Joe Raposo, a sorte e a morte

 

Fall River celebrou dia 3 de agosto o compositor Joe Raposo, nascido na cidade a 8 de fevereiro de 1937. O mayor Paul Hogan proclamou o Joe Raposo Day numa sessão realizada no Thomas Hudner Memorial Building, no Heritage State Park, e os presentes tiveram oportunidade de conhecer alguns membros da família Raposo e assistir à exibição de “Sing”, um filme de homenagem a Raposo e à sua música. Mas ainda não foi a homenagem que Raposo merece. Continua a ser a maior celebridade musical nascida na cidade e se, em vez de Raposo, se chamasse Driscoll ou O’Brien já teriam dado o seu nome a uma escola ou parque da cidade. Até à sua morte, Joe Raposo ganhou cinco prémios Grammy, um Emmy e vários discos de ouro. Foi o criador musical do “Sesame Street”, programa educacional para crianças produzido desde 1969 pela rede pública de televisão PBS e retransmitido em 34 países, incluindo Portugal, onde os Muppets são conhecidos como os Marretas. 
Raposo compôs canções como “Sing”, que teve mais de uma centena de gravações e que Barbra Streisand, Perry Como, Bing Crosby e Fred Astaire tornaram famosa. Ou “Bein’ Green”, esta cantada por Kermit the Frog, a famosa rã dos Muppets, os bonecos animados do “Sesame Street” criados por Jim Henson.
Raposo tanto escrevia para os Muppets como para Frank Sinatra, e chegou a trabalhar com Richard Rogers, o famosíssimo autor dos clássicos musicais “Oklahoma” (1942), “Carousel” (1944), “South Pacific” (1949) e “The Sound of Music” (1959). 
Nunca tive relações com Joe Raposo, mas mantive amizade com o pai, José Soares Raposo, também músico e que fazia questão de manter-me a par dos sucessos de Joe.
Vindo dos Arrifes, freguesia nos arredores de Ponta Delgada, José Soares Raposo chegou a Fall River em 1917. Não vinha propriamente de mãos a abanar, trazia dolar e meio que conseguira juntar e um violino, que tocava razoavelmente.
Começou por trabalhar numa fábrica, onde viria a conhecer a futura esposa, Maria da Ascenção Vitorino, também imigrante e igualmente natural da ilha de São Miguel, Açores, aliás como 46% dos residentes de Fall River.
Mas depressa José Soares Raposo começou a ganhar dinheiro com a música. Era o tempo do cinema mudo, os filmes não tinham banda sonora, o diálogo, quando necessário, eram legendas lidas pelos espectadores e a música era ao vivo e providenciada por um pianista e às vezes um violinista que acompanhavam a projeção do filme.
José Soares Raposo começou a tocar nos cinemas de Fall River e em 1928, um ano antes de casar com a Maria da Ascensão, fundou as Escolas de Música Raposo, onde ensinava guitarra clássica, violino, flauta e piano. Maria da Ascensão era dona de casa, mas acabaria tocando também piano.
José Raposo foi também regente da Banda do Senhor Santo Cristo, à época considerada a mais antiga banda marcial da Nova Inglaterra e que, em 1939, tocou na Feira Mundial de New York, onde Portugal tinha um pavilhão.
O casal Raposo morava num duplex da North Main Street, onde nasceu o único filho que tiveram, Joseph Guilherme Raposo, conhecido na família como Sonny.
Era uma casa onde só se falava português, mas onde havia uma outra língua sem palavras, a música. José Soares Raposo fez questão de ensinar o filho e Joe cresceu tocando piano até lhe doerem os dedos. Mas aos cinco anos já ele ensinava piano aos alunos de violino mais jovens do pai. Aos 13 anos, estava todos os domingos atrás do órgão da igreja do Senhor Santo Cristo e ainda animava festas. Tocava em casamentos libaneses, em bat mitzvahs na escola hebraica e na noite irlandesa da Holy Rosary Band Society. Onde houvesse um piano, Joe Raposo podia alegrar as pessoas. 
Entretanto, concluiu a BMC Durfee High School em 1953 e o cardeal Humberto Medeiros, arcebispo de Boston e conterrâneo e amigo de longa data do pai, ofereceu-se para mover influências e matrícular o jovem como aluno de Direito na Universidade de Harvard. No outono de 1953, Joe Raposo passou a residir em Harvard numa suíte com piano de cauda e passou a animar as festas da universidade e a compor músicas para apresentações no Hasty Pudding Theatricals, tornando-se o maestro e diretor musical. 
Sustentava-se a si próprio tocando piano nos clubes noturnos da área de Boston. No clube de jazz Storyville em Cambridge, Joe Raposo acompanhou lendas como Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Dizzy Gillespie e Billie Holiday. No verão, tocava nas orquestras dos teatros do Cape Cod. 
Entre as aulas e os shows, mantinha a bolsa de estudos limpando banheiros na universidade. Mas acabou por deixar os estudos jurídicos, formou-se em música em 1958, e conseguiu uma bolsa na L’Ecole Normale de Musique, de Paris, com a célebre professora de piano Nadia Boulanger, mentora de compositores americanos como Aaron Copland, Elliott Carter e George Gershwin. Pouco depois de se formar em Harvard, a 24 de agosto de 1958, Joe Raposo casou com a namorada Sue Nordlund, aluna do Radcliffe College, de Cambridge. A noiva nasceu em 1936 em Pierre, Dakota do Sul, e a lua de mel do jovem casal foi num camarote da terceira classe do Queen Mary a caminho de França.
Joe Raposo passou dois anos em Paris, e ele e Sue regressaram a Boston pais de um menino, Joseph Raymond Raposo. O melhor emprego que Joe conseguiu foi dirigir o departamento de Teatro Musicado do Conservatório de Boston. Mas em 1967, tornou-se diretor musical e autor de algumas canções de um sucesso off-Broadway, “You’re a Good Man, Charlie Brown”, musical de Clark Gesner e John Gordon baseado na famosa banda desenhada Peanuts, de Charles Schulzs, e em 1969, Joe, a mulher e o filho mudaram-se para New York.
Joe encontrou trabalho estável como músico na banda do Ed Sullivan Show na NBC TV, onde conheceu Jim Henson, que nesse tempo trabalhava na criação dos fantoches Muppets (Kermit, Big Bird, Oscar the Grouch e Grover), e longe de imaginarem que viriam a trabalhar juntos.
Mas uma tarde, Joe Raposo recebeu um telefonema de Jon Stone, seu antigo colega de Harvard, a convidá-lo para diretor musical de um show que estava produzindo para crianças e que deveria chamar-se 123 Street ou Open Sesame. Embora ainda sem nome, o programa precisava de músicas e Stone prometeu que Joe ficaria com todos os direitos. 
Joe Raposo escreveu as letras cuidando de Joe Jr. e do seu novo bebé, Nicholas Anthony Raposo, Nico para a família.
O programa viria a chamar-se “Sesame Street” e Raposo tornou-se director musical.
O primeiro álbum da “Sesame Street”, de 1970 e repleto de originais de Joe Raposo, ganhou um Grammy e vendeu centenas de milhares de cópias. Quando os primeiros direitos de autor chegaram, Joe Raposo recebeu um cheque de $8.000. Nunca tinha visto tanto dinheiro e a sua primeira decisão foi mudar a mulher e os filhos para um apartamento com terraço na Riverside Drive com vista para o rio Hudson. 
Com o sucesso de “Sesame Street”, Joe Raposo passou a estar mais ocupado do que nunca e trabalhava 18 horas por dia no seu escritório no Carnegie Hall. Sue Raposo habituou-se aos telefonemas do marido a dizer que não viria jantar e ele acabou mesmo por deixar de aparecer. 
Joe e Sue divorciaram-se em 1975. Por sinal, com o divórcio, Sue viria a tornar-se bem sucedida executiva de televisão: 1977, gerente do Canal 13 do PBS de New York; 1982, gerente de operações internacionais da CBS Cable; 1985, diretora da produtora Lionheart e júri dos prémios Emmy.
Quanto a Joe, no verão de 1975, fez as malas e voou para Palm Springs, instalando-se na mansão de Frank Sinatra. Joe tinha escrito quatro músicas para o álbum de regresso de Sinatra, “Old Blue Eyes Is Back” (1973) e ficaram amigos. 
Durante um ano, Joe viveu com Sinatra jogando bilhar, bebendo highballs até ficarem com fome e irem comer rosbife e pudim Yorkshire no Lord Fletcher’s e voltar a casa para ver filmes antigos com velhas glórias de Hollywood.
Um ano depois, Joe Raposo decidiu voltar a New York e foi contatado pela apresentadora da televisão novaiorquina Pat Collins, que estava interessada nos seus serviços musicais. Pat nunca tinha ouvido falar de Raposo quando um amigo lhe sugeriu que o contratasse para melhorar o tema musical do seu programa. Criada em Boston, Pat Collins foi repórter criminal do jornal Boston Herald American até começar a moderar talk shows em Boston, San Francisco, Washington e por fim New York (CBS).
Pat telefonou a Joe Raposo marcando encontro com ele para um chá e chamando-lhe erradamente “Ripozo”. Pat era uma loura espetacular e Joe parece ter-se apaixonado por ela instantaneamente. Mas para Pat o amor veio mais devagar. Decorrido um ano, Joe perguntou a Pat “se ela tinha alguma coisa contra o casamento”. Ela respondeu “não”, e ele perguntou: “Bem, então, por que não casa comigo?”
Casaram em janeiro de 1976, e não se arrependeram. Tiveram uma filha, Elizabeth Raposo, hoje com 46 anos, e um filho, Andrew Raposo, 41. No verão, a família passava férias em Chatham, no Cape Cod, onde José Soares Raposo e Maria da Ascenção tinham comprado casa à beira mar, sonhando talvez com São Miguel distante 3.628 quilómetros.
Joe Raposo era compositor de sucesso, escrevia a música para as séries “Three’s Company” e “The Ropers”, os programas “The Electric Company”, “The Statue of Liberty Fourth of July Fireworks Spectacular”, “The Cabbage Patch Kids”, “The Kingdom Chums”, “Dennis the Menace”, vários especiais dos Muppets e do Dr. Seuss e até é autor do indicativo musical das CBS Morning News. 
A convite do presidente Richard Nixon, Joe Raposo tocou “Sing” na Casa Branca no concerto de Natal de 1977 com ajuda da U.S. Marine Band. Jimmy Carter, que gostava de assistir ao “Sesame Street” com a filha, pediu a Raposo que escrevesse a sua música de campanha. E o compositor conheceu Ronald e Nancy Reagan através de Frank Sinatra, e Nancy pediu-lhe uma música para a sua campanha para incentivar os idosos tornarem-se “avós adotivos” de crianças com necessidades especiais. Joe era parceiro de pesca de Walter Cronkite, o famoso telejornalista da CBS, e o governador estadual de New York, Hugh Carey, era visita da sua casa, um apartamento de oito quartos ao cimo da Quinta Avenida e com vista para o Central Park. 
Tudo parecia correr bem, mas um dia Joe sentiu alguns caroços, quase impercetíveis de início, sob os braços e em redor da virilha. Pat aconselhou-o a procurar um especialista e foram ao médico juntos.
Quando o médico disse que era linfoma não Hodgkin, puderam ler-lhe no rosto dele que era algo de grave.
“Pat está grávida,” disse Joe ao médico. “Vou viver para ver essa criança formar-se na faculdade?”
“Não, não vai”, respondeu o médico.
“E vou viver para vê-lo no high school?”
“Joe, isso é muito difícil”, disse o médico.
Joe Raposo tomou então a decisão de não contar a ninguém a gravidade da doença e continuar a fazer a sua música. Joe e Pat não contaram nem mesmo às crianças, só os médicos e o gerente deles sabiam.
Pat abriu conta numa farmácia perto do Carnegie Hall, onde Joe tinha um escritório, para que ele pudesse comprar medicamentos sem que ninguém soubesse no bairro onde morava.
Nos anos que se seguiram, Joe trabalhou em segredo com nódulos inchados e falta de ar, suores e dores no peito. Marcava as consultas de quimioterapia ao começo do dia no East Side, antes dos outros pacientes chegarem. 
Em 1986, ele recebeu um telefonema para regressar ao “Sesame Street”, o show precisava da música de Raposo e Raposo também precisava de voltar a fazer canções para Kermit e Miss Piggy.
Os amigos que passavam pelo estúdio de Joe no Carnegie Hall encontravam-no sempre ao piano e ao telefone a tratar de negócios sempre com um sorriso no rosto, embora cada vez mais frágil. Ninguém suspeitava que estivesse gravemente doente e por isso toda a gente ficou surpreendida com a notícia da sua morte a 5 de fevereiro de 1989, aos 51 anos e dias antes de completar 52 anos.
Nesse dia, José Soares Raposo telefonou-me de Chatham com a triste notícia. Joe Raposo foi sepultado em Chatham no cemitério onde viriam a ser também enterrados os pais dele, não muito longe do mar. 
Já se passaram 45 anos desde que Raposo escreveu a primeira de mais de 3.000 músicas para “Sesame Street”, que continua o programa de televisão infantil mais inovador da PBS, e 33 anos desde que o cancro acabou com a sua vida, mas muitas das canções continuam a ser lembradas. Em todo o mundo há sempre alguém a cantar “Sing”.

Sing, sing a song
Make it simple to last your whole life long
Don’t worry that it’s not good enough
For anyone else to hear
Just sing, sing a song