Uma Terra Prometida: O Sonho, a Esperança e a Realidade

 

 

 

A democracia não como uma 
concessão oferecida 
de cima para baixo, não como uma partilha de recompensas entre grupos de interesse, mas como uma 
conquista, uma obra de todos.
Barack Obama in 
Uma Terra Prometida
 
Nem sempre tudo é político, mesmo que se esteja na chefia de uma das nações mais influentes no domínio da política internacional. Barack Obama, o quadragésimo-quarto presidente dos Estados Unidos da América, prova-o no seu último livro de memórias, A Promised Land (Uma Terra Prometida).  Estamos perante uma narrativa deslumbrante, contendo uma justaposição perfeita entre o mundo político e pessoal, dando-nos uma visão de um dos presidentes e ex-presidentes mais populares da modernidade americana, cujo carisma e universalismo fez com que o mundo inteiro olhasse para a política americana de uma forma diferente.  Como os melhores autobiógrafos, Barack Obama escreve sobre si mesmo na esperança da autodescoberta e simultaneamente na expectativa de que a América continue a permitir a autodescoberta de todos quantos a habitam.    
As memórias presidências fazem parte do cânone literário americano desde que Theodore Roosevelt publicou a sua autobiografia em 1913.  A minha primeira leitura de memórias presidenciais, data 1982, quando fui à biblioteca pública (havia pouco dinheiro para livros, e ainda há…) e trouxe Keeping Faith: Memoirs of a President de Jimmy Carter (presidente dos EUA entre 1976-80).  Desde então tenho lido quase todas as autobiografias dos presidentes americanos dos últimos 40 anos, e recuado a outras eras para ler as Lyndon Johnson e os três volumes de Harry Truman.  Não é exagero dizer-se que a prosa de Barack Obama é das mais líricas de todos que li.  Aliás, o antigo presidente americano já nos habituara a uma escrita altamente refletiva no primeiro livro que publicou, quando tinha pouco mais de 30 anos:  Dreams of my Father (A Minha Herança) e mais tarde num livro muito mais político: The Audacity of Hope (A Audácia da Esperança).   
Ao ler A Promised Land (Uma Terra Prometida), com memórias profundamente introspetivas e às vezes elegíacas, recapitulei uma frase que o escritor James Baldwin disse em 1970, dois anos depois do assassinato de Martin Luther King Jr. e desesperado com a América do exterior.  “A esperança”, disse Baldwin a um repórter da revista Ebony, “é inventada todos os dias”.  Na realidade, inventar esperança tem sido o projeto de Barack Obama, desde os seus primeiros dias como organizador em Chicago até 1a campanha de 2008, uma presidência de dois mandatos e agora, em retrospeto, a sua carreira intermitente como memorialista. Finalmente livre da política eleitoral, o ex-presidente admite que o projeto não tem sido fácil, e que por vezes tem lutas internas para encontrar a esperança – essa esperança que personificou para tantos americanos e tantos homens e mulheres em várias partes do mundo. 
As 700 páginas, deste primeiro de dois volumes, não são totalmente dedicadas à presidência.  Nas primeiras duas centenas vive-se alguns dos momentos mais significativos da sua vida como ativista comunitário e a sua entrada, incluindo os falhanços, no mundo da política do estado de Illinois, onde está patente a dicotomia do serviço público:  servir as comunidades que mais precisam, com a necessidade de se ter um relacionamento com os poderes políticos estabelecidos, assim como o poder económico.  Obama, corajosamente, reflete esses paradoxos, intercalando-os com uma introspeção invulgar em memórias presidenciais.  Aliás, um dos aspetos mais reveladores deste livro centra-se na capacidade de relacionar o poder político com o quotidiano do cidadão comum.  
Como todas as memórias dos chefes de estado americanos, particularmente dos últimos 50 anos, esta narrativa também contém alguns dos esperados momentos que servem para amplificar a reputação e moldar o seu legado, embora a explanação siga profundamente os hábitos discursivos de pensamento de Obama que quaisquer vitórias que ele retrate, patenteiam-se tão duras quanto tênues.  Aliás, a escrita de Obama está marcada por dois classificadores: ainda que -colocando-o no início de uma frase, para qualificar e contra-analisar tudo o que ele afirma, e: talvez – quando reflete sobre opções aos vários acontecimentos, obsequiando confissões desimpedidas das suas próprias dúvidas. Em momentos que poderão ser interpretados de mitificação magnificente, Obama organiza as suas notáveis ​​habilidades de contar histórias para desmitificar-se a si próprio.  Ao longo desta impressionante narrativa Obama dirige-se às “próximas gerações”, aos jovens que buscam “refazer o mundo”, não apenas com a possibilidade da dita audácia da esperança, mas também com as realidades das forças que a inibem.
Em termos da presidência A Promised Land fica-se, como se disse, pelos primeiros dois anos como chefe de estado.  E este não é um simples projeto de polimento do legado pós-presidencial a que nos habituamos em obras desta natureza. Há uma grandeza literária, única neste tipo de escrita, com referências a Hemingway e Yeats, entre outros, e representações dramáticas de momentos excelsos e perigosos captados em diálogos que nos lembram o famoso dramaturgo americano Aaron Sorkin.  Praticamente todos os êxitos são condimentados com ponderações misantropas sobre as indeclináveis limitações ​​da presidência americana.
Uma das notas dominantes nestas memórias presidenciais é a beleza da sua escrita quando toca em assuntos pessoais, que estão interlaçados com o seu percurso político. A descrição de quando ajuda Malia com suas primeiras calças de balé. A risada da bebé Sasha enquanto ele mordiscava os seus pés. A respiração de Michelle que fica mais lenta ao adormecer no seu ombro. A emocionante descrição da sua mãe chupando cubos de gelo, enquanto o cancro destruía as glândulas.  A narração dos seus avós, gente da classe trabalhadora que lhe ensinaram o valor do trabalho e do compromisso com a sociedade, particularmente a avó materna com quem mantinha uma relação muito especial.  O livro contém uma linguagem poética, uma escrita repleta de uma riqueza imaginativa, onde os pequenos detalhes sobressaem com uma pujança que é honesta e elevam todo o tipo de trabalho e todo o tipo de profissão, tal como, quando traça o quotidiano dos jardineiros da Casa Branca: “sacerdotes silenciosos de uma ordem bondosa e solene.” 
Apesar de ter sido vilificado pela nova direita americana, trazida para Washington por Newt Gingrich em 1994, e amplificada pela criação do Tea Party e outras iniciativas conservadoras, como a afirmação de Mitch McConnel (na altura líder da minoria republicana do Senado) cuja prioridade era a obstrução completa do primeira presidente afro-americano no país,  a esperança que o resto do mundo via com a América que elegeu Barack Obama, expressa em várias capitais do mundo que ele visitou, era denegrida pelo novo Partido Republicano, em discursos e ações nocivas que acabaram por dar o oxigénio que um populista demagogo, utilizou para respirar e criar um dos movimentos mais obscuros dos últimos anos na sociedade americana.  O livro, que acaba como se disse com os primeiros anos de uma governação de oito anos, não entra na obstrução dos conservadores que prefeririam destruir o país, retirando qualquer espaço de sucesso ao primeiro presidente afro-americano.  Mesmo com tamanha ingurgitação Barack Obama retirou a América do caos económico em que vivia, do isolamento que George W.  Bush tinha cavado na cena mundial, estabeleceu o Obamacare - cuja luta é delineada magistralmente no livro, e trouxe uma série de novidades: desde o apoio a igualdade no casamento, igualdade no género e lutas incessantes pelas minorias étnicas e pelos emigrantes.                
Há ainda uma palavra a dizer sobre a política internacional.  Nesse contexto estão uma amalgama de encontros, diálogos, notas sobre discursos e políticas ao longo do qual ele mostra-se, claramente, discípulo do chamado “excepcionalismo americano”, não como política arrogante e autoritária, mas como veículo unificador de todos os sistemas democráticos.  As passagens sobre discursos e encontros importantes que delineavam uma nova América, pós invasão do Iraque, são espaços de leitura fascinante.  Até porque a ideia de América, o excepcionalismo que ele defendia desde a sua juventude, e bem patente no livro, não se baseava em branquear a história, mas no princípio de que “a ideia de América, as promessas da América” eram tão reais como a constituição americana e a declaração da independência, redigidas como escreveu: “por pensadores brilhantes, pese imperfeitos, que tentaram elaborar um sistema ao mesmo tempo robusto e passível de transformação.”   
 A Promised Land (Uma Terra Prometida) é, em muitos aspetos, uma espécie de diálogo, aberto e honesto, que Obama mantém consigo próprio - questionando a sua ambição, lutando para saber se os sacrifícios valeram a pena, alternando entre o orgulho pelas realizações do seu governo e a dúvida sobre se fez o suficiente. Escrito na era Trump, sob uma administração decidida a repudiar tudo o que ele defendia, e defende, a sua prosa, extramente elegante e sedutora, está repleta de incertezas, que todos devemos ter, sobre o estado da nossa política, sobre se na realidade algum dia chegaremos à verdadeira terra prometida.  É um livro sobre a verdadeira América, um país em construção, que nunca será finalizado.  E daí a sua beleza.