As vacas do Tio Carlos

 

 

Tio Carlos tinha uma lavoura pequena. Nado e criado no lugar das Dores, cresceu a trabalhar com o pai e o irmão. Cuidavam de uma meia dúzia de vacas e bezerros, se tanto. Um cavalinho amarelado ajudava-os a levar o leite para o engenho da Federação e as vacas lavravam os pequenos cerrados e puxavam o carro, que neste caso não era de bois simplesmente porque eles não tinham bois.
Carlos Bettencourt, de seu nome completo, não chegou a fazer o serviço militar. Nasceu com uma perna um ou dois centímetros mais curta do que a outra de modo que se lhe notava um acentuado desequilíbrio no andar. Coisa somenos, que nunca o incomodou nem foi desculpa para não fazer a sua vida normal.
Afável no trato, era, contudo, senhor do seu nariz e não deixava de fazer notar a sua opinião, mormente se a conversa era sobre futebol. Adepto ferrenho do Benfica, sabia tudo o que se passava com o clube, procurava não perder os noticiários na rádio e lia de fio a pavio o jornal «A Bola», que chegava ao «Café do Rato» quase sempre com duas semanas de atraso. A assinatura era uma despesa a meias entre o Tio Nelson e o José «do Farol», os dois também encarnados de coração e alma.
Pessoa educada, foi bem aceite no seio da família da esposa. Lembro-me muito bem do dia do casamento dele com a Tia Glória, a mais nova das filhas dos meus avós maternos. Foi uma festa simples mas bonita, como eram os casamentos das gentes das ilhas naquela altura, as noivas muito orgulhosas dos seus vestidos alvos de neve e os noivos, sérios e sisudos, sem saberem como segurar o par de luvas de fino cabedal, emprestadas por outros noivos anteriores.
Foi neste casamento que tive o privilégio de assistir, pela primeira e única vez, ao ritual do fazer da cama. Era a ocasião reservada para as amigas da noiva prepararem as suas partidas e tudo era rodeado de grande segredo. Como eu era criança que gozava da simpatia de quase todas, permitiram a minha presença depois de me fazerem jurar que não diria a ninguém o que estava a ver. Brincadeiras inocentes que só tinham a intensão de tornar a (possível) primeira noite a sós do casal um pouco mais divertida, digamos assim: encheram as fronhas das almofadas, com grãos de milho e de feijão, espalharam arroz –símbolo da fertilidade, não é? – por entre os lençóis e, atrevidas, esconderam dois relógios despertadores nas gavetas da cómoda. Nem que os nubentes precisassem de ajuda para se manterem acordados.
Tio Carlos nutria por mim uma especial simpatia. Talvez porque só tinha duas filhas, eu lhe parecesse o varão que nunca teve. Esse sentimento era recíproco, eu gostava dele e sentia-me bem na sua companhia. Nem mesmo o susto e a trabalheira que um dia lhe trouxe para cima das costas, deixou nódoa na nossa amizade.                             
Possivelmente ele já nem se lembra deste episódio. Agora, já na casa dos oitenta mas ainda no gozo de boa saúde tanto física como mental, tenho a certeza que ele nunca mais pensou no assunto.
Foi no Verão, quando íamos de férias à Graciosa, talvez do ano de 1962 ou 63. Eu devia ter os meus 10 ou 11 anos, não mais do que isso. Todos os anos, o Tio Nelson programava e convidava a família e alguns amigos para um fim de semana no Barro Vermelho, como já vos contei antes.
Só que nesse ano haveria um problema a resolver: como ordenhar as vacas que puxavam o carro do Tio Carlos, o meio de transporte usado para carrear a tralha necessária para o fim de semana. Cedo, na manhã de sábado, quando todos se preparavam para descer ao calhau para ir pescar, Tio Carlos teve uma ideia brilhante. Como ele não queria perder a manhã de pescaria, lembrou-se que eu poderia salvar a situação. 
O plano era simples e, se melhor o pensou, melhor o executou.... eu iria, montado no burro anão, levar a parelha de vacas até à casa do pai do Tio Carlos, o senhor ordenhava-as e já ficava com o leite para ir levar à Cooperativa e, acabada a ordenha, eu regressava ao Barro Vermelho com as vacas que, à noite, nos levariam, cangadas no carro,  de regresso à Vila. Recordou-me que eu até sabia o caminho, “Entras naquela primeira canada à direita, passas junto à casa da vinha de teu padrinho «Lambião», viras na outra canada à esquerda e vais direito até ao largo das Dores, à casa de meu pai. Nada mais fácil!”
Fiquei com aquele nada mais fácil a remoer-me na cabeça. Nada mais fácil para ele, agora para mim, menino da cidade que nunca tratou de gado, ia ser um bico-de-obra. 
Nem experimentei fazê-lo mudar de ideias. O respeito devido a um tio, ainda por cima a um tio que se estima muito, não permitia sequer um leve assomo de recusa. E eu não queria dar parte de fraco. Fiz das tripas coração, embora essas sim tivessem protestado com fortes roncos remexidos e meti-me ao caminho.
O conduzir o burrinho não era problema para mim. Já era destro bastante a levar a «Burra Nova» ao tanque do Arrebalde, em frente ao moinho do Manuel «Rei». Este jumento do Tio Carlos, mansinho com era, não me dificultou a missão. Mas já não posso dizer o mesmo das malditas vacas. Anos depois eu li um ensaio em que um veterinário dizia que os animais têm a capacidade de notar o grau de conhecimentos de quem os trata. Seguramente foi o que aconteceu naquela manhã estuporada, quando as vacas notaram que eu não percebia nada do assunto.
Mal entrei na primeira canada, a coisa começou a dar para o torto. De nada servia a varinha de salgueiro que eu trazia para as conduzir. Só se moviam a seu belo prazer, olhavam uma para a outra e parecia que combinavam os truques que me iam pregando. Ainda consegui chegar à segunda canada, já mais afogueado que pão acabado de sair do forno. As bagas de suor misturavam-se com as lágrimas e chegavam-me, salgadas e raivosas, à boca, onde o nó da garganta nem permitia que as engolisse. Para mais, as tripas continuavam a protestar desassossegadas e as pernas, já todas arranhadas das silvas, tremiam de encontro à barriga do burro.
Mas um mal não vem só. Alguém, num descuido, tinha deixado aberta a cancela de um pasto e pronto, lá vão as vacas misturar-se com outras que ali ruminavam, amarradas a estacas. Bem que experimentei tirá-las de lá para fora mas não tive sorte. Se eu as perseguia por um lado, elas safavam-se para o outro. E, não querem ver, agora o burro começa também a armar-se em esperto e deixou de responder aos puxões que eu lhe dava nas rédeas. Fincava as patas dianteiras no pasto e não se mexia, talvez já farto daquela tourada.
Desesperado, tomei uma resolução. Tinha que regressar ao Barro Vermelho e dar a saber da minha ineficácia como condutor de animais. O burro, teimoso como um asno, abandonou-me, não quis colaborar. Consegui amarrá-lo a uma parede e arranjei maneira de fechar a cancela do pasto, ao menos dali o diabo das vacas não saiam. Pus-me a correr, desalmado, de volta à baía.
Não sei como lá cheguei. Nem voltei atrás para recolher o chapéu de palha que me voou da cabeça, apenas segurava na mão a sandália do pé direito que, com a fivela rebentada, saltou contra a parede da canada. O meu correr, pé calçado, pé descalço, só me fazia lembrar o caminhar do Tio Carlos, perna abaixo, perna acima. 
Mal me avistou, caniço na mão, na beira do calhau, Tio Carlos deu logo por isso que havia problema. O nó da garganta apertou-me ainda mais as palavras, inquietei-me para me fazer explicar. 
“Vem comigo, vais dizer-me onde elas estão”, anunciou o Tio Carlos. Montei atrás dele na «Burra Nova» do avô Guilherme e lá fomos no encalce daquelas alimárias desnaturadas.
Enchi-me de coragem e, sem saber que palavras usar, consegui balbuciar um pedido de desculpas. Tio Carlos, meio zangado, só respondeu, “A culpa foi minha, não te devia ter mandado fazer aquilo que não sabias”. Mais uma vez mostrou que era um homem às direitas.
“Pelo menos ainda consegui apanhar uma dúzia de salemas. Já não se perdeu tudo”, adiantou.
À noite, na viagem de regresso a casa, recusei-me a ir no carro das vacas. Depois do que elas me fizeram, eu não iria agora sentar-me naquele carro, a cheirar-lhes no rabo!
Não lhes dei esse consolo.
Passaram-se mais de cinquenta anos e eu nunca mais vi o Tio Carlos. Mas ainda lá estou, nas canadas do Barro Vermelho, a correr, de sandália na mão.

 

P.S. – Crónica incluída no livro “BARRO VERMELHO – ILHA BRANCA”, publicado em Agosto de 2019.