A pata na poça

                                                                                                                                                                           

2023 arrancou encharcado como há muito não se via por estas nossas sedentas paragens californianas. A chuva tem caído em quantidade bastante apreciada por quem tem levado os últimos anos a queixar-se dos prejuízos das secas prolongadas, chegando mesmo a pedir aos céus a generosa ajuda que bem precisávamos do precioso verbo chover.  “Já não era sem tempo”, dizem os que ouviram as suas preces serem atendidas por São Pedro, incansável nestas duas primeiras semanas do ano em fazer-nos lembrar que estamos na gema do inverno e que janeiro, tal como acontece nas saudosas terrinhas donde viemos, tem todo o direito em ser considerado um mês molhado. Sobretudo nós ilhéus, mais do que habituados aos excessos do “mau tempo”, não o estranhamos nesta altura do ano quando põe e dispõe conforme quer e entende, sem quaisquer satisfações meteorológicas a dar seja a quem for sobre as condições atmosféricas criadas à nossa volta.
Para ser franco, até gosto mais de escrever quando está a chover e hoje podia muito bem aproveitar-me daquele nosso curioso ditado antigo – “dia de chuva é dia de pancadaria” – para distribuir umas merecidas pancadas pesadas por aí, mas não vou fazê-lo. Dia de chuva também pode sê-lo de boa disposição e dela sei que bem preciso ao menos enquanto teimar em escrever pelo puro prazer de ir ao encontro de quem ainda me lê nas entrelinhas. Acabo de passar os olhos pela tal bombástica notícia desportiva de que o nosso afamado “rei da bola” lusa, agora também oficialmente tornado no mais bem pago futebolista do mundo, vai dar largas ao seu sonho de se tornar num autêntico “rei das arábias”. Apesar da desilusão dum Mundial meio fracassado e com um fim de carreira a aproximar-se rapidamente, Cristiano Ronaldo decidiu continuar nas bocas do mundo rumando ao Médio Oriente, onde o nível de futebol praticado nem mediano chega a ser, para se tornar na mais bem remunerada vedeta do planeta e passar a morar na aparatosa suite dum hotel de luxo cobrando-lhe a renda mais cara de que já ouvi falar neste mundo.
Para o outro mundo, na despedida do defunto 2022, foi-se o melhor jogador de todos os tempos – para mim e muitíssimos mais adeptos do fantástico desporto-rei – o “rei” Pelé.  Duas consoantes e uma vogal, com a ajuda dum acento agudo, criaram-lhe esse popular nome agora para sempre celebrizado como o Maior. Edson Arantes do Nascimento acaba de nos deixar e o futebol permanecerá de luto, por mais algum tempo, a celebrar a sua brilhante carreira como embaixador máximo dum desporto rico em criar estrelas, mas nenhuma tão luzidia como a sua de menino prodígio saído ainda tímido, certo dia, lá da sanzala onde brincava descalço com uma bola de coiro duro, para passar a encher estádios e apaixonar multidões encantadas com a sua espetacularidade ao serviço das poucas equipas que representou. Primeiro, o Santos, seu clube do coração que o lançou, mas sobretudo a sua amada seleção brasileira que depois o consagrou como o único futebolista 3 vezes campeão mundial, antes de concluir o seu impressionante “reinado” pelos campos da bola representando o Cosmos de New York.  Ao contrário dos astros de hoje, beneficiados por contratos fabulosos de fortunas astronómicas, Pelé nunca viu o dinheiro que merecia pela fenomenal magia que exibia nos relvados que o viram jogar numa era ainda marcada pelo amor à camisola. 
Com essa velha mística a desaparecer nos nossos dias, hoje já ninguém duvida que fala bem mais alto o amor ao dinheiro transformando, aos poucos, a beleza do futebol num lucrativo negócio com desagradável cheiro a mofo mafioso. Também sou dos que não querem crer na recente especulação de Ronaldo ir receber outra “fortuna das arábias” para promover a futura candidatura do Mundial para aquelas bandas contra a possibilidade de o vermos disputado na Península Ibérica. Dizem os astutos donos desses manhosos boatos que irá apenas emprestar a sua poderosa imagem para o efeito. Ora Bolas – digo eu – emprestá-la para ajudar a levar outro Mundial para aquela parte do planeta onde alguns dos mais fundamentais direitos humanos continuam a arrastar-se pelas ruas da amargura? Por favor, não me peçam para engolir, a seco, tamanha batata quente.
Enfim, deliciado com as múltiplas maravilhas exibidas, tanto por Pelé como por Ronaldo e outros mais, ao longo dos anos, na formidável promoção do futebol tornado “jogo bonito”, não posso deixar de me confessar igualmente desiludido com esse tal feio futebol feito lucro facilmente manipulado nos bastidores por interesses dúbios que só lhe sujam a boa imagem de ainda permanecer o tal desporto-rei das multidões que apaixonadamente o adoram e aplaudem à volta do mundo. 
2023 acaba de arrancar, por cá, todo “alagado pingando” num inverno que parece prometer mais chuva grossa de polémicas onde nem os nossos consagrados ícones, aqui e acolá, se esquivam de meterem a pata na poça.