Pelas mãos azuis da madrugada:* do voto do emigrante ao metamorfismo da diáspora

 

A açorianidade pode ser um labirinto.
Pedro Almeida Maia
In A Escrava Açoriana

 

Porque em pouco mais de ano estaremos na preparação de eleições regionais nos Açores, e porque os partidos políticos começam a promover os seus habituais congressos e as suas jornadas, pensei ser oportuno dissertar sobre algo, que com toda a certeza estará, ainda mais uma vez, presente nas campanhas, particularmente no que concerne aos açorianos residentes no estrangeiro - o tão apregoado voto do emigrante (ou de açor-descendentes) para a Assembleia Legislativa Regional. É que, como se sabe, infelizmente, também se faz campanha política para as eleições regionais fora do arquipélago, nomeadamente nos Estados Unidos e no Canadá. E digo, infelizmente, porque muitos líderes na nossa Diáspora e também líderes regionais ainda confundem visitas de estado com visitas político-partidárias.
O voto do emigrante para a Assembleia Legislativa Regional tem estado na praça pública há muitos anos.  Recordo-me que num dos antigos congressos das comunidades, mais concretamente no que foi realizado em Ponta Delgada em novembro de 1991 – há 32 anos - o tema preferencial nos bastidores era precisamente esse, com a vasta maioria a reivindicar, a demandar, energicamente, o direito que o emigrante açoriano tinha de votar no órgão legislativo da sua Região Autónoma. Claro que o debate se tornava sempre mais vigoroso ao ser alimentado pelas forças políticas do arquipélago.  Umas por convicção, outras por pura demagogia.    
Três décadas mais tarde ainda se fala nesse “suposto” direito sagrado dos emigrantes. Um pouco pelas comunidades existem pequenos grupos, que reclamam um deputado - ou até dois ou três pela diáspora. E apregoam esse “direito” baseando-se sempre em que existem mais açorianos (se incluirmos açor-descendentes, entenda-se) na diáspora do que dentro do arquipélago. Daí ser quase blasfémia política não termos vozes da diáspora no órgão legislativo da Região Autónoma.
Mas será mesmo necessário ter-se deputado ou deputados pela nossa diáspora? Acredito que seria um erro e acho que as forças políticas na região deveriam ter a destemidez para enfrentar esta polémica. É que, acima de tudo, existe uma grande confusão. Quem outrora era a favor agora é contra. Quem foi contra, agora é a favor. Quem foi contra, depois a favor, depois contra, agora é de novo a favor. E assim se passam os anos, enquanto nas comunidades da nossa Diáspora os mais oportunistas e saudosistas, alguns até pensando em ocupar esse “lugar ao sol”, vão alimentando as suas esperanças com esta ou aquela afirmação deste ou daquele dirigente político-partidário.  
Antes de alimentarmos qualquer possibilidade, olhemos a alguns factos! E olhemos para esses factos sem a saudadezinha a bater no coração ou o oportunismo a sair pelos olhos. Primeiro, a emigração açoriana praticamente estancou há quarenta anos. Desde os meados da década de oitenta que o número de famílias a sair do arquipélago para terras americanas e canadianas tem vindo a reduzir-se, substancialmente. A nossa grande onda emigratória, como, aliás, todos bem o sabem, aconteceu nos anos sessenta e setenta do século vinte. A grande maioria emigrou antes dos Açores conhecerem a autonomia político-administrativa que o arquipélago agora possui.  Saíram das suas terras, como escreveu algures o poeta Álamo Oliveria: “por necessidade de barriga”. E em terras do continente norte-americano construíram o seu pé-de-meia. Nestas terras edificaram as suas casas, refizeram as suas vidas, lançaram raízes e hoje, quer queiramos quer não, não são apenas açorianos. Todos têm o hífen, mesmo os mais idosos e os mais saudosistas. Nos Estados Unidos são, açor-americanos e no Canadá, açor-canadianos. As suas referências culturais estão misturadas com elementos da cultura dominante ou das várias culturas de sociedades multiculturais. E também sabemos que na vastíssima maioria dos casos a nossa emigração das ilhas foi sempre, sempre, uma emigração para ficar. 
Os emigrantes, apesar de ainda estarem ligados à sua terra, ficam, com cada dia que se passa, mais integrados na sociedade que os rodeia. Os filhos e os netos, esses, não tenhamos quaisquer ilusões, já são americanos e canadianos, estando apenas salpicados com um pouco de açorianidade, a qual fica muitas vezes circunscrita à festa do Divino Espírito Santo, a um prato da nossa gastronomia e pouco mais.
Sejamos realistas, muito mais importante do que o emigrante, e os açor-descendentes, terem um ou dois deputados na Assembleia Legislativa Regional, é o trabalho que se tem feito e o muito que ainda há por fazer nas ligações culturais com as ilhas. Há que continuarmos com os intercâmbios, com as visitas de alunos, com os congressos, com as atividades que promovam os novos Açores na diáspora e nos mundos americano e canadiano.  Precisamos é que se eleve a Direção regional das Comunidades a Secretaria da Diáspora e que a mesma trabalhe com a cultura e a educação, para que nos Açores, se conheça cada vez mais essa parte importante da nossa história, essas vivências que ainda hoje existem.      
O que não precisamos é dividir ainda mais a diáspora com as políticas partidárias, muitas vezes inflamadas por interesses pessoais de personalidades cujas vidas estão alicerçadas nos guetos mais recônditos dessa mesma diáspora, e os quais gostariam muito, para sua promoção pessoal, que as comunidades fossem as mesmas de há 30 anos — que estivéssemos parados no tempo.
É imperioso, como já o escrevi em outros momentos, que a diáspora açoriana se politize, mas no país onde vive. É que os assuntos mais pertinentes, como o ensino da língua portuguesa e a manutenção e promoção da nossa cultura, jamais poderão ser resolvidos com ou por um ou dois deputados na Assembleia Legislativa Regional.  Veja-se o que acontece a nível nacional! Esses, e outros assuntos, poderão ser resolvidos muito mais facilmente se tivéssemos a representação que precisávamos ter a nível das câmaras municipais, dos distritos escolares e das assembleias estaduais. E, obviamente a nível nacional, onde pela Califórnia, como se sabe, temos quatro congressistas luso-americanos todos com raízes nos Açores. Um açor-descendente, sensibilizado para a importância da nossa língua como língua internacional, em cada distrito escolar onde temos uma comunidade oriunda dos Açores fará muito mais do que dois ou três deputados na Assembleia Legislativa Regional com salários do erário público que poderiam ser investidos na feitura de materiais didáticos sobre os Açores.
As relações dos Açores com a sua Diáspora não ganharão nada com uma eventual eleição de deputados para a Assembleia Legislativa Regional. Os partidos se quiserem pensar a médio e longo prazo, também sabem que não terão qualquer benefício, embora a direita sempre tenha pensado que o conservadorismo dos emigrantes poderia dar-lhes mais alguns lugares no hemiciclo regional. Não estejam assim tão seguros com as novas gerações. Mais, em termos de participação temos os resultados péssimos de votantes para o Concelho da Diáspora Açoriana.   
Daí que, olhando com alguma objetividade à situação, é tempo de se sermos pragmáticos e de construirmos o que na realidade é essencial. Há que dizer-se que os emigrantes açorianos, e seus descendentes precisam ter voz ativa nas suas respetivas comunidades, na sociedade dos países de acolhimento. Que as comunidades da nossa Diáspora precisam de líderes que queiram trabalhar com as mesmas, como têm demonstrado tantos homens e mulheres que generosamente dão do seu tempo para as mais variadas comissões e direções. Não é por termos um ou dois deputados na Assembleia Legislativa Regional que teremos o progresso e a integração que se deseja para os açorianos e os açor-descendentes. Aliás, a nossa presença na Assembleia Regional dos Açores, pode estar na forma de uma comissão parlamentar dedicada à diáspora, mas constituída por deputados eleitos pelo povo açoriano residente no arquipélago. Um grupo que pudesse, em nome do hemiciclo açoriano, e representativo de todas as forças políticas com assento no mesmo parlamento, acompanhar as vivências das nossas comunidades e trabalhar estreitamente com os parlamentares luso-americanos eleitos nos Estados Unidos e no Canadá. 
Pensemos em estruturas que nos fortaleçam como diáspora, na definição e no pensamento exposto pelo Cardeal Tolentino Mendonça: a diáspora acontece no encontro de duas perguntas: “de onde vens?” e “onde estás agora?”. A condição que o emigrante testemunha é a deste habitar “entre”, entre cá e lá, nem completamente cá, nem completamente lá, numa elaboração interior que carrega consigo a impossibilidade de ser uma coisa só. A diáspora inaugura efetivos espaços de negociação entre as culturas, iluminando de outra forma aquilo que, de forma simplista, pareciam processos rápidos de deslocação ou de assimilação. E traz um contributo essencial: mostra como a identidade de um país não é simplesmente uma ontologia predeterminada, congelada no tempo e no espaço, mas na fidelidade à sua história, é também um processo de atualização e de reconfiguração.” 
São estes espaços e estes processos, esta “reconfiguração” da açorianidade que precisamos construir com uma Secretaria da Diáspora e não com um ou dois deputados, que sejamos honestos, servirão apenas os assuntos do seu respetivo partido e dividirão, ainda mais, uma diáspora que já tem fragmentação em demasia. E até porque parafraseando Natália Correia neste ano do seu centenário, não precisamos adicionar a um Parlamento “em tédio morno.”       
 
*de um verso de Natália Correia dos 7 poemas da morte e da sobrevivência