Fazer desaparecer

                                                                                                                                                    

Estou frustrado. Fui ao dicionário em busca dum significado para o verbo abortar e lá está o verbo frustrar. Frustrado com toda esta quente questão do aborto trazida de novo em chama viva para o politiqueiro ruído da praça pública. Ainda bem que não sou mulher porque a palavra sempre me indispôs; o ato faz-me vomitar. Não seria, para mim, uma decisão fácil de tomar, a não ser em instâncias tão claras que não deixam dúvidas. Há quem diga que abortar é matar, mas o dicionário prefere não ir tão longe. Diz que é apenas malograr, “fazer desaparecer”. E eu confesso, de momento, coisa que não consigo fazer desaparecer é esta medonha frustração pela angústia que tudo isto me causa. Bicudo como é e inserido que está num complicado contexto de escaldantes emoções, a ferverem claramente à flor da pele dos dias que passam deveras agitados cá nos States, o dilema deixa-me, mais do que frustrado, furioso. Por um lado, está o alegado direito da mulher em abortar como e quando quiser, por outro estão os incontáveis fetos, minúsculos seres de fecundada vida humana sem quaisquer direitos que os salvem de serem tratados como lixo descartável a qualquer instante. A tensão não é recente. Na minha mocidade, li e reli um precioso livrinho – “Carta a um Menino que Não Nasceu”, tradução da obra original de Oriana Fallaci, “Lettera a un Bambino Mai Nato” – que, na altura, me marcou bastante ao fazer-me tremer por dentro. Cá por fora, o empolgante drama teima em ferir sensibilidades virando facilmente as pessoas umas contra as outras sem apelo nem agravo. A algazarra dos protestos que se veem nas ruas não diz tudo, apesar dos gritos e insultos de parte a parte serem mais do que evidentes e sintomáticos dum conflito que promete prolongar-se sem palpável fim à vista. 
Sinto muito pelas mulheres que se veem feridas na defesa dos seus direitos, contudo não posso deixar de sentir imenso também pelas indefesas vidas em gestação brutalmente interrompida, sem mais nem menos, nos ventres maternos decididos a não darem à luz. A escuridão aterroriza-me nesta matéria e o facto de, ainda não há muito tempo, através do fabuloso sistema “ultrasound”, ter tido a oportunidade de ouvir bater o coração da minha pequenina netinha (após poucas semanas no ventre da mãe), faz-me pensar nesses múltiplos milhões de tenrinhos corações subitamente asfixiados sem dó nem oportunidade de poderem ver a luz dos dias que lhes são bruscamente negados. Há quem defenda que fetos não são bebés e pronto; aqui o debate morre à partida. É pena, porque eu sou um ferrenho fã de qualquer diálogo construtivo, sobretudo dos que salvam vidas. Filho dum pai nado, em tempos que já lá vão, como vigésimo segundo e último rebento saído do ventre da minha avó, deixem-me desabafar com quem não terá chance de o fazer. Faço-o porque me dói o pungente silêncio forçado dos sem voz.  

“Olá, meu pequerrucho, como vás? 

Por saber que não tens voz, é que decidi falar por ti e transmitir o que sentes, mas que tanta gente supostamente inteligente nega o direito de um dia poderes vir cá fora manifestá-lo como imagino que talvez gostasses. É triste o teu delicado caso e o desses silenciados milhões de rebentos condenados, à partida, a não nascerem, vítimas dum fado demasiado chorado nos ventres prenhes de lágrimas que não se veem. Adoraria poderes um dia provar como é linda a luz do dia a despertar lentamente em cada sol renascente. Sei perfeitamente que as mimosas meninas dos teus tenrinhos olhinhos iriam delirar de contentes ao abrirem-se deliciadas com as mil e tantas maravilhas que este mundo tem para nos brindar a cada instante. É um mundo colorido por inconfundíveis belezas das mais variadas naturezas, mas desfeado também por tantas áridas paisagens desumanas demais. E dessas cinzentas tristezas, perdoa-me meu pechinchinho, não te vou aqui falar. Não vale a pena, porque o teu tempo não dá para isso, injustamente limitado que é por quem te proíbe e tem proibido todos os outros, nas tuas deprimentes circunstâncias, de virem cá fora saborear como é bom sorrir.
Um sorriso é uma preciosidade única que cada ser humano, por mais ínfimo que pareça, tem ao seu dispor para poder irradiar felicidade ao seu redor. A um bebé em gestação no santuário da vida humana que é o doce ventre de sua mãe, não devia ser retirado o lídimo privilégio de sentir o que é amar e ser amado. A não ser em casos extremos de exceções justificadas, porque ninguém tem o direito de violar ou pôr em risco a vida de ninguém, sobretudo a da nossa rica mãe. Conheço mães que fizeram opções dolorosas, porque não há amor sem dor, e hoje vivem radiantes com a feliz escolha de terem dado à luz. Como conheço tantas outras que escolheram o oposto. O direito à escolha sensata e educada é crucial. Não me leves a mal se te disser que me sinto revoltado pelos insensíveis abortos cruelmente praticados pelo vil egoísmo de quem só pensa em si. Pensar em ti e na dramática realidade de não te poder ver nascer, fez-me escrever esta curta carta com o coração nas mãos e a alma num molhe. Sabes, meu “chinchinho”, sou contra quem só escolhe o arrepiante horror da morte sem sequer considerar alternativas disponíveis ao imenso prazer da vida. Lamento muito a tua sorte, pois, apesar de tanto reles ruido por aí vociferado com agressivo ódio à mistura, a meu ver, não há vidas insignificantes. Por esse impopular parecer, sempre puxo. Não merecias esse espinhoso azar, meu fofo pequerrucho.”