Vai um cafezinho?

 

Tive um único barbeiro em New Bedford, o Tobias, faialense com barbearia na Nash Road e que, mal se reformou, abalou para gozar os calores da Flórida e tornei-me então cliente da Zélia Fernandes, cabeleireira com concorrido salão (European Hair Stylists) na Acushnet Avenue, ao lado da igreja de Santo António de Pádua. Mas não é de Santo António que vamos falar hoje. Nem de cortes de cabelo. Vamos falar de café, tanto mais que hoje – 14 de abril – é Dia Mundial do Café. 
Aconteceu que a semana passada fui à Zélia e fiquei encantado com um belo cafeeiro cheio de bagos vermelhos que ela tem no salão. Vivi no Uige, em Angola, região de cafezais e aprendi um pouco da cultura do café, mas desde que vim para os EUA nunca mais tinha visto um cafeeiro. Só vejo café em lata, pacote ou saquinho, tratando-se do solúvel.
Talvez não saiba, mas um pé de café leva cinco anos para crescer e tornar-se cafeeiro, ou seja começar a produzir. A floração e frutificação é a base desse processo. Cada galho da planta enche-se de florzinhas brancas que parecem borboletas empoleiradas nos ramos, de cada flor resulta num fruto que vai desenvolver-se ao longo de seis meses e contém dois grãos de café colados. 
Cada cafeeiro produz em média por ano 2,5 quilos de bagos que corresponderão a 400 gramas de café torrado. No cafeeiro, o bago de café é sucessivamente amarelo e verde, quando amadurece fica vermelho e, conforme vai secando, fica com tom castanho escuro.  Depois de seco, o bago é descascado, torrado e moído, e teremos finalmente a bebida preparada por infusão de água quente com o pó de café.
Acrescente-se que existem duas espécies de cafeeiros, a coffea arabica que dá origem ao chamado café arábica, e a espécie coffea canephora que dá origem ao café conhecido como robusta. Dois terços do café plantado e consumido no mundo é arábica, pois é capaz de gerar uma variedade maior de cafés com aromas e sabores distintos e de qualidade. Já o robusta tem um sabor um pouco mais difícil de agradar. No entanto, é muito usado nos lotes de café solúvel devido ao seu alto grau de solubilidade. 
As duas espécies também possuem uma grande diferença no teor de cafeína antes do preparo. Enquanto o café arábica possui cerca de 1,2% de cafeína, o robusta tem 2,2%, quase o dobro.
A planta de café é originária de Kaffa, uma antiga província da Etiópia, e o nome café deriva da palavra árabe kahoua ou qahwa, que significa excitante e por esse motivo, o café era conhecido como “vinho da Arábia” quando chegou à Europa no século XIV. 
Manuscritos antigos mencionam que a cultura do café data de 575 no Iémen, onde era consumido como fruto e foi cultivado pela primeira vez em mosteiros islâmicos. Somente no século XVI, no Irão, os primeiros grãos de café foram torrados para se transformarem na bebida que hoje conhecemos. Não se sabe exatamente quando foi inventado o café como bebida, mas uma lenda conta que um monge cristão viu um jovem pastor chamado Kaldi e as suas cabras a comerem bagos vermelhos de um arbusto e o jovem explicou que as frutinhas lhes davam ânimo para a longa caminhada. À noite, no mosteiro, o monge bebeu o suco extraído das frutinhas que o pastor lhe dera e ficou desperto a orar toda à noite. Curiosamente, em 1400, a Igreja Católica definiria o café como “bebida do Diabo”, pelo estado de excitação que provocava em quem bebia.
O café tornou-se de grande importância para os árabes, que procuravam manter o completo controlo do cultivo da planta e da preparação da bebida. Ainda assim, a partir de 1615 o café começou a ser saboreado na Europa, trazido por viajantes das suas deslocações ao Médio Oriente. Os holandeses conseguiram os primeiros pés de café que cultivaram nas estufas do jardim botânico de Amsterdão e, em 1699, iniciaram plantios experimentais em Java, experiência de sucesso que levou outros países a tentar o mesmo.  Pelas mãos dos colonizadores europeus, o café foi chegando ao Suriname, São Domingos, Cuba, Porto Rico e Guianas, vindo das quais chegou em 1727 ao Brasil, e do Brasil passou a Angola.
O café é a segunda bebida mais conhecida e consumida no mundo inteiro, perdendo apenas para a água e, de acordo com a Organização Internacional do Café, é o produto mais comercializado em todo o mundo e superado apenas pelo petróleo. 
Há mais de 70 países produtores de café e em todo o mundo mais de 100 milhões de pessoas vivem da sua cadeia de produção e comercialização. O Brasil é o maior produtor, exportando 35,15 milhões de sacas de 60 quilos, seguindo-se o Vietname.
A Colômbia, terceiro maior produtor, diz que produz o melhor café do mundo, mas os colombianos queixam-se de que bebem o pior café do mundo. O país exporta todo o seu café e consome café de baixa qualidade importado do Equador e do Peru.
É algo semelhante ao que acontecia em Portugal nos tempos da outra senhora. Devido ao império que se foi, Portugal era o terceiro maior produtor mundial de café graças às suas possessões de Angola, Cabo Verde, São Tomé e Principe e Timor Leste, mas os portugueses bebiam cevada, cereal que, torrado e em pó, pode ser preparado como café, porém sem cafeína e sem o mesmo paladar. 
Presentemente, Portugal só tem café nos Açores, onde existem cerca de 50 pequenos produtores em todas as ilhas, exceto Santa Maria. São produzidas nove mil toneladas anualmente e mesmo assim os Açores são o maior produtor de café da Europa, visto ser o único.
O café dos Açores é arábica nas variedades Caturra e Yellow Bourbon, uma das mais apreciadas em todo o mundo por ter baixo teor de cafeína e ser muito aromática. Outra das particularidades da produção açoriana de café é que, devido ao clima subtropical, as plantas chegam a produzir duas vezes por ano, enquanto que no Brasil e em África só produzem uma vez por ano.
São consumidos cerca de 10.000 milhões de quilos de café por ano em todo o mundo, o que se traduz num consumo médio de 1,3 quilos por ano por pessoa.
A grande maioria das pessoas – e sou uma delas – não passa um dia sem beber dois ou três cafés. 
Quando eu era criança, os meus pais não me deixavam tomar café porque acreditavam que isso atrapalharia o meu crescimento. Mas nada prova que o consumo de café ou cafeína esteja relacionado com a altura.
A questão é que o café sempre teve a reputação de não ser saudável. Mas, em quase todos os sentidos acontece o contrário, o café tem efeito protetor contra várias doenças, incluindo cancro do cólon, do fígado e da próstata, além de diabetes, Parkinson e Alzheimer.
Os portugueses não são os maiores consumidores europeus de café. Segundo a European Coffee Federation, o consumo médio de café em Portugal é 4,7 quilos por pessoa/ano, enquanto a média europeia é 6,4 quilos.
A Finlândia é o país que lidera o ranking de consumo, com 12 quilos de café por pessoa por ano. Em segundo lugar encontra-se a Noruega, com 10 quilos por pessoa, seguida pela Suécia com 8,4 quilos. 
Este resultado está relacionado com os hábitos de consumo típicos dos países nórdicos, onde habitualmente se bebe café de filtro, o que faz aumentar significativamente a dose de café consumida. 
Além disso, os países nórdicos são de baixas temperaturas e por isso consomem mais bebidas quentes, praticamente três vezes o consumo de países como Itália, França e Brasil. 
O café chegou no início de 1600 ao que viria a ser os Estados Unidos trazido da Europa pelo fundador da Colónia de Virginia, capitão John Smith, mas os moradores de Jamestown preferiram continuar com o chá, a sidra e a cerveja. Contudo, o café foi chegando de mansinho e, em 1670, Dorothy Jones abriu a primeira cafetaria em Boston, que servia  “coffee and chocoletto”. 
Mas embora as cafetarias tenham começado a aparecer em Boston e em Philadelphia, o chá continuou a bebida favorita até 16 de dezembro de 1773, quando os colonos se revoltaram contra um pesado imposto sobre o chá decretado pelo rei George III e lançaram ao mar um carregamento de chá no porto de Boston. Foi o famoso Tea Party, que deu origem à luta pela independência dos Estados Unidos proclamada três anos depois. Nessa altura, consumir chá passou a ser considerado antipatriota e o café tornou-se a bebida favorita dos norte-americanos e as cafetarias lugar de convívio. Em 1792, um grupo de corretores da bolsa começou a reunir-se numa cafetaria da Wall Street, em Manhattan, e acabou fundando a Bolsa de New York.
Hoje, 64% dos norte-americanos adultos bebe pelo menos uma chávena de café por dia e existem perto de 40.000 cafetarias em todo o país, com uma venda média de 230 chávenas por dia. Nos Estados Unidos, o café acompanha o trabalho e por isso os americanos criaram o coffee break, expressão que significa pausa para café.
Se há uma cidade americana que tem estado sempre à frente no assunto café é Seattle, os seus residentes são apaixonados pela bebida e gastam em média $35 dólares por mês em café.
Foi em Seattle que nasceu a Starbucks, a maior rede de cafetarias do mundo abriu a sua primeira loja em 1971 no Pike Place Market. Mas só em Seattle a Starbucks tem mais de uma centena de lojas e no total são mais de 20 mil lojas espalhadas pelos cinco continentes, incluindo o Starbucks da estação do Rossio, em Lisboa, e da Trump Tower, na Quinta Avenida em New York. Mas a cafetaria mais famosa de New York é o Caffe Reggio, 119 MacDougal Street, Greenwich Village, do qual me tornei cliente quando cheguei aos EUA por ser o único local onde podia beber um expresso. O Reggio abriu em 1927 e começou por ser uma barbearia onde o imigrante italiano Domenico Parisi servia expressos a dez cêntimos a chávena aos clientes que esperavam para cortar o cabelo ou fazer a barba. A máquina de expresso tinha sido inventada em 1901 pelo italiano Luigi Bezzera.
Os norte-americanos não alteraram o seu hábito de consumo de café devido à pandemia de coronavírus, mas passaram a bebê-lo em casa, em detrimento das cafetarias e restaurantes, e as compras de café online aumentaram 57% com consumidores reduzindo as idas aos supermercados. Os Estados Unidos são o país que importa mais café e tem apenas uma pequena produção de Arábica Havaiano, cultivado 2.000 metros acima do nível do mar na encosta dos vulcões Mauna Loa e Hualalai na Big Island do Hawaii. É o famoso café Kona, conhecido pelo seu sabor rico, leve e delicado.
Qual é o melhor café? Muitos apaixonados por café andam pelo mundo procurando os melhores cafés, que normalmente alcançam preços elevados por causa da localização, forma de cultivo, produção, sabor ou raridade.  Um quilo do Jamaica Blue Mountain Coffee chega a $200 por ser produzido a mais de 1.500 metros do nível do mar e ter um sabor leve e não amargar. O café da Hacienda la Esmeralda, no Panamá, também é muito apreciado e por isso custa $350 o quilo.
Mas o café mais caro do mundo ($2.880 o quilo) é o Kopi Luwak produzido nas ilhas de Sumatra, Bali e Java, na Indonésia, e o leitor talvez se surpreenda com o motivo que o torna tão valioso, é que o grão de café passa pelo sistema digestivo da civeta, que é um pequeno animal mamífero carnívoro.  O animalzinho come os grãos do café, o seu processo de digestão faz com que fiquem mais suaves e com baixa acidez. Os grãos são depois extraídos dos excrementos da civeta e convertidos num café com sabor incomparável, dizem.
O Kopi Luwak é vendido principalmente no Japão, na Europa e nos Estados Unidos. Uma chávena pode custar 50 libras esterlinas no Reino Unido, equivalente a $68.54. 
Mas quem não estiver disposto a pagar tanto por um café pode recorrer a uma alternativa mais barata, o Jacu Coffee do Brasil, produzido desde 2006 e que possui um processo de fabricação semelhante ao do Kopi Luwak, mudando, porém, o animal: em vez de cevitas, são os jacus, um género de ave encontrado na América do Sul, que dão um sabor todo especial à bebida. Surpreendentemente, a ideia deu certo e hoje o Jacu Coffee é um dos cafés mais conceituados do Brasil e do mundo. O quilo custa aproximadamente $1.150, mais em conta do que o equivalente indonésio.
E já imaginou um elefante participando do processo de produção de um café? Pois o Black Ivory Coffee da Tailândia é feito assim mesmo. Os grãos de café são engolidos por elefantes, passam pela digestão do animal e são expelidos nas fezes. O canadiano Blake Dinkin, que é dono do negócio, paga cerca de 10 dólares por hora aos trabalhadores indonésios que recolherem à mão os bagos de café das fezes de elefante. Esses bagos são depois secos ao sol e torrados, sendo necessários 33 quilos de bagos para produzir um quilo de café, que custa aproximadamente $1.200.
Atualmente, o Black Ivory Coffee vende-se apenas em hotéis de cinco estrelas na Ásia e no Médio Oriente, mas quem estiver interessado pode comprar este peculiar café na internet a $180 por 100 gramas, à parte os custos de envio.
O caro leitor teria coragem de provar um destes cafés? Por mim, os indonésios e tailandeses podem-nos beber todos. Prefiro o Kona Coffee do Hawaii, sabe bem e soa ainda melhor.