Os AÇORES na Crista da Onda

 

Para Daniel de Sá, sempre.

 

A expressão “crista da onda” ou, na gíria dos surfistas, “lip” é a parte mais alta da onda antes que caia e se rompe. É assim que estamos sentindo os Açores em Santa Catarina, no sul do Brasil desde que o projeto multiplataforma “ViVa Açores, conhecer é viver”, do grupo ND, começou a ser executado mês a mês com reportagens e matérias especiais sobre os Açores e Santa Catarina. Além da sintonia perfeita de toda equipe de profissionais envolvidos tenho constatado uma curiosidade imensa sobre os Açores, um paraíso de Ilhas apesar dos sismos e atividade vulcânica como recentemente na Ilha de São Jorge. A primeira matéria especial, “Acores, entre o mítico e o real”, assinada pelo jornalista Paulo Clóvis, investiga as origens das nove ilhas, um dos mais belos lugares do planeta, de onde vieram os nossos povoadores do século XVIII. O mesmo tema “As Ilhas” e suas origens e sua formação geológica, palco de erupções vulcânicas, inaugurou a série de reportagens da ND-TV. O próximo enfocará “O Turismo Lá e Cá”.
Por onde se vai há sempre alguém querendo saber mais sobre a reportagem especial que assistiu ou a matéria que leu no ND do fim de semana, ou dizer simplesmente: “meu sonho é conhecer os Açores!”. Famílias e grupos de amigos planejam conhecer as suas raízes e não raro afirmam orgulhosos: “minha família veio da Ilha Terceira ou de São Jorge”, de onde são oriundos 24% dos nossos açorianos. Muitos começam a questionar sobre o verdadeiro legado dos “nossos” açorianos. Afinal, qual é o patrimônio cultural salvaguardado e sobrevivente depois de 274 anos?  Será que vamos encontrar algo que nos identifique com os Açores de hoje? Estou convencida que o convite de “conhecer é viver”, o grande mote do “Viva Açores” começa a dar respostas e estimular o conhecimento mútuo entre o nosso Cá e o vosso Lá.  Pois, tenho a percepção absoluta da aventura e a coragem de chegar e partir carregando memórias construídas, vínculos de um passado distante que não está esquecido. Por isso continuo aqui neste vaievém “ em busca de...” e sempre com o Atlântico pelo meio. Repito a minha afirmação, com jeito de confissão, presente no artigo “Entre o Cá e o Lá,” publicado no Diário dos Açores e reproduzido no Pedra de Toque, (2019:30): “Flano por este imenso Atlântico, entrecruzando margens, no desejo de compreender a cartografia literária dos espaços insulares, explorando convergências, cumplicidades, diferenças e sinergias.” Nunca esta afirmação pareceu-me tão verdadeira! Seja no momento atual, seja no passado século XVIII quando os açorianos recém-chegados na nova pátria, mal acabados de sair de bordo uns e outros do hospital, não podiam suspeitar que estavam sendo protagonistas de uma página ímpar da história de Santa Catarina, ponto de partida da sua estruturação social, econômica e cultural. Sim, o açorino foi fundamental na constituição da sociedade catarinense. Dois especiais para a televisão e jornal impresso abordaram a necessidade de Migrar, a Viagem e a chegada dos Casais Açorianos na Ilha de Santa Catarina. Lembro bem do dia da gravação desse episódio dentro de um barco no meio da Baía Norte, possível local do desembarque. Coube a mim falar sobre a vida a bordo naqueles três meses de longa viagem: A história da menina Maria do Rozario San Thiago Ferreira da Lemos, natural da Vila das Velas (S.Jorge), de 13 anos, que chega prometida à Manoel Machado, natural da mesma Ilha, com 21 anos de idade; A descrição dos cômodos que abrigaram as mulheres, fechadas e separadas dos demais com portas de duas chaves diferentes e também os postigos cerrados com diversas chaves para resguardá-las, dentro do conceito de moral da época. Isoladas e discriminadas só podiam falar com o marido, o filho, ou irmão; A parca ração distribuída para homens e mulheres em idade produtiva, sendo que os idosos recebiam meia porção e aos doentes era dada uma dieta magra; a desnutrição, as doenças, a insalubridade e as mortes. Não vieram apenas pobres e miseráveis. Vieram soldados, padres, comerciantes, artesãos, lavradores e alguns nobres com bens de raiz e que ambicionavam poder e fortuna. Olhei ao meu redor o mar da baía, olhei à distância o horizonte líquido. Imaginei homens, mulheres e crianças enfrentando tantas dificuldades e incertezas rumo ao desconhecido e ao sonho de uma vida melhor. Silenciei, tomada de intensa emoção, como se o tempo me devolvesse ao passado 1748, quando da chegada da primeira leva de açoriano no porto de Desterro. Contive a lágrima teimosa e voltei ao presente 2022. Mais do que um grande movimento de diáspora significou um movimento de espírito na reinvenção da vida no Novo Mundo. Marcas de uma história indelével que honra Santa Catarina e os Açores.
No texto “Os Açorianos” apresentado no 1º Congresso de História Catarinense, em 1948, comemorativo do centenário do povoamento açoriano, o historiador Osvaldo Rodrigues Cabral escreveu: “ do açoriano recebeu e conservou a língua, a religião, o sentimento pátrio, os costumes dos antepassados, muitos dos quais ainda perduram vivos, entre o povo catarinense.” É este patrimônio cultural (material e imaterial) que o projeto “Viva Açores, conhecer é viver” está fazendo chegar à casa dos catarinenses. Até a Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres que há mais de trezentos anos acontece em Ponta Delgada mas não se realiza em Santa Catarina mereceu uma bonita reportagem no jornal Notícias do Dia de 21 e 22 de maio.  
A herança açoriana no litoral catarinense do jeito de viver e celebrar. Basta passear pelas ruas do Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa (na Ilha) e de São José, Enseada de Brito, São Francisco do Sul, Laguna e Jaguaruna (no continente) para encontrar as marcas de um passado ainda presente no casario com argamassas feitas com óleo de baleia, na simplicidade de suas igrejas e cruzeiros, nas tecnologias dos engenhos, ou nas baleiras ancoradas à beira mar. Cenários açorianos seculares! Daqui descortina-se mundividências em composições espaciais, iluminadas pela força da fé e das celebrações das festas em louvor ao Divino Espírito Santo, o RG da nossa identidade cultural. 
Que bom se os açorianos de hoje, das Ilhas e das Comunidades, quisessem conhecer este mundo novo que o médico Gaspar de Fróis, personagem do romance Um quarto de légua em quadro do escritor gaúcho Luiz Assis Brasil, discutia no seu diário citando as raízes e a gênese do nosso povo sulista. 
Domingo, 5 de junho, dia de Pentecostes.  Nas margens do Atlântico Sul e do Atlântico Norte é tempo da Festa do Divino Espírito Santo, nascida da alma coletiva, fortalecida na trilha geracional pelos caminhos do Divino. 
Vozes de perto ou de distantes geografias que tiveram as mais diferentes histórias de vida descobrem o sentimento de pertença e dão-se conta da confluência cultural e das infinitas similitudes. 
É tempo de celebrações por todo os Açores. As festas do Espírito Santo e a 6 de junho foi o Dia da Região Autónoma dos Açores. Este ano teve a presença de “uma açorianidade à brasileira” com quase 275 anos, que fez transbordar meu coração de emoção e alegria.
Obrigada Açores!