Joe Biden e Kamala Harris, uma posse histórica

 

 

Hoje, quarta-feira, 20 de janeiro de 2021, é dia de fim do mandato de Donald Trump e posse de Joseph Robinette Biden Jr. como 46º presidente dos EUA. Normalmente, dois milhões de americanos invadiriam a cidade de Washington para assistir à cerimónia na escadaria do Capitólio, mas este ano não é recomendável. 
Primeiro por causa da pandemia do coronavírus que já matou 400.000 americanos e promete matar muitos mais. Depois as preocupações de segurança devido à invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro por apoiantes de Trump e durante a sessão que confirmaria a vitória de Biden na eleição presidencial. 
Correu mal (seis mortes) e podia ter sido muito, muito pior. Foi um ato de terrorismo levado a cabo por grupos de extrema-direita, neonazis e supremacistas raciais, que tiveram liberdade para crescerem e se organizarem durante o governo Trump e conspiraram agora para um golpe de estado em Washington. 
O supremacismo branco, racismo se preferir, ganhou muita força no mandato de Trump e deu um arzinho da sua graça no final do seu mandato. Segundo o FBI, a operação do Capitólio foi coordenada por estrategas da campanha presidencial do próprio Trump, que vai ter que explicar muita coisa se for levado a tribunal.
Em circunstâncias normais, Washington teria hoje centenas de milhares de pessoas aglomerando-se no National Mall, mas a cidade ainda está em estado de emergência e o próprio Biden pediu aos americanos que evitem viajar para a capital. Habitualmente, assistiriam 200.000 convidados à cerimónia, mas desta vez terá apenas cerca de 1.000 convidados.
Esta posse presidencial será sobretudo online, mas não deixa de ser uma posse histórica. Em vez do desfile habitual pela Avenida Pensilvânia até à Casa Branca, haverá um “desfile virtual” de tropas. Biden, Harris e os seus cônjuges serão então escoltados até à Casa Branca por elementos do Exército, incluindo uma banda.
A vice-presidente Kamala Harris renunciou segunda-feira ao seu lugar no Senado e o governador da Califórnia, Gavin Newsom, nomeou o democrata Alex Padilla, até agora secretário estadual, para cumprir os dois anos finais do mandato de Harris. 
A saída de Kamala Harris deixa o Senado sem uma mulher negra. Ela foi a segunda senadora negra e era presentemente a única. Padilla será o primeiro senador latino da Califórnia, onde cerca de 40% dos residentes são hispânicos e vai juntar-se a outros cinco senadores latinos.
Por tudo isto e muito mais a posse de Harris é histórica. É a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos, bem como a primeira mulher de raça negra e raízes asiáticas a chegar à Casa Branca, representando duas minorias étnicas e por isso fez questão de ser empossada pela juíza Sonia Sotomayor, a primeira hispânica no Supremo Tribunal.
Sotomayor, nascida em New York e de pais porto-riquenhos, tornou-se em 2009 a primeira hispânica a ascender ao Supremo Tribunal, nomeada pelo então presidente Barack Obama. 
A vida de Kamala Harris, nascida há 56 anos em Oakland, Califórnia, é repleta de primeiras vezes. É filha de Shyamala Gopalan, nascida no sul da Índia, e Donald Harris, originário da Jamaica. Pesquisadora de cancro da mama, Shyamala morreu em 2005 de cancro do cólon. Donald Harris é hoje professor emérito da Universidade de Stanford.
Aos 40 anos, Harris tornou-se procuradora de San Francisco, a primeira mulher e a primeira pessoa não branca a ocupar o cargo. Em 2011, já era procuradora-geral da Califórnia e de novo ocorreu uma primeira vez: mulher e negra. 
Harris ganhou o Senado em 2016, nas eleições em que Donald Trump chegou à Casa Branca. 
Em 2014, Harris casou com Douglas Emhoff, advogado judeu de sucesso na Califórnia, divorciado e com dois filhos. Mais uma vez, uma primeira vez histórica: Emhoff vai morar na residência da vice-presidência na Massachusetts Avenue e torna-se o primeiro segundo-cavalheiro da história dos Estados Unidos.
Quanto a Joe Biden, cresceu numa família irlandesa-americana em Scranton, na Pensilvânia, entre os altos e baixos do negócio de automóveis do pai. O seu 
maior desafio na infância foi superar a gaguez, o que o levava a treinar em frente ao espelho para conseguir relaxar o rosto enquanto falava.
Quando o pai se mudou para o Delaware, Biden formou-se em Direito na  
Universidade de Syracuse. Exerceu advocacia numa grande empresa, mas desiludido por representar ricos e poderosos, decidiu ser defensor público. Ganhou depois uma vaga no conselho municipal de New Castle, que foi o seu improvável trampolim para o Senado e, aos 29 anos, tornou-se o segundo mais jovem senador de sempre até então.
Biden perdeu a primeira mulher, Neilia, e a filha Naomi de um ano em 18 de dezembro de 1972. Os seus outros dois filhos, Beau, de 3 anos, e Hunter, de 4 anos, ficaram gravemente feridos, mas recuperaram do acidente.
Tinha acabado de ser eleito para o seu primeiro mandato no Senado e pensou 
desistir da política. Mas acabou por tomar posse como senador, prestando juramento no hospital de Delaware, onde os dois filhos estavam internados.
Foi o início de 44 anos consecutivos na cena política nacional, um período que terminou como começou: com a morte prematura de um de seus filhos. Beau, de tumor cerebral.
Nos primeiros 14 anos em Washington, Biden reconstruiu a sua vida pessoal. Viajava todos os dias de sua casa no Delaware para Washington, e casou novamente com a professora Jill Jacobs, de quem teve uma filha, Ashley.
Passou a integrar o Comité Judiciário do Senado e começou a construir uma presença nacional até se candidatar à Presidência em 1987, mas a sua campanha encalhou devido a acusações de plágio de um discurso.
Passaram-se 21 anos antes que Biden concorresse novamente à Presidência, desta vez como um candidato experiente e não como um rosto novo da política americana.
Ao fim da corrida presidencial de Biden em 2008, parecia que o senador voltaria a Washington e terminaria a sua carreira no Congresso ou, talvez, como um membro de um futuro governo democrata. Mas em 23 de agosto, Barack Obama escolheu Biden como seu candidato a vice-presidente, uma escolha que surpreendeu muitos, mas na verdade os dois desenvolveram um relacionamento na campanha eleitoral democrata.
Nos primeiros dias de Obama como presidente, Biden frequentemente se irritou com as orientações da Casa Branca. Por mais de 30 anos, o senador Biden dirigiu o seu feudo político e agora era obrigado a seguir o comando de outra pessoa. Mas Biden trouxe a sua experiência em política externa ao governo de Obama e quando Biden terminou os seus oito anos na vice-presidência, ele e Obama haviam formado uma forte amizade.
Obama pressionou Biden a não desafiar Hillary Clinton na candidatura presidencial de 2016, temendo que a luta nas primárias dividisse o partido. Mas nas eleições de 2020 o veterano Joe Biden despachou Sanders com mais facilidade do que Clinton e finalmente garantiu a nomeação democrata. O seu sucesso deveu-se, em grande parte à sua ligação a Obama, o que lhe rendeu um apoio esmagador entre os democratas negros.
No que poderia ser visto como um reconhecimento desse apoio, Biden escolheu uma ex-rival presidencial, Kamala Harris, para ser sua candidata à vice-presidência. Deu, assim, a uma mulher negra o trampolim para a Presidência que Obama lhe proporcionou oito anos antes. Mais uma vez, os democratas formaram uma chapa presidencial multigeracional e multiétnica.
Quanto a Joe Biden, pode não ter estudado em universidades de elite como Barack Obama ou Bill Clinton, mas chega à Casa Branca com décadas de experiência governativa e é preciso recuar a George H. W. Bush, Richard Nixon e Dwight Eisenhower para encontrarmos um presidente com tantos conhecimentos de política internacional.
Biden é herdeiro intelectual da geração de políticos norte-americanos que viram a Segunda Guerra Mundial na Europa e a Guerra do Vietname no leste da Ásia, acontecimentos que obrigaram os Estados Unidos a repensar o seu papel no mundo e a impor a ordem na política internacional.
Esta experiência permitiu-lhe delinear em termos gerais os objetivos para o seu mandato. No final de novembro, num discurso em Delaware, Biden disse que “a América está de volta, pronta para liderar o mundo. Mais uma vez, estamos sentados à cabeceira da mesa. Prontos para confrontar os nossos adversários e não rejeitar os nossos aliados. Prontos para defender os nossos valores”.
Em geral, o vice-presidente é um cargo com sentido meramente estratégico, a fim de angariar votos que o candidato presidencial não conseguiria. No caso de Harris, contudo, a escolha como vice-presidente tem um significado muito maior.
Com 78 anos, na data da posse, Joe Biden é o presidente mais idoso da história dos Estados Unidos e em 2024, quando completar o primeiro mandato, terá 82 anos e, com essa idade, dificilmente concorrerá a novo mandato.
A vice-presidente Harris será a provável candidata presidencial democrata em 2024. Mas também é perfeitamente possível que Biden não consiga concluir os seus quatro anos de mandato e, nesse caso, sem necessidade de eleições, Kamala Harris tornar-se-á a primeira mulher presidente dos Estados Unidos da América.
Mais uma primeira vez.