O São Valentim

 

 

 

Esta crónica vai ao arrepio do que hoje enche os jornais, as rádios e as televisões: o novo coronavírus. É para desanuviar!
No dia 14 de Fevereiro passado fui ao jantar do Dia dos Namorados; ando nisto há mais de trinta anos. Nas vésperas do dia de São Valentim de um Fevereiro de meados dos anos 80, uma irmã da minha mulher telefonou-nos a convidar para irmos com uns casais amigos de Barcelos a um jantar do Dia dos Namorados. O dia de São Valentim não me dizia nada mas, como seria uma boa oportunidade para nos encontrarmos com bons amigos, aceitámos a proposta. O ponto de encontro foi em Barcelos e, daí, seguimos para a beira-mar, à procura de um restaurante. Entre a Póvoa de Varzim e Viana do Castelo há muito por onde escolher. 
Se a memória me não falha, fomos parar a Castelo de Neiva, ao “Portinho da Pedra Alta”. Como o restaurante tinha várias mesas livres, sem dificuldade arranjaram-nos lugar. Foi um serão agradabilíssimo; uma das nossas amigas, senhora de um humor finíssimo, foi tomando notas durante o jantar e, à sobremesa, fez uma crónica engraçadíssima. Na viagem de regresso a Braga, vínhamos satisfeitos, porque a experiência tinha valido a pena.
Nos anos seguintes não falhámos, e variando de restaurantes, sempre fomos fazendo o jantar de Dia de São Valentim. Houve um de que guardamos uma recordação especial: como um dos amigos estava na altura em Monção, em serviço, e não lhe dava jeito vir a Barcelos ou Braga, contactei o presidente da Câmara de Monção, que era e é um grande amigo nosso (fomos colegas de curso) e disse o que se passava. Resposta: “eu organizo; só preciso de saber o número de comensais”. Quando chegámos à vila do Alto Minho, levou-nos para um solar e, para nos servir, tinha contactado o senhor João, considerado por muitos o melhor cozinheiro de Monção. O prato principal foi o “Cordeiro à Monçanense” (não me atrevo a dizer aqui o nome deste prato no vernáculo de Monção, porque há termos que a educação que recebi em pequeno me proíbe de os escrever num jornal). No fim até tivemos charutos para acompanhar o café; a vaga antitabagista não tinha atingido ainda as proporções de hoje.
Devo confessar que os sucessivos jantares de São Valentim não me afeiçoaram ao santo nem à festa dos namorados, que continuaram sem qualquer significado para mim; ia e vou pelo convívio. Aliás, a este propósito, disse um dia à minha cunhada que se me falassem em Quinta-feira dos/as Amigos/as ou dos/as Compradres/Comandres, eu sabia o que era e o que significava, mas o São Valentim não me dizia respeito. Recordo a cara dela a olhar para mim como que a perguntar: “o que é isso?” Constatei ser uma tradição desconhecida no Continente.
No entretanto, o “Dia dos Namorados” começou a crescer como fenómeno social. Num dos anos em que, como era hábito na altura, não reservámos mesa, corremos uns poucos de restaurantes e, no quinto ou sexto, por especial favor tiveram a amabilidade de nos receber. Aprendemos a lição e passámos a fazer reservas com antecedência, até porque o grupo tinha crescido com o tempo. 
A comunicação social foi divulgando o dia dos namorados, os restaurantes foram organizando ementas especiais, de modo que, hoje, o “Dia de São Valentim” parece uma das festas importantes do nosso calendário sócio-cultural. Se as pessoas não se previnem, arriscam-se a ter de ir celebrá-lo longe ou a desembolsar uma boa maquia pelo jantar. Este ano tivemos uma surpresa pouco simpática. Éramos aí umas trinta pessoas, a reserva de mesa no restaurante foi feita com boa antecedência. Chegámos a horas e pouco depois, encaminharam-nos para a mesa. Desde que nos sentámos até sermos efectivamente atendidos esperámos umas intermináveis duas horas! O que nos serviram até não era mau, mas depois de tanta espera dificilmente alguém tem disposição para saborear o que quer que seja. No fim, o responsável pelo restaurante tentou animar as hostes com música, mas já não adiantou muito. 
Estas duas horas à espera lembraram-me as duas horas que, com meu irmão Ramiro, esperei por um jantar nas Velas, em São Jorge, em 1958. Tínhamos ido, com a Filarmónica da Praia da Vitória, tocar à Festa do Bom Jesus, em São Mateus, Pico, e no regresso à Terceira, a bordo do “Terra Alta”, visitámos as Velas. Entrámos num restaurante e esperámos duas horas para nos servirem. Mas aí, ao menos, tivemos uma explicação aceitável para a época, 1958 repito: o dono do restaurante disse-nos que não sabia que o “Terra Alta”, com uma filarmónica a bordo, faria serviço em São Jorge naquela tarde; não estava preparado.
Mas voltando ao São Valentim; como disse, o santo não me dizia nada em termos culturais, mas foi entrando como fenómeno social e hoje é o que se vê. O mesmo se passou com o Halloween, mas este eu conhecia desde pequeno: na Praia da Vitória, nós chamávamos-lhe “o Carnaval dos Americanos”, porque víamos as crianças filhas dos militares da Base com fantasias de Carnaval quando, pelo calendário católico, que pontificava na altura no espaço público, nós celebrávamos a festa de Todos os Santos e o Dia dos Fieis Defuntos. 
Reflectindo sobre a dimensão que hoje têm no país o Dia de São Valentim e o Halloween, temos de reconhecer o impacto da cultura anglo-americana no país. Este impacto também é evidente nas referências que se fazem hoje em termos de literatura e de pensamento: escritores, filósofos e títulos de que se fala são fundamentalmente anglo-americanos. Quando eu era estudante, essas referências apontavam para a França; hoje, apontam para os Estados Unidos. Estamos perante o que alguns chamam a “americanização da cultura europeia”. Disso não vem mal ao mundo, desde que não percamos o bom senso e a noção da realidade. As modas apontam para os Estados Unidos? Não há problema, desde que lhes captemos o que têm de válido e deixemos de lado o foguetório que as rodeiam.