O que dizem os teus pés?

 

 

É mais que uma ilha – é uma estátua erguida até ao céu e moldada pelo fogo –, 
é outro Adamastor como o do cabo das Tormentas.

Raul Brandão
As Ilhas Desconhecidas  

Maria é o meu primeiro nome, embora ninguém me conheça assim, mas por Aida, que é o meu segundo nome. Na minha geração, e não sei se por exacerbado fervor ao culto mariano, os nomes das meninas eram quase todos precedidos de Maria, funcionando este como um prefixo onomástico. Esta prática estava de tal modo enraizada que, ainda hoje, quando estão a organizar qualquer lista onde conste o meu nome, é comum perguntarem-me: “És só Aida, ou também tens Maria?”
 Habituei-me, assim, ao longo de toda a minha vida, a identificar-me e a apresentar-me como Aida, exceção para determinadas situações, como é o caso dos bilhetes de avião, de barco e situações similares, em que o primeiro nome é o que deve oficialmente constar.
Foi o que aconteceu em agosto último quando tive de, por telefone, contatar com um guia picaroto, já que, num processo de conversão da família à beleza das ilhas açorianas, havia decidido subir o Pico na companhia da filha, filho, nora e dois netos adolescentes. Ao iniciar a conversa, e porque não nos conhecíamos, apresentei-me e identifiquei-me como Aida Batista. Após esclarecimentos sobre preços, horários e diferentes modalidades da subida, acertei com ele o turno da madrugada para podermos assistir ao romper do sol. Foi-me pedido, para efeitos de inscrição, o envio por sms do primeiro e último nome dos participantes, bem como a data de nascimento. “E mande-me para este telemóvel, que eu só tenho a quarta classe, não uso computador e não percebo nada dessas modernices!” – acrescentou.
Assim fiz: primeiro e último nome, Aida Batista; data de nascimento – 18/12/48.
Nesse mesmo dia à noite, recebo uma chamada. Era o Senhor Manel a questionar-me sobre a idade de uma das participantes, fazendo-o de forma muito subtil, sem aludir aos anos, mas referindo a data de nascimento. Num inconfundível e repreensivo vocativo ilhéu, atirou:
- Menina Aida (foi assim que passou a tratar-me), na lista que me mandou, está aqui uma senhora de 48...
- Sim, sou eu! – atalhei, adivinhando-lhe a surpresa.
- Então, mas a senhora não se chama Aida?
- Sim, chamo-me, mas antes tenho Maria. Como o senhor pediu o primeiro nome, eu mandei Maria.
Segundos de silêncio não ajudaram a disfarçar a dúvida que ele tinha sobre a minha capacidade de chegar lá cima. Atrevida, interroguei-o sem rodeios, entrando diretamente no assunto.
- Acha que não vou ser capaz de subir o Pico, é isso?
Novamente silêncio, o necessário para poder encontrar as palavras certas a fim de não me desanimar. Tentei tranquilizá-lo, enfatizando, do alto do meu convencimento, as minhas longas caminhadas diárias e uma ida recente a Fátima a pé. E ele ia explicando que não era a mesma coisa, invocando o argumento da altitude. Ou ele não conseguiu ser suficientemente dissuasivo ou a minha vontade de desafiar a montanha era mais forte do que a dúvida de não conseguir. Eu estava determinada e nada me conseguia demover.
Assim que nos aproximamos da Ilha, e ainda da janela do avião, ele ali estava, imponente, à nossa espera, orgulhoso por dominar um espaço que ganhou o seu nome - Pico. Todas as ilhas dos Açores são designadas por uma cor, e a esta coube o cinza, o tom que melhor traduz a nudez da vegetação e o domínio das rochas vulcânicas. A montanha nem sempre se mostra por inteiro, obrigando-nos a um jogo de escondidas alimentado pelas nuvens que, ora encobrindo o seio, ora a cintura, nos convidam à procura dos melhores ângulos. Quando a fixamos limpa e luminosa, surge provocadora, desafiando-nos como um touro frente ao forcado. E apetece dizer: “Eh Pico lindo...” e atirarmo-nos a ele a medir forças, sabendo de antemão que não temos ninguém atrás para ajudar a amortecer o embate da subida, nem um rabejador que segure o risco de uma queda.
Nas fotografias que havia visto, aqui e ali, tapetes de castanhos e verdes mascaravam a aridez da lava de que a montanha é feita. Daí a ilusão, expressa em monólogos interiores, de que seria fácil subi-la. Aconteceu desde a primeira hora. Olhava-a e interrogava-me, interrogava-me e olhava-a, num diálogo de incertezas a que sempre respondi que sim. 
No dia e hora combinados, lá estávamos às duas da manhã na casa da montanha, preparados para a subida. Além dos bastões, recebemos os frontais que, na noite cerrada, nos iluminaria o caminho. O guia seguia à frente, com passos leves de bailarina, que conhece bem o palco de breu por onde se move. E nós, em fila indiana, íamos colocando os bastões nos mesmos lugares onde ele fixava os seus - como se estivéssemos a ligar os pontos negros de um trajeto desenhado numa folha de papel -, pisando as mesmas pedras, ganhando o mesmo impulso, numa tentativa de lhe seguir a cadência da passada. 
Chegados à Furna Abrigo, disse-nos sem cerimónia: “Bem, eu não vos quero desiludir, mas este percurso é para ser feito em 20 minutos e nós já levamos mais de meia hora”. Bela tirada para nos animar! Mas pior ainda, foi ter-se virado para mim e, meio a sério meio a brincar, vaticinar: “Acho que a menina Aida não chega ao Piquinho”. Ele não sabia com quem se estava a meter - com alguém que o pior que lhe podem fazer é duvidar da sua capacidade de concluir uma tarefa! Essa é, seguramente, a maior motivação que me podem dar.
Reduzidos a seis pontos luminosos (sete com o guia), continuámos a caminhada, tateando com os pés a irregularidade das pedras de lava, que nos devolvia a única leitura possível do caminho - muito agreste e sempre a subir. Como companhia, a escuridão da noite que nada deixava ver à volta. Uma vez por outra, a voz do guia a interromper o som da nossa respiração ofegante: Encostem-se à esquerda!  Cuidado com as pedras soltas! Não olhem para o lado! 
Os casacos à cintura (que fomos obrigados a despir) eram as testemunhas do esforço que a íngreme inclinação exigia. De vez em quando, uma leva pausa para retemperar forças. Aconselharam-me a comer qualquer coisa. Tento uma dentada na barrita de cerais, mas nem chego a acabá-la. A vontade de prosseguir é mais forte. 
A dois terços do percurso, aquilo que não desejávamos aconteceu: uma inesperada chuva miudinha começou silenciosamente a molhar-nos o corpo. As roupas ensopadas, o nevoeiro húmido e a lava escorregadia quase fizeram esmorecer o entusiasmo, pois já não teríamos a visão do romper do sol como previsto. Vestimos novamente os casacos, assertoados numa vontade de vencer diretamente proporcional ao frio que sentíamos. O guia comentava que fora imprevisível, mas que às vezes acontecia. E nós, por azar, fizemos parte daquele “às vezes” com que a montanha troca as voltas a quem a desafia. 
Finalmente, chegamos à cratera, momento de largar mochilas e bastões que ficam à nossa espera, para o reencontro da descida. Seguem-se os escassos metros que faltam até ao Piquinho. E eu, que tantas vezes o imaginara a erguer-se do ventre da montanha, vejo-me agora privada da imagem daquela que foi a última erupção. Espera-me uma escalada pura e dura e, se até ali já me socorrera de ajudas pontuais, dali em diante seria o meu neto a valer-me. À minha frente, vai-me dando a mão para, com um 
impulso forte, me ajudar a subir. Partes há em que, literalmente, vou de gatas, agarrada às rochas, usando os joelhos como alavanca e arrastando-me por cima delas. Acuso cansaço, o ritmo cardíaco acelera e peço uma pausa para recuperar o fôlego.
Por fim, a apoteose – o marco final, o Piquinho. De braços abertos, abracei o guia numa gratidão silenciosa de quem lhe provara ter conseguido. O corpo gelado agradece os vapores quentes que se soltam das brechas de lava, como um prémio de consolação. E agora a foto de família para memória futura, para dizer à montanha: “Eu estive aqui”, apesar de o objetivo principal – ver o nascer do sol – não ter sido concretizado. 
E começa a descida, que todos haviam avisado ser pior que a subida. À medida que avançávamos no tempo, as nuvens iam-nos oferecendo nesgas de horizonte com paisagem ao fundo – S. Jorge e Faial a despertarem para um novo dia. A meio do percurso apareceu o sol envergonhado, num cumprimento tardio de quem vencera a batalha de romper as nuvens. E o cansaço a vencer-me, e as pernas a acusarem as muitas horas seguidas de caminhada sem interrupção, numa marcha quase automática de quem sabe que, se parar, é pior. O guia vai-me encorajando, alimentando-me a esperança de que o fim estava próximo. Ele, que hoje faz deste trabalho uma forma de subsistência, conta-nos como em criança clandestinamente fugia para a montanha, e lhe descobrira os caminhos e o gosto pela aventura. 
Voltámos a passar a Furna Abrigo, aquela que antes servira de marco ao nosso desempenho, e agora, sim, tive a certeza de que já faltava pouco para chegarmos ao ponto de partida - a casa da montanha. O que é meia hora, depois de tanto esforço? Quando me perguntarem se é mais difícil a descida, direi que sim, não pelas razões que me apresentaram, mas porque o corpo já leva muitas horas de exercício e a exaustão acumulada acentua o cansaço.
Recebi o diploma, olho para ele e fico desiludida. Foi a Maria Batista quem subiu o Pico! A Aida ficou escondida no anonimato do segundo nome. Já no carro, de regresso ao conforto da casa, lembrei-me de um locutor da televisão que termina as entrevistas com a pergunta: “O que dizem os teus olhos?” E apeteceu-me perguntar: “Aida, o que dizem os teus pés?”
Eles dizem-me que a prova foi penosa, mas que, a partir de agora, poderei proclamar que, apesar da idade, subi a pulso e passo esta estátua erguida do fogo, vergada ao deslumbramento com que me seduziu desde o primeiro encontro. 
  

- Aida Baptista