Ser padre não é fácil

 

 

A chamada é do divino Mestre: “Sigam-me e eu vos farei pescadores de homens”, Mateus, 4:19. A missão é estabelecida na pessoa de Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas”, João, 21:17. O trabalho é exigente: “O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas”, João,10:11. – O trabalho, além de exigente, é exaustivo: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos, Mateus, 9:36. E não há lugar para letargia: “Ainda dormis e descansais? Levantai-vos, pois, e vamos”, Marcos, 14, 41-42. Na própria etimologia da palavra “sacerdote”(sacer,sacra/sagrado+dos,dotis/talento)encontra-se a nobreza da missão: o possuidor de um talento sagrado. 
O homem moderno, cada vez mais instruído e inquisitivo, habituou-se ao método científico baseado na observação e expresso em termos quantitativos. O padre, por sua vez, seguirá o método descrito por São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios, versículo 7: “pois caminhamos à luz da fé e não da visão”. – O acreditar na inspiração da Sagrada Escritura é dogma de Fé.
O padre acaba por se encontrar num mundo aberto de dificuldades doutrinais. Teólogos e exegetas da Sagrada Escritura continuam a interrogar-se sobre a natureza de Deus, as Revelações, os sonhos, os mistérios, os dogmas, a infalibilidade do papa, os milagres, as aparições e visões. De confusão, para dar alguns exemplos, é ainda a disparidade de explicações dadas para questões como o pecado original, a misericórdia divina, vida para além da morte, e a condenação eterna dum filho ao fogo da geena.
Insatisfeitos com a falta de mensagem evangélica nos serviços religiosos da sua paróquia, católicos há que abandonam a Igreja para se associarem a outra denominação cristã, ou buscam uma forma de espiritualidade, de alguma maneira transcendental. A perceção do povo é que nem todo o sacerdote está preparado para dar uma reposta satisfatória a questões levantadas entre si. Quando se sugere fazer a pergunta a um padre, pode ouvir-se a resposta: eles também não sabem!
Não se poderá esquecer que o padre, à partida, enfrenta uma situação complexa ao ter que falar a uma assembleia de diferentes níveis culturais.
O jornal A Crença, de 5 de Fevereiro do corrente ano, noticia homenagens prestadas aos padres monsenhor Weber Machado e José Cassiano – aquele, por ser “o padre dos pobres”, este, por ter compreendido que “o lugar da Igreja não é acima nem abaixo do mundo. É ao lado dos Homens”. Sacerdotes deste calibre são os alter Christus e os cumpridores da sua missão e os que se sentem envergonhados e desencorajados com colegas que fazem notícia, na paróquia e nas redes de comunicação social, de corrupção, extravagante maneira de viver, e desvios sexuais de natureza criminosa. Já não é invulgar ver-se um clérigo, em qualquer grau da hierarquia, ser escoltado nos corredores dos tribunais, algemado, e tomar a viatura policial a caminho de uma instituição prisional.  
O celibato é outra cruz que o sacerdote tem que carregar na era do sexo. No Seminário, terá aprendido que o fim duplo do matrimónio é a reprodução e o legítimo consolo dos corpos. A história da Igreja regista séculos em que o sacerdote católico era casado. Padres doutras religiões cristãs são casados. A seu lado, nas funções litúrgicas, os diáconos são casados. Ele, numa disposição considerada contranatura, não o é. Por outro lado, a violação do celibato tornou-se domínio público - Já se identifica a amante do padre. Não é ainda difícil imaginar-se a solidão do padre nas quatro paredes da sua casa, em aldeias cada vez mais despovoadas. Só o próprio padre poderia falar do seu imaginário na invernia duma ilha. É interessante notar-se que o povo, de uma maneira geral, favorece o casamento do padre. 
O escândalo, na Igreja, atingiu dimensões impensáveis, quando uma equipa de jornalistas do Boston Globe, em 2002, lançou a Investigação Spotlight e descobriu, na diocese de Boston, um padrão de abusos sexuais criminosos e o encobrimento dos mesmos, durante anos, com a transferência de sacerdotes de paróquia para paróquia. Foi então, que se constatou que a prevalência desta prática nos Estados Unidos se havia também alastrado por países como a Irlanda, Canadá, Austrália, e Nova Zelândia. Sacerdotes foram presos e reduzidos ao estado laical; bispos e cardeais perderam a sua postura na hierarquia eclesiástica.   
Há quem espere que esse tsunami, nas estruturas da Igreja, resulte na sua purificação e renovação para o ressurgimento de uma Igreja mais cristã, transparente, e genuína; é nisso que está empenhado o papa Francisco, que no seu objetivo de tolerância zero, determinou que os arquivos da Santa Sé e das dioceses sejam facultados às autoridades civis. 
Na rotina do seu dia-a-dia, o padre confronta-se com situações como: o ter de servir igualmente ricos e pobres; preparar semanalmente homilias com alimento espiritual válido; prover uma catequese que possa ser ponto de referência na vida adulta do jovem; enfrentar o vazio dos bancos da Igreja; aceitar a inclusão da mulher na vida da Igreja; acompanhar o progresso dos tempos; fazer sentido de cânones codificados numa Igreja institucionalizada; motivar em vez de desmotivar. 
Certamente, não é sem embaraço, desânimo, e tristeza que o padre-padre vive situações como as descritas acima. Disso, sabia-o O Sumo Sacerdote, como se vê na Segunda Carta aos Coríntios, 4:8-9: “Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos”.