Dos Livros e do Mundo: O Crítico Literário e a Sociedade

 

 

 

Só os grandes artistas entram na nossa alma.
Vamberto Freitas in BorderCrossings: leituras transatlânticas 

O poeta americano William Carlos Williams dizia que a escrita era uma doença, imparável, que não tinha cura.  E ainda bem para as letras portuguesas que Vamberto Freitas sofre dessa doença e continua com a sua profícua escrita.  Há várias décadas que a crítica literária de Vamberto Freitas ilumina a literatura e a vida.  É que cada texto deste crítico literário, com uma invejável obra publicada, é, em si, um hino à literatura e uma chamada de atenção ao mundo.  Mais do que uma simples recensão, os ensaios que há muito o Vamberto nos habituou a ler, são peças literárias completas que contêm uma simbiose perfeita entre a análise profunda e a preocupação, a idiossincrasia e a criatividade do crítico, sempre atento ao cosmos que o rodeia e à tradição literária que possuímos.  
Daí que o novo livro de Vamberto Freitas, o quinto volume de BorderCrossings, é mais um contributo importante para os Açores e para a literatura.  Não só a literatura açoriana, a qual ele tem defendido, e para a qual tem contribuído imenso, mas também a literatura luso-americana, aqueles que no continente norte-americano continuam a criar com raízes açorianas, assim como escritores de Portugal continental, muitos dos quais entendem a açorianidade, e, obviamente a literatura norte-americana.  Não tivesse ele já uma longa carreira de escrever sobre o melhor que se produz em termos literários nos Estados Unidos da América.  Recordemos que já há mais de três décadas os seus textos, a partir de Los Angeles, patenteavam nas páginas do Diário de Notícias.  Neste volume de BorderCrossings, teve o cuidado de incluir uma amalgama de escritores americanos traduzidos e publicados em Portugal, porque tal como escreveu na Nota Prévia, são vozes que: “de algum modo exercem influência sobre os nossos próprios escritores.” 
Dividido em quatro secções, este novo volume, tal como os que o antecederam, é um magnânimo trabalho de inclusão de todos os mundos que constituem o nosso mundo, particularmente a açorianidade, que neste século XXI só se entende com a sua diáspora.  A primeira secção tem por tema: Açorianidade Negada e Reafirmada.  Uma excecional coletânea de 23 ensaios que simbolizam as constantes nuances da criatividade literária em que o arquipélago é omnipresença, quer nos que escrevem na região, sendo nativos ou residentes, quer os que ao longe, separados pela geografia e por várias gerações ainda usam elementos da sua cultura e da tradição literária do nosso arquipélago na sua escrita.  O caso por exemplo do excelente ensaio sobre a poeta Lara Goulart no qual Vamberto Freitas acertadamente afirma: “poesia como esta é tanto americana como é portuguesa, a força das raízes, como já escrevi noutra parte, não nos permite, nunca, esquecer as origens, e muito mais tentar entende-las ou reclamar pertença ao passado de todo um país, que neste caso é o nosso, e absorver ou já ter absorvido a sua cultura erudita e antropológica.  Não será meramente acidental que estes escritores e poetas cada vez mais regressam a nós…”  Neste capítulo de BorderCrossings, a açorianidade, está bem patente, e é “reafirmada” dentro e fora do arquipélago.  
O segundo capítulo: De Todas as Diásporas, são 19 textos que nos transportam aos múltiplos mundos que hoje são (apesar dos nativismos exacerbados dos demagogos políticos, que infelizmente abundam em todos os continentes e em todas as latitudes) a realidade do mundo que todos queremos erguer, e que a literatura sempre tem construído.  Ao longo destes dezanove ensaios nota-se um cuidado do crítico literário em gerar um espaço onde todas as diásporas tenham a sua voz.  Magistralmente, Vamberto Freitas, interliga as vozes de uma diáspora que não é só externa, mas sobretudo interna.  Desde o admirável ensaio sobre o profundíssimo livro, A Obsessão da Portugalidade de Onésimo Teotónio Almeida, ao excelente texto sobre KNK de Luís Filipe Sarmento, passando por Amos Oz da Palestina, entre outros nomes da literatura nacional e internacional, este capítulo provoca, e ainda bem, alguma ansiedade e certamente que desperta quem porventura esteja menos atento à história e às mundividências contemporâneas.  Não se sai deste capítulo sem questionar a nossa modernidade.  Diria mesmo, que saímos deste capítulo querendo abraçar a leitura de cada livro recenseado.  Nestes ensaios, Vamberto Freitas faz justiça ao conhecido pensamento do escritor latino-americano Mário Vargas Llosa:  “um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias.” 
O terceiro segmento tem por tema: América de Todos e de Ninguém.  Aqui estão seis ensaios sobre uma América que preocupa todos quantos acreditam nos Estados Unidos, para além de uma nação.  Para quem ainda acredita na América como uma ideia, um lugar em constante movimento e onde as lutas internas significam avanços para a humanidade, este é um capítulo extremamente pertinente.  São sete prodigiosos ensaios sobre livros escritos em ambos os lados do atlântico que analisam, direta ou indiretamente, alguns dos principais dilemas de um american way of life, bombardeado com o narcisismo de Donald Trump, que afetam a América que todos conhecemos e aprendemos a gostar, alguns de nós a amar.  A América que Vamberto Freitas conheceu e viveu, tendo aqui residido a sua adolescência, e juventude, tendo aqui feito a sua formação académica, e aqui exercido a profissão de docente durante 14 anos, não é a América de hoje, como ele próprio escreve num dos ensaios.  Utilizando obras de conceituadas vozes da literatura e do jornalismo, o critico literário apresenta, clara e inequivocamente, a sua visão da América e a sua paixão pelo melhor que a América tem, na literatura e na sociedade.  E em cada texto, apesar da apreensão (que quem vive cá tem-na diariamente) Vamberto Fritas termina com a esperança de que as instituições americanas tenham a segurança necessária para sobreviver esta avalanche populista banhada pelas nojentíssimas águas do ódio. 
A última secção contém duas entrevistas que o autor deu a jornalistas açorianos.  Em destaque a literatura, a sociedade açoriana e este nosso pós-modernismo em que vivemos.  Para se ler pausadamente, dando espaço para que cada resposta tenha a sua própria respiração, estas entrevistas mostram-nos o que um dia escreveu Virginia Wolf: “cada segredo da alma do escritor, cada experiência da sua vida, cada elemento da sua mente, está bem patente na sua escrita.”  
Este é um livro para ser lido com atenção.  Nele estão um conjunto de ensaios que para além de analisarem obras literárias, dão-nos uma visão do mundo através da literatura, não fossem as obras literárias o que Erza Pound um dia disse: notícias que são sempre notícias.  O quinto volume do BorderCrossings, contém, como escreveu o poeta Álamo Oliveira, magníficos textos que expressam: “de forma a fazer com que o leitor aceite a importância de determinado livro, criando aliciantes, mas justificando sempre e com rigor os motivos das suas sugestões de leitura.”   
O conceituado crítico literário americano Harold Bloom, no seu livro, Como Ler e Porquê, afirmou que o essencial é, “ler profundamente, não para acreditar, não para contradizer, mas para aprender e partilhar no cosmos em que se escreve e lê.”  Uma leitura de BroderCrossings, deste quinto volume, assim como dos quatro que o antecederam, dará a cada leitor uma outra perspetiva da literatura, das letras dos Açores que não se circunscrevem ao arquipélago, das diásporas, que de uma forma ou outra, todos vivemos.  É que tal como escreveu o autor, andamos todos “à busca pelo nosso lugar a que poderemos chamar de casa nossa, ou então recriarmos as nossas pátrias imaginárias e interiores.”
Pessoa dizia que: “a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta.” Vamberto Freitas relembra-nos isso em cada ensaio.  Nas páginas de BorderCrossings, vive-se e respira-se o melhor que há na literatura.   

Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019.