Cantorias ao desafio ou debates políticos?

 

Não sei muito àcerca da história das Cantorias ao Desafio.
São uma tradição multicentenária, talvez resultado das mudanças que sofreram as Cantigas de Amigo e de Mal-Dizer da antiguidade. Trazidas para as ilhas atlânticas nas caravelas dos primeiros povoadores, aqui passaram por ter formas diferentes das que ainda se cantam na Galiza ou noutras regiões do Portugal continental. Pelo menos na Terceira não há rabecas para acompanhar os cantadores, mas sim as violas da Terra e os violões tradicionais.
Afinal, em pleno Domingo do Bodo, porque é que me fui lembrar de escrever umas linhas sobre Cantorias? Para ser sincero... (vou abrir um parêntese logo no princípio da crónica: eu acho que se deve evitar dizer ou escrever esta expressão; é sinal que, por vezes, podes usar da falta de sinceridade noutras alturas, o que não é coisa boa. Mas, em frente, vocês sabem que sou sempre sincero). Pois o assunto que eu queria trazer ao terreiro não era propriamente exclusivo às Cantorias ao Desafio; pensei tecer umas linhas sobre o futuro debate político entre os dois candidatos às eleições americanas, agendado para 27 de Junho. Mas as ideias começaram a misturar-se na minha cachimónia e, às tantas, imaginei cenários mirabolantes.
Eu sei que muitos dos meus amigos são entusiásticos seguidos de tudo o que diz respeito a esta manifestação cultural, alguns mesmo são profundos conhecedores do assunto, estudiosos a quem recorri e me conduziram nestes atalhos, já que, neles, eu ando às apalpadelas. Tenho muito respeito pelos tocadores e cantadores, não os quero menosprezar ou ofender, fazendo comparações com gentes da política, uma das formas mais asquerosas da nossa vivência social. Com isto não quero dizer que os meandros das cantorias sejam livres de mácula. Embora haja uma grande camaradagem entre os artistas populares, alguns dos temas, os “assuntos”, como eles dizem, por vezes escorregam para ataques ao carácter do adversário com quem dividem o palco. Esse sentido bélico era muito mais contundente em épocas passadas, como são exemplo estas quadras que o cantador José Vieira, o “Chícharo” (1855-1922) dirigiu ao Terra (1822-1901), nas Lages:
“Tu vens para desafiar-me / Mas estás muito enganado; / Não tenho medo de ti, / Ó meu repolho aguado.” Depois de ouvir a quadra de resposta do Terra, o “Chícharo” virou-se para um dos mordomos e disse: “Quero pedir-lhes um favor / De dentro do coração: / Traga-me uma mamadeira / P’ra dar a este mamão / Mas que seja sem açúcar / P’ra que não lhe faça mal / Ele sofre das lombrigas / Padece de hemorroidal.”
Ora, ao ler estas quadras, que já têm mais de cem anos, foi quando no meu cérebro despoletou um dos tais cenários esquisitos. Imaginei, no debate presidencial, o atual “mordomo” americano a atirar à inchada cara do amarelado opositor as mesmas cantigas que o “Chícharo” cantou. Claro que o outro, desavergonhado como é, não ia deixar de responder de forma insultuosa também, como lhe é habitual. Ou tentasse ser intelectual, coisa que ele não é capaz, e copiasse a cantiga que o “Abel” (1926-1986) disse ao “Caneta” (1917- 1991) : “Nesta vida há mistérios / Porque ela é atribulada. / Ai quantos parecem sérios / E não prestam para nada.”
Dois dos meus amigos amantes das Cantorias ao Desafio dizem-me que nunca ouviram de ataques físicos entre cantadores ou entre estes e alguém da assistência. Os populares costumam ter os seus partidos, gostavam mais da “Trulu” do que do “Ferreirinha” ou acham mais graça às Velhas do “Eliseu” do que as do “Mota”. Mas também já houve casos de algum ficar a cantar sozinho em cima do palco, como o “Galanta” fez ao opositor em São Mateus. Virou-lhe as costas, foi-se embora, achou que o outro não lhe merecia resposta. Seria um pé de vento dos diabos se um dos candidatos americanos usasse a mesma tática no debate, os meios de comunicação teriam material para dias e dias de palração. Aliás, já ouvi comentaristas a darem palpites como que a preverem que um dos dois representantes dos maiores partidos americanos acaba por não aparecer. Os dois adversários é que tomaram a decisão de se enfrentarem, deixaram de lado a Comissão Nacional de Debates, o organismo que normalmente toma conta da planificação e estrutura dos debates. Estes diálogos televisivos não são obrigatórios, são uma invenção recente na política americana, apareceram impingidos pelas cadeias de televisão. Para mim, nem faz sentido o modo como se realizam, com os candidatos a serem obrigados a exporem as suas ideias em parcelas de dois ou três minutos e sujeitarem-se a serem interpelados por mediadores que eles considerem tendenciosos.   
O lamaçal político está ao rubro este ano. Toda a gente tem direito à sua opinião, mas as forças partidárias usam de todos os meios ao seu dispor para influenciarem as pessoas. Há os que afirmam que um é um velhinho caquético, mas esquecem-se que o outro é apenas 3 anos mais novo; se um mostra pequenos episódios de senilidade, o outro é pródigo em atos de malvadez (mal) disfarçada; muitos dos americanos, que se consideram pessoas sérias e respeitadoras, continuam a dar o seu apoio a um candidato que nem a própria esposa respeita e que se vê agora envolvido em diversos casos judiciais. “São os dois velhos e tolos”, dizia-me um colega de trabalho. “Que venha o Diabo e escolha”. Uma empregada, ao lado, arrebitou o nariz, “Yes, um é velho e tonto, mas é honesto e tem mais experiência política. O outro é fanfarão e sempre pronto a governar-se com negócios escuros. Ao menos votarei no mal-menor”.
E assim vai a política americana, a precisar de sangue novo na governação. Não me espanta nada que volte a cair em direção à extrema-direita, como vai acontecendo por esse Mundo abaixo. Ontem, num programa de TV, discutia-se o que os livros de História dirão daqui a 50 anos sobre o momento atual. Dizia um dos palestrantes que no futuro se vão admirar como é que toda uma geração não soube aplicar as regras do bom-senso e se deixou enfeitiçar por governantes desonestos e manipuladores, alguns mesmo criminosos, a espernearem por todos os cantos para não irem bater com as falsas guedelhas na prisão. Não é a primeira vez que tal acontece e, porventura, não será a última.
Os nossos cantadores, alguns, dos mais antigos, que mal sabiam ler e escrever, conseguiam expressar sentimentos muito claros sobre a Humanidade. Manuel Melo, o “Barbeiro”, disse: “No fundo de uma cova / Só se encontra uma ossada. / A mais excelente prova / De que o Homem não é nada.” As pequenas considerações e preocupações que expressei acima parece que foram ouvidas pelo José Fernandes Ormonde, imigrante no Canada, que, sem me conhecer de lado nenhum, me aconselha a ter fé e esperar pelo melhor: “Mas deves pensar a fundo / Se há coisas que te consomem. / O Homem é que faz o Mundo, / O Mundo não faz o Homem”.
Ou, se eu fosse religioso, talvez adotasse a teoria do meu bisavô Manuel Machado Alves, o “Machado do Raminho” (1865-1951), cantador cujo temperamento se espelhava na singeleza dos seus versos. Respondeu assim a um improvisador que lhe chamou triste pobre: “Eu sou um pobre no Mundo / Mas com isso não me importa. / Vá a minha alma para Deus / E o corpo para uma grota”.
O “Machado” podia não ser grande cantador, mas era um homem sincero.

 

(Citações do livro “Improvisadores da Ilha Terceira - Suas vidas e cantorias” de J.H. Borges Martins. Edição da Direção Regional dos Assuntos Culturais, 1989)