A bordo do “Jezus, Maria, Jozé” – Como teria sido?

 

“Tudo deixamos e
Trouxemos como
Retrato de família.
Por fora ausentes,
No cerne
Lá.”

Pedro da Silveira.

 

O primeiro contingente de casais açorianos que foram transportados dos Açores ao extremo Sul do Brasil partiram do porto de Angra, na Ilha Terceira, em 21 de outubro de 1747, nas galeras “Jezus, Maria, Jozé”, capitaneada por Luís Lopes Godelho, e “ Sant’Anna e Senhor do Bonfim”, comandada Pero Lopes Arraya. Ao todo foram embarcados 473 colonos açorianos. A galera “Jezus, Maria, Jozé”, título deste artigo por atravessar o Atlântico em tempo do Advento – época de orações e benditos em louvor ao Menino-Deus nascido, que no ventre de Maria nove meses andou escondido, consagrados pela tradição popular, sobretudo na nossa literatura de cordel – levou 43 casais, num total de 236 pessoas. Vieram soldados, padres, comerciantes, artesãos, lavradores. Nas primeiras viagens, se apresentaram cidadãos de distinção, pertencentes à nobreza das Ilhas e possuidores de bens de raiz, Agostinho Machado, Capitão Mateus Lourenço Coelho, António Roiz Coelho (Terceira), Manuel de Medeyros e Sousa (São Miguel), Capitão Manuel de Sousa e Silva (Graciosa), Henrique César Berenguer e Bettencourt (Madeira), por exemplo, foram alguns dos muitos honoráveis que vieram para Santa Catarina e ocuparam posição de destaque na área militar. Aliás, o que corrobora as afirmações enfatizadas pelo historiador Avelino Freitas de Menezes em Açores nas encruzilhadas de setecentos (1740-1770), de que a causa da colonização açoriana para o Sul do Brasil foi de natureza militar para assegurar, em nome da Coroa Portuguesa, a ocupação e posse territorial, segundo o princípio de Utis possidetis. Entretanto, não descarto a fuga à pobreza reinante como um dos fatores sociais.
Convido-os a uma volta ao tempo e ali, a beira do cais de Angra, assistirem o levantar as amarras e o rumar em direto para o Brasil daquelas 236 pessoas, carregando suas alfaias com olhos ansiosos, lágrimas de saudade, sorriso de esperança a buscar no horizonte a “terra prometida onde jorra leite e mel”. Tenho a perceção da aventura e da coragem de chegar e partir carregando memórias construídas, interiorizadas ou marcadas n’alma.  Entretanto, fico a imaginar o que teriam sido aqueles oitenta dias a bordo do “Jezus, Maria, Jozé,” para os homens, mulheres e crianças, sob um regulamento rigoroso a ser observado durante a longa e demorada travessia. Desde as condições de embarque e desembarque, divisão de tarefas, feitura dos alimentos e distribuição das porções, normas disciplinares severas, atos religiosos e até o particularismo da separação e discriminação efetiva entre os homens e as mulheres para resguardá-las de qualquer ofensa moral. “Para arrefecer os ardores do sangue quente dos homens do arquipélago, na dura abstinência da travessia, a Metrópole enjaulava as mulheres!”, exclama o historiador catarinense Osvaldo R. Cabral em Os Açorianos (1950:16). Isoladas e presas a sete chaves em câmaras mal arejadas sem qualquer conforto que amenizasse o seu tormento e das crianças. Os padecimentos sofridos e os horrores dessa primeira travessia foram atribuídos à qualidade dos mantimentos e a um radical racionamento das porções alimentares, à escassez da água potável, as péssimas condições de higiene e as exigências do severo código de posturas, além das doenças como o escorbuto, sem contar o clima tropical, quente e úmido, que muito contribuiu para o desastre dessa primeira viagem. 
 Nosso périplo continua pelas dependências daquela embarcação transportadora de seres humanos, onde os melhores cômodos eram para as pessoas nobres e os capelões, enquanto os humildes colonos eram depositados em alojamentos acanhados e superpovoados que mal cabia a sua cama e a arca com seus pertences. Capitão, mestre e marinheiros corriam de um lado a outro a prover as carências a bordo que só aumentavam dia a dia com o estoque de cereais e carnes comprometidos na qualidade e na quantidade, água apodrecida em tonéis contaminados, proliferação de doenças e as primeiras perdas. Por outro lado, as correntes marítimas e os ventos ora fortes, ora em calmaria marcavam o compasso dos dias e a ansiedade quase incontida de chegarem ao Brasil. 
Antevejo o cenário que se desenha na manhã do 65º dia de viagem. Um alvoroço no convés, a distância vê-se os contornos azulados do território brasileiro.  Naquela manhã ensolarada e de céu muito azul o mar parecia um imenso lago sereno. Da tripulação aos colonos ouvia-se gritos de alegria, finalmente “terra a vista”. As mulheres, até então trancafiadas, foram liberadas para assistir a missa protegidas por guardas armados a fim de coibirem qualquer contato masculino. Naquele instante, as normas foram esquecidas e elas febricitantes se debruçaram na balaustrada do navio e perscrutavam o horizonte com olhos cansados e famintos de liberdade. A terra ao longe estava cada vez mais próxima e descortinava-se um litoral recortado com centenas de ilhas, ilhotas, rochedos, uma paisagem luxuriante e uma faixa de areia dourada emoldurava a terra. Para completar, o som e a beleza de aves marinhas, fragatas, atobás, albatrozes, em grande alarido pareciam dar boas vindas aos viajantes.  Estavam adentrando a costa do litoral paulista, na região de Ilhabela.
 Seria um milagre do Menino Jesus?  Era tempo de Natal, há dias que nos cômodos superiores e nos inferiores, na antecâmara debaixo e na rabada o cômodo das mulheres realizavam as novenas natalinas, entoavam cânticos ao Menino Jesus, numa preparação espiritual. A religiosidade profunda e tradições das ilhas serviram de consolo às agruras vivenciadas e ao mesmo tempo plenos de esperança e fé no Menino Salvador do Mundo. A maioria dos povoadores era oriunda da zona rural das Ilhas de São Jorge, Pico, Faial, Terceira, Graciosa e São Miguel e assim, acredito, trataram de armar os seus presépios e até “altarinhos” com a imagem do Menino Jesus, em pé sobre uma toalha branca, ladeado por dois pratinhos com o trigo previamente grelado. 
As correntes favoráveis e ventos fracos do quadrante nordeste embalavam a galera que navegava entre 4 a 6 nós. Domingo, 24 de dezembro de 1747, véspera de Natal. Naquela noite santa, o capelão celebrou a Missa do Galo, reunindo todos no grande convés. As mulheres, separadas dos homens, ficavam bem à frente, entoando emocionadas os cânticos natalinos e, acabada a cerimônia, regressaram a câmara-prisão, ao confinamento tão sofrido que chegava ao fim... 
Segunda-feira, 25 de dezembro, dia de Natal – aniversário do Menino Deus. Sim, era Natal, mesmo naquela situação adversa, de tantas ilusões sepultadas no Atlântico, para a brava e resiliente gente açoriana. Apesar dos recursos parcos, da pouca abundância na dispensa, foi servido uma boa refeição para cada pessoa: meio arratel de vaca (cerca de 459,0 g), um quarto de toucinho, legumes, azeite e vinagre. A celebração da Missa encerrava o Natal. O dia foi perfeito, navegando a favor das correntes marítimas e um “nordestaço” amenizava o forte calor do verão tropical, enquanto passavam ao largo do litoral de Cananeia, encantados com as suas formas insulares. Apenas 165 milhas náuticas separavam Cananeia de Santa Catarina. Se tudo corresse bem em uma semana, no máximo, os açorianos a bordo de “Jezus, Maria, Jozé” atracariam na Baía Norte, na Ilha de Santa Catarina.
Para o povo de Florianópolis o alvorecer de 2023 é o prenúncio de uma data histórica e cultural de indelével significado – a chegada dos primeiros açorianos, há 275 anos, à Vila Nossa Senhora do Desterro, na Ilha de Santa Catarina, no dia 6 de janeiro de 1748, dia de Santos Reis.
Espio da nossa varanda a Baía Norte ali em frente, pronta para o abraço e fico a imaginar essa chegada na Ilha de Santa Catarina. O que sentiu cada açoriano, após quase três meses em agruras no Atlântico, ao contemplar a geografia insular, admirar a baía, o mar azul de dezembro bolinado pelo vento nordeste e a exuberância da mata atlântica de muitos tons de verde nos morros em frente?  Talvez, ali no meio da baía, cumprindo a quarentena, cantaram loas aos Santos Reis dando vivas a terra que os acolhia.
“Floripa” é o Novo Mundo dos nossos ilhéus açorianos do distante século XVIII e dos descendentes açorianos do presente que avançam no século XXI com renovadas esperanças e muitos sonhos.
Feliz 2023!