Palavras que o vento não levou: A escrita audaz de um açoriano da Diáspora

 

O seu espírito criador é alimentado por um grande 
poder inquisitivo e uma grande inquietude.  
São sempre novos os seus poemas, porque 
em cada leitura há sempre uma descoberta.

Maria da Dores Beirão
Poeta, Napa-Califórnia  

 

Desde que os emigrantes açorianos chegaram à Califórnia, ainda ano século XIX, que começou o nosso desejo de se cantar esta experiência em versos e poesia. Já em 1968, há quase quarenta anos, que os professores Eduardo Mayone Dias e Donald Warrin, publicaram uma magnifica antologia: Cem Anos de Poesia Portuguesa na Califórnia, na qual destacam dezenas de vozes que desde 1886 publicavam a sua poesia, ora em jornais, ora em revistas, e alguns em livro. A Califórnia açoriana conta com dezenas de homens e mulheres que através dos anos e das sucessivas ondas de emigração têm cantado as suas vivências além atlânticas, quer a nostalgia da terra, quer as nuances do novo mundo, quer as vivências de dois mundos, duas línguas e múltiplas culturas. Já que ma Califórnia a açorianidade tem abraçado outras culturas e outras etnias. Um dessas vozes, quer na poesia, quer na crónica, é a de José Raposo, para quem a escrita é uma forma de estar na vida. 
Se é verdade que o fingimento na poesia é a capacidade ou a necessidade de extrair poesia do encontro com a vida, José Raposo destaca na sua poesia elementos da vida, das várias instâncias que marcam o nosso quotidiano. Rimbaud escreveu algures: “o poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.” E a poesia de José Raposo é isso mesmo, um repositório dos vários sentidos, um diálogo com o passado, o presente e o futuro. Uma interlocução com a miríade de culturas que constitui um dos estados mais multiculturais e mais progressistas da união americana. Tal como escreveu Elen de Moraes no prefácio do livro 101 Sonetos ao Sabor do Vento: “ao escrever seus versos, descerra todos os véus do seu inconsciente, deixa cair as máscaras das aparências, compromete-se exclusivamente com a verdade do coração e nos faz sentir partícipes do instante sublime da sua inspiração.” José Raposo é assim: genuíno e igual a si próprio.  Para ele os versos são uma parte do quotidiano, como o é o seu gosto pela gastronomia, pelas aves, pelas nossas tradições e pela inovação 
Nasceu na ilha de S. Miguel, nos Açores, e em 1975 emigrou para os Estados Unidos da América, mais concretamente para o norte da Califórnia. Aqui, tem trabalhado, tem sido empresário de sucesso, líder comunitário e tem escrito poesia. Já publicou vários livros, sempre sem qualquer apadrinhamento, e com a independência que se espera da poesia e dos poetas. A irreverência de José Raposo, como poeta e como ativista da diáspora açoriana na Califórnia, tem-nos dado poesia que como descreveu o saudoso professor Fernando M. Soares Silva, mostra-nos os: “variados e até misteriosos recônditos da alma do poeta que, quer em solitude, quer nos bulícios da vida, nunca deixa de compor poesia…numa constante porfia de abarcar a omnímoda realidade humana e de a apresentar nos tons singulares da introspeção.”  No jornal Tribuna Portuguesa, o único jornal na diáspora açoriana do oeste americano e canadiano, é mais conhecido pelas suas crónicas, tratando assuntos do quotidiano e da comunidade portuguesa para a qual tem contribuído, como já o referi, como poeta e como ativista. É irreverente, como devem ser os cronistas, e de uma forma particular os poetas, porque tal como escreveu Baudelaire: “todos os grandes poetas se tornam naturalmente, fatalmente, críticos.” Até porque pessoalmente gosto, muito mesmo, da irreverência dos poetas e das crónicas com espírito critico, que sacodem com a poeira que por vezes cai nas nossas instituições e ali fica, sem que ninguém a queira assoprar. E a pior das poeiras é que acaba por criar teias de aranha cerebrais no seio de pseudolíderes comunitários.  
Os seus versos também têm sido utilizados em alguns fados, cantados por artistas da nossa Diáspora, tais como Jesualda Azevedo, Ramana Vieira, Debbie Azevedo, entre outras vozes da canção nacional de Portugal em terras californianas, onde temos um rico manancial de vozes, muitas de primeira, segunda e terceira geração. Gosta do improviso e dá a sua cantiga em terreiro, de vez em quando. Não há causa comunitária que não apoie e foi o sonho dele que deu lugar à recém-criada comunidade de escritores da diáspora açoriana no continente norte-americano, o Colóquio Cagarro sobre os auspícios da]o Instituto PBBI da universidade estadual da Califórnia em Fresno. É um utópico, como devem ser todas as vozes poéticas, porque como nos disse o escritor americano William Faulkner: “Nunca tenhas medo de levantar a tua voz a favor da honestidade, da verdade e da compaixão e contra a injustiça, a mentira e a ganância. Se as pessoas em todo o mundo...o fizessem, o mundo mudaria”. José Raposo, é, acima de tudo, um homem do seu povo, um “irrequieto poeta açoriano”, como também escreveu Fernando Silva.
Alma Repartida foi o seu primeiro livro, que mais do que nostalgia e saudade traz-nos uma amalgama de versos que tocam profundamente no espírito do emigrante açoriano. José do Couto Rodrigues, líder comunitário que dedicou muitos anos à editora Portuguese Heritage Publications of California, soube sintetizar a primeira publicação, que surpreende pela qualidade e pela força telúrica de cada poema: “recheada de interessantes e originais imagens poéticas, passou a ser aquela de todos que um dia deixámos os Açores. Frontal na sua poesia e na sua maneira de star, José Raposo, sem medo, arranca da sua alma os mais íntimos sentimentos e paixões.” Tal como se infere nesta citação, as imagens que José Raposo utiliza na sua poesia, do primeiro ao mais recente livro publicado, são imagens de uma poesia viva, de uma poesia ora repentista, ora contemplativa, do que John Keats magistralmente definiu: ‘se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.” 
Podia aqui debitar todas as publicações de José Raposo, as publicações poéticas, entenda-se, porque ainda um dia terá de reunir as suas crónicas e publicá-las. Porém não o faria com a eloquência que a cronista Margaria Da Silva o fez, englobando neste pequeno parágrafo a vasta maioria das suas publicações em português: “quando José Raposo deixou a sua Alma Repartida e Despida no Cais da Solidão, ele não desanimou e continuou a sua jornada através de 101 Sonetos ao Sabor do Vento, em busca de algo que pudesse saciar o seu ardente desejo de transmitir o que lhe vai na alma. Quer no mais calmo oceano, ou na maior procela, o poeta, mesmo com a Alma em Pedaços, é mestre seguro, ao leme da sua imaginação.” Com centenas de poemas em português, a língua que também utiliza nas suas crónicas, José Raposo, também cria no idioma da sua nova pátria. Tem uma impressionante coleção de poemas em inglês, os quais são ainda mais versáteis do que na sua língua materna. Com a mesma irreverência e com um estilo extremamente liberto e audaz, a poesia em inglês deste emigrante da ilha de São Miguel, que na Califórnia vive há quase meio século, mostra-nos clara e inequivocamente como o espírito açoriano, respira e cria em outras terras e em outras línguas. 
Em português ou em inglês, os versos de José Raposo, relembram-me que em tempos idos ouvi do escritor americano Charles Bukowski: A poesia abre os olhos, cala a boca e estremece a alma...” Bem-haja ao José Raposo por nos transmitir, em versos e em prosa, palavras que nos abanam e nos incentivam a sermos mais humanos, mais genuínos.