A segunda descoberta dos Açores

 

 

Foi de uma maneira muito peculiar que a segunda descoberta dos Açores se tornou realidade. Antes do povo português se libertar do fascismo poucos eram os que conheciam a beleza natural do arquipélago dos Açores, mas com o 25 de Abril de 1974 e a independência das colónias africanas, algo mudou socialmente e financeiramente dando aos portugueses continentais a liberdade e a curiosidade de visitarem as ilhas que também eram e são Portugal. Antes, só os continentais que conheciam os Açores eram os caixeiros-viajantes.  Os retornados das colonias africanas eram gente com outra dinâmica, conhecimento e vontade de progredir, mas deixaram para traz todos os seus haveres, desde a casa, à fazenda/herdade, pequenas e médias indústrias, bem como a pecuária a agricultura e a pesca. Depois de transferirem as suas poupanças financeiras, embora com muita contestação, reorganizaram-se, estabeleceram-se e começaram a conhecer o país de norte a sul, incluindo o arquipélago dos Açores e as suas nove ilhas no meio do Atlântico. 
Na década de oitenta Portugal entrou na União Europeia, abrindo o país ao mundo, não só ao europeu, mas também a todos os outros países, curiosos de conhecer cidades como Bragança, Guimarães, Lisboa e o Algarve, bem como o arquipélago dos Açores. De avião ou de barco os turistas começaram a passar férias no arquipélago. A sua beleza natural, gastronomia e a amabilidade dos seus habitantes,  sendo o mar uma das grandes atrações devido à sua temperatura moderada e diversidade de peixe e cetáceos que saltam e mergulham encantando os visitantes/turistas. Até os imigrantes açorianos dispersos pelo mundo, embora a sua maioria se encontre na América, com mais frequência começaram a visitar os Açores e seus familiares. As últimas décadas do século passado nos EU, os imigrantes progrediram em consequência da evolução económica, tecnológica e até social, proporcionando mais trabalho estável e diversificado, exigindo uma mão-de-obra especializada, tendo os imigrantes e luso-americanos trabalhado para atingir competências técnicas, não conhecidas pelos mesmos, para competir no mercado do trabalho, como todos ou outros grupos étnicos. É importante louvar-se e conhecer-se os esforços que os imigrantes açorianos tiveram para se integrar e compreender como funcionava a vida familiar, profissional e social a todos os níveis na América do Norte. A começar pela aprendizagem da língua inglesa e reajustamento aos métodos de trabalho com equipamento mecânico ou digital, que já fazia parte da empregabilidade nos anos sessenta e mesmo cinquenta.  
Há um aspeto relevante da imigração açoriana de que pouco se fala, mas foi bem notório no fluxo imigratório nas décadas 50, 60 e mesmo nos setenta, embora nos 70 o número fosse menor, porque depois do 25 de abril Portugal mudou. A empregabilidade prosperou e a economia lentamente cresceu melhorando a vida do povo. Todavia, a imigração açoriana continuou a expandir-se nos EU, prosseguindo sempre o mesmo método, ou seja, parte dos imigrantes fixavam-se na costa Este e outra no Oeste, hoje dispersos por todos os estados. A tendência e o objectivo era juntarem-se com os familiares e amigos da mesma ilha ou freguesia.  Os que foram para a costa Oeste na sua maioria tiveram uma adaptação mais rápida, porque os familiares e amigos(as) facilmente arranjavam trabalho. Para começar, a lavoura aceitou-os, onde ranchos com centenas de vacas e empresas que trabalhavam e trabalham o leite, fabricando manteiga, queijo e outros derivados. Contudo o tratamento dos animais e a maneira de ordenhar as vacas não era fácil, por ser feito mecanicamente, o que requeria prática. No Oeste a indústria piscatória, bem como outras, eram também muito fortes, havendo açorianos que tinham barcos com tripulações muito experimentadas que contratavam pescadores recém-chegados, por conhecerem os mesmos ou por serem recomendados por alguém que os conhecia. O mar foi, e continua a ser, uma das fontes de trabalho que sustentaram centenas, para não dizer milhares de famílias, o que os imigrantes não esqueceram, continuando a ter muito respeito pelos pescadores que viveram e vivem da pesca. Contudo, o mar proporcionou a muitos desses imigrantes a compra de barcos piscatórios tecnicamente preparados para a pesca profissional. Com muito trabalho, persistência e competência houve os que voltaram ao mar tempestuoso e poderoso, que só a experiência e conhecimento do mesmo os levava a enfrentá-lo. Como é óbvio o oceano pacífico tem as suas caraterísticas climáticas próprias, às quais os pescadores açorianos se adaptaram.  Com o tempo os açorianos, tanto a Oeste como a Leste, passaram a trabalhar em todas as indústrias existentes nas cidades ondem viviam, senho hoje os seus descendentes técnicos nas mais diversas áreas profissionais, como engenharia, mecânica, eletricidade, medicina, contabilidade, professores incluindo os professores doutorados, investigadores, etc. 
Na costa Este e, também dispersos por várias cidades a adaptação foi mais difícil porque a empregabilidade era direcionada para fábricas produtoras de várias mercadorias e industriais das mais diferentes áreas, umas mecanizadas outras com tecnologias-de-ponta, o que requeria o conhecimento da língua inglesa. Também alguns voltaram a ser pescadores e outros trabalharam em diferentes tipos de trabalho/s, tal como, na costa Oeste foram os familiares e amigos que trabalhavam nessas indústrias que guiaram os recém chegados a aprender como as máquinas funcionavam, enquanto que outros(as) aprendiam trabalhos menos técnicos. Havia sempre alguém bilingue que ajudava e ensinava os recém-chegados a trabalhar nas máquinas e passadeiras rolantes, que por vezes a velocidade era extremamente exaustiva. Tudo era difícil e complicado desde o emprego ao clima, tórrido e muito frio, com neve pelo joelho, sendo a ida e o regresso a casa fatigante (gelada). Ter-se um automóvel nunca foi um luxo, mas sim uma necessidade, todavia por vezes pouco compreendida. Mas, o carro requer uma carta de condução o que para muitos era totalmente impossível porque não sabiam Inglês, tendo também dificuldade com a leitura e escrita em português, não podendo adquirir a mesma, contudo, esta foi autorizada em diferentes idiomas. Na maioria foi o filho ou a filha em idade escolar que aprendeu inglês nos Açores e, continuou na escola nos EU que passaram a ser o/a guia que totalizava os gastos da casa, compra do carro e, por fim a casa. A restante família desde o pai à mãe, e os outros descendentes com mais de 16 anos, o Inglês foi aprendido no trabalho com os amigos, na rua ou com a ajuda dos irmãos/as mais novos em casa. Muitos voltaram à escola e seguiram o ensino superior, preparando-se para a competição feros que o mercado do trabalho requeria e requer. Nos EU todos podem ter um trabalho, independentemente do nível escolar, mas se pretendem ascender profissionalmente na vida, têm de estar qualificados e, trabalhar muito para lá chegar. Os preconceitos sociais têm de ficar para traz, porque nos EU “ninguém dá nada a ninguém, mesmo que seja só um cêntimo”, pelo que, se o quer atingir têm de trabalhar duro. Tanto no Oeste como no Este a competição é idêntica, a grande diferença está no clima. As dificuldades foram penosas e complexas para todos os que deixaram a sua pacífica ilha, cidade, vila, aldeia, verdejante, florida e bela, mas nunca esquecida. Os mais novos, embora nascidos nos USA depois de irem uma vez ao Açores nunca se cansam de voltar para mergulhar na água límpida de azul forte, que é o nosso mar. Este relaxa o stress que o profissionalismo esgotante norte americano exige.  São estes jovens e, até os mais idosos, que visitam a ilha/ilhas, vão  conhece-la(s), para encontrar as suas raízes, e a sua descendência nas repartições publicas, ou até um amigo da família que os leve a conhecer a localidade onde os avós ou até país nasceram e viveram.  Muitos apresentam-se como turistas, mas na realidade fazem parte da primeira, segunda ou terceira geração que deixaram os Açores, mas nunca o esqueceram.