Crónica às pastilhas

 

Talvez é melhor explicar o título que escrevi acima.
Não vou dedicar esta crónica a fazer elogios às pastilhas, sejam elas de que qualidade forem, porque, realmente, a palavra pastilha pode ter diferentes usos. O dicionário define-a como “guloseima de açúcar, de forma circular e achatada, com sabor a frutos, licores ou chocolate”. Pode ser também uma “coisa enfadonha” ou “bofetada”. E, para os meus amigos do Continente, pastilhas elásticas não são senão as “gamas” que os terceirenses se habituaram a comprar nas lojas americanas da Base das Lajes. De facto, uma boa pastilha de mão-cheia nas ventas, bem estalada, pode ser a melhor maneira para uma menina pôr nos eixos um namoradinho mais atrevido. E não estou a falar em “gamas de balão”.
Portanto, para o efeito desta crónica, vou usar o termo pastilha para a dividir em vários assuntos, cada um sendo uma pastilha diferente, seja doce ou amarga, dolorosa ou suave. Uma maneira de voltar ao truque da crónica repartida, que já não uso há bastantes meses.

PASTILHA COMPRIMIDA – Um tio velhinho, da Graciosa, chamava pastilhas aos comprimidos que tomava, em rotina religiosa. Aliás, não ouvi essa expressão só a ele, lembro-me de, na loja do meu pai, as pessoas dizerem que o Dr. Monjardino lhes tinha receitado umas pastilhas, e não se referiam às normais, para a tosse ou para o estômago, mas sim aos comprimidos em geral. Fosse para chupar ou para engolir, tudo eram pastilhas. Por minha parte, nunca lhes troquei os nomes, embora muitas vezes eu quase que preferisse chupar os comprimidos porque tinha uma dificuldade medonha em os engolir. Não os chupava porque sabia que tinham um gosto horrível, o que me obrigava a esmagá-los em pó que diluía em água, para bem de os fazer passar das goelas para baixo. A minha mãe dizia-me para os enrolar num miolinho de pão, mas nem isso enganava a minha estúpida cisma. Valia-me o facto de ter sido bastante saudável, não haver necessidade de ser medicamentado amiúde.
Ora, com o chegar da velhice, foram aparecendo as mazelas inerentes à idade. Felizmente ultrapassei a dificuldade de engolir, já não há comprimido que me assuste, seja pequeno e redondinho ou tipo cápsula, quase do tamanho de um submarino. De qualquer modo, não posso refilar, são poucos os que tomo, apenas um para regular a tensão arterial e outro para manter o colesterol a piar fininho. O que me atormenta é o facto que, por causa deles, vejo a minha vida a correr muito depressa, as semanas atropelam-se a uma velocidade vertiginosa: noto que, mal enchi os sete compartimentos da pequena caixinha, logo ela me aparece vazia, outra vez a precisar de novo fornecimento! A Vida a desaparecer ao ritmo dos comprimidos que, afinal, tomo para me manterem a continuação da Vida. Parece (ou é?) um paradoxo.

PASTILHA DE PERSISTÊNCIA – O ano passado escrevi uma crónica a contar do meu atrevimento ao mudar o ninho que um casal de rolas tinha construído por cima de uma janela. Claro que os pássaros não gostaram da minha manobra e abandonaram o ninho. Aliviou-me a vergonha que senti o facto de ainda não terem posto os ovos, com certeza escolheram outro local. 
Este ano, apenas por motivos de decoração, construí, pintei e instalei três casinhas/ninhos, que pendurei na vedação do quintal. Estão muito perto umas das outras e em lugar pouco sossegado, de forma que me convenci que não iam atrair inquilinos. Pois... enganei-me! Há dias que noto um movimento desusado, um casal que julgo serem da espécie de blue jays, escolheram uma das casotas para sua residência. Andam numa roda-viva, dentro e fora, fora e dentro, acartando material para o seu ninho. Vigio-os com cuidado, para não os assustar, até mesmo quando estou sentado à mesa, no meu lugar do costumo para jantar, através da janela de onde vejo parte do quintal. Nos primeiros dias reparei que outros pássaros tentavam uma aproximação, talvez para se instalarem nas casotas ainda desocupadas, mas apercebi-me que o casal original os afugentava, não devem gostar de ter vizinhos.
Trouxe a passarada aqui à crónica apenas para lhes dar uma palavra de apoio pela sua persistência. É que, como a abertura no ninho é pequena, eles inquietam-se para meter lá dentro os gravetos que trazem atravessados no bico, pois batem na “porta”, o que lhes causa desespero, visível num esvoaçar nervoso. Mas eles não desistem, já vi que, ou colocam-se de lado e vão movendo os gravetos aos poucos para dentro ou os quebram em pedaços mais pequenos, para conseguirem os seus intentos. Ontem, como me apeteceu sentar no balouço do quintal a ler o “Tribuna Portuguesa”, notei que os meus inquilinos estavam no topo do telhado, quem sabe à espera que eu desaparecesse, para então continuarem o seu trabalho. Ou souberam da má fama que eu ganhei o ano passado e estão a vigiar-me. “Oxalá não vá o careca escangalhar o nosso arranjinho”, ouvi o passarinho dizer à passarinha.

PASTILHA DE VENENO – Esta vai ter que ser uma pastilha de estricnina. Daquela bem forte, para fazer efeito imediato. Pode-se até misturar com aguarrás, a fim de conseguir uma “limpeza” total.
Sou pessoa pacífica, nunca me meti em brigas. Não aceito o princípio cristão de oferecer a outra face, se é que alguém me desse uma pastilha (bofetada) injustificada. Podia virar os pés por cima da cabeça, mas havia de juntar forças para produzir alguma resistência. O meu pacifismo não me permite desejar a morte a ninguém. Contudo, há pessoas que eu não me importava nada de as ver caminhar para uma morte lenta e dolorosa, qualquer coisa que os fizesse sofrer tanto como o que têm feito a milhares de inocentes. O ditador russo, famoso por mandar envenenar adversários políticos, merecia que lhe enfiassem pelo gorgomilo abaixo uma meia dúzia de pastilhas de estricnina, coisa que o fizesse deitar os bofes pela boca fora.
Não queria voltar a tocar no assunto desta guerra em que os russos, sem dó nem piedade, estão empenhados em destruir a Ucrânia. Há um ponto, no meio desta medonha selvajaria, que eu ainda não entendi: se um dos propósitos do Putin e do Kremlin (sim, o Putin não é o único com as mãos sujas de sangue) era libertar a região de Donbas do jugo ucraniano, como eles acusam, então para que estão a dizimar as populações dessa região, que até são as que têm maiores ligações familiares e culturais com os russos? De que lhes vai servir conquistarem vastas extensões de território, se aquilo está tudo derrubado e queimado? Essas sim, são pastilhas difíceis de entender... ou de engolir.

Por aqui me fico. Já botei o olho na porta do quintal, mas não vi os blue jays (como se chamam em português?), com o calor devem estar acaçapados na copa de uma árvore. Passei de relance os olhos nas notícias da TV e não fiquei nada animado, a situação está a piorar e a desgraça a aumentar, não prevejo que a paz esteja iminente.
Está na hora de ir tomar os meus comprimidos, esvaziar mais um espaço na caixinha. Sinal de que a semana está a chegar ao fim, apenas mais uma das cerca de 3,630 que já vivi. Oxalá tenha a sorte de colecionar mais umas 500 com saúde, mesmo que seja à força de pastilhas. E sem guerras, por favor.