Natal em tempo de Covid

 

 

No ano passado, por esta altura, a vida corria de um modo muito diferente. O Natal aproximava-se e tinha começado a correria ao consumo desenfreado que se tornou característico desta quadra. Há ainda poucas décadas, para a generalidade dos portugueses o que se celebrava no dia 25 de Dezembro era a festa do Nascimento de Jesus; era este o grande motivo da festa. Com o tempo e a laicização da sociedade, este foco mudou e tornou-se, para muitos, a festa da celebração da família. Agora, porque vivemos numa sociedade cada vez mais plural, a celebração tem estas e outras motivações e, acima de tudo, é festa. Como festa, nos nossos tempos, é consumo, o Natal é hoje uma grande orgia consumista em que todos, ou quase, participam, embora vão aparecendo vozes apelando à frugalidade que os equilíbrios ecológicos exigem.
Este ano, contudo, há uma preocupação que pôs em suspenso tudo o que disse no parágrafo anterior: o novo coronavírus, o SARS-Cov-2, que nos pôs a vida do avesso. Vivemos os últimos nove meses com a pandemia, com todas as suas consequências na saúde pública, na economia, na sociedade em geral e na vida de cada um, obrigando a uma concentração de todos no coronavírus, pelo que sobra pouco espaço para o resto do nosso viver. Todos os portugueses se viram afectados e tiveram de reinventar a vida de todos os dias: tivemos, e temos de novo, confinamentos, obrigações novas, alterações de procedimentos, proibições de circulação, tudo isto com vários ajustamentos, de modo que, muitas vezes, já nem sabemos que normas estão em vigor. 
Ora um fenómeno desta envergadura tem um impacto no modo como todos nós, os portugueses, vamos celebrar o Natal. Os especialistas de saúde pública, preocupados com o controlo da situação do ponto de vista epidemiológico, defendem medidas claras e severas, porque consideram ser o melhor caminho para conter o contágio, tentando evitar situações dramáticas no SNS. Os políticos no exercício do poder governamental que, naturalmente, não gostam de dar notícias desagradáveis, tendem a suavizar as restrições, embora não possam deixar de ter presente que perder o controlo à pandemia é um risco que não se pode correr; vão tentando encontrar um caminho pelo meio da chuva, esperando que a sorte não os abandone. É no meio de tudo isto que nos aproximamos da quadra natalícia e que vamos vivê-la.
Atendendo aos números dos relatórios diários publicados pela Direcção-Geral de Saúde, uma coisa parece certa: vamos ter um Natal diferente de todos os que vivemos até hoje, mesmo diferente de todos os que foram vividos por aqueles que a vida fez circular sozinhos por diversas regiões do país e por África, como aconteceu a grande parte da minha geração. O que muitos já perceberam, e sentem alguma mágoa, é que não poderão juntar a família como tradicionalmente faziam, porque não será possível reunir à mesa as trinta ou quarenta pessoas, como habitualmente acontecia. Para sua tristeza, vão ter muito menos gente na Consoada e até estarão com um certo pressentimento de que nem as iguarias típicas da época terão o mesmo sabor de antigamente. Mas, por certo, é isso que nos espera.  Quanto à passagem do ano, já se sabe o que vai acontecer: vamos ter um confinamento mais rigoroso.
Perante este quadro, alguns dirão: “temos o futuro pela frente, como diz o povo, ‘atrás de tempo, tempo vem’; ou ‘para o ano há mais!’”. Isto é muito bonito de se dizer e facilmente aceite por quem tem vinte, trinta, quarenta anos, mas para quem já passou um bocado para lá dos 70, não é bem assim! Quando o futuro se vai encurtando e se começa a pensar que não há tempo a perder, há que o aproveitar bem, porque, olhando para a frente, pela lei natural da vida não nos aparecem décadas. No meu caso, não é que isto me leva a desesperar ou a entrar em depressão; mas que faz diferença, lá isso faz.
E agora caio na conta de que esta crónica tomou um caminho diferente do que tinha pensado, contudo agora está escrita. A minha ideia era falar sobre os diversos modos como, ao longo da vida, fui vivendo o Natal: na casa dos meus pais, na Praia da Vitória, Terceira; no seminário Padre Damião, também na Praia; no Couço, conselho de Coruche, na continuação dos meus estudos no Continente; no Porto, depois de sair do seminário; em África, Moçambique, onde passei dois natais, os piores da minha vida (no segundo, em Lourenço Marques, fui ao cinema com um camarada, péssima ideia; na sala estavam cinco ou seis pessoas, cada uma mais solitária do que a outra); depois do regresso a Portugal, com uma família alargada em Lisboa ou em Braga; nos últimos anos, sempre no Norte, com quase cinquenta pessoas. Esta ideia ficará para o ano.
Votos de Feliz e Santo Natal!