Diáspora Renovada: A juventude dentro e fora da nossa comunidade

 

 

 

 

O futuro pertence àqueles que o preparam hoje.
Malcolm X (ativista americano 1925-1955)

Gente jovem e as nossas comunidades de origem portuguesa nos Estados Unidos. O tema não é novo. Há anos que quem se preocupa com a preservação e a disseminação do nosso património cultural neste país debate este dilema: a falta de gente jovem nas nossas organizações. Aqui também já refleti sobre este assunto. Volto a debruçar‑me sobre ele, porque a PALCUS (Portuguese-American Leadership Council of the United States) lançou um projeto extremamente interessante: uma academia para preparar novos líderes junto da nossa comunidade. A NEXTGEN promete ser um passo importante para um diálogo entre as novas gerações e a ponte que todos queremos construir para o futuro.
Primeiro, e acima de tudo, deve dizer‑se que ainda se encontram alguns jovens nas nossas organizações. Eles estão nas filarmónicas, nos grupos de folclore, nas equipas de futebol, nas danças do Carnaval, nas touradas e numa ou outra festa popular. Segundo, onde há cursos de língua e cultura portuguesas, continua, em muitas escolas e universidades, a procura pela aprendizagem sobre o mundo português e lusófono por jovens luso‑descendentes. Os cursos, e as associações estudantis das secundárias e das universidades, que possuem adultos interessados e dedicados nos bastidores têm tido grande participação dos jovens. Entretanto não deixa de ser preocupante que muitos jovens adultos, particularmente aqueles que estão entre a faixa etária dos 25 aos 35 anos (porque, atenção: um homem ou mulher com 40 e tal anos já não é jovem... é sim um adulto, com maturidade ou sem ela, mas já não tem tabaco no umbigo) não estão em muitas posições de liderança nas nossas organizações. Esse é um facto e deve ser uma inquietação coletiva.
Há muitos anos (mais do que talvez queira admitir) que trabalho diretamente com jovens. Hoje, muitos dos meus primeiros alunos são homens e mulheres, adultos jovens, precisamente na faixa etária que acabo de referir. Vejo alguns (não muitos) de vez em quando, em acontecimentos sociais da comunidade — quando os tínhamos antes da pandemia.  Agora vejo-os nas redes sociais e em acontecimentos virtuais.  Com aqueles que tenho oportunidade de falar, as opiniões são múltiplas: alguns, estão ocupados com as suas vidas profissionais e familiares e não têm tempo para mais; outros participam, quando o rei faz anos, mas acham que muito do que fazemos não tem grande qualidade. Diga‑se que até têm alguma razão. Outros, estão completamente inseridos no mundo norte‑americano e as suas raízes culturais acabam por ser relembradas unicamente em dias de festa, em convívios de família.
Já há alguns anos que a nossa Diáspora, neste grande mundo americano, vive uma transformação. A metamorfose natural que todas as comunidades étnicas nos EUA têm vivido. Daí que não deve ser motivo de alarme este “afastamento” de muitos jovens adultos, da maioria, diria eu. É naturalíssimo que os jovens que frequentam cursos do ensino superior, que se profissionalizam, tenham outros interesses e outros patamares pessoais e coletivos. Não deve ser surpreendente que muitos encontram no mundo americano o que não existe nas nossas comunidades.
Depois há algo que todo o mundo se esquece: em muitas das nossas associações, particularmente as ditas culturais, vive‑se pela parte dos mais velhos, os que ainda as controlam, uma saudadesinha tristonha e doentia que nunca encontrará eco nos nossos jovens, particularmente nos mais talentosos e dedicados. Ainda não descobrimos que o seu mundo é totalmente diferente do nosso e não compreendemos porque não querem estar nas nossas associações, ouvir a nossa rádio e ler os nossos jornais. O seu mundo é o mundo americano, salpicado com uma ou outra gota de cultura portuguesa. Eles (aqueles com quem falo de vez em quando) não têm, nem tempo, nem paciência, para o nosso constante namoro com a saudade tristonha.  
Mais, como é do conhecimento geral, há situações que são irrepetíveis, que têm o seu momento certo. Hoje é demasiado tarde para se salvar o que poderíamos ter salvaguardado em outras circunstâncias, se tivéssemos tido outra visão. Permitam‑me esta pequena história que aconteceu há quase três décadas. Estava com pouco mais de 30 anos (portanto ainda jovem, não?). Estive na mesa diretiva duma organização portuguesa na cidade onde vivo, por circunstâncias de doença de um elemento da mesma direção, assumi o cargo de vice‑presidente. Como era secretário tinha de conseguir alguém que me substituísse. Pensei que seria ideal termos uma presença ainda mais jovem e pedi a uma rapariga, com pouco mais de 20 anos, para assumir o cargo. Aceitou, mas com o condicionalismo de que como não sabia escrever bem em português talvez tivesse de fazer as atas em inglês. E porque não? Já então sabia que era por aí que a comunidade caminhava. Acontece que esteve no cargo poucos meses, porque o presidente que havia saído, regressou e insistiu em que houvesse alguém que fizesse as atas em português. Isto porque o presidente não sabia ler ou falar em inglês. Foi uma oportunidade desperdiçada. E o pior é que não foi caso único.
Daí que, sem querer, como dizem os nossos irmãos brasileiros “machucar” no ego de ninguém, acho que se estamos à espera de que os jovens assumam as direções e os cargos de liderança para fazerem o mesmo que fizemos, para serem meras fotocópias dos seus antecessores, isso não acontecerá. Esperemos que isso não aconteça! Aliás, esse é um dos problemas atuais. Em algumas comunidades isso tem acontecido, ou seja: jovens menos preparados assumem a liderança e repetem as mesmas injúrias do passado, estando totalmente deslocados da realidade que se passa nas vivências além do gueto social que os seus antecessores criaram.
A juventude, os adultos mais jovens, particularmente os mais talentosos e formados em vários campos do conhecimento, estão por aí, e acredito que há muitos que queiram dar o seu tempo e o seu talento para a sua cultura, para a cultura dos seus antepassados. Mas acredito que a maioria apenas o fará quando houver outras condições. Acredito que os jovens quererão organizações programadas para viverem os desafios no século XXI; quererão organizações em que haja igualdade, onde um homem e uma mulher tenham as mesmas responsabilidades e as mesmas oportunidades; quererão organizações que estejam abertas a todas etnias, podendo estar lado a lado com o seu parceiro ou parceira de outra etnicidade sem sentirem o peso da discriminação; quererão estar em organizações onde possam fazer a diferença e viver as novas comunidades, que com a pandemia jamais serão as mesmas. Os jovens precisam traçar o seu destino, conscientes do que disse Warren Buffet: “se alguém está sentado na sombra hoje, foi porque alguém plantou uma árvore há muito tempo.” 
Daí que saúdo esta nova iniciativa da PALCUS.  Da liderança dos seus diretores e do dinâmico e talentoso jovem Jordan Thomas de New Jersey assim como todos os que estão com ele nesta nova iniciativa. Que seja o começo de um diálogo frutífero e, verdadeiramente, inovador. Que seja um dos vários passos que precisamos dar, com alguma urgência, para sobre os ombros dos pioneiros que construíram a comunidade que temos, erguermos a nova comunidade, que por força da metamorfose natural e de uma pandemia global será diferente. A nossa diáspora precisa de renovação. A ponte para o futuro só poderá ser construída com a nossa juventude.