Feliz Ano Novo

                                                                                

                                                     

Foi uma briga dos diabos, feia até mais não poder ser. O Ano Velho portara-se muito mal e o Ano Novo não gostou. Lá decidiram ajustar contas à porta fechada, para que ninguém os visse sem máscaras e foi um tal descascar um no outro. 2020 devia ter vergonha e podia mesmo ter pedido perdão pelo seu comportamento criminoso, porém preferiu armar-se em esperto e a tareia foi bem merecida. Apanhou pela medida grossa ao deixar a fatura por pagar. Isto não se faz em banda nenhuma. Contas são contas. Todos os anos ajustam as suas de maneira mais ou menos razoável. Pegam-se, mas não se matam. Ano velho, de gasto e acabado, geralmente morre por si. 2021 bem que queria matar o seu predecessor, mas decidiu deixá-lo dar o seu próprio berro – histórico e sem precedentes no peso da amargura que perdura para mal dos nossos pecados. Um ano para esquecer, mas que todo o mundo vai continuar a lembrar, infelizmente, tal foi a dimensão da dor e do luto afetando um sem fim de vidas e famílias amarguradas.
Não era preciso ter sido assim, mas agora o mal está feito e jamais poderemos apagar das nossas mentes o trágico tamanho da catástrofe teimosa em não querer deixar-nos. Foi a pior herança que qualquer ano novo podia ter recebido – um vírus assassino que adora agir às escondidas e pela calada. Percebo que 2020 foi apanhado de surpresa logo no início e, sem estar preparado, deixou-se manipular. É pena, porque podia e devia ter feito muito melhor. Não há anos perfeitos, bem sabemos, todavia tão desastrosos também não costumam aparecer como este que acabou de nos deixar. E deixou-nos com os nervos à flor da pele. Os estragos não nos deixam dormir descansados porque todos os dias há vítimas que não contavam com a sorrateira visita do venenoso vírus. Traiçoeiro, quer tramar 2021 como tramou 2020. Descarado, o medo não desiste e promete continuar por aí a ameaçar-nos passo a passo, instante a instante. Todas as cautelas são poucas. A paranoia instalou-se no meio ambiente que nos rodeia e nem confiamos no ar que respiramos. As máscaras que o digam. 
Já nem sei o que dizer, a não ser que nunca tal pensei passar por dias assim tão periclitantes. Uma enorme nuvem de profunda tristeza teima em cobrir os rostos das pessoas forçadas a esconderem ou disfarçarem as suas genuínas emoções e eu confesso já sentir saudades dos sorrisos, dos abraços, das gargalhadas, dos convívios, enfim – daquele saboroso calor humano que tanta falta nos faz quando nos associamos a quem gostamos e nos faz dispor bem. Todo este distanciamento social, há meses recomendado e agora exigido, faz-nos muito mal à saúde. Há muita gente a pegar de cabeça, para não falar nos que já bateram com ela na parede do desespero e da angústia provocada pelo emprego que se foi, pelo dinheiro que não vem e, consequentemente, pelo alimento que não chega para matar a fome a aumentar de dia para dia no seio de tantos lares desfeitos em lágrimas de mágoa que não se vê. 
O que estou farto de ver é este vírus virar-nos em demasia a vida do avesso e pôr-nos o miolo a arder. Ainda por cima, com a porcaria da política cada vez mais aliada à estupidez humana, nunca imaginava descermos tão baixo como nação edificada nos mais tão altos ideais. O que aconteceu no passado dia seis, no interior da Casa Branca, deixará para sempre gravada na história deste orgulhoso país uma arrepiante mancha negra que nos obriga a pensar e repensar se valerá realmente a pena andarmos para aí a azedarmo-nos uns aos outros com nojenta politiquice besuntada em linguagem divisiva que só nos separa e afasta ainda mais, quando bem precisamos de nos unir e dialogar. Será assim tão difícil debatermos educadamente as nossas diferenças de opinião sem termos de nos insultar e agredir? Tantos amigos que deixaram de o ser, só pela toleima de quererem levar a sua avante. Pagará mesmo a pena tamanha tolice? Deve ser um dos efeitos mais tristes desta porca pandemia – quanto mais nos isolamos, menos nos entendemos e o resultado está à vista – vivemos presentemente nos Estados Desunidos da América. Dói constatar, mas não há volta a dar. O mal, repito, está feito. E deixou marcas tão profundas que duvido muito se algum dia desaparecerão. 
O que ainda faço bem, de quando em vez, é “desaparecer” por algum tempo em cata da minha santa paz de espírito, que por nada troco, e fui encontrá-la descontraída na passagem dum ano para o outro a pedir-me uns versos alusivos ao festivo momento que já lá vai, mas aqui e agora me apraz registar.

E assim o tempo passa,
Tantas vezes malpassado,
Este ano da desgraça
Já devia ter andado.

Ano Velho que trouxeste
Tanto luto, tanta dor,
Tanto desgosto nos deste,
Seu maldito estupor.

Soubeste-nos torturar
Com as tuas crueldades.
Podes pegar e andar,
Que não deixas saudades.

Ano Negro duma figa,
Forte d’azar incomum,
Só fraquejaste na briga
Com dois mi e vinte um.

Ganhou-te. Pega e anda!
Nunca vi ano pior.
Podes ir p’rá outra banda.
Queremos outro melhor.

Tás nos últimos suspiros,
É chegada a tua hora.
Leva contigo o vírus
Deste mundo para fora.

Ano Novo, toma tino,
E afoga duma vez
Este vírus assassino
Que tanto mal já nos fez.

Roubou-nos a alegria,
Perdemos a paciência.
Duma vida mais sadia
Precisamos com urgência.

Traz-nos já essa vacina!
Afugenta-nos a morte!
Temos fé na medicina.
Merecemos melhor sorte.

Sorte, saúde e paz,
Dá-nos seja como for.
E que não fique atrás
O sadio bom humor.

Com ele sigo avante,
A rir como a brincar,
É ele que me garante
Um sorriso salutar.

E porque este me diz,
“Partilha-me por igual”,
Faço como sempre fiz,
Aos leitores em geral,
Votos dum Ano Feliz!