A euforia dos 50 dias

 

 

50 dias depois da tomada de posse do novo governo regional, a sua actuação resume-se ao sector da saúde.
Clélio Meneses é o único Secretário Regional que põe, todos os dias, a cabeça no cepo e foi o único, até agora, a dar-nos conta do estado do sector nos três hospitais e no Serviço Regional de Saúde.
À parte mais um ou outro, quase todos os governantes parecem confinados, apesar de reconhecermos que ainda é cedo para avaliarmos se algum deles já assumiu, antes do tempo, a previsível irrelevância da sua nomeação para o respectivo cargo.
Mais de um mês e meio de governação é tempo suficiente para virem dar conta pública, como é dever dos nossos governantes, como encontraram o “estado da região”.
Os cidadãos precisam de saber qual é o ponto de partida de cada um dos departamentos governamentais, para que depois não se desculpem, ao longo do mandato, com a herança que receberam do governo anterior.
O Secretário das Finanças, por exemplo, teve uma entrada de elefante no parlamento, sacudindo a sala sorumbática do nosso frágil parlamentarismo, para depois se remeter  a um silêncio sendeiro, certamente explicado pela penosa elaboração do Plano e Orçamento a apresentar nas próximas semanas.
Mas era bom que explicasse ao povo como encontrou os cofres públicos, se afinal há superávit ou não, se temos fundos suficientes para enfrentar o que aí vem ou se vamos ter que nos endividar ainda mais.
E, já agora, se o regabofe financeiro nas empresas públicas vai ter continuidade.
Noutra área, já era tempo de sabermos o que está a ser preparado para a recuperação da SATA.
Não era o PSD e os partidos que apoiam agora a coligação, que queriam conhecer, a toda a força, antes das eleições, o Plano de Reestruturação da empresa?
Os primeiros dias de Janeiro já se foram, como tinham prometido, e continuamos sem saber, pelo menos as linhas gerais, do que é que estão a preparar para recuperar a nossa companhia aérea. Sobre a TAP, já se sabe tudo e até a calendarização das acções de reestruturação. Não precisamos de saber quais os quadros que vão ser dispensados, mas se vai ou não haver redução de trabalhadores, cortes salariais, redução de frota e de rotas, a que tipo de endividamento vão recorrer, se vão continuar  com a asneira de esvaziar os balcões dos EUA e Canadá, entregando-os a organizações desconhecidas, num negócio rodeado de algum mistério, se vão continuar a apostar nas operações em Cabo Verde e porquê este súbito amor por negócios naquele arquipélago, se vamos ter e quando as prometidas tarifas a 60 euros inter-ilhas e, já agora, para quando o anúncio das conclusões do estudo sobre o aumento da pista do Pico, encomendado pelo governo anterior.
No plano do turismo, qual vai ser a estratégia neste período de ainda pandemia?
Há operadores e hotéis que vão reabrir já em Março e não sabem com que vão contar.
Vamos promover o destino nalgum mercado ou desaconselhar a vinda de turistas?
Os programas de apoio ao turismo interno vão prosseguir ou não vale a pena incentivar viagens internas?
E a operação dos barcos de passageiros como vai ser?
A solução encontrada para levar combustível ao Corvo foi celebrada com escusada euforia, até classificada como “histórica”, (prontamente corrigida, com puxão de orelhas, pelo deputado apoiante do Iniciativa Liberal), provando que há necessidade neste novo governo de mostrar acções auto-elogiosas, mas descuidando-se do modo como o faz.
Olhando para os intervenientes neste processo, fica a dúvida sobre qual foi o papel do Secretário dos Transportes e se o seu novo porta-voz é o deputado do PPM.
Há uma grande falha na estratégia de comunicação deste novo governo. Os canais de comunicação são inexistentes ou muito deficientes e até para sabermos o que se passou com a demissão da responsável pela estrutura de missão da Casa da Autonomia, foi preciso a própria vir a público explicar o processo, sob o silêncio das Secretárias Regionais da Cultura e das Obras Públicas, quando já tinha havido decisões tomadas em Conselho do Governo e que não foram reveladas publicamente.
É muito complicado explicarem à populaça como é que este processo está a ser conduzido?
Já agora, quanto custou, a todos nós contribuintes, este capricho megalómano, numa estranha concepção de socialismo, em que primeiro tratamos dos palácios e depois dos problemas das populações?
E vai continuar a chamar-se Casa da Autonomia, designação que pertence, por estatuto próprio, à casa da democracia que é a nossa Assembleia Regional?
50 dias não é nada no tempo de um governo, é verdade. Mas para quem prometeu rapidez nas decisões, transparência nos processos e proximidade com os cidadãos, já é tempo de sabermos mais um pouco sobre o “estado da arte” em que encontraram cada um dos departamentos públicos. Gente nas secretarias regionais e nas direcções regionais não falta.
O isolamento nos gabinetes não é bom conselheiro para quem pretende transmitir uma percepção inicial de dinâmica governativa. Até porque ninguém deve querer que fique tudo na mesma.
Em política, como sabemos, não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Quem te avisa...

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SOBRE INGENUIDADE - Contado ninguém acredita. Um porta-voz da Diocese de Angra diz que a festa das comunhões obedece a todas as regras sanitárias dentro das Igrejas, mas já no que se passa das portas para fora não é nada com ela.
Assim mesmo. Promove a festa, mas lava as mãos do resto.
Será que na Igreja açoriana ensina-se a cena de Pilatos?!
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SOBRE CREDIBILIDADE - Em pleno Verão do ano passado, o Primeiro-Ministro, António Costa, asseverou aos portugueses: “Há uma coisa que sabemos: Não podemos voltar a repetir o confinamento que tivemos de impor durante o período do estado de emergência e nas semanas seguintes, porque a sociedade, as famílias e as pessoas não suportarão passar de novo pelo mesmo”.
Marcelo, como de costume, no mesmo dia veio em socorro de Costa: “Será muito difícil voltar a repetir o confinamento, portanto, tem de se encontrar fórmulas de antecipar e de substituir uma solução radical, prevenindo essa segunda onda.”
Seis meses depois... pela boca morre o peixe.