Valquírias de Joana Vasconcelos invadem Boston

 

 

A artista portuguesa Joana Vasconcelos inaugura dia 22 de fevereiro o novo museu de arte contemporânea de Boston, MassArt Art Museum (MAAM), naquela que é a sua primeira exposição individual nos Estados Unidos depois de ter apresentado pela primeira vez o seu trabalho na exposição “How to Tell the Future from the Past”, na Haunch of Venison Gallery, em New York, em janeiro de 2013. 
O novo MAAM é um espaço de 15.000 pés quadrados anteriormente conhecido como Bakalar & Paine Galleries e construído em 1906 como parte do Massachusetts College of Art and Design (MassArt), a única faculdade pública de arte dos Estados Unidos. 
O novo museu é inaugurado com uma instalação monumental site-specific (criada especificamente para determinado espaço) a que Joana Vasconcelos deu o nome de Valquíria Mumbet e que é a mais recente da série Valquírias, que iniciou em 2004 para homenagear mulheres inspiradoras e as poderosas deusas gregas da guerra que sobrevoam os campos de batalha em cavalos alados e trazem os bravos guerreiros de volta à vida para servir como deuses. 
As Valquírias começaram por ser projetadas para o Palácio de Versalhes, Le Bon Marché de Paris e o Museu Guggenheim de Bilbau, honrando a filósofa e ativista política Simone de Beauvoir, a advogada e política Simone Veil e a peregrina do século 4 e primeira escritora de viagens Egeria.
A Valquíria de  Boston chama-se Valquíria Mumbet e homenageia Elizabeth ‘Mumbet’ Freeman, escrava afro-americana cuja batalha judicial pela liberdade ajudou a abolir a escravidão em Massachusetts em 1781.
Valkyrie Mumbet é uma escultura têxtil medindo 377m² e com um peso estimado de 1.350 kg. Tem um centro de grandes dimensões de onde saem braços tentaculares e está suspensa do teto de 13 metros de altura da Galeria Stephen D. Paine da MAAM. A escultura tem tecidos africanos, nomeadamente capulana, o garrido tecido que as mulheres de Moçambique usam para cingir o corpo e, como referência a Portugal,  rendas típicas da açoriana ilha do Pico. 
Os visitantes podem visualizar Valquíria Mumbet de várias perspetivas: passear entre os quatro braços pendentes ao longo da galeria ou subindo as escadas para a varanda de 20 pés de altura para ver todo o trabalho de cima. A instalação fica patente até 2 de agosto de 2020.
Joana já conta com uma coleção de mais de 30 valquírias e a Roménia quer mostrá-las todas de uma só vez. Será na Casa do Povo, o palácio do Parlamento romeno em Bucareste e o terceiro maior edifício do mundo.
Joana Vasconcelos tem 24 anos de carreira e 48 de vida. Nasceu em Paris, França a 8 de novembro de 1971, filha de emigrantes – a mãe é formada em restauração de arte na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e o pai é fotojornalista. Com quatro anos foi para Portugal. Estudou Joalharia e Desenho no Centro de Arte e Comunicação Visual em Lisboa. Numa recente entrevista, revelou que, se não fosse artista, poderia ter sido professora de karaté, que continua a praticar.
Expõe regularmente desde meados da década de 90 e apresentou os seus trabalhos na Royal Academy of Arts, Londres (2018); La Monnaie, Paris (2017); Museu de Roma – Palazzo Braschi, Roma (2016); Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madris (2015); e Kulturhuset Stadsteatern, Estocolmo. A sua exposição no Museu Guggenheim (2019) em Bilbau, Espanha, foi a 13ª mais visitada em todo o mundo no ano passado, segundo o The Art Newspaper.
Joana tem estúdio no bairro de Alcântara, em Lisboa, à beira rio. Tem uma equipa de 50 designers, músicos, costureiras, técnicos de computação, pintores, arquitetos, engenheiros, brancos, pretos e amarelos, jovens, idosos, homens e mulheres. A sua função é moldar tudo o que surge na mente de uma portuguesa que conquistou o mundo com a sua ousadia e tanto pode ser um revólver construído com 168 telefones fixos apontando para a violência que pode ser produzida pelo poder da comunicação de massas ou uma “Cama Valium” que, como o título sugere, é uma cama criada a partir de comprimidos Valium.
Como disse um crítico, Joana Vasconcelos é uma escultora de ideias. Cria geralmente instalações em larga escala, usa rendas e lãs e naperões, usa croché e cores e néones, tudo a brilhar, tudo grande e tudo no plural. Mas também é conhecida por trabalhar objetos do quotidiano que torna decorativos inspirando-se no artesanato português. Tem  imensos animais do ceramista Bordalo Pinheiro vestidos com croché em algodão colorido.
A arte de Joana Vasconcelos, escreve o site americano Politico na sua edição europeia, tem sido “descrita como barroca, pop, surrealista, feminista e de inspiração enraizada na tradição do artesanato português, balizado pelo têxtil, a cerâmica e o metal”. Politico considerou Joana a sexta figura mais influente de 2019 na categoria dos “sonhadores”.
Vasconcelos está pouco preocupada com rótulos, mas ela ou quem cuida da sua promoção, gosta de primeirismos. Assim, anote-se que foi ela, em 2005, a primeira mulher a expor na 51ª Bienal Internacional de Arte de Veneza. Foi ela que, em 2012, foi a primeira portuguesa, a primeira mulher e a artista mais jovem de sempre a expor no mítico Palácio de Versalhes, batendo o recorde de visitantes dos últimos 50 anos (1,6 milhões de pessoas em apenas três meses). Foi ela, em 2019, a primeira portuguesa a expor em nome individual no Museu Guggenheim de Bilbau. 
Vasconcelos tem hoje muitas encomendas. Para a Fundação Dior fez J’Adore Miss Dior, um laço gigantesco, embutido com luzes LED. 
François-Henri Pinault, dono da Gucci, comprou-lhe uma peça, Contaminação (2008), que está hoje no Palazzo Grassi, o Museu de Arte Moderna de Veneza, que Pinault adquiriu para abrigar a sua coleção pessoal. Além disso, Pinault é dono da empresa de leilões Christie’s (New York e Londres), que vende obras de Joana.
Encomendado por Lorde Rothschild, Vasconcelos está a dar os últimos retoques num par gigante de castiçais feitos de garrafas de vinho Château Lafite Rothschild, fixados numa armação de aço e iluminados por dentro com fios de fibra ótica, simbolizando a ligação da família Rothschild com o mundo do vinho.
Regra geral as peças de Joana são enormes. Já fez um bolo de noiva com 11 metros de altura. E atraiu a atenção internacional pela primeira vez com A Noiva, um candelabro monumental com seis metros de altura concebido com 25 mil tampões de higiéne íntima feminina e que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2005. 
Desde então, o tamanho das suas peças é importante para Vasconcelos. Em 2009 concebeu Marilyn (2009), um sapato de salto feito de panelas de aço inoxidável que mede três metros de altura e quatro metros de comprimento. 
Joana tem também produzido algumas obras públicas monumentais. Uma delas é o Pop Galo (2016) inspirado num dos símbolos mais relevantes da cultura popular portuguesa: o galo de Barcelos. 
O galo de Joana, que está exposto em Barcelos, tem 10 metros de altura, é coberto com 17 mil azulejos artesanais e 15 mil luzes LED que dão um deslumbrante festival de luz e som.
Em 2017, quando o Papa Francisco visitou o santuário de Fátima e inaugurou a nova basílica da Santíssima Trindade, teve oportunidade de admirar um enorme terço de 28 metros de altura e 540 quilogramas, da autoria de Joana Vasconcelos. 
O gosto de Joana por obras gigantes inspirou uma delirante piada que pode ser lida no Facebook: “Depois de construir um Galo gigante em Barcelos e umTerço gigante em Fátima, não deixem a Joana Vasconcelos ir às Caldas”.