Na Autonomia, não precisamos de maestros – precisamos de músicos!

 

 

   

 


 
Começo a supor que a Vida talvez seja uma necessária teimosia para testar os preceitos da prudência. Oremos, civicamente!
Quando, no Outono de 1980, viemos em busca do ‘sonho açoriano’ – ou seja, quando optámos por dignificar a ‘açorianidade’ sem requerer subsídios ao patriotismo magoado… desde logo fomos apelidados ‘fugitivos’ pelos deusitos da virgindade ideológica da época.
Nas últimas quatro décadas, continuamos a gemer em silêncio “desfazendo os nós-cegos do exílio”, conforme os dizeres poéticos do apreciado poeta-pedagogo (amigo) doutor José Francisco Costa.  
Vejamos: quem continua ainda esquecido do sonho açoriano?  Partir! Partir! Será que os Açores são ilhas amadas sob o céu da distância, ou através da fumarada linguística?  Há já vários anos, o precioso Mestre de Letras & Artes, Prof. Mayone Dias, alertou a comunidade imigrante para o fenómeno linguístico por ele baptizado ‘portinglês’ – feliz expressão que ganhou prestígio entre outras: o “canaguês”, o “calafonês”, enfim… o ‘imigrês’  que serve de pálio linguístico ao linguajar da boa-malta imigrante.
Ora, na via-sacra humana, muitos são ‘podados’ pelo critério divino, que determina quem merece sobreviver à intempérie psico-existencial das contrariedades étnicas. Mas há mais… sim, os outros, os tais que sobrevivem para serem ‘mimados’ pela benignidade das circunstâncias, ou seja, desfilam nas passadeiras da visibilidade social que lhes é conferida pelos cargos pomposos. Melhor dizendo: aparecem como presidentes by default, e recebem troféus de causas quiçá inspiradas pelo amiguismo-maçónico… Está dito - cala-te!  
Parece estar na moda cantarolar aleluias à autonomia? Mas, qual delas? Falemos então de ‘autonomia pessoal’. Os emigrantes não embarcam para fazer ‘visitas de trabalho’ ao estrangeiro. Pessoalmente, (devo dizê-lo) logo após o meu regresso do ‘escusado’ cruzeiro moçambicano (1963-1966) poderia ter optado, legalmente, pela aventura rumo aos EUA. Entretanto, semanas após o meu regresso aos Açores (Abril/1966), aconteceu ter sido  seleccionado (em concurso público) para integrar a equipa de trabalhadores da maior empresa açoriana da época – Casa Bensaúde.
Mais tarde, no verão de 1972, aconteceu a oportunidade para atravessar o atlântico para visitar a Nova Inglaterra aonde viviam alguns familiares. Obviamente, não viajei como caixeiro-viajante turista: limitei-me a observar alguns aspectos do ambiente laboral da comunidade imigrante, designadamente, o ambiente das fábricas têxteis e da construção civil, em Fall River; em New York, tive o gosto de conhecer o exterior da sede das United Nations; e, como na altura já tinha familiares a residir em Boston, aventurei-me em micro-deambulações pelas redondezas da Harvard University, aristocrático santuário do “saber” global. Ainda em Boston, limitei-me a conhecer a silhueta exterior do State House, e a histórica ‘morada” de Paul Revere (conhecido herói do Boston Tea Party).
Curiosamente, aconteceu ter sido convidado (sem prévia identificação) a subscrever um dos habituais “baixo-assinados” em prol da campanha eleitoral do então candidato presidencial, George McGovern – tudo isso no centro do famoso Quincy Market (mal sabendo que, dezasseis anos mais tarde, ali voltaria para “jurar” cidadania à Constituição dos USA): fiquei cidadão-legal, pronto a votar na corrida presidencial do candidato Bill Clinton.  
Mas… isto para dizer o quê?         
Emigrar não é pecado! O tempo não se cansa de urdir o destino com surpresas. Continuo há anos a repetir esta sugestão: precisamos de repensar os termos e a metodologia adequados para implementar uma politica sócio-cultural rumo ao mirante da “Reconciliação Inteligente” entre os ilhéus açorianos (residentes e ausentes). Refiro-me àqueles que não aceitam ser o eco da voz dos donos; sim, refiro-me aqueles cuja credibilidade não depende do cargo que, ocasionalmente, ocupam na vitrine do amiguismo clubista…  
Como quem diz: precisamos de bons músicos para formar orquestras que sejam exigentes na selecção dos maestros da Autonomia Açoriana! Amén!
 

Rancho Mirage, California 

(*) o autor permanece indiferente ao recente acordo gráfico.