Crivo, a arte das Penélopes

 

     

 
​Li no​ jornal​ Notícias do Dia​, de Florianópolis, uma bonita e significativa matéria assinada pela jornalista Marcela Ximenes dedicada  à arte do Crivo e às mulheres criveiras.
O fazer secular da nossa cultura popular tradicional transmitida em ritos de passagem ao longo do tempo, do espaço telúrico, dos rumores do mar, da pluralidade de crenças e símbolos e da singularidade de cada comunidade – inegável patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina.
​Reflito sobre a arte nobre do Crivo que, no passado século XVIII, fez  os caminhos
do mar na bagagem dos povoadores açorianos e, hoje, representa um valioso componente do patrimônio cultural dos municípios de Governador Celso Ramos e Biguaçu.  Na terra de destino, salvaguardada na “Arca Açoriana” (numa paráfrase ao escritor ilhéu Almiro Caldeira), o seu bem maior – a cultura que, de forma consciente ou não, carregaram no seu jeito de ser, nos hábitos, nos costumes, nas tradições, nos saberes, nos fazeres, permitindo aquilatar a força desta presença na construção da identidade cultural. 
Pois, a bem da verdade, duzentos e setenta e dois anos depois, a delicadeza e o requinte dos bordados, saídos da tal arca açoriana, são ecos de uma herança, tecidos na memória coletiva que se mantém viva pela força geracional numa perene atualidade.
Um universo desvendado, fio a fio, enquanto a agulha e a linha lavram o puro linho por caminhos abertos pela pequena tesoura. Na faina, gestada por gerações, o marcar, desfiar, tapar, urdir e casear sonhos são erguidos e vão se materializar no vestido novo para a festa do Divino, no enxoval da moça faceira, no pão nosso de cada dia, na argamassa da casa, na educação dos filhos. O inseparável “bastidor,”seguro junto ao corpo cansado, equilibra a esperança enquanto o bordado vai surgindo delicado, harmonioso, perfeito, lindíssimo como romper da aurora anunciando o amanhã. 
Com a mesma destreza e paciência de uma criveira munida de seu “bastidor” é preciso ser agulha e linha, sendo voz atrevida na defesa do patrimônio cultural de uma comunidade que assiste seu tesouro se esvair na corrida implacável do tempo sem,contudo,investir no seu futuro, na sua sobrevivência possível. 
É preciso espraiar o olhar sobre a “Mulher-criveira”, sua história de vida e sua contribuição na formação da sociedade de São Miguel, hoje os municípios de Biguaçu e Governador Celso Ramos. É preciso dar voz e vez enquanto é tempo, guardando suas falas e testemunhos, registrando suas memórias, escutando suas queixas nunca infundadas, abraçando-as e partilhando sabedoria e, sobretudo, revelando a face quase sempre invisível dessas mulheres que desde meninas passam a vida entre as lidas domésticas e o inseparável “bastidor” – a sua identidade cultural
O nosso​ ilhéu​ ​“​Notícias do Dia​“​ deu sua inegável contribuição neste registro documental que dignifica a arte do bordado do crivo. Quero​ reverenciar e  compartilhar com os leitores açorianos  a  arte nascida  de mãos humildes, hábeis e maravilhosas  da Mulher bordadeira de crivo que, de forma indelével, aprendeu no correr do tempo a desconstruir e construir beleza e deixar seu nome para sempre gravado no círculo das gerações – Justina, Ana, Maria, Rute, Maria Rosa, Olga Maria, Princesa, Almerinda, Ivete, Zinha e tantas outras Marias dos Crivos, verdadeiras “Pénelopes” a tecerem sem parar os sonhos marcados no bastidor da vida.