Branca de Neve, Capuchinho Vermelho e Maléfica: na sala de cinema, a tradição já não é o que era…

 

O tempo de confinamento domiciliário deu azo a que tivéssemos crescido como pessoas, como seres humanos, pois foi preciso tirar lições daquela conjuntura. Mas também pudemos aproveitar o facto de estarmos em casa para crescermos interiormente. E, sempre que estivermos em casa, podemos fazê-lo. Por isso, pegue(m) num livrinho, aquele objeto que está ali à mão, mas que nem sempre é atrativo porque dá trabalho esmiuçar o que vem para lá da junção das letrinhas, porque ele levar-nos-á a novas descobertas. É o que faço, sempre que posso... Os próximos três textos desta rubrica partem da leitura (de contos populares, mais especificamente), mas falarei de cinema. Quem disse que a tradição tem de ser o que era?!...
As versões de Giambattista Basile, de Charles Perrault e dos irmãos Grimm sobre Branca de Neve, a Bela Adormecida e o Capuchinho Vermelho (versões que conhecemos, umas mais que outras, e que, elas próprias, são variantes de uma ancestral tradição oral) têm servido de inspiração a múltiplas referências artísticas: escultura, pintura, dança, teatro, televisão ou cinema… 
A cada nova versão de uma história, o locutor, ao recontá-la, recria intencionalmente a narrativa, altera, enfatiza, omite o que bem entende, pois tem de atingir um objetivo preciso perante o público que tem diante de si. É nessa ótica que se inserem os contos de fadas, já que a sua função é mostrar a disposição humana para a transformação do mundo e para o tornar adaptável às necessidades do Homem. Daí que estes contos, independentemente do suporte em que são contados, pretendam que o ambiente em que vivemos seja marcado por vivências mais pacíficas e agradáveis. Mais: os contos de fadas podem ser um ótimo potencial comunicativo de práticas sociais alternativas, agora e sempre, desde que o que se conta consiga ser vívido, efetivo e relevante. Estas recriações não deixam de ser novas visões da realidade: o texto original, sempre renovado, sempre atualizado, passou da oralidade à escrita e a outros suportes, como a televisão e o cinema, onde continua a ter a função de criar mundos alternativos que sirvam de modelo para os problemas da realidade que se procura resolver. 
Numa grande parte dos filmes baseados nos contos de fadas tradicionais, estreados desde 2010, a figura feminina ganhou uma nova dimensão, fruto da época em que vivemos, distante daquela que norteia os textos ditos clássicos: as mulheres assumem um lugar até aí atribuído maioritariamente às figuras masculinas, apresentam uma atuação subversiva de emancipação e são o veículo para o (re)estabelecimento da ordem social. Ganhamos uma nova visão da mulher moderna, encarada agora como força dinamizadora de uma sociedade que se pretende unificada, igualitária e tolerante. Os contos de fadas (pós-)modernos acarinharam, assim, uma importante faceta de socialização, mais do que de diversão, lazer ou estímulo da imaginação.
De facto, as tendências feministas vieram destruir as visões patriarcais refletidas nos contos de fadas tradicionais, fruto de vários séculos de domínio masculino. Assim, a crítica feminista dos contos de fadas ou mesmo a escrita de versões feministas desses contos tendem a denunciar os papéis negativos das mulheres: o seu silêncio, a sua passividade, a sua submissão, a sua falta de ambição e desejo pelo poder, a sua exploração no trabalho e nas tarefas domésticas, o seu desamparo. Em contrapartida, foram escritos vários contos em que as heroínas se mostram fortes, desembaraçadas e até agressivas, tendência que tem sido, ultimamente, adotada pelas adaptações audiovisuais dos contos, onde se releva o espaço interior das personagens femininas, os valores que as suas ações transmitem e o modo como se posicionam ou pretendem posicionar-se no Mundo enquanto elementos transformadores da sociedade.
Nesta ordem de ideias, as adaptações dos contos de fadas ao cinema perdem o seu valor universal, perdem a sua intemporalidade, tornando-se fruto da época em que foram exibidos os filmes. Por esta razão, os valores apresentados são diferentes, já que os problemas sociais são outros, distintos. Surgem, assim, desvios aos textos anteriores, no sentido de se subverter os papéis e as expectativas estereotípicas dos contos e ainda para estabelecer novos paradigmas de comportamento e relação com o poder. 
As personagens femininas ganham um novo estatuto que subverte o ambiente patriarcal das versões orais e escritas, sendo notórios, dessa forma, os novos papéis que as mulheres têm assumido na sociedade. Na verdade, as figuras femininas deixaram de ser concebidas como seres passivos e vitimizados, tendo-se tornado guerreiras, resistentes, donas do seu destino, fonte de resoluções pessoais e sociais, até, e entidades que dominam dinamicamente o espaço social em que circulam, desempenhando tarefas e profissões e tomando decisões que eram atribuídas usualmente aos elementos masculinos. Por outro lado, a emancipação da mulher atual é comprovada pela clara presença das aspirações afetivo-sexuais dessas personagens. 
Depois de ler(em) Branca de Neve e suas irmãs, compilação comentada por Francisco Vaz da Silva de várias variantes da história de Branca de Neve, veja(m) Snow White and the huntsman [Branca de Neve e o caçador], de Rupert Sanders, de 2012. 
Aqui, a pequena princesa Branca de Neve sempre foi adorada, no reino, pelo seu espírito desafiador e pela pureza do coração. Após a morte do pai, assassinado por Ravenna, a sua nova esposa, Branca de Neve é feita prisoneira pela malvada madrasta, usurpadora do poder governativo do reino, até então feliz e prosperante. Para se manter jovem, bela e poderosa, Ravenna necessita de absorver a juventude e a beleza de jovens mulheres. Quando o espelho mágico lhe diz que Branca de Neve atingiu a maturidade, pelo que é a mais bonita e pura das mulheres, Ravenna ordena que lhe tragam o coração da enteada. A partir de então, os dados estão lançados quanto ao crescimento interior de Branca de Neve. 
De facto, ao fugir das garras da Rainha Má, a jovem toma conhecimento da situação tenebrosa em que caiu o seu reino, uma terra inóspita, estéril, desesperançada, carente de renovação vivencial. Percorrendo um caminho que resolva este problema, Branca de Neve vai aprendendo a lutar e, sobretudo, vai-se conhecendo, em diversas ocasiões, como mulher corajosa, defensiva, determinada (ainda que por vezes se sinta incapaz), mulher que sabe propor soluções de resolução dos problemas, fazendo-se acompanhar de coadjuvantes, já que tem noção das suas limitações, quer físicas quer, até, de personalidade. Branca de Neve vai-se apercebendo de que é uma mulher predestinada para o poder e que, por isso mesmo, tem de arregaçar as mangas e lutar por aquilo que lhe pertence por direito, aquilo que é de todos os habitantes do reino. Para tal, acaba por se tornar o oposto do que conhecemos desta personagem: guerreira destemida, a princesa organiza um exército, incentivando-o à recuperação do reino e ao confronto contra os soldados de Ravenna. Liderando as hostes, vestida de armadura, Branca de Neve confronta a madrasta, acabando por matá-la, ao apunhalá-la no coração. 
Branca de Neve torna-se, assim, a salvadora da pátria, a luz que afasta as trevas, a ressurreição da vida do reino, que floresce novamente, assim que a nova rainha, a legítima, é coroada e aclamada pelos seus súbditos.
(Continua…)

 


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