Diário dos Açores — uma companhia de gerações

 

 

Não sei qual o rumor mais antigo — se o do mar ou das páginas do Diário dos Açores. Entre ambos, porém, qualquer vestígio de uma dissonância (por serem elementos transmissores de sensações diferentes) não constitui uma ambiguidade. São expressões poéticas que assumem, no meu imaginário açoriano, uma correlação indissociável e profunda, em termos afectivos, com o meu passado.
Dos anos da minha infância em Ponta Delgada deparo-me, quantas vezes, com fendas profundas no vasto e complexo espaço da memória. Mas há uma imagem que nunca perdeu os contornos e permanece intacta:  a do meu tio José Rebelo.
Sentado pelos vagares da tarde na cadeira do corredor, e de costas viradas para a porta de vidros que dava para o quintal, recebia nos ombros a ténue luz do exterior. Macia, fosforescente, e com um reflexo verde das plantas, atravessava levemente as cortinas e  deitava-se, lânguida, ao seu redor e nas páginas do jornal que lia: o Diário dos Açores. Aberto sobre o colo, parecia a tranquilidade do mundo —  o rumor do papel entre os dedos, as palavras que balbuciava, a silhueta curvada, o cheiro grave e penetrante a tinta e transcendência.
O DA aparecia todos os dias à porta por deferência da Direcção do jornal para com o meu avô Rebelo de Bettencourt. Vivia em Lisboa e era colaborador desde 1912. Essa espécie de tradição, de uma grande delicadeza e generosidade, continuou por muitos anos após o seu passamento, em 1969, na sua ilha natal, S. Miguel. 
Nessa época, o DA não tinha a configuração que tem hoje – moderno, mais extenso e abrangente. O seu formato, porém, não limitava a qualidade dos seus conteúdos nem o diminuía pelo exíguo número de páginas. 
Apesar de publicado numa ilha, e com todas as limitações logísticas e técnicas que isso implicava,  o DA preocupava-se em ser mais do que um mero veículo propagador de notícias. Apostava, por exemplo, num jornalismo de intervenção cultural. A página literária Letras confirma isso. Sendo um dos colaboradores, Rebelo de Bettencourt escrevia, desde Lisboa, sobre autores de relevo na literatura e nas artes da época, como Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, entre outros. Curiosamente, num dos seus textos publicado a  17 Junho 1930, exaltava assim as qualidades literárias de Fernando Pessoa: «Santa-Rita Pintor [-1919] tinha a faculdade de ver as coisas doutra maneira, exactamente como elas deveriam ser; José de Almada Negreiros tem o poder de transformar o impossível numa realidade palpável, mas Fernando Pessoa tem o dom de pensar, de reduzir a ideias todas as suas sensações. As suas imagens são ainda pensamentos, e o próprio ritmo dos seus versos é também uma série de ideias – ideias postas em música». 
Nesse mesmo espaço foram publicados, com relevo, dois poemas de Fernando Pessoa. Um deles, Névoa, era inédito.  
Completando agora 150 anos de existência, uma efeméride de assinalável e extraordinária importância no contexto da imprensa diária em Portugal, reflicto na relevância que o DA tem exercido na minha vida desde os longínquos anos da infância. 
Ainda jovem, fui correspondente deste jornal em Angola. Foi também nestas páginas que publiquei o meu primeiro poema. Escrevi-o em 1975 e numa altura assaz confrangedora. 
Recém-chegado à Rodésia como refugiado, descobri no país um ambiente  politicamente crepuscular.  Encontrei abrigo temporário num hotel modesto, trancado numa área duvidosa da cidade e que ganhava contornos de surrealismo social mal escurecia. Os meus recursos económicos eram limitadíssimos — saí de Angola com 45 dólares rodesianos. Ocioso e desmotivado, observava com indiferença as sombras oblíquas do meu quarto. Foi entre essa solidão fluvial que as palavras deram voz às minhas mãos.
Enviei o poema aos meus pais. Viviam em Ponta Delgada em consequência da descolonização. 
Recebi o recorte do jornal na volta do correio. O poema tinha sido publicado no DA. A partir daí passou a fazer parte da minha mesinha-de-cabeceira durante os seis meses que vivi nesse país africano. Naquele degredo funcionava como um símbolo identitário, um refúgio perante o ruir das utopias que tão fortemente afecta quem é idealista.
Quando regressei a Ponta Delgada em 1976, vindo de África, tive a grata oportunidade de ler o DA diariamente. Fui acompanhando com interesse as recensões de Ruy Galvão de Carvalho. Dessa febril e cuidada actividade literária resultou a publicação de dois volumes titulados Antologia Poética dos Açores, Colecção Gaivota, edições da SREC. O último volume saiu em 1982. Foi também o Dr. Ruy Galvão de Carvalho quem amavelmente escreveu o prefácio do meu primeiro livro de poemas, em 1978.
Neste momento em que me faltam as palavras certas, em que me comovo, gostaria de pelo menos deixar claro o imenso apreço que sinto por este jornal. Desde o ontem da minha infância àquilo que hoje representa para mim: um importante marco cultural, familiar e de amizade. E assim nomeio com afecto o meu padrinho, que foi um dos directores em determinada altura, Dr. Manuel Carreiro, bem como o Dr. Carlos Carreiro, seu irmão, o meu avô Rebelo de Bettencourt, Manuel Jorge Raposo, jornalista, o Dr. Ruy Galvão de Carvalho, os directores actuais Paulo Hugo Viveiros e Osvaldo Cabral, a jornalista Alexandra Narciso, os colaboradores e todos aqueles que contribuem para a continuação exemplar do Diário dos Açores.