Grande amigo e homem público de exceção

 

Aristóteles (384-322 a.C.), na Ética a Nicómaco, escreveu que «o homem feliz precisa de amigos». Nos dias de hoje, feita a destrinça clara entre conhecidos e amigos, a afirmação continua válida, em especial numa sociedade como a nossa, em que as conexões digitais parecem ligar-nos a multidões. A amizade, que pode ser de várias espécies, rege «relações inter-pessoais» e leva tempo a criar; implica uma vida partilhada, só possível em grupos pequenos, em que reina a igualdade e a mutualidade. É por isso que normalmente conhecemos muita gente, mas amigos temos poucos. A amizade precisa de tempo e convivência, razão pela qual as épocas da vida mais favoráveis ao seu aparecimento são a adolescência e a juventude, os tempos do ensino básico e secundário e da universidade. 
Um dos meus grandes amigos é o José Emílio Pedreira Moreira, que conheci nos corredores da Faculdade de Filosofia da Católica, em Braga. Contribuiu imenso para o estreitar da nossa relação o facto de, no ano letivo 1973-74, nos termos inscrito num curso semestral com o título “Condicionalismos Atuais do Agir Humano”, regido pelo Padre Roque Cabral, SJ, professor catedrático de Ética, de quem nos tornaríamos com o tempo grandes amigos.
Logo na primeira aula, o professor propôs que nos organizássemos em grupos à volta de temas de interesse comum, em ordem à preparação dos trabalhos a apresentar no fim do semestre. Formei, com mais cinco colegas, um grupo, de que faziam parte a minha mulher – tínhamos casado no Verão – e mais quatro colegas, entre os quais o José Emílio. Quando se pôs a questão da escolha de um sítio para trabalharmos, ofereci a minha casa. Reuníamos quase todas as semanas, normalmente mais de uma vez; começávamos a trabalhar pelas nove da noite e íamos, muitas vezes, até às duas, três da manhã. Estudámos muito, trocámos leituras e discutimos imenso. Foi o princípio da nossa amizade. Terminada a licenciatura, nós, a minha mulher e eu, continuámos em Braga e o José Emílio foi colocado na Escola Secundária de Monção, sua terra natal. 
Em 1976-77, a minha mulher e o José Emílio foram colocados na Escola Secundária de Sá de Miranda, em Braga, a fazer estágio pedagógico. Durante os primeiros tempos, ele viveu numa residência, mas, como passava muito tempo connosco devido aos trabalhos do estágio, propus-lhes que viesse viver para nossa casa. Como seria de esperar, aprofundámos uma amizade que, sem mácula, dura até hoje, independentemente de estarmos ou não de acordo nas discussões, mesmo quando se trata de política. 
Terminado esse ano, o José Emílio regressou à Escola Secundária de Monção, sendo eleito, pouco depois, presidente do seu Conselho Diretivo. Nos anos seguintes, alargou a sua atividade ao associativismo e à política. Começou por integrar uma lista candidata à Direção da Adega Cooperativa de Monção, assumindo a Presidência nas eleições seguintes. Passados uns anos foi nomeado Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Em 1997, concorreu à Presidência da Câmara Municipal de Monção; ganhou as eleições e cumpriu quatro mandatos consecutivos à frente do Município, até 2013, durante os quais fez uma autêntica revolução no Conselho: quando ele chegou havia uma realidade, quando ele deixou a presidência, Monção tinha mudado radicalmente e para muito melhor.
Liberto da Câmara, o José Emílio voltou à vida de cidadão comum, dedicando mais tempo à família e aos amigos, passando por minha casa sempre que vinha a Braga. Há uns meses, numa dessas visitas, falou-me num projeto em que estava a trabalhar; depois de uma reflexão que levou anos, tinha decidido reunir para publicação vários textos escritos ao longo da vida - alguns trabalhos académicos do tempo da Faculdade e os produzidos na sua atividade política, social e cultural, tais como discursos pronunciados nas diversas funções políticas e empresariais, e textos publicados na comunicação social. Como sei, por experiência própria, o trabalho de semelhante empreitada, ofereci-me para ajudar, o que me levou a ler o manuscrito de fio a pavio pelo menos duas vezes e a escrever, a seu pedido, um posfácio. Nas palavras que pronunciei na sessão de lançamento do livro, com o título Muitos Sonhos! Algumas Desilusões, ocorrida em Monção, foquei-me nalgumas qualidades do seu autor que explicam o seu excelente trabalho político, cultural e social de mais de trinta anos.
A primeira dessas qualidades é a vontade de prestar contas perante a comunidade, o que, no nosso país é pouco comum. Ora eu considero que quem é ator no espaço público deve prestar contas, é a célebre accountability de que falam os anglo-saxónicos. Esta preocupação aparece em variadíssimos textos do livro: como presidente da Adega, como vereador e depois presidente da Câmara. A partir de hoje José Emílio Pedreira Moreira põe à disposição dos monçanenses, por escrito, o que sonhou, pensou e realizou ao longo da sua vida pública, disponibilizando assim informação para melhor se compreender e avaliar a obra feita.
Constata-se, também, que se está perante um homem de cultura. Esta característica está presente em toda a sua atividade pública. Chegando à Adega, percebeu rapidamente que no mundo das empresas não se avança com amadorismos, e criou condições para que algumas estruturas da Adega fossem entregues a profissionais para uma melhor eficiência. Na Câmara, não se preocupou apenas com caminhos, rede pública de água, saneamento básico e habitação social, mas com a limpeza das muralhas da Vila, com a organização do Arquivo Municipal, a Biblioteca, a publicação de livros sobre o Conselho e suas figuras, a aquisição e recuperação do Cineteatro João Verde. Olhou e escreveu sobre o vinho Alvarinho, não atendendo apenas à sua vertente económica, mas como obra de arte, ex libris da Sub-região de Monção e Melgaço. E, em meu entender, ainda é sob o ponto de vista de homem de cultura que se compreende o trabalho insano que teve na promoção do emparcelamento rural. Só as vistas largas que a cultura dá explicam o sonho, e sua concretização, de que é possível ter ideais e lutar por eles, embora sabendo do esforço hercúleo que vai ter de fazer para converter o sonho em realidade, lutando contra ventos e marés: ventos e marés vindas da mentalidade dominante numa região de minifúndio, dos complicadíssimos processos burocráticos da máquina do estado, quer central quer municipal, a eterna falta de dinheiro, os prazos que se consomem porque  um papel foi parar ao fundo de uma gaveta, etc. Tudo isto podemos ver em diversos textos do livro; ser-se culto devia ser uma condição sine qua non para fazer política.
O livro revela, ainda, a estrutura moral do seu autor que, na sua passagem pela Faculdade, não se limitou a estudar para os exames. Como disse acima, fomos colegas, fizemos as mesmas cadeiras e tivemos os mesmos professores. É por isso que, na leitura do livro, encontrarei marcas evidentes dos cursos que fizemos e dos nossos professores, em especial de um, o Prof. Roque de Aguiar Pereira Cabral, SJ. A atividade política, social e cultural do autor do livro foi sempre pautada por valores ético-morais que o nosso Professor tratava, longamente, nas suas aulas e foi lá, por certo, que a reflexão do José Emílio sobre estas questões se aprofundou. 
Citando apenas alguns desses valores: o respeito pela dignidade humana e a defesa da liberdade e da igualdade de todos enquanto cidadãos; a confiança no ser humano; o respeito pelos outros, amigos ou adversários; uma preocupação profunda e constante com as questões da justiça social, um dos valores fundamentais que deve presidir na vida coletiva; uma curiosidade imensa por tudo o que o rodeia, otimismo e confiança no futuro e uma grande alegria de viver. Se essas qualidades fossem comuns aos nossos políticos, o país seria diferente, e para melhor.