A (re)valorização da música portuguesa no seio da lusodescendência

 

No decurso dos últimos anos tem-se assistido, um pouco por toda a dispersa geografia das comunidades portuguesas, a um conjunto relevante de iniciativas, que nas suas mais variadas manifestações artísticas têm contribuído para uma redescoberta das raízes culturais no seio da lusodescendência.
Muitas destas iniciativas têm sido inclusivamente dinamizadas no estrangeiro por diversos lusodescendentes, que ao manterem acesa a herança cultural portuguesa dos seus pais e avós, contribuem decisivamente para a projeção internacional do país. 
Um desses exemplos paradigmáticos mais recentes é o que está a ser dinamizado por um coletivo de músicos e artistas lusodescendentes, franceses e portugueses que se dedicam a revisitar o folclore português numa expressão nova. Cognominado “Criatura”, o grupo marcou presença no ano transato em vários palcos de festivais, e tem como um dos seus últimos temas uma música cinematográfica “Labuta”, um rearranjo de uma antiga canção popular com laivos intervencionistas.
A versão gravada, que contou com a participação do Coro dos Anjos, foi apresentada ao vivo na Lavaria do Cabeço do Pião, nas antigas Minas da Panasqueira, um conjunto de explorações mineiras com mais de um século de história localizadas na Beira Interior e que marcaram indelevelmente a história, a memória e a identidade das populações da Covilhã e do Fundão.
Os trabalhos do coletivo musical, robustecido pela presença de vários lusodescendentes radicados em França, o país do mundo onde vive e trabalha a maior comunidade portuguesa no estrangeiro, podem ser visualizados no canal de música no YouTube “Soundscape”. Um projeto vídeo-musical fundado pelo produtor e realizador francês Yoann Le Gruiec, que tem vindo a filmar artistas contemporâneos nacionais, em diferentes cidades lusas, de forma a dar a conhecer a nível mundial a música que se faz em Portugal, mas sem divulgação no estrangeiro.
O canal de Youtube “Soundscape”, criado em 2021, contou com o apoio do Instituto Francês, no âmbito da Temporada Cruzada França-Portugal, tendo recebido depois o apoio do Turismo de Portugal, dada a sua relevância na promoção e divulgação de artistas contemporâneos lusos, dos mais diferentes estilos, associando-os a diferentes cidades nacionais, como é o caso do coletivo “Criatura”.
Esta dinâmica hodierna de (re)valorização da música portuguesa no seio da lusodescendência, revivesce a constatação da investigadora Mireille Heleno Torrado,  que na dissertação Os descendentes de emigrantes portugueses em França: o reencontro com as suas raízes, assevera: “o reencontro dos luso-descendentes com as suas raízes portuguesas é feito de muitas expetativas e muitos sonhos mas que, ao longo do tempo, se vão apercebendo de que, apesar de terem uma dupla pertença, existe um longo trabalho de inserção na sociedade portuguesa que deve ser empreendido por todos”.