Anita Garibaldi: a Mulher e o Mito

 

Ficamos os dois estáticos e silenciosos, 
olhando-nos reciprocamente como duas
pessoas que não estão se vendo pela 
primeira vez... Saudei-a, finalmente, e
lhe  disse: ‘Tu devi essere mia’ (...)
Giuseppe Garibaldi.
in: Dumas, Alexandre.“Mémoires de Garibaldi” (1860).

Celebramos, neste ano de 2021, o bicentenário do aniversário da mulher heroína, a catarinense Anita Garibaldi. Por todas as latitudes e geografias proclamam-se a saga épica dos ideais republicanos no Sul do Brasil , os embates pela unificação italiana e o grande amor entre Anita e Giuseppe Garibaldi (1807-1882), o revolucionário italiano que, por este Atlântico Sul, navegou até Laguna e proclamou a República Catarinense a 29 de julho de 1839. 
Ali, à beira-mar, nasceu a paixão por Ana Maria de Jesus Ribeiro, a sua Anita – mulher companheira de todas as lutas até morrer aos 28 anos na Itália, como Anita Garibaldi, “a heroína de dois mundos”. Uma mulher que, premida entre a tradição e a paixão, entre o presbitério e o pecado, largou tudo, rompeu com seu pequeno mundo e seguiu Garibaldi, passando à história como “a heroína de dois mundos” – a mulher transformou-se num mito e o mito colocou  à  sombra a mulher.
Seu belo retrato foi traçado a partir do olhar de muitos biógrafos da ilustre catarinense, como o arquiteto Wolfgang Ludwig Rau, o autor da valiosa obra biográfica Anita Garibaldi – O perfil de uma heroína Brasileira, reeditada em 2019 pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.
Quem foi a mulher? Onde nasceu o Mito? Ao longo dos anos muitos foram os questionamentos sobre o lugar de nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Aninha do Bentão. Há uma certidão de nascimento emitida em 1999, registro tardio por determinação judicial, dando por local o município de Laguna, embora não tenha sido localizado o seu registro de batismo, como era o usual na época.  Uma busca encerrada oficialmente, porém a controvérsia permanece. 
Nasceu Ana Maria de Jesus, a Aninha do Bentão.  Junto ao mar de Laguna tornou-se mulher. A mulher deu lugar ao mito – Anita Garibaldi. O mito nasceu na Itália e foi peça-chave na campanha nacionalista que propagava a unificação italiana. 
Muitos foram os artistas dos mais diferentes lugares e escolas, que com seu olhar e mundividências, expressaram com seu pincel, seu traço, seu desenho, na arte pictórica a epopeia destemida de Anita e Giuseppe Garibaldi. Porém, nenhum se dedicou com tanto fervor a fazer uma imensa leitura visual da saga do casal revolucionário como o tubaronense Willy Zumblick. O pintor conferiu à Ana Maria de Jesus Ribeiro um memorável espaço na historiografia catarinense, contribuindo de forma incontestável no reconhecimento da mulher heroína e seus feitos pelo povo do seu estado natal, Santa Catarina. A grandiosa coleção “O Trajeto de Anita” ao narrar a trajetória épica da heroína e da mulher, em dezoito obras de dimensões colossais, óleo sobre tela, pintados entre 1952 e 1984, dignifica a História e orgulha os catarinenses de todas as gerações.  Zumblick deixa o seu pincel corporificar os momentos que marcaram fortemente a história de Anita e de uma guerra entre brasileiros, levando-nos a viajar no tempo daquele cenário histórico de lutas e de tantos sonhos de liberdade e igualdade, e ir ao encontro de uma jovem mulher e de um punhado de homens que deram a vida para fazer prevalecer os seus ideais de humanidade.  
Protagonista de intensas vivências. Uma aventura de dez anos daquela jovem de 18 anos que um dia partiu por outras geografias e latitudes, sempre desperta para o que a movia e comovia adentro da terra natal, e ao longe no Rio Grande do Sul, Uruguai e Itália, por “territórios do coração” – o universal. 
Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Aninha do Bentão, pode ter nascido em Lages, na Fazenda Nossa Senhora do Socorro, como enfatiza o historiador Licurgo Costa. Para o historiador Saul Ulysséa (1868-1948), Anita nasceu em Morrinhos de Mirim (Imbituba) e não em Morrinhos de Tubarão. Para Walter Zumblick em Aninha do Bentão e com certeza para todos os tubaronenses (como eu) Anita é nascida em Morrinhos, município de Tubarão desmembrado de Laguna em 27 de maio de 1870.   
Foi no lugarejo de Morrinhos, próximo da Madre e do Morro Grande, no fértil Vale do rio Tubarão, região rica em campos de pastagens e terras agricultáveis, sobretudo para o plantio de arroz, que nasceu Aninha do Bentão, filha do tropeiro serrano Bento Ribeiro da Silva, oriundo de São José dos Pinhais, Paraná, e de Maria Antônia de Jesus Antunes, natural de Laguna. Era natural que a menina e adolescente fosse criada nas lidas do campo, que era corajosa desde pequena, voluntariosa, excelente amazonas. Na adolescência se destacava por atitudes ousadas, enfrentando as convenções da sociedade fechada no mundo acanhado em que vivia. É neste ambiente campeiro que rompe o casulo da “Aninha do Bentão” e nasce a mulher Ana Maria, o mito Anita, mulher paixão, determinada que superou a tudo para estar ao lado do seu amor, Giuseppe Garibaldi, o homem guerreiro, forte, o amor sonhado. 
Irrequieta, desassossegada, teimosa – “tinha sangue nas ventas” – contava minha Vó Sinhá, Virgínia Oliveira Cardoso Machado. Não tinha como frear o temperamento impulsivo, valente e arrojado da Aninha do Bentão, o jeito foi arranjar o casamento com Manuel Duarte de Aguiar, dez anos mais velho do que ela, então uma menina moça, com pouco mais de 14 anos. A jovem teve outro pretendente, o sargento João Gonçalves Padilha, mas sua mãe arrefeceu qualquer aproximação, mantendo o compromisso e realizando o casamento da jovem Aninha com o sapateiro, na realidade era tamanqueiro, natural da Barra da Lagoa, Desterro. A família de Manuel Duarte de Aguiar era oriunda dos Açores. Também das ilhas açorianas vieram os familiares de Anita – “A menina de Laguna e, ainda, a primeira filha da tempestade e do amor dos Açores”, escreveu Anita Garibaldi Jallet, sua bisneta. 
Um casamento infeliz, uma vida conjugal insípida e uma jovem sonhadora e desejosa de um amor ardente que a completasse. Quatro anos depois, Anita conheceu Garibaldi. Ele, o homem viril, corajoso, aventureiro e bonito. Ela, “saudável e forte”, morena, cabelos pretos, liso e escorrido, seios avantajados, olhos castanhos escuros, grandes e amendoados. Retrato típico da mulher serrana, intrépida, acostumada à lida do campo, ao manejo da terra, ao azáfama da vida. O encontro assinalou o começo de uma nova história de bravura, lutas, sofrimento e da partilha intensa do forte sentimento que os uniu até a morte de Anita Garibaldi, a heroína de dois mundos – a amante apaixonada, a mãe amorosa, a companheira de uma vida na guerra e na paz. 
Com certeza, Ana Ribeiro de Jesus, a Aninha do Bentão, a Anita Garibaldi, a mulher heroína, infringiu todos os cânones sociais e religiosos da sociedade de então e quiçá de todas  as épocas. Longo foi o silêncio no berço natal Tubarão, na terra barriga verde, abençoada por Santa Catarina e no continente verde amarelo chamado Brasil. Sua biografia foi registrada com respeito e admiração a partir de sua vida ao lado de Garibaldi. A Itália e as Memórias de Garibaldi, na lavra de Alexandre Dumas, romperam o silêncio, quebrando o preconceito contra a mulher Ana Maria e enaltecendo Anita Garibaldi, o mito.