“… olha por quantos caminhos vãos andámos” (*)

 

     
 1 – … será o Presente mero pingo do Futuro? 
Quando o prestimoso Antero Tarquínio de Quental poisou no oceano norte-atlântico (18 de Abril, 1842), consta que a ilha São Miguel já tinha sido descoberta há mais de quatro séculos (e os Açores estavam emancipados da coroa castelhana há cerca de 200 anos)…
Antero de Quental já ia na sua primeira década de vida, quando foi meigamente internado no Colégio do Pórtico (fundado e dirigido pelo professor António Feliciano de Castilho). Mais tarde, em 1858 (com apenas 16 anos) foi admitido na Universidade de Coimbra, onde se demorou cerca de 6 anos… 
Foi nesse período de intensa actividade estudantil que o jovem Antero de Quental (já na discutível qualidade de presidente da Sociedade do Raio) dirigiu a famosa saudação ao então príncipe Humberto (mais tarde, Rei da Itália) o qual na ocasião escutou com curiosa atenção as seguintes palavras do jovem poeta açoriano:  
“a mocidade liberal portuguesa saúda, em nome da liberdade do mundo católico, o filho do amigo de Giuseppe Garibaldi, o filho de Victor Emmanuel …/… aos votos da Europa inteligente, aos votos da Europa popular, aos votos dos que trabalham pela grande causa da união dos povos, para que a pátria de Garibaldi possa rever o sagrado matrimónio da sua nacionalidade…”    
Segundo testemunhos do tempo, não tardou muito (1865-66) para ver Antero de Quental na defesa do seu folheto Bom Senso e Bom Gosto -  peça redigida numa linguagem arrojada e cortante, como reacção à carta-prefácio assinada por Feliciano Castilho, e referente ao ‘Poema da Mocidade’ da autoria de Pinheiro Chagas.
Aconteceu que, naquela  época, os ânimos atingiram uma fervura emocional de proporções espectaculares. Sim, aquele açoriano ‘endiabrado’ tivera a ousadia de ‘sacudir’ o marasmo da sua época.  Não é dificil perceber que o jovem Antero teve de enfrentar o conservadorismo reumático dum patriarcado literário muito cioso da ancestralidade dos seus engomados pergaminhos. O famigerado duelo com José Duarte Ramalho Ortigão foi apenas um dos episódios mais salientes da lamentável refrega…  
Entretanto, o rectângulo Lusitano começara a ficar estreito para agasalhar o irrequietismo juvenil e o crescente universalismo intelectual anteriano. É talvez por isso que o Poeta resolveu ‘assentar-praça’ como cruzado emigrante: primeiro, em França, como operário tipógrafo (experiência que redunda em falhanço); depois, em finais da Primavera de 1869 ( proveitando a desistência de João de Deus), embarca rumo à América do Norte, a bordo do patacho Carolina, comandado pelo seu amigo Joaquim Almeida Negrão (numa viagem atormentada, segundo o credível relato do engenheiro António Arroyo.
Uma vez regressado a Portugal, (porventura revigorado pela observação dos tremores regionais da noviça revolução industrial), Antero continua fiel ao pensamento Michelet e ao testamento socializante de Pierre Proudhon.  Não vamos agora esquecer a proximidade com o camarada José Fontana para salientar a criação da sucursal portuguesa da Associação Internacional dos Trabalhadores.  
Logo a seguir, temos o ‘nosso’ imparável Antero a organizar as famosas Conferências do Casino, com a cooperação estreita de Adolfo Coelho, Eça de Queiroz, Germano Meireles, Jaime Batalha Reis, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, e mais alguns…      
Em 27 de Maio de 1871, na sala do Casino Lisbonense, Antero de Quental apresenta a sua famosa conferência “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”. 
Agora, vamos apenas transcrever algumas das palavras corajosas proferidas pelo jovem poeta açoreano: “não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las; não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão…”  
Ainda no desejo de ir ao encontro da eventual curiosidade dos interessados, talvez valha a pena lembrar que, em Janeiro de 1875, Antero de Quental foi um dos fundadores do I Partido Socialista Português (juntamente com os sindicalistas José Fontana e Azedo Gneco). Mais tarde, foi convidado a integrar a lista de candidatos a deputados socialistas pelo círculo eleitoral portuense.
O seu abnegado concurso à Liga Patriótica do Norte foi (a meu ver) o seu derradeiro gesto de militância partidária. Entretanto, em 1871 (cerca de 20 anos antes de morrer), vale a pena recordar que o estimado Antero Tarquínio de Quental chegou a ser contactado para exercer funções docentes no aristocrático Liceu de Ponta Delgada (sugestão que afinal não foi concretizada)… Não vamos dissecar as eventuais razões deste episódio… mas não é perigoso  admitir que alguns insulares são por vezes maledicentes… 
Haja Boa-Memória! O apreciado Antero de Quental sofreu de amor até ao fim, porque para ele (e para alguns de nós) “… nem foi de mais o desengano e a dor.” 


(*) – frase poética da Obra anteriana 


(**)  texto escrito de harmonia com a antiga grafia.

 
     

 

 

(*) texto escrito de harmonia com a antiga grafia.