Uma biografia de Agustina Bessa-Luís

 

 

Conta-se que Heidegger (1889-1976), um dos maiores filósofos do século XX, apesar da sua adesão ao Partido Nacional Socialista alemão em 1933, começou um curso sobre Aristóteles com estas palavras: “Aristóteles nasceu, escreveu e morreu. Vamos ao estudo da sua obra”, como quem diz: a sua biografia não tem qualquer interesse para o estudo do seu pensamento. Há quem esteja de acordo com o filósofo alemão, embora não seja o mais comum. Como parece evidente para a larguíssima maioria de estudiosos da Filosofia, o conhecimento da vida dos autores permite compreender e interpretar com maior profundidade a obra que eles nos deixaram. Um exemplo: não se entende a noção de substância apresentada por Descartes, e todas as dificuldades que ela suscita, se não tivermos em conta que o filósofo estudou em La Flèche, célebre colégio dirigido pelos jesuítas. A vida de um autor, o lugar onde nasceu, o seu percurso de vida, os livros que leu e os contactos que estabeleceu marcam-lhe a vida e a obra. Dando agora um exemplo da literatura: o facto de Vitorino Nemésio (1901-1978) ter nascido na Praia da Vitória, ilha Terceira, Açores, de ter frequentado os liceus de Angra do Heroísmo e da Horta, de ter vindo para o Continente estudar e de ter sido Professor Catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, permite uma leitura e compreensão mais profundas da sua obra. 
Vem tudo isto a propósito de uma biografia que estou a ler da autoria de Isabel Rio Novo, com o título O Poço e a Estrada. Biografia de Agustina Bessa-Luís [Lisboa: Contraponto, 2019]. A biógrafa considera que o conhecimento da vida da escritora: família, a terra onde nasceu e os diversos locais onde viveu (Douro, Porto, Póvoa de Varzim, Esposende e, finalmente, Porto, onde veio a falecer), as experiências por que passou e as inúmeras leituras que fez – Agustina era uma leitora compulsiva - são fundamentais para compreender os escritos e as opções da biografada, pelo que, na preparação do livro, Isabel Rio Novo  dedicou largo tempo a investigar tudo o que tem a ver com Agustina, desde a história da família, as terras onde viveu, as pessoas com quem conviveu. Além disso, fez uma aturada releitura de toda a obra produzida pela biografada, investigação essa evidente ao longo das 416 páginas do texto e, de um modo particular, nas 81 páginas de notas (417-496) que antecedem o ÍNDICE ONOMÁSTICO com que o livro termina. Impressiona, de sobremaneira, o facto de muitas dessas notas apontarem passagens da obra da escritora, romances e biografias, por exemplo, em que Agustina recorre a experiências vividas ou leituras feitas para o desenvolvimento da trama, a caracterização de personagens ou a descrição do meio ambiente em que decorre a acção. 
Para Isabel Rio Novo uma biografia não é uma tábua cronológica do que aconteceu ao biografado, mas uma leitura da sua vida e obra que implica interpretação de dados e mesmo congeminações em que a/o biógrafa/o se projecta no biografado. É curioso que no prefácio à sua tese de doutoramento, A mocidade de Herculano até à volta do exílio (1810-1832), Vitorino Nemésio, para grande escândalo na época, afirmava claramente ser essa projecção fundamental; escrever uma biografia é também obra de escritor. Penso, portanto, que este livro ganhou muito com o facto de a sua autora ter provas dadas na ficção.
No primeiro capítulo, cujo título é “Chamar Agustina” (11-21), Isabel Rio Novo refere as dificuldades próprias da construção de uma biografia e, acrescento eu, essas dificuldades são muito maiores quando o seu objecto é uma escritora da envergadura de Agustina Bessa-Luís. Aliás, a própria autora chama a atenção para o facto de Agustina nunca ter sido “uma escritora popular” (11). Autora de uma “vasta obra e avessa a catalogações, [em que] todos reconheciam o extraordinário domínio da língua, o fulgor do pensamento, ousado no seu tom sentencioso, o conhecimento profundo das paixões e dos comportamentos humanos, o estilo inconfundível” (11), “nunca foi uma pessoa ou uma escritora consensual”. Por não ser alguém que facilmente se encaixa, “duma forma simplista”, como a própria Agustina sublinhou (13), nos termos políticos dicotómicos de “esquerda-direta”, muito deve ter contribuído para dificultar a aceitação da escritora e para uma certa conspiração de silêncio que a perseguiu, como é de praxe com os nossos autores que não são catalogáveis com facilidade naquele esquema. Devo reconhecer, porém, que quando da morte da escritora, a 3 de Julho do ano passado, o pesar pela sua morte e os elogios à sua pessoa e obra foram bem audíveis em toda a comunicação social: jornais, rádios e televisões, 
O Poço e a Estrada. Biografia de Agustina Bessa-Luís, dá um contribuo inestimável para o conhecimento da obra de Agustina Bessa-Luís e incentiva à sua leitura. Sendo admiradora da escritora, Isabel Rio Novo consegue manter uma distância que dá solidez à biografia admiravelmente escrita que apresenta. Do ponto de vista literário, o seu texto é de grande qualidade e o modo como vai desenvolvendo a vida e obra de Agustina prende o leitor como se fosse um excelente romance.
Poderia dizer muito mais sobre esta excelente biografia de Agustina Bessa-Luís, quer sobre a escritora quer sobre as virtudes da obra que apresento. Aliás, enquanto vou lendo o livro, deparo-me com muitíssimos elementos que valeria a pena relevar, mas isso daria uma crónica demasiado longa para um jornal. Não sei, contudo, se no futuro não voltarei noutra crónica a este livro.
Como é evidente, tenho uma impressão muito positiva sobre este livro, embora reconheça que merece alguns reparos. Fico-me apenas por um que, embora pequeno, tem alguma importância. Isabel Rio Novo deu ao seu livro o título: O Poço e a Estrada. Biografia de Agustina Bessa-Luís. Eu preferiria que o subtítulo fosse: Uma Biografia de Agustina Bessa-Luís, com que titulei esta crónica. Assim, de modo explícito, a autora afirmava que esta é uma biografia possível entre outras. Talvez assim ficaria mais prevenida relativamente a alguns reparos que lhe fizeram quando o livro saiu.