A caverna

 

Ontem, quando me sentei para degustar o delicioso jantar que a Alice preparou, olhei de relance pela janela, em direção ao meu horizonte visual.
Estávamos naqueles momentos de transição, quando ainda não é noite, mas o dia não desiste, resiste, agarra-se desesperado à luz; a Lua, em Quarto Crescente, mas já próxima da Lua Cheia, parecia prateada, sobre um fundo azul macio, aveludado. Rasgadas e disformes, nuvens espaçadas, cor-de-rosa, fugiam a esconder-se por detrás das copas das árvores, agora pintadas de um verde-dourado outonal. Interrompi a refeição e levantei-me, abeirei-me da janela. Espantada, a minha companheira inquiriu da razão do meu movimento. “Nada, nada, estava só a ver a luta entre a luz e as trevas”, respondi. Devia ter descrito o quadro completo, mas como a minha resposta lhe deve ter parecido mais uma das minhas esquisitices, ficou encerrada a conversa.
Não é só naquela hora do dia que gosto de olhar os astros, quando tenho oportunidade de o fazer. Acontece o mesmo em muitas das madrugadas, dos três ou quatro dias da semana em que vou trabalhar. Àquela hora é a noite que não se quer afastar, embora o dia queira romper os mantos negros que o embrulharam durante o sono; é um consolo olhar o firmamento e contar as estrelas e as constelações, admirar as cores das pinceladas com que as nuvens rabiscam o céu e perseguir com o olhar a rota dos gansos canadianos. Tanto numa altura como na outra, misturam-se-me os pensamentos, dou conta da minha pequenez e inquieto-me com a minha ignorância. Como é que isto “nasceu”, como é que todo este sistema se desenvolveu e como é que estas roldanas da Natureza se movimentam sem atropelos? E, principalmente, qual é o tamanho disto tudo, como foi o seu princípio e qual será o seu fim?
Não sou eu que vou dar as respostas as estas perguntas. Nem vou recorrer aos ensinamentos religiosos para satisfazer a minha curiosidade. A História está cheia de casos em que as descobertas científicas sofreram reveses às mãos das cúpulas religiosas. Basta ver o que se passou com os trabalhos publicados, há séculos, por Copérnico e Galileu. Contudo, gosto de ler sobre estes assuntos, ainda há pouco tempo devorei um excelente livro, da autoria do conceituado cientista Neil deGrasse Tyson, intitulado “Starry Messenger”, título esse que é nem mais nem menos do que a tradução do Latin do título de um dos livros de Galileu, “Sidereus Nuncius”. O senhor Tyson tem um jeito muito escorreito de explicar as coisas difíceis com exemplos acessíveis aos leigos como eu. Aprendi que, se o Sol fosse oco, caberiam dentro dele tantas como um milhão de Terras! Apenas um exemplo do real tamanho das estrelinhas que vemos na imensidade do Universo, para mais se tivermos em consideração que o nosso Sol é uma estrela pequenina. Sobre o tema do tempo de existência dos humanos neste calhau rolado, diz o senhor que, se usarmos o tamanho de um campo de futebol para compararmos esse tempo com a idade da Terra, nós, os seres inteligentes, ainda estamos apenas a um centímetro da linha da baliza de onde começámos o “jogo”.
Porque somos inevitavelmente curiosos, aprendemos, desde tempos imemoriais, a olhar para cima, a tentar adivinhar o que se passa para além daquilo que vemos à vista desarmada. Os mistérios celestiais vão sendo desvendados a pouco e pouco, mas, devido a essa tal imensurável dimensão, ainda há muito para descobrir. E, aqui na Terra, continua a luta entre os que querem esticar as pernas (e os cérebros) para além do desconhecido e os que afirmam a pés juntos que, em vez de se gastar dinheiramas em foguetões, estações espaciais e astronautas a passearem no vácuo, se devia atender primeiro à resolução dos problemas que nos afetam. Nesse sentido, o autor do livro que mencionei, torna a escrever uma metáfora interessante. Fala-nos numa daquelas cavernas onde os nossos antepassados pré-históricos se refugiavam. Imaginemos que dois ou três desses indivíduos propunham aos seus chefes que se deviam aventurar a seguir para mais longe da área da sua caverna, ver que montanhas, rios ou lagos existiam para além do que eles já conheciam. Os velhos chefes achavam que isso era uma perda de tempo e um desperdiçar dos poucos meios que possuíam. Contudo, os teimosos e irrequietos resolveram sair da caverna, foram explorar o Mundo, descobriram novos frutos, mais animais para caçar, melhores terras onde viver, outros materiais para as suas construções e com tudo isto, desenvolveram melhores técnicas, acharam remédios mais potentes, melhoraram as suas vidas e asseguraram melhores futuros para os seus descendentes.
Penso que a mesma analogia poderia ser aplicada aos nossos tempos. Aliás, sabemos que durante milhares de anos, sempre houve fome, guerras e pestilências e os governos nunca acharam modo de controlar esses problemas, até pelo contrário. E sabemos que, de uma maneira mais ativa, só de há sessenta anos para cá é que saímos da nossa caverna e nos lançámos na aventura espacial. E, por último, sabemos que, se realmente houvesse vontade por parte dos governos, não era o orçamento da NASA ou outra qualquer agência científica, que seria o empecilho para acabar com a fome e com as guerras. Por outro lado, o esforço e as ideias que pusemos em prática com a exploração do Espaço, permitiram o desenvolvimento de um vasto leque de novos produtos, de novas técnicas que a todos têm beneficiado. Quando tomamos a iniciativa de ativar o sistema de GPS no nosso telefone para nos indicar o modo de chegarmos ao consultório médico onde vamos fazer exames; quando, por ordem da enfermeira nos estendemos dentro do cilindro do MRI que nos vai fotografar os interiores do nosso corpo; quando usamos esse mesmo telefone para enviar uma mensagem aos nossos filhos a dizer-lhes que estamos bem ou quando tiramos uma fotografia dos netos e a empastamos no Facebook, estamos, então, a usar sistemas e produtos resultantes dessa corrida espacial que alguns querem fazer parar por ser esbanjadora dos nossos recursos.
A Terra, vista do Espaço, é um espetáculo impressionante. Assim o dizem os poucos que tiveram a sorte de o ver. Todos eles exprimiram a ideia de que tal visão lhes modificou a sua maneira de pensar, quando se aperceberam melhor da magnitude da idade cósmica e do infinito tamanho do Espaço. Afinal, somos muito pequeninos... Mas o Mundo pula e avança, como bola colorida nas mãos de uma criança, como dizia o poeta.
Desculpem-me, vou ali à porta da minha caverna, ver o que se passa no meu buraquinho do Universo.