Aqui os sinos dobram

 

 

E cá, nos Açores, olhando para o desastre em Itália, as pessoas são, para já, todas de Wuhan, bloqueando-se em casa, indiferentes às tricas políticas. Haverá mais mundo depois do vírus, se estancarmos a sua transmissão e o matarmos por falta de hospedeiros. 
Aos políticos o que é dos políticos. Estamos em modo de sobrevivência

A rua chama-se de Santo Espírito. Mostra-se cinzenta, fria, deserta, triste. Espera gente, mas por enquanto está só. Adivinhamos o mesmo cenário nas restantes ruas de todas as cidades, vilas, aldeias e lugares açorianos. No canto em baixo, frente ao Pátio da Alfândega, está a igreja da Misericórdia, de traça antiga, branca e azul claro, cores que inspiram saúde, não tivesse ela sido outrora o hospital de Angra do Heroísmo. Mantém-se indiferente, exceto às horas e às meias horas quando dobra insistentemente os sinos. Desperta Angra dos pesadelos, ecoando sons de esperança, que desejamos nunca serem de finados. Este templo quinhentista, que deu as boas-vindas a descobridores portugueses e saudou o Rei de Portugal desembarcado, apela hoje à coragem e à resistência … Apelará certamente também à paciência e ao bom senso dos mais descuidados e desatentos.
Na sala interior do segundo andar de uma casa alta a meio da rua, apenas iluminada no interior pela luz difusa dos janelões da cozinha, fazemos zapping, percorrendo os canais à procura de informação. As notícias vão caindo em catadupa, a cada hora o mundo muda, abalando o silêncio e o nosso bem-estar. O que ouvimos e vemos na tela bidimensional amedronta, deprime. O novo coronavírus alastra pelo mundo. Sai da China. Infeta os países vizinhos e entra na Europa, através de Itália, de forma brutal. O que se passou para que Itália não tivesse levado a China a sério? E as medidas de combate, sempre tardias … o “animal” é inteligente e antecipa-se. 
Misturam-se liberdades, democracias, com quarentenas, isolamentos, estados de emergência e calamidade. Assuntos tratados com pinças como se se estivesse a pisar ovos. E cá, nos Açores, olhando para o desastre em Itália, as pessoas são, para já, todas de Wuhan, bloqueando-se em casa, indiferentes às tricas políticas. Haverá mais mundo depois do vírus, se estancarmos a sua transmissão e o matarmos por falta de hospedeiros. Aos políticos o que é dos políticos. Estamos em modo de sobrevivência.
Correm dúvidas maliciosas nas redes sociais. Que vírus é este? Alguém o criou? Terá sido Trump? Os chineses? Impossível! Teorias da conspiração. Correm recomendações em todos os media. Deixar os sapatos do lado de fora da porta! Ficar em casa! Sair apenas para comprar comida e medicamentos! Tomar duche e pôr a roupa a lavar depois de uma saída necessária! Limpar as superfícies! Desinfetar maçanetas e interruptores! Lavar as patas dos cães! Lavar as mãos! Não tocar em ninguém! Não cumprimentar de beijo ou aperto de mão e manter uma distância de segurança nunca inferior a três metros! E não sei que mais! Mais vale o excesso do que o descuido. Recheamos a despensa para nos aguentarmos semanas a fio sem sair à rua. E já não há álcool à venda, nem desinfetante, nem máscaras. Ainda ontem ríamos dos que andavam a comprá-los!
O Presidente do Governo Regional dos Açores pede ao Primeiro-Ministro o encerramento imediato dos aeroportos açorianos. A Região Autónoma regista dezassete casos de contaminação. Porque não? Parece razoável. Urge uma intervenção direta do Presidente da República.
O vírus separa famílias, empresas fecham, o governo da República não define uma estratégia de ataque imediato e convincente à perda de liquidez das pequenas e médias empresas, o medo da insubsistência instala-se. As ilhas tendem a mergulhar em si próprias. Hoje, o adeus açoriano é, como dizem os mais velhos das ilhas, haja saúde!