Açorda d’Alho e Hortelã

                                                                                                                                                    

“Do velho truque me valho,
Ao pôr manha na magia,
Trinco o meu dente d’alho
... E dou cabo da azia.”

“Se te enches de mania/e te cobres de tolice/arriscas-te algum dia/vir a morrer de burrice.” A quadra saiu-me atrevida cá para fora depois de ter sentido lá por dentro o estômago meio toldado. Gente há que tem essa arte de me indispor sem mais nem menos em tempo nenhum. Basta-me olhar para um bico retorcido ou nariz todo emproado e pronto – caldo entornado. Eu sei que a gente não é que se faz e custa-me muito a crer que alguém se faça mesmo tolo por querer. Às vezes, sabe-se lá, até pode vir de sangue. “São sortes”, costumávamos dizer na mocidade. E uma das minhas maiores, que me lembre – fugindo agora com o fio à meada – foi ter sido sempre sujeito de muito boa boca. “Se não comeres isto agora, vais comer mais logo... e se não comeres mais logo, hás de comê-lo amanhã.” Assim me ensinaram no Seminário Menor, dos meus dez aos quinze, aonde a comida era diariamente confecionada em larga quantidade para alimentar mais de trezentos “labregos” ali internados ao longo do ano letivo. Por vir dessa escola rígida nos seus processos disciplinares e alimentares, cedo aprendi a não ir para a cama com a barriga a dar horas. 
No meio rural, onde me criei rapazinho robusto, embora não tenha vindo de gente abastada, graças a Deus, nunca passei fome. E graças também ao emprego seguro de meu pai, nunca passámos fome lá em casa. Talvez por isso mesmo me sabia muito bem (quase) tudo o que comia. O quase, entre parêntesis, tem a sua razão de ser. Ainda hoje não consigo tragar molho de bofes. É a exceção. Só o cheiro dá-me ânsias de vomitar. Vá se lá saber porquê. Não tenho bem a certeza, mas parece-me que veio dum já mui longínquo dia de matança. A coisa caiu-me mal no goto e só me lembro de ter feito caretas do arco da velha, ante o riso miudinho das minhas tias zombando com aparente dó de mim – “coitadinho do nosso pequeno”, virou-se uma delas para minha mãe – “ó Ariete, dá-lhe um pedacinho de linguiça frita, se queres ver como ele se consola todo.” Não tenham dúvidas. Valeu-me muito ter crescido com aquele salutar cheirinho da linguiça defumada no arco da chaminé. Fazia-me um bem danado, às narinas e não só. Mas a gente não é que se faz. Meu irmão, três anos mais novo do que eu, por ser muito biqueiro, fez-se um grande cozinheiro.
O nosso Carlinhos, graças a Deus, nunca teve bico retorcido, contudo já naquele tempo, tinha-o meio desconsolado. Teve sorte por não ter sido vítima do mesmo regime alimentar, quase de caserna, que eu tive e cedo ter arranjado maneira de ir petiscando umas dentadinhas disto ou daquilo com tempero mais ao seu gosto. A morcela, a linguiça e até os torresmos de toucinho, para não dizer mais, tinham que ser muito bem acautelados pelas mãos dos nossos pais. Minha mãe via-se doida com o nosso menino, “tão reles para comer, mas jeitoso para cozinhar.” Até parece que saíam um ao outro. Ver ambos meios pegados por monde de temperos e receitas, para mim, era mesmo uma festa à parte. Hoje, olhando lá para trás, confesso não conseguir esconder um sorriso saudoso desse tempo santo em que tanto beneficiei dos dotes culinários da minha santa mãe depressa aperfeiçoados pelo meu prendado mano. Como todas as boas bocas, a minha come de quase tudo e não tem receio algum em pedir-me que lhe dobre a dose daquilo que mais aprecia. Claro que não tenho qualquer problema em fazer-lhe a vontade porque, ao fim e ao cabo, que melhor levamos deste mundo?
“Uma coisinha boa que comemos e bebemos”, costumava responder meu avô, doido pela sua açorda quentinha com gosto a pão caseiro ajudado por dois ovinhos frescos das nossas galinhas e aquele imprescindível cheiro a hortelã da gente se consolar todos e ainda chorar por mais. Só que um copinho, ou dois, de vinho de cheiro a acompanhar, não permitia quaisquer lágrimas. A não ser que viessem de alegria, como as que agora enxugo de nostalgia ensopada nestas mimosas memórias. É que meu avô, Deus o tenha em bom lugar, era um daqueles homens à antiga sem quaisquer papas na língua sempre pronta a destravar-se contra quem, sem mais nem menos, lhe viesse embrulhar o estômago com soberbas descabidas. A mostarda subia-lhe ao nariz em tempo nenhum, “aquele toleirão/aquela toleirona, todos inchados a quererem fazer-se mais do que são...”
Sou neto fiel ao seu parecer, pois nada me tolda tanto o estômago como ver gente demasiadamente cheia de si. Cria-se-me cá por dentro uma daquelas incómodas indisposições intestinais a pedir-me de imediato uma açordinha bem amanhada à nossa boa maneira, com todos os ingredientes acima mencionados e + um – o indispensável dente d’alho. Escuso adiantar porquê.