Maratona Moby Dick à portuguesa

 

Realizou-se dias 7, 8 e 9 de janeiro de 2022 no Whaling Museum, de New Bedford, a leitura dos 135 capítulos do famoso romance Moby Dick, do norte-americano Herman Melville.

Chamam-lhe Marathon Moby Dick, teve início em 1997 e fez escola, realizando-se hoje iniciativas idênticas em Nantucket, Mystic, Newport (Oregon), Tallahassee, New York e Londres. 

A maratona Moby Dick de New Bedford arranca sempre sábado ao meio-dia e desta vez com o reverendo David Lima lendo o empolgado sermão proferido no livro pelo padre Mapple antes da tripulação do Pequod, o navio de Moby Dick, seguir viagem. 

Lima leu o famoso sermão no púlpito (em forma de proa de barco) da Seamen’s Bethel, capela erguida na Johnny Cake Hill, New Bedford, que abriu ao culto em 1832 e onde os baleeiros iam rezar antes de partirem para as longas viagens de três anos e mais.

A baleia morta era rebocada para o navio e a sua gordura cortada em pedaços e fervida em grandes tonéis, produzindo óleo que era embalado em barris e trazido de volta para o porto de origem do navio, dos quais New Bedford, em Massachusetts, era o mais movimentado e lançava ao mar 329 navios, mais de metade da frota baleeira dos EUA.

O óleo de baleia era vendido por todo o país e, além de servir para lubrificar maquinaria e para iluminar lamparinas, era também usado na fabricação de uma enorme variedade de produtos, sabonetes, tintas, vernizes, cordas e tecidos.

Em dia de maratona, a entrada no Museu Baleeiro de New Bedford é gratuita e muita gente passa por lá, mas devido à pandemia de coronavírus, a maratona foi este ano virtual, com intervenções gravadas previamente e com transmissão no YouTube.

A leitura é feita por políticos, autarcas, professores, escritores, juristas, jornalistas e sobretudo por apaixonados pela obra-prima de Melville. 

A leitura é debaixo dos esqueletos de uma baleia-corcunda e uma baleia-azul pendurados do teto e junto à réplica (reduzida) do Lagoda, navio baleeiro construído na Rússia em 1826 e que acabou transportando carvão no Japão. 

Cada participante lê o romance em voz alta cerca de 10 minutos e recebe uma ovação e uma T-shirt. São lidas em média 30 páginas por hora e a maratona prolonga-se por 25 horas.

A participação é por vezes capricho pessoal. O antigo mayor Frederick Kalisz, que faleceu em 25 de janeiro de 2021 de covid-19, fazia questão de ler com o filho, Rick.

Desde a primeira maratona, em 1997, e durante vários anos que Raymond P. Veary (americanização de Vieira), agora juiz emérito do Tribunal Superior do Condado de Bristol, deu início à maratona lendo o primeiro capítulo: “Call me Ishmael” (Chamai-me Ismael).

Ishmael é um dos tripulantes do Pequod e o narrador do romance. No final do livro, Moby Dick destrói o Pequod e apenas Ishmael sobrevive para contar o ocorrido.

O primeiro capítulo foi este ano lido por Sam Waterston, ator e realizador nascido em 1940, em Cambridge e premiado por filmes e séries de televisão como The Killing Fields e Law & Order.

Embora esta tenha sido a primeira vez de Waterston no Museu Baleeiro de New Bedford, leu Ishmael em 2001 numa celebração do 150º aniversário da publicação da obra em Tanglewood.

Claro que a leitura é sobretudo em inglês, mas Moby Dick está traduzido em dezenas de línguas e este ano tivemos, por exemplo, Jessica Gritbler a ler umas páginas em alemão.

Mas mais curioso, e de que em Portugal talvez não se tenha o devido conhecimento, é a realização simultânea de uma mini maratona Moby Dick em português no Museu Baleeiro de New Bedford com intervenção de figuras mais ou menos públicas da comunidade portuguesa local. A ideia foi de Pedro Carneiro, antigo cônsul de Portugal em New Bedford (2013-2017). 

“O sucesso da leitura de Moby Dick em inglês, a emoção e a quantidade de pessoas que envolve, fez-me pensar que talvez fosse boa ideia envolver a comunidade portuguesa numa obra que também faz parte da sua história. É uma maneira de integrar”, disse Pedro Carneiro numa entrevista.

Desde 2013 que a comunidade de língua portuguesa se faz representar na Maratona Moby Dick e, em 2022, tivemos leituras em português de Rogério Lopes, atual cônsul de Portugal em New Bedford, Paulina Arruda, da direção do Whaling Museum, António Cabral, deputado estadual de Massachusetts, Miguel Moniz, professor universitário em Lisboa, Luis Monteiro, um admirador de Melville e James Hayes Bohanan, professor da Bridgewater State University, com sotaque brasileiro.

É importante lembrar a associação dos portugueses com a indústria baleeira uma vez que a sua fixação nos EUA começou precisamente com os açorianos que embarcavam nos baleeiros norte-americanos que faziam escala no arquipélago.

A determinado momento da leitura de Moby Dick descobre-se que da tripulação do Pequod faz parte Daniel, um açoriano da ilha do Corvo. Para a maioria dos leitores portugueses, a presença de um português na obra de Melville será um mistério, mas é naturalíssimo para quem conheça a história da baleação nos EUA. 

Naquela época, os baleeiros largavam de New Bedford, Nantucket e outros portos com tripulação mínima, mas depois fundeavam ao largo do Faial, da Madeira ou de São Vicente, para reabastecimento e para engajar rapazes desejosos de correr mares.

Foi assim que começou a imigração portuguesa para os EUA e da tripulação do navio Acushnet, em que Melville embarcou para a viagem baleeira que inspirou Moby Dick, faziam parte os portugueses George M. Galvan, Martin Brown e Joseph Luis, naturais do Faial, e John Adams, de Cabo Verde, com os quais Melville privou durante a viagem.

Donald Warrin, professor universitário e historiador da presença portuguesa na baleação americana, escreve que “se no século XVIII a presença portuguesa nas baleeiras americanas rondava 40%, a partir de 1920 essa presença aumentou para mais de 60% e a maioria dos barcos passaram a ser capitaneados por portugueses”.

Há conhecimento da existência de mais de uma centena de capitães baleeiros portugueses e no Whaling Museum de New Bedford existe uma Azorean Whaleman Gallery, para a qual o governo português contribuiu com 700 mil dólares e o governo federal dos EUA com 1,2 milhão.

Pequod, o navio baleeiro de Moby Dick, esteve ao largo dos Açores, mas não fez escala. Contudo, Melville escreveu que “não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas costas rochosas. Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias”.

A maratona do Museu Baleeiro de New Bedford tem lugar no início do ano e a data da sua realização é escolhida para assinalar a partida de Melville de Fairhaven a 3 de janeiro de 1841 no navio baleeiro Acushnet para a viagem de 18 meses que inspirou a sua obra-prima.

Moby Dick foi a grande aposta da vida de Melville, que nasceu em New York, em 1819. Quando Moby Dick foi publicado, em 1851, o escritor tinha 32 anos, estava casado, com um filho pequeno, e a sua vida financeira não era das melhores. Em quatro anos publicara cinco livros sobre as suas andanças pelos distantes Mares do Sul como simples marinheiro de navios de pesca e militares – Typee (1846), Omoo (1847), Mardi (1849), Redburn (1849) e White-Jacket (1850) – mas não era propriamente um escritor de sucesso.

Melville visitava frequentemente New Bedford instalando-se na casa da irmã, Catherine Melville Hoadley, em 100 Madison Street. Catherine era casada com John Chipman Hoadley, um engenheiro mecânico dado à poesia. 

Para se inteirar do que era a caça à baleia, o escritor decidiu fazer uma viagem no navio Acushnet, de Fairhaven, comandado pelo capitão Valentine Pease Jr. e foi essa experiência de 18 meses que lhe permitiu escrever Moby Dick, inspirando-se nos relatos da famosa Mocha Dick, uma velha e grande baleia albina supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha e que se defendia ferozmente dos que tentavam caçá-la, e no naufrágio do Essex, um navio de Nantucket comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou-se em 1820, tendo morrido 12 dos 20 tripulantes. Quem já se aventurou pelas quase 600 páginas da acidentada caça à mítica baleia branca empreendida pelo barco Pequod do louco capitão Ahab, que atravessa oceanos para vingar a perda da sua perna arrancada pelo cetáceo, concordará que, como escreveu o escritor argentino José Luis Borges, “é um romance infinito” e que “página a página, se amplia até superar o tamanho do cosmos”.

Melville investiu nesta obra todo o seu talento e erudição, procurando resgatar a reputação literária. De acordo com um seu biógrafo, o dia do lançamento foi o mais feliz da vida de Melville.

O livro foi publicado originalmente em Londres em outubro de 1851, em três fascículos e com o título The Whale (A Baleia) e um mês depois em versão integral nos EUA e foi um fracasso de vendas, sendo considerado o principal motivo do declínio da carreira do autor. 

Em Inglaterra, Moby Dick foi considerado ofensivo à moral política e religiosa, e foi proibido. Nos EUA, apesar de Melville já não ser propriamente um desconhecido, a estrutura e complexidade do romance desafiavam as convenções e a crítica viu-o como uma desinteressante história de aventuras de caça à baleia repleta de citações de Shakespeare, que poucos entenderam. 

A primeira edição de Moby Dick nos EUA foi de 2.915 exemplares, feita pela impressora Harper & Brothers de New York, e levou 40 anos para se esgotar.

Apesar de ter vivido 72 anos, Melville dedicou apenas doze à prosa literária, com grande esforço. “Escrever para mim é como rachar lenha”, disse. O seu período fecundo deu-se entre 1846 e 1857, com doze títulos, entre novelas, contos e romances. 

Melville acabou por se tornar inspetor da alfândega do porto de New York em 1866 e só voltaria a escrever depois de reformado. 

A sua última obra, Billy Budd, sobre um marujo caluniosamente acusado de ter planeado um motim e condenado à forca por ter assassinado o caluniador, ficou incompleta com o seu falecimento em 1891, pobre e longe de adivinhar o sucesso que Moby Dick viria a alcançar, convertendo-se numa das maiores obras escritas em língua inglesa, dentro e fora das fronteiras norte-americanas e um verdadeiro tesouro para a literatura mundial.

Moby Dick conquistou admiradores nos mais diferentes quadrantes do planeta e o francês Albert Camus chamou o seu autor de Homero do Pacífico. Em Moby Dick, Ishmael sobrevive para contar a história agarrado ao caixão que contém o corpo de um amigo flutuando sobre o “calmo e fúnebre oceano” até ser resgatado. 

Ou seja, Ishmael estica a linha para que possamos também percorrê-la e nisso reside também a grandeza de Melville e a beleza da grande literatura: cada vez que a lemos é sempre novidade.