Um polícia resistente

 

Quem hoje viaja de automóvel entre as duas principais cidades do país, Lisboa e Porto, utiliza normalmente a autoestrada A1; são cerca de trezentos quilómetros que se fazem facilmente em três horas, com pouco esforço, rapidez e elevada segurança, experiência que nada tem a ver com o que acontecia nas viagens feitas entre as duas cidades nos anos 60, 70 e 80 do século passado, de que tive larga experiência. Naquelas décadas, a ligação era feita em quase todo o trajeto pela Estrada Nacional nº 1. Se tudo corresse bem, demorava mais de cinco horas (cheguei a gastar oito) e era necessária uma atenção sem desfalecimentos, porque nunca se sabia o que podia deparar-se-nos. Na noite a seguir à viagem, antes de adormecer, ainda tinha a sensação de que o pé procurava o travão para abrandar e a mão direita a manete das mudanças, tal era a tensão em que a viagem era feita. A estrada passava por dentro de variadíssimas localidades: cidades, vilas e freguesias, cujas ruas tinham semáforos e passagens para peões. Fora das localidades, eram raríssimos os troços com faixa dupla para facilitar a ultrapassagem de camiões. Quem ia ao volante, tinha de ter nervos de aço e muita paciência, porque ao mínimo descuido e à mínima “avaria”, o risco de acidente era elevadíssimo. 
Perdi a conta às vezes que fiz a Nacional 1. A partir de certa altura, já conhecia a estrada como as minhas mãos: para além de saber de cor as distâncias entre as principais povoações, sabia onde estavam as retas, onde seria mais provável ter hipótese de ultrapassar um camião, as curvas, onde teria necessidade de abrandar, e a localização dos bares-restaurante mais simpáticos para tomar um café ou almoçar. 
Como todos os frequentadores da Nacional nº 1, tenho imensas estórias das viagens. Dois exemplos: de uma vez, ao atravessar São João da Madeira, apanhei uma fila tão lenta que basta dizer que seguia à minha frente um carrinho de mão carregado de erva, parando e avançando na cadência dos automóveis. Outra vez, ao chegar à ponte, relativamente estreita, sobre o rio Vouga, estive não sei quanto tempo parado à espera, porque dois camiões, que se cruzavam no meio da ponte, tinham ficado com as cargas encostadas e não conseguiam continuar a marcha. Mas de todas as estórias, a mais curiosa foi a seguinte.
Era janeiro ou fevereiro de 1968 e eu estava na tropa, colocado na Bateria de Porto Brandão, na margem esquerda do Tejo em frente à Torre de Belém. Numa sexta-feira em que tinha saído de oficial de dia, um camarada do Porto, o Resende, que tinha carro, propôs-me irmos para o Norte ainda de manhã, para o fim de semana. Aceitei o convite e partimos. Na altura, a autoestrada A1 limitava-se aos vinte e poucos quilómetros que ligam Lisboa a Vila Franca de Xira, e aos 11, entre os Carvalhos e o Porto. De resto, ia-se pela estrada nacional. A viagem decorria normalmente até que, mais ou menos pela “Venda das Raparigas”, o Resende, atento ao retrovisor para regular os andamentos, perguntou-me se estávamos em época de limite de velocidade. Não estranhei a pergunta porque, nessa altura, o Governo, em certas épocas do ano, como o Natal, o Fim de Ano, o Carnaval e a Páscoa, decretava como limite da velocidade máxima nas estradas 90 Km. Respondi que não. Continuámos a viagem e, à entrada em Leiria, o Resende resolveu parar na estação de serviço, que ainda existe, para tomarmos alguma coisa. Mal parou carro, olhou pelo retrovisor e disse: “vamos ter chatice!” Eu, já a sair do automóvel, reparei num polícia de trânsito a desmontar da mota; percebi logo a razão do comentário do meu camarada. O agente avançou na nossa direção e perguntou: “a que velocidade vinham?” O Resende respondeu que era à roda de 100, 110 quilómetros. Comentário do polícia, manifestando algum contentamento: “até que enfim! Venho, desde Lisboa, a ver se apanho um carro com uma velocidade regular, por volta dos 100 Km, e felizmente encontrei-vos!” Explicou-nos que o conta-quilómetros da mota estava avariado, pelo que, a partir de certo ponto, tinha dificuldades em controlar o andamento; quando começava a chorar, percebia que tinha ultrapassado a velocidade conveniente para quem não tem óculos de proteção, à volta dos 100 quilómetros. Se não nos importássemos, iria atrás de nós até ao Porto.
O Resende respirou fundo. Entrámos no bar da estação de serviço e convidámos o polícia a tomar alguma coisa. Pediu um copo de vinho; o empregado serviu um copo bastante avantajado. Lá demos dois dedos de conversa e continuámos a viagem. A partir daí, o Resende evitava ultrapassar os 100 quilómetros para que o polícia não chorasse. Parámos, depois, em Pombal, em Coimbra e em Águeda; em cada paragem o polícia bebeu um copo de vinho semelhante ao primeiro. Nós começámos a ficar preocupados, mas lá fomos estrada fora. A determinada altura, o polícia desapareceu do retrovisor; passou-nos pela cabeça que teria tido algum azar. Ainda pusemos a hipótese de voltar para trás, mas pensámos que, se tivesse acontecido alguma coisa, alguém o teria socorrido. Ao chegar a Lourosa, paráramos e entrámos num café; minutos depois, chegou o polícia. Vinha inteiro e sem qualquer arranhão. Explicou-nos que uma avaria na moto o tinha obrigado a parar, mas resolvera o problema. O Resende perguntou-lhe: “mais um copo?” Resposta: “agradeço, mas agora prefiro um café!”.
Quando o polícia partiu, comentámos a resistência do homem. Tinha saído de Lisboa de manhã, andara cerca de 300 quilómetros de mota; tinha bebido muito mais do que um litro de vinho sem nada comer, e estava sereníssimo, descansado da vida. A prática devia ser muita.
Esta estória mostra como estávamos noutro tempo, em que o país era muito diferente. Quase não havia autoestradas, não se falava em taxas de alcoolémia dos automobilistas; a força de segurança encarregada do trânsito fora das zonas urbanas não era a GNR, mas a antiga PVT (Polícia de Viação e Trânsito), cujos os agentes, como o da estória, chegavam a circular em motos com o conta-quilómetros avariados, não se coibiam de pedir ajuda a automobilistas que encontravam na estrada para regular a velocidade, nem, estando de serviço, recusavam um copo. O país mudou imenso, principalmente depois de ter apresentado a candidatura à Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia, e entrado, efetivamente, em 1986. Sei que há quem lamente a adesão à UE, o que só tem duas explicações possíveis: ou são pessoas com menos de trinta anos ou sofrem de amnésia profunda.