Coronavírus, cancelamentos e outros contratempos

 

 

A vida não está fácil devido à pandemia do coronavírus e do Covid-19, a doença sem cura que já contaminou 722.196 pessoas em todo o mundo e matou 33.986.

Em setembro passado, a Organização Mundial da Saúde divulgou um relatório no qual advertia que vinha aumentando o risco de uma pandemia global e levou apenas três meses, até dezembro, para o novo coronavírus surgir na cidade de Wuhan, na China.

Epidemiologistas acreditam que o coronavírus – que tem índice de letalidade de 2%, mas em pessoas com mais de 80 anos é de mais de 15% – pode infetar até 70% da população mundial e ser a maior epidemia da história desde a Gripe Espanhola de 1918, que infetou 27% da população mundial e terá morto cerca de 100 milhões de pessoas.

Os vírus e as bactérias são os grandes assassinos da história. A varíola, hoje erradicada graças às vacinas, matou 300 milhões de seres humanos ao longo de séculos, além de deixar inúmeras pessoas com a pele marcada.

O sarampo, um vírus que foi o começo do fim do Império Romano, tendo sido propagado em Roma pelos soldados que tinham combatido no Médio Oriente, matou mais de 200 milhões de pessoas. Antes da vacina ser introduzida em 1963, registavam-se grandes epidemias de sarampo a cada 2-3 anos e morriam quase dois milhões de mortes por ano, diz a OMS.

Em 2009, num mundo muito mais avançado, uma nova cepa da gripe H1N1, similar à Gripe Espanhola de 1918, voltou a pôr o mundo em alerta. Em junho daquele ano, a OMS declarou que um novo vírus de origem suína tinha provocado uma pandemia global pela primeira vez em quatro décadas. 

Precavendo-se para responder à ameaça de uma epidemia devastadora, a OMS ativou os seus acordos com empresas farmacêuticas para a produção de vacinas. Mas quando a vacina chegou, a gripe A, como foi batizada, já perdera intensidade e estava recuando, depois de deixar mais de 250.000 mortos, principalmente na África e Sudeste Asiático. Milhões de doses não foram usadas e as empresas farmacêuticas fabricantes de antivirais consideraram exageradas as advertências da OMS, mas a verdade é que, como muitos outros vírus que um dia passaram de animais a humanos, a gripe A continua a infetar-nos como um vírus sazonal.

Ainda não há vacina contra o coronavírus e como tal só há uma maneira de nos protegermos e que é escondermo-nos uns dos outros para evitar contágio. 

Sair de casa tornou-se extremamente arriscado. Segundo o “New York Times”, aproximadamente três de quatro pessoas nos EUA estão ou estarão em breve de quarentena em casa, enquanto os estados tentam conter a propagação do coronavírus antes que os hospitais fiquem sobrecarregados.

Os governos declararam o alerta nacional de coronavírus e proibiram as pessoas de andar na rua exceto para ir à farmácia ou à mercearia. Mas as pessoas têm de ficar a um metro de distância umas das outras, o que pode ser trágico. Em Portugal, por exemplo, estão proibidos os apertos de mão, beijinhos e abraços. Não se morre de coronavírus, mas pode-se morrer de saudade.

New York, Lisboa, Paris, Ponta Delgada e outras grandes e pequenas cidades nunca estiveram tão desertas e silenciosas. Está a acabar o papel higiénico, o álcool e a lexívia. Vai sobrar gasolina e gasóleo porque os países têm estado parados, menos as bichas dos supermercados.

Em Portugal, devido à pandemia, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já decidiu a anulação das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que estavam previstas no mês de junho na Madeira e junto das comunidades portuguesas na África do Sul.

Muitos outros eventos portugueses poderão ser cancelados devido ao coronavírus. É o caso das Festas dos Santos Populares que estão agendadas para o mês de junho com arraiais em todo o país. Este ano poderá não haver desfile das marchas populares na Avenida da Liberdade nas festas de Santo António em Lisboa, nem arraiais de São João no Porto.

A situação de pandemia que o coronavírus provocou nos Estados Unidos não poupou as comunidades luso-americanas. Os organizadores do International Portuguese Music Awards, que teria este ano a oitava edição, cancelaram o espectáculo de atribuição de prémios que estava marcado para 25 de abril no Teatro Zeiterion, em New Bedford, com apresentação a cargo da atriz Daniela Ruah, do elenco da série policial “NCIS Los Angeles”, da CBS. “Num futuro próximo” deverá ser feita uma entrega virtual dos prémios aos nomeados já anunciados. 

Com todo o pessoal do Sudeste de Massachusetts em casa e à espera que passe a praga do coronavírus, muitos perguntam-se se também terá lugar em New Bedford, a 106ª edição da tradicional Festa do Santíssimo Sacramento, que se realiza nos dias 30 e 31 de julho e 1 e 2 de agosto.

Steve Duarte, porta-voz da festa dos madeirenses de New Bedford, disse numa entrevista à radio Fun 107 que já está tudo preparado e, como as comidas só são compradas duas semanas antes, nessa altura é que se terá que tomar uma decisão. Mas em princípio teremos festa, nem que seja para estar sempre a lavar as mãos, de máscara a cobrir a boca e a um metro de distância uns dos outros.

Bem, a verdade é que se os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e o Campeonato Europeu de Futebol tiveram que ser adiados para 2021 por causa do coronavírus, também faz sentido cancelar a festa madeirense tal como foi cancelado o almoço dos Manéis, do qual este vosso criado seria finalmente um dos ilustres convivas. 

O meu caro Manuel Adelino Ferreira teve a gentileza de me convidar, embora eu não seja Manuel, nome ilustre com origem no hebraico Immanuel e que significa “Deus connosco”.

O almoço esteve inicialmente marcado para 19 de março no restaurante Bom Apetite, na Belleville Avenue, em New Bedford. Depois foi transferido para 23 de abril e por fim cancelado, que os tempos que correm não estão de feição para confraternizações.

Mas o que é a cimeira dos Manéis, perguntará o leitor. Bem é mais ou menos como a cimeira do Grupo das 7 Nações Mais Poderosas, que também não serve para mais nada a não ser conversar.

Começou por ser um almoço esporádico de Manuel Calado, Manuel Fernando Neto e Manuel Adelino Ferreira. Para quem porventura não saiba, Calado foi chefe de redação do “Diário de Notícias” que se publicou 50 anos em New Bedford e depois noticiarista da WJFD-FM, a rádio portuguesa da cidade. Manuel Adelino Ferreira, que por sinal começou como noticiarista da WJFD quando ainda se chamava WGCY, foi depois diretor do “Portuguese Times”. E o Manuel Fernando Neto, cujo primeiro emprego (com 10 anos) foi na tipografia do “Correio da Horta”, extinto vespertino que se publicou na ilha do Faial e que deixou aos 17 anos (1960), quando veio para New Bedford, onde se tornou conselheiro municipal e agente de seguradoras, com muito mais lucro do que se tivesse continuado nos jornais.

Tanto quanto sei, as almoçaradas começaram há coisa de dois anos entre o Ferreira, o Neto e o Calado no restaurante Aliança, na Cove Street. Passaram depois para o Clube dos Pescadores, na Orchard Street e o Álvaro António juntou-se ao trio. Agora têm lugar no Bom Apetite e o grupo aumentou com o João Pacheco; o Tony Cruz, talvez levado pelo Álvaro; o João Pinheiro levado pelo Neto e o Onésimo Almeida possivelmente levado pelo Adelino. Os novos membros seriam este escriba e o Ludgero Silva, que continua a trabalhar com os órgãos (musicais), mas o coronavírus adiou a nossa admissão.

Mas quando a crise do coronavírus passar tenciono ir à cimeira dos Manéis. A velhice também é para celebrar. Claro, trocava os 80 anos por ter novamente 40, se fosse possível. Não sendo, tento aproveitar o melhor possível a idade que tenho. É como diz o Woody Allen, a alternativa é muito pior. Não chegar a velho é muito mais desagradável do que ser velho.

Um bom exemplo é Manuel Calado, que está com 97 anos e continua a publicar as suas crónicas e poemas no “Portuguese Times”. Claro que vai chegar aos cem e será sempre um jovem porque a velhice só chega quando desistimos de todas as coisas que sonhámos fazer.

Quanto ao coronavírus, não é problema. O Calado é que é capaz de contagiar o vírus.

 

O coronavírus e as vigarices

Os vigaristas nunca desperdiçam possibilidades. Isso acontece sempre que há uma crise ou catástrofe na saúde pública e as pessoas ficam desesperadas por mais informações. 

O coronavírus é a oportunidade perfeita. Tem sido largamente anunciado que ainda não há medicamentos para tratamento do vírus, mas os hackers e cibercriminosos  foram rápidos em tirar proveito do surto de coronavírus e já atrairam a atenção do Serviço Secreto, que alertou os americanos para o perigo do “phishing”, um golpe amplamente usado nestas circunstâncias.

A vítima recebe um e-mail que parece ser de uma empresa respeitável, como um grande banco ou empresa de tecnologia, e tenta fazer com que as vítimas entreguem informações pessoais sensíveis, como nomes de usuário, senhas e informações de cartão de crédito.

Os cibercriminosos já estão a explorar a crise enviando e-mails que parecem ser de organizações médicas ou de saúde legítimas. Muitas pessoas têm recebido e-mails fraudulentos de uma organização médica falsa que pretende ter informações importantes sobre o Covid-19 e exige que a vítima insira suas credenciais de login por email.

Outro esquema usa a mídia social para enganar as vítimas e levá-las a enviar donativos para causas de caridade falsas. 

A Federal Trade Commission e a Food and Drug Administration também alertaram sobre empresas por venderem produtos que supostamente curariam ou impediriam o coronavírus, mas esses medicamentos não são aprovados e apresentam riscos significativos para a saúde dos pacientes, disseram as duas agências em comunicado.

A FTC e a FDA emitiram cartas de advertência a sete empresas: Vital Silver, Quinessence Aromatherapy, N-ergetics, GuruNanda,  Vivify Holistic Clinic, Herbal Amy e The Jim Bakker Show.

Os produtos citados nessas cartas de advertência incluem chás, óleos, tinturas e prata coloidal, mas atualmente não existem vacinas, pílulas, poções, loções, pastilhas ou outros produtos sujeitos a receita ou sem receita médica disponíveis para tratar ou curar a doença de Coronavírus online ou nas lojas.

Um outro tipo de fraude é o “golpe de não entrega”. Aqui, maus atores anunciam empresas que vendem suprimentos médicos usados ​​para prevenir ou proteger contra o coronavírus exigindo pagamento ou depósitos antecipadamente, mas nunca entregarão os produtos. 

Um dos casos sob investigação é o de uma vítima que pagou $19.700 por máscaras que nunca chegaram.