Pensando por mim

                                                                                

                                                                                               

A gente não é que se faz. Cada qual é como é, mas nem sempre como desejaria ser. Daí o vermos tanta frustração inconsolada por este mundo fora onde não falta quem se mate e esfole para parecer mais do que é, esquecendo sermos todos humanos imperfeitos por natureza. A frágil fibra de que somos feitos neste mundo faz-nos embirrar mais facilmente com as imperfeições dos outros. Incapazes de toparmos as nossas cá tão pertinho, especializamo-nos em apontar as alheias lá ao longe. Algumas irritam-nos de sobremaneira. No meu caso, ainda estou para saber porque é que não gosto de gente amuada. Talvez seja defeito meu, mas vou à lua num virote sempre que alguém fica inchado comigo sem uma explicação razoável. Ou pior ainda, quando deixam de me falar sem justificação alguma. Faz porventura algum sentido?
Quando verdadeiramente sã, sem falsos corantes nem ranhosos conservantes, uma amizade genuína deve ser das maiores preciosidades que nos apraz desfrutar nesta vida. Só o seu estimado primo filho de irmãos, o amor na sua fórmula original, se lhe supera em nobreza capaz de transformar este mundo para melhor. Sou dos que creem firmemente que uma boa amizade nunca deveria ser estragada pela porcaria da política. Mas tal, infelizmente, continua a acontecer com indesejada frequência devido à crescente toada inflamatória em presentes termos politiqueiros, ao menos cá pelos “States”. Deixei de morar nas nossas mimosas Ilhas de Bruma há já mais de quatro décadas, mas contam-me que, por lá, se passa o mesmo. A politiquice poluiu os límpidos ares do bom senso e ficamos todos a perder sempre que alguém desiste da sua boa educação para soltar o seu feroz lado animal. Pessoas que deixam de discutir ideias ou comparar ideais para se atacarem denegrindo-se com rasqueiros insultos, não merecem conviver numa sociedade civilizada. A tão apreciada sensatez humana vai-se sentindo cada vez mais ameaçada pela perigosa lei da selva a infiltrar-se de dia para dia nos comportamentos absurdos de quem por aí anda a portar-se bem pior do que muitos dos tais bichos ditos selvagens.
Há uma mórbida tendência a popularizar-se no nosso quotidiano convívio – “se não concordas comigo, ou se não estás do meu lado, ‘sorry’, mas não és meu amigo”. É preciso ter lata, não é? Ora bolas, então já não se pode cultivar amizade sem se discordar no pensamento? Claro que se pode. Basta, a meu ver, e como diria meu avô, que saibamos ser “razoavelmente discretos.” É das virtudes que mais admiro em qualquer pessoa de bem, independentemente do seu coeficiente intelectual ou estatuto social. Considerada uma das mais inteligentes e influentes figuras femininas na sociedade americana das últimas décadas, Ruth Bader Ginsburg, a recentemente falecida juíza do Supremo Tribunal deixou-nos lições tremendas nesse aspeto. Sem jamais abdicar das suas ideológicas opções liberais, sobretudo na incansável luta que soube manter ao longo duma brilhante carreira pugnando pelos direitos das mulheres, nunca escondeu igualmente que o seu melhor amigo dentre os nove juízes Supremos era rigorosamente o mais conservador de todos – Antonin Scalia. Apesar de defenderem posições antagónicas, mantiveram respeitavelmente durante largos anos uma salutar relação de amizade porque, “entre gente razoavelmente discreta, podem-se combater ideias sem terem de se atacar pessoas.” 
“Gente tola e toiros...paredes altas”, é um dizer antigo que ainda hoje sai com muita graça da voz do povo da minha terra. Vem-lhe da alma esse curioso desabafo. Há que saber fugir de ambos a tempo e horas. Não gosto de chamar nomes a ninguém, mas não engraço lá muito com quem passa a vida gabando-se da sua opinião valer mais do que a dos outros. O irritante complexo duma superioridade moral ou ética desagrada-me por completo ao topá-lo em gente demasiadamente cheia de si mesma, para quem o meu saudoso avô, sem papas na língua, gostava de guardar um adjetivo muito claro no seu simples significado – toleirões. Ou toleironas, porque também as há da mesma maneira. A tolice não conhece sexo. Fruto podre desta politiqueira barafunda que Donald Trump agravou ao ser eleito há quatro anos, o que tenho lido, ouvido e engolido ultimamente de pessoas que julgava mais ponderadas, deixam-me boquiaberto. Bem que me apetecia, mas não me vou aqui rebaixar ao seu nível. Desceu demais. O que posso é resumir-vos um elucidativo episódio que fala por si.
Prezo-me muito de pensar pela minha cabecinha e irrito-me facilmente quando alguém manhosamente se oferece para querer fazê-lo por mim. Quer seja ideologia, partido, televisão ou mesmo um bom amigo – a ninguém dou esse prazer. Isto acontece muito em tempo de eleições. “Não achas que estás a pensar mal?” Irrito-me, mas não me amuo. Tento perceber e respeitar a opinião alheia desde que não fuja ao razoável ou me cheire obcecada, doentia até, como notei no perturbado parecer dum ou outro prezado “amigo” deixando-se cegar ao ponto de “desejar a pior das mortes àquele patife do Trampa.” Isto quando o presidente americano contraiu recentemente o vírus, para contentamento dos seus mais venenosos opositores. Sim, porque é preciso ter veneno coalhado no sangue para desejar tal coisa seja a quem for. Não o tenho e manifestei-me repudiando, de pronto, esse macabro desejo com letra maiúscula para a malta do Facebook. Um dos tais “amigos”, que não me conhece muito bem, acusando-me de eu estar a defender “aquele porra tonta”, e sem coragem para me ligar diretamente a fim de trocarmos pontos de vista, lá teve a amabilidade de comunicar à sua mulher que telefonasse à minha prima para que ela me perguntasse “se eu andava a rolar bem do juízo...”
E pronto. São assim as pessoas (intriguistas) sem argumentos. Mandam umas bocas para o ar, cospem uns insultos à toa e, de mexerico em mexerico, repetindo frases feitas e gastas, lá se vão entretendo a espalhar esse seu venenozinho que eu podia muito bem ignorar, como fui aconselhado, mas não consigo. Prezo o sossego da minha consciência que logo me sugeriu contatar o meu “amigo” para que conversássemos como gente discreta, se ele fosse Homem para tal. Não foi. Amuou-se e preferiu mesmo deixar de me falar... sem justificação alguma, mostrando bem quem era pelo que fez. Só lhe tenho a agradecer a cortesia. A gente não é que se faz.