Contas furadas

                                                                                

 

                                                                   
Quarenta meses e quatro dias, no momento em que escrevo, é a idade exata do meu primeiro neto. Estão-se a abeirar os seus três anos e meio e eu todo feliz da vida pelo distinto privilégio de ter vindo a acompanhar muito de perto a sua curta caminhada até aqui. Passamos diariamente várias horas juntos. Calhou assim. A disponibilidade dos avós e a vontade dos pais juntaram o útil ao agradável e, na boca santa da minha terna cara metade, dias há em que “parece quase estarmos no céu.” Di-lo de dentro, “não nos podiam ter dado mais gostoso rebuçado.” Quando, há coisa de um ano, passámos a tomar conta do segundo netinho, o quase desapareceu e convencemo-nos de que agora andamos mesmo nas nuvens com estes dois anjinhos. Engolfam-nos em alegria e cobrem-nos de felicidade. Sorrisos não nos faltam por cá, nem nos resta também já a mínima dúvida de que “os avós não servem para outra coisa.” É, tá claro, uma risonha maneira de pormos a nossa felizarda perspetiva em pratos limpos.
Lavada a loiça do almoço, com duas ou três voltas para dar, enfiámos anteontem os petizes no carro e lá fomos dar umas voltas. Precisávamos de ir às compras, mas primeiro tínhamos que passar pelo Banco para depositar e depois levantar algum dinheiro. É uma arte que tem vindo a mudar dramaticamente com o andar do tempo. Quando me criei há sessenta anos atrás na pacatez do meio rural ilhéu, ir ao Banco, lá na cidade, era coisa rara e até duma certa cerimónia. Ali não se entrava de qualquer maneira. Hoje tornou-se coisa banal. Já nem sequer é preciso entrar. Somos servidos na parte de fora. Como todo o mundo sabe, os serviços bancários tornaram-se acessíveis através de máquinas instaladas em caixas fixas no exterior para facilitarem a vida ao público consumidor. Estacionámos o carro a poucos passos da porta do Banco, onde a tal caixa metálica espera os fregueses mesmo ali ao lado da entrada. A avó desceu e pôs-se na bicha, com duas pessoas à sua frente. Eu fiquei a olhar pelos netos, com especial atenção para as respostas às perguntas do mais velhinho, que não se cala. “A vovó de que está à espera, vovô?” ... “Espera, como as outras pessoas, pela sua vez, filho, para agarrar o dinheiro que precisamos para irmos às compras.” A resposta sossegou-o, pois adora “fazer shopping” com os avós.
De facto, sem cartões de crédito à mão, estávamos a necessitar dumas quantas notas verdes. Chegada a sua vez, a avó acercou-se da “milagrosa” máquina encravada na parede e, dedilhando os códigos exigidos, de lá extraiu o “verdinho” que trazia a abanar na mão ao regressar ao carro. Tudo isto sempre sob o olhar atento do seu neto mais do que curioso. Parecia meio confuso com aquele aparente “milagre”, “o dinheiro sai mesmo da parede, vovó?” O sorriso da avó associou-se à resposta sorridente do avô, “parece simples, mas é mais complicado do que isso, querido. Um dia mais tarde, hás de perceber.” A minha explicação baralhou-o e calou-o por uns instantes, enquanto eu lá me pus a pensar no nublado futuro de financeiros desafios que aguardam a sua geração ameaçada a viver sob dívidas e défices que parecem não ter fim. 
Viver constantemente endividado, hoje em dia, é perfeitamente normal. A mentalidade corrente incentiva o recurso fácil ao crédito aliciante que permite a rapaziada sonhar com vidas fantasiadas pelo consumismo sem medida. E sem vergonha nenhuma, as políticas irresponsáveis dos políticos mais corruptos lá incitam o pessoal a gastar até apetecer. Porque assim se gerem abusivamente os dinheiros públicos. Quem se atrever a falar em contenção de despesas para acautelar o futuro, está lixado. Isso é estratégia antiquada e muito pouco popular. Já ninguém quer saber do que penaram ou pouparam os avós para bem de terem o que tem e viverem como vivem, responsavelmente. Está fora de moda pensar-se assim. O que interessa hoje é empurrar, com promessas falsas, o povinho manso para a cantiga louca do excessivo consumo e endividamento inevitável. Nada custa a uma pessoa pedir emprestado nem a um governo empolar o défice porque quem vier atrás que pague as favas e feche a porta, se quiser. E assim se hipoteca claramente o futuro dos nossos netos, ainda alheios ao complicado presente dos nossos filhos, cada vez com maior dificuldade em fazerem render o dinheiro que lhes vem dos buracos das paredes, mas não lhes para nos bolsos das calças porque vivem em dívida permanente.  
Venho do tempo em que aprendíamos, como firme conduta de vida, nunca gastarmos mais do que tínhamos para não termos de viver às custas ou às costas dos outros. Comprar fiado já era um risco enorme que se corria, mas logo que se arranjasse maneira de se ajustarem as contas no fim do mês, a coisa passava. Hoje não passa esse tipo de raciocínio pela cabeça dos mais novos. Era só o que faltava. Então para que servem esses luzidios cartões de plástico duro que os seduzem com enganoso crédito a viverem claramente acima das suas possibilidades(?), fiados sim no tal furado ditado do não deixes para gozar depois tudo o que podes gastar já. Esta é a mentalidade materialista do consumismo contemporâneo que ensina a malta a esbanjar à vontade, porque (copiando dos tais desavergonhados políticos o mau exemplo de não saberem manter as contas em dia) quem vier atrás que se lixe.