Vacinas de ontem de hoje

 

 


Vacinas, tal como as conhecemos, não são assim uma invenção de há muitos anos. Apenas qualquer coisa como uns 220, mais ano menos ano, o que, comparado com a História da humanidade, não é coisa que se veja. 
Em 1796, na Inglaterra, um médico de uma zona rural, descobriu que podia curar doentes de varíola, a doença que nós popularmente chamamos de bexigas, usando vírus proveniente de feridas nas mãos de rancheiros que estavam em contato com vacas infetadas com varíola bovina. A partir daí, muitos outros sucessos permitiram a cura de outras doenças. Ou, se não permitiram a irradiação de muitas enfermidades, pelo menos permitem o seu controle. Infelizmente, ainda somos vulneráveis a complicações que são por demais destruidoras e letais. O cancro é uma delas, talvez mesmo a pior e mais devastadora. Embora já se tenham desenvolvido técnicas de tratamento e inventado medicamentos que ajudam os doentes cancerosos, parece que a maldita doença arranja sempre formas novas de surpreender os cientistas e debilitar os enfermos. 

Estamos agora a aproximarmo-nos de tempos de experimentação de vacinas que poderão controlar o vírus que tem originado esta epidemia, a que nos enrola já há quase um ano. São várias as companhias que estão mesmo à beira de receber a necessária aprovação para distribuição de milhões de doses e a inoculação de outros tantos possíveis candidatos. Oxalá, com a presa que isto tudo tem sido movimentado, não venham as novas vacinas a provar que só serão mais uma atrapalhação do que uma solução. É claro que se admite que uma percentagem muito pequena dos inoculados possam sentir efeitos contrários aos desejados. É um risco natural nestas situações. O que importa é que estejamos receptivos, prontos para estender o braço e levar a picadela salvadora. Aliás, segundo consta, neste caso até serão duas picadelas, separadas por umas semanas de intervalo. E espero que não venham os inimigos das vacinas fazer muito barulho, se não concordam em levá-las, ao menos que se afastem e deixem em paz quem pretende tentar mais uma forma de segurança.
O presidente cessante, como já era de esperar, espreme-se todo a cantarolar que as futuras vacinas só existem porque ele as “criou”. Pois se queres levantar a taça, senhor DDT, levanta-a bem alto, será a única coisa de jeito que terás feito no combate à epidemia, mesmo considerando que essa não era mais do que a tua obrigação. O pior é que, em todos os outros aspectos relacionados com as vacinas, não deste peido que enjoe. Ontem mesmo foi noticiado que, nos contatos que já foram estabelecidos pela comissão instalada pelo presidente-eleito, eles não encontraram nada planeado pelos ainda utentes da Casa Branca em relação aos planos de distribuição e imunização por todo o país. Portanto “inventar” uma vacina, que se deseja seja eficaz, e depois não ter ideias de como a fazer chegar a quem precisa dela, é o mesmo que estar a mijar no mar, como diria o meu amigo J.D.Macide.
O dia das vacinas era o pior dia de escola. Não nos avisavam de véspera, para não assustarem a rapaziada, lembro-me de sentir medo e de todas as conversas entre os alunos 
serem assustadoras, cada um contava estórias mais deprimentes do que as dos parceiros. Estou mesmo a ver, o professor David Pinheiro e seus colegas a acalmarem uma fila de melancólicos rapazes, todos de calção curto, a aproximar-se lentamente da mesa onde um doutor e uma enfermeira faziam uns rabiscos com uma seringa em forma de pena de escrever na perna de cada um. Nos dias seguintes, mostrávamos uns aos outros o progresso da pequena ferida, se tinha inchado ou se estava a desaparecer. Se fosse coisa que a barriga me permitisse o movimento, eu ainda seria capaz de detectar, na minha coxa esquerda, a pequena cicatriz do tamanho de uma moeda de meio escudo. Também, num outro ano, talvez para nos imunizarem de alguma nova epidemia de gripe ou de bexigas, levei uma no braço esquerdo, que até deixou marca por uns tempos mas já desapareceu.
Pelo que escrevi acima, não é difícil de adivinhar que eu sou favorável às vacinas. Todos os anos, no princípio do Outono, vou ao consultório do meu médico para receber a vacina anual contra a gripe. Nunca tive problema algum, seja o Diabo surdo e cego. E, felizmente, não tenho estado doente. Este ano até foi de uma forma inovadora, meti-me numa linha de carros, entrei numa grande barraca, respondi a umas perguntas obrigatórias – uma delas mesmo engraçada: tem a certeza que não está grávido? -, estiquei o braço pela janela do carro e pronto, nem senti a picadela. Vamos a ver se, quando chegar a minha vez de levar a vacina contra o Coronavírus, tudo corre da mesma maneira, sem sobressaltos. Tenho esperança que as autoridades vão conseguir limar as arestas e eliminar as dificuldades que se lhes aparecerem pela frente. Vai ser um processo moroso e extremamente delicado, montar uma estrutura para permitir vacinar mais de 300 milhões de pessoas não será fácil. Por isso, a colaboração de todos é essencial.
Passados que são 60 anos desde o tempo em que fui vacinado na escola primária, aqui estou à espera da minha vez, com um espírito bastante diferente, agora sem medo e sem apreensão. Ciente dos riscos mas seguro e confiante nos conhecimentos dos cientistas, só me resta esperar que os meus familiares e amigos enfrentem este período de combate ao Coronavírus com o mesmo otimismo que me enche a alma. 
Tudo vai correr bem. É tempo de confiarmos nos cientistas e tentarmos recuperar muito do tempo e das energias que já foram perdidas por políticos que ainda nunca se convenceram que todo o processo de combate ao vírus que eles nos impingiram foi um fiasco, uma mentira descarada e vergonhosa, de tal modo que, sem medo de errar, lhes posso apontar um dedo e acusa-los de culpados da morte de muitas centenas de americanos.


PS: Para todos os amigos que fazem o favor de ler as minhas crónicas e para os responsáveis dos jornais que as acolhem, aqui vão os meus votos de umas Festas Saudáveis e de um 2020 Próspero e Livre de Vírus.