Breve conversa à sombra do tempo…

 

Futebol! Futebol! Futebol!…
Porque não? Coicear, artisticamente, (sem melindrar a dignidade alheia) a bola idolatrada pelos cruzados da ‘futebolidade’ moderna, faz parte do saboroso rol das tarefas que ainda hoje não provocam azedia financeira à gravidez indesejada das crises ocidentais. Aliás, a arte de “rematar” à baliza do sucesso (no imparável ‘passo-de-corrida’ , na ânsia de fintar as brumas do barulho emotivo), foi porventura a mais saliente especialidade cultivada pelo saudoso Eusébio da Silva Ferreira.
Já que estamos nesta breve conversa à sombra do tempo, gostaria de recordar o episódio singelo acontecido em 1965, algures em Lourenço Marques (antiga capital de Moçambique). Naquela época, corria o boato (aliás verdadeiro) de que o já famoso Eusébio andava a passear-se nas redondezas do seu torrão natal. Entretanto, creio que a coincidência da nossa frugal presença naquela zona (como miliciano-aprendiz das normas processuais alusivas ao POMA - (Plano Operacional de Mobilização Automóvel) terá facilitado a nossa presença na ‘pecaminosa’ rua do Major Araújo – uma das artérias citadinas da preferência da malta estudantil sul-africana, devido à espontâneidade convivial perfumada pela liberdade multi-racial…
E assim foi: de repente, lá conseguimos descortinar a presença de Eusébio (1965) não longe do ‘seu Mercedes descapotável’, rodeado por dezenas de curiosos, todos a espumar d’alegria, ali mesmo em frente do então famoso bar ‘Quaresma’.
Naquele ambiente pouco vulgar à (nossa) maneira de ser e de estar na vida, ainda hoje recordo a sensação (ilusão?) de que, naquele ambiente assaz irrequieto, a rotina do conflito colonial deixara de perturbar a ‘cabecita’ do sumido ilhéu micaelense (que fora ‘convidado’ pelo fervor salazarista a conhecer o lago Niassa antes do prazer de se deleitar na baía acor-mariense de S.Lourenço)...
Adianto um breve parêntesis para sugerir o seguinte: valerá ou não a pena considerar Eusébio da Silva Ferreira como pessoa oriunda do grupo étnico ‘Ronga’, do sul moçambicano?  
Curiosamente, o sempre lembrado Matateu e o irmão Vicente são ambos oriundos da etnia ‘Muchope’ (tal como a do dr. Eduardo Mondlane – primeiro leader da Frelimo); consta que o rapazito Mondlane fora educado na antiga missão protestante de Tavane, ali mesmo nos arredores de Manjacaze, centro-sul do território mozambicano).
Adiante: futebol! futebol! futebol!
Mas… haverá quem ainda se sinta motivado para repartir o “pão da palavra futebolista” para recordar outros nomes, tais como: Travassos, Hernâni, Carlos Gomes, Coluna, Germano… sem esquecer o legendário Torres, da Académica?  Sim, estou a falar do dr. Torres – atleta singular que, no final dos jogos, apresentava-se fresco e pronto a participar numa soirée dançante… 
Porém, não seria justo olvidar alguns nomes do futebolismo insular: Raul Tremura (madeirense); os micaelenses, João Maciel, Juvenal, Eugénio; os marítimos da Calheta: ‘Viúva’, ‘Anzol’, ‘Bacalhau’, o engenheiro centrista ‘Zé Americano’… sem esquecer o bravo ‘Canêtas’ (terceirense), e o diplomata médio-centrista ‘Cristo” (faialense)…
Enfim, malhar nos tambores da batucada do vedetismo, também faz parte do ritual psico-desportivo! Colorir a mediocridade desportiva com cores roubadas à pressa ao arco-íris da solidariedade étnica, dá sempre algum jeito aos que se divertem a gritar golos sem nunca tocar na bola…
Agora, vamos ao futebol. Vamos pontapear a bola das ideias: vamos apontar a marca do ‘ponta-pé-de-canto’ à malandrice; vamos assinalar ‘penalties’ à cobardia cívico-política… Pois é: bem sabemos que há situações em que “peace keepers have to fight”…
Na perspectiva política da “procissão dos passos” em curso na vida açor-lusitana, não creio conselhável aguardar o final do jogo para imaginar o resultado: Educar, Democratizar, Desenvolver não são meros slogans – são desafios! 
Em linguagem metafórica, talvez possamos sugerir que nos desafios políticos que estamos a enfrentar,  precisamos de seleccionar (democraticamente) os novos Eusébios, os Ronaldos, Pauletas, Mourinhos… De resto, a nossa prioridade é desassossegar a boçalidade imperial dos proprietários da obediência temerosa. Amemo-nos uns aos outros, marchando entre as brumas do barulho. Talvez valha a pena educar os gritadores de penalty aos avançados da coragem alheia…
Viva o Futebol…! Nesta breve conversa à sombra do tempo, falta ainda lembrar que, há cerca de de vinte anos, afirmámos nas págimas da imprensa lusófona, o seguinte: “… sinto arrepios de angústia quando imagino a insularidade açórica programada para funcionar como uma espécie “Macau-europeu”, ou seja, como mola amortecedora para ‘atlantizar’ eventuais investidas do vigilantismo geo-politico inspirado no ‘manifest destiny’ do capital norte-americano”.

“É proibido andar parado!” 
Como nos sugere o prestimoso poeta T.S. Eliot: “For us there is only the trying. The rest is not our business.” Ou seja, numa tradução simplificada mas responsável diria: “para nós, existe apenas a coragem de experimentar. O consequente resultado não nos pertence.”

 

Rancho Mirage, Califórnia
(*) texto escrito `a revelia do recente acordo ortografico.