As Asas

 

Um homem leva muito tempo a fazer-se. Não somos como aqueles passaritos que se soltam na imensidão dos céus pouco tempo depois de terem visto a luz.
Trazemos em nós uma semente que demora a germinar, que gasta nessa tarefa muitos anos de agitação e de silêncio; que se desenvolve, quase sem darmos conta, enquanto andamos entretidos com as nossas actividades. 
É assim, de resto, porque está destinada a dar um fruto muito maior que o do pássaro.
Temos, sem dúvida, uma alma: raciocinamos, temos sede de conhecer, somos capazes de amar e de escolher.
Um animal come necessariamente, se tiver fome e o alimento estiver ao seu alcance. Um homem, nas mesmas circunstâncias, pode não o fazer. Porque, por exemplo, resolveu fazer dieta. Ou porque escolheu dar o seu alimento a outro que tinha mais fome do que ele. 
Tem a possibilidade de viver de acordo com outros critérios.
Há muitos séculos que chamamos alma a esse não-sei-quê que faz parte de nós e nos permite viver num plano superior ao das coisas simplesmente materiais. 
É como se possuíssemos uma espécie de asas.
Sabemos apreciar um sofá confortável, um sono reparador, uma boa refeição, um banho no mar quando está calor. Mas precisamos de mais do que isso. E damos por nós a perguntar “porquê?”, ou a discutir ideias. E descobrimos que há qualquer coisa − não feita de células ou moléculas − que nos comove e nos atrai numa paisagem, num gesto de heroísmo, num poema, na música.
Há uma beleza e um bem que não são feitos de nada que se possa tocar. Que não estão nas coisas, embora as coisas possam levar-nos a eles. Que existem para nós.
Aquilo que é apenas material − acabamos sempre por o descobrir − sabe a pouco e não nos enche as medidas. Um dia aprendemos que sermos bons para alguém nos acende uma luz por dentro; que dar é muito melhor do que receber. Pode ser que depois nos esqueçamos disso, mas mais tarde voltamos a lembrar-nos.
Um homem leva muito tempo a fazer-se porque é preciso que se prepare para se movimentar à vontade no campo do espírito. Tem de crescer não apenas corporalmente. Deve fortalecer pouco a pouco as suas asas.
É um caminho já de si longo. Ainda por cima, parece que temos medo de voar. De nos afastarmos um pouco desses outros bens − mais pequenos, mais baixos, mais... animais – que também nos agradam. Como se não valesse a pena alimentar a alma.
E assim nos atrasamos. Podemos até andar muitos anos por aqui passando ao lado do bem e da beleza e do amor. Não é possível viver no topo da montanha e, simultaneamente, permanecer deitado à sombra lá em baixo.

• Paulo Geraldo