Os portugueses e os Óscares

 

A Academy of Motion Picture Arts and Science anunciou dia 24 de janeiro as nomeações para os Óscares de 2023 e pela primeira vez há um filme português entre os nomeados: “Ice Merchants”, realizado por João Gonzalez, foi nomeado para a categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação na 95.ª edição dos Óscares.
Nos últimos anos, Portugal tem sido recordista nos Óscares do Turismo, mas quanto ao cinema a história é diferente e Portugal tem mesmo o pouco invejável recorde de ser o país que mais vezes (39) propôs títulos à categoria de Melhor Filme Internacional (Estrangeiro antes da alteração em 2020) sem ter conseguido uma nomeação. 
Este ano, voltou a tentar a sorte, a Academia Portuguesa de Cinema escolheu “Alma Viva”, o primeiro filme da jovem cineasta luso-francesa Cristèle Alves Meira rodado em Trás-os-Montes e sobre crenças ancestrais, mas voltou a ficar pelo caminho. 
As cinco longas-metragens nomeadas na categoria de Melhor Filme Internacional são o filme argentino “Argentina, 1985” (realizado por Sergio Mitre); o alemão “Nada de Novo na Frente Ocidental” (Edward Berger); o belga “Close” (Lukas Dhont); o polaco “EO” (Jerzy Skolimowski); e o irlândes “The Quiet Girl” (Colm Bairéad). 
A grande favorita é a produção argentina, que conta a história real de Julio Strassera e Luis Moreno, promotores de justiça que investigaram a ditadura militar da Argentina em 1985. “Argentina, 1985” foi vencedor na categoria de Melhor Filme de Língua Não Inglesa dos Globos de Ouro 2023 promovidos pela Hollywood Foreign Press Association, que teve a 80ª edição dia 10 de janeiro e tradicionalmente é uma pista para os Óscares.
Quanto a Portugal, o enguiço pode ter acabado na edição 95ª dos Óscares, que serão atribuídos dia 12 de março, com apresentação de Jimmy Kimmel e transmissão televisiva da ABC (Grupo Disney) para mais de 200 países.
Este ano, e pela primeira vez, houve três filmes portugueses finalistas a uma nomeação em duas categorias dos Óscares: “Ice Merchants”, de João Gonzalez, e “O Homem do Lixo”, de Laura Gonçalves, na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação, e “O Lobo Solitário”, de Filipe Melo, na Melhor Curta-Metragem de Imagem Real.
“O Lobo Solitário” conseguiu o feito de se colocar na “shortlist” de 15 títulos da respetiva categoria a que tinham concorrido perto de 200 filmes, mas não conseguiu ser um dos cinco nomeados.
“O Homem do Lixo” integrou a “shortlist” e também não chegou à nomeação final, mas “Ice Merchants” conseguiu ser nomeado. É o terceiro filme de João Gonzalez, que assina a realização e a banda sonora e divide a animação com a polaca Ala Nunu. O filme estreou em 2022 no Festival de Cinema de Cannes, em França, já passou por mais de uma centena de festivais, obteve 44 prémios e agora também está nomeado para os prémios Annie, conhecidos como os “Óscares da animação”.
O filme, sem diálogos, tem como ponto de partida uma casa no alto de uma montanha, onde pai e filho produzem gelo e depois saltam todos os dias de paraquedas para vender o gelo numa aldeia existente no sopé da montanha.
De lembrar que os portugueses têm tido um relativo sucesso na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação com Regina Pessoa a conseguir chegar duas vezes à “shortlist”, em 2006 com “História Trágica com Final Feliz”, e em 2020 com “Tio Tomás – A Contabilidade dos Dias”, que ganhou a seguir o prémio Annie, e “Alma Viva”, de Catarina Vasconcelos, em 2022.
De referir também Daniel Sousa, português de origem cabo-verdiana residente em Providence, RI, que esteve nomeado para o Óscar de Melhor Curta de Animação em 2014 pelo filme “Feral”, produção norte-americana. Além de realizador de animação, Daniel leciona na Rhode Island School of Design, onde foi aluno.
Portugal nunca ganhou um Óscar, mas já houve três portugueses que receberam a famosa estatueta.
Carlos de Mattos, que nasceu em Luanda em 1952, recebeu o Technical Achievement Award em 1983, em parceria com Con Tresfons, Adriaan De Rooy e Ed Phillips, pela criação da Tulip Crane, uma grua utilizada em filmagens, e em 1986 recebeu um Scientific and Engineering Award, em parceria com Ernest F. Nettman e Ed Phillips, pela criação de uma câmara de controlo remoto.
Presentemente, Carlos de Mattos é presidente da Cinemills Corporation, fornecedora de equipamentos de iluminação para filmagens e transmissões de televisão, e da produtora Generation Entertainment.
Ricardo Ferreira é um compositor digital português que vive em Londres trabalhando na indústria cinematográfica desde 2009 na área dos efeitos visuais e integrou as equipas que ganharam o Óscar de Melhores Efeitos Visuais pelos filmes “Interstellar” (2015) e “Ex-Machina” (2016).
O terceiro português premiado poderá ser o célebre dramaturgo britânico Christopher Hampton, que ganhou o Óscar de Melhor Argumento por “Dangerous Liaisons” em 1989 e voltou a ganhar na mesma categoria em 2021 por “The Father”, uma vez que nasceu na ilha do Faial, arquipélago dos Açores, a 26 de janeiro de 1946, e assume o nascimento português. Mas Christopher Hampton é cidadão britânico e não tem qualquer ligação ao país onde nasceu.
Quanto a lusodescendentes premiadas, a única foi Mary Astor, atriz que brilhou em Hollywood entre os anos 1920 e 1960, e ganhou um Óscar em 1942 (“The Great Lie”). O seu verdadeiro nome era Lucile Vasconcellos Langhanke, nasceu, em 1906, em Quincy, Illinois, filha de Otto Ludwig Langhanke, um imigrante alemão, e de Helen Marie de Vasconcellos, nascida em Jacksonville e filha de madeirenses. Após uma carreira de mais de cem filmes, Mary Astor publicou cinco novelas e duas autobiografias e morreu aos 81 anos, em 1987.
Caso notável são os irmãos Hal Pereira (1905-1983) e William Pereira (1909-1985), nascidos no Illinois e cujo avô paterno era descendente de judeus sefarditas portugueses. Tinham ambos formação em arquitetura e William foi talvez o mais famoso arquiteto da sua época assinando mais de 400 projetos como a Transamerica Pyramid em San Francisco, a CBS Television City, o Los Angeles County Art Museum, o Water Playground em Anaheim e o Disneyland Hotel em Anaheim.
Antes do sucesso como arquiteto, William Pereira teve uma breve carreira no cinema e trabalhou como diretor de arte e designer de produção em vários filmes, incluindo “This Gun for Hire”, o primeiro filme de Alan Ladd e “Jane Eyre” (1944).
Em 1942, William Pereira ganhou o primeiro Óscar de design de produção pelo seu trabalho em “Reap the Wild Wind”, de Cecil B. DeMille, um épico colorido estrelado por Paulette Godard, Ray Milland e um jovem John Wayne. A batalha subaquática titânica entre Milland, Wayne e uma lula gigante é o clímax do filme e valeu o Óscar a William Pereira.
Hal Pereira começou como designer de teatros em Chicago antes de se mudar para Los Angeles e trabalhar para a Paramount Studios, onde viria a ser diretor de arte e de produção do estúdio. Trabalhou em mais de 250 filmes, incluindo o clássico “Shane” e “The Greatest Show on Earth” (1952), de Cecil B. Mille, que ganhou o Óscar de Melhor Filme. 
Hal Pereira foi diretor artístico da popular série da televisão Bonanza e de quase todos os filmes importantes de Alfred Hitchcock na década de 1950. Foi nomeado 23 vezes para o Óscar e ganhou apenas uma vez em “The Rose Tattoo” (1955), filme a preto e branco baseado na famosa peça de Tennessee Williams sobre uma viúva ítalo-americana do Mississippi e protagonizado pela italiana Ana Magnani, que ganhou o Óscar de Melhor Atriz.
Mais recentemente tivemos Sam Mendes, realizador de filmes famosos como “Skyfall” ou “Road to Perdition” e que é bisneto de madeirenses. Sam Mendes ganhou os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador em1999 com o seu primeiro filme “American Beauty”.
É importante não esquecer os talentos portugueses que foram nomeados para os Óscares, mas nunca ganharam. O diretor de fotografia Eduardo Serra foi nomeado duas vezes pelo seu trabalho em “The Wings of the Dove” (1997) e “Girl with a Pearl Earring” (2003). Serra, que reside em Paris, tem feito carreira em França e no Reino Unido.
O figurinista luso-canadiano Luís Sequeira foi nomeado em 2018 para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa pelo seu trabalho no filme “The Shape of Water”, de Guillermo del Toro. Em 2022, Luis Sequeira voltou a ser nomeado para Melhor Guarda-Roupa por outro filme de Guillermo del Toro, “Nightmare Alley”.
Outro luso-canadiano, Nelson Ferreira, partilhou com Nathan Robitaille a nomeação para Melhor Montagem de Som (outrora designada de Melhores Efeitos Sonoros) dos filmes “Nightmare Alley” e “Dunkirk”. 
O falecido compositor Joe Raposo, que ganhou numerosos Grammy e Emmy, teve também uma canção nomeada para o Óscar em 1981, “The First Time It Happens”, do filme “The Great Muppet Caper”, mas perdeu para a canção do filme “Arthur”.
A título de curiosidade lembre-se que dois artistas americanos foram premiados interpretando portugueses: em 1939, Spencer Tracy recebeu o Óscar de melhor ator pelo seu trabalho na personagem do Manuel, o heróico pescador madeirense do filme “Captains Courageous” e em 1989 Jodie Foster ganhou o de melhor atriz fazendo a luso-descendente Sarah Tobias em “The Accused”, filme baseado num caso de má memória para os portugueses, a violação de uma mulher (Cheryl Ann Araújo) no bar Big Dan, de New Bedford em 6 de março de 1983. Enfim, os portugueses não têm andado muito longe dos Óscares e até já tivemos uma jovem portuguesa premiada em Hollywood, Erica Fontes, que recebeu o prémio de melhor atriz estrangeira atribuído pela XBIZ. 
A XBIZ é uma empresa do ramo do entretenimento para adultos que, desde 2003, premeia o que de melhor se faz no cinema pornográfico atribuindo uma espécie de Óscar.  Erica começou a sua carreira no cinema aos 18 anos e já participou em mais de 100 filmes pornográficos portugueses e estrangeiros, um currículo de fazer inveja à maioria das estrelas de Hollywood. Claro, alguns dirão que são filmes pornográficos, mas porno ou não, filme é filme e prémio é prémio. 
A atribuição dos Óscares é sempre um jogo de interesses e não se sabe o que vai acontecer com “Ice Merchants”, mas pode haver uma surpresa como aconteceu em 2022 no Los Angeles Independent Film Festival, onde o filme “A Lenda do Galo”, de Carlos Araújo, venceu os prémios de Melhor Curta-Metragem Estrangeira e Melhor Realizador de Curta-Metragem e o vídeo musical “Havemos de ir a Viana”, realizado por Flávio Cruz, venceu o prémio Best Music Video (Melhor Vídeo Musical).
O vídeo “Havemos de ir a Viana” já participou em onze festivais de nove países e arrecadou dez prémios. É sobre um fado de Alain Oulman, com letra de Pedro Homem de Melo, cantado originalmente por Amália Rodrigues e que se tornou no hino da romaria de Nossa Senhora da Agonia, padroeira dos pescadores e que se realiza desde 1772 em Viana do Castelo.
Hollywood está a ficar meio minhota e, quem sabe, talvez ainda venha a fazer um filme sobre a famosa romaria, que decorre de 20 a 23 de agosto com procissão no mar e o famoso desfile das oitocentas mordomas com 94 milhões de dólares em colares de ouro pendurados ao pescoço.