não são, de longe, os únicos. A nossa literatura portuguesa, ou de referência a Portugal, em nada fica a dever a esses supostos grandes nomes de grafia estranha, nem nos séculos ou décadas passadas, e hoje muito menos. Um crítico ou ensaísta tem o dever de, em primeiro lugar, dar conta dos seus, colocá-los, sempre que se justifique, ao lago de outros, e com igualdade, ou até mesmo, nalgumas obras, em lugar muito mais distinto. Ou de superioridade. Há outra desculpa para nos dedicarmos só a quem não representa ou transfigura perante o restante mundo a nossa maneira de estar e ser? Neguemos o provincianismo mais flagrante entre alguns de nós casa adentro. Quem o que quiser fazer de outros modo ou com outras intenções, que o faça. Deixar passar em branco escritores como os luso-americanos seria um acto vergonhaso de pequenez intelectual. Ter entre nós uma poeta como Millicent Borges Accardi, entre muitos outros, repito sem pudor, é não nunca esquecer o “prazer do texto”.  Seria uma negação ignorante e descabida da nossa dignidade na construção de outras grandes sociedades, de grande pensamento e sensibilidade artística. Millicent Borges Accardy tem participado nos últimos anos, como já referi nos mais importantes eventos literários em Portugal e nos Estados Unidos. Só lhe fica bem, demonstra a sua grandiosidade literária e intelectual.


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Millicent Borges Accardi, Through a Grainy Lanscape, New Meridian, part of the non-profit New Merdian Arts 2021.