Ares primaveris

                                                                                

Pelo seu salutar simbolismo da vida que ciclicamente se renova colorida no desabrochar da Natureza a saciar-nos os olhos da alma, nada neste mundo se compara ao fascinante florir da primavera. É, de longe, a fase mais linda do ano. Delicia-nos o olhar e convida-nos a sorrir. Um simpático convite que de forma alguma recusamos. Faz-nos sentir bem. Exceto quando as coisas correm mal, como foi o caso claro no ano passado por esta altura desse venenoso vírus ter decidido vir roubar-nos o fulgor primaveril. Um ano depois de inúmeras mortes e incalculáveis dores, cá estamos nós a tentar saborear esses inconfundíveis ares da primavera agora a sorrir-nos com novo ânimo. Até parece peta o que se passou, mas não foi. Foi sim um pesadelo de todos os tamanhos que deixou severas marcas. E as máscaras não nos deixam mentir ao taparem-nos o rosto mais ou menos sorridente.
Alguém ainda não nascido vai querer saber um dia que macabro horror foi este a angustiar-nos ao longo de demasiados meses seguidos. Gostaria de poder conhecer ao menos um bisneto para lhe contar. E se me pedisse para lhe catalogar todo este caricato tempo de forçado confinamento em duas ou três palavras, dir-lhe-ia sem hesitar que 2020 foi mesmo um “ano da desgraça”. Em sessenta e cinco de vida, ainda não tinha conhecido o desprazer de me roubarem o encanto primaveril impondo-me uma máscara para me esconder os sorrisos. Preciso deles como do pão para a boca. Sei bem de gente trombuda que facilmente os dispensa, mas não é o meu caso. Não tenho culpa alguma de acreditar profundamente que tristezas não pagam dívidas. E alegra-me também muito saber que não estou só nessa crença porque, felizmente, venho duma terra aonde sempre se pensou assim. Alguém porventura ainda duvida que a primavera vem para nos dispor bem?
Todos, se quisermos, podemo-nos trancar em casa a ver televisão sintonizada num sem fim de tristonhas notícias que só nos trazem dores de cabeça. Isso aconteceu muito no decorrer do último ano que nos arrastou em demasia para o consumo televisivo de polémicas sobre polémicas, tristezas atrás de tristezas, tragédias em cima de tragédias forçando-nos depois quase a termos de procurar alguém para lhes despejarmos as culpas em cima. Enquanto andou por cá o loiro chefe da Casa Branca, foi fácil demais culpá-lo por tudo e por nada como eleito bombo das festas (proibidas por força das circunstâncias). Porém, agora que ele se foi, está sendo difícil encontrar-se um bode expiatório para as crónicas enxaquecas que não largam esta toda poderosa nação. A América, acusada de racista por inúmeros filhos seus, continua a ser a terra desejada por tantos milhares de desesperados seres humanos, de todas as raças, que teimam em arriscar a vida para atravessarem as suas fronteiras. Um fluxo nunca dantes visto em tão alarmante número de gente de tenra idade a suplicar para cá entrar...dá que pensar. E o drama, ou crise, se assim preferirem chamar, promete continuar a dar que falar.
O que me vale é ter prometido a mim mesmo desligar a televisão e não permitir que as suas ruidosas arengas me arruínem esta primavera. O meu quintal e o meu jardim estão à minha espera. Comecei a mondá-los e confesso que me agrada imenso vê-los floridos. Com as flores vem os sorrisos que me inspiram as rimas e soltam os versos. Para mim, é sadia terapia este tipo de poesia. Dispõe-me muitíssimo bem.  E porque me apraz partilhá-la, aqui vos solto um lírico ar da minha graça rimada ao encontro da vossa boa disposição. 

Hoje, a Mãe Natureza,
Num aceno matinal,
Sorriu-me em beleza
A florescer no quintal.

Céu azul e sol brilhante,
Ambos à minha espera,
Doaram-me num instante
Seus ares de primavera.

A chuva tinha trazido
Outra frescura às flores,
Deixando-me entretido
A namorar suas cores.

Lá enxotei os melrinhos
Já a sonharem, bem sei,
Em urdirem os seus ninhos
Nos ramos que eu podei.

Mas as abelhinhas não,
Pois as árvores em flor
Pedem polinização.
Quero fruta com sabor.

Saboreando em março
Os ares primaveris,
Confesso e não disfarço,
Já me fazem mais feliz

O meu olhar não se cansa
Do muito que vê  florir
Em sinais de esperança
Que começam a surgir.

São os melros, são as flores,
Abelhas em sinfonia,
Os sons, os céus e as cores
Que juntos, de mil amores,
Me banham em poesia.

Assim neste colorido,
O lindo desabrochar
Da vida ganha sentido
E pede ao atrevido
Do vírus para zarpar:

“Tu roubaste-nos as cores
Dos sorrisos d’alegria
E trocaste-nos as flores
Por ramos de agonia…
Não imaginas as dores…

Meus amigos, quem diria… 
… finalmente, parece já termos dias mais sorridentes à nossa espera. Não é peta. São os ares da primavera. 
Estão de volta.